sexta-feira, 8 de junho de 2018

RESENHA: As Fúrias Invisíveis do Coração

as fúrias invisíveis do coração john boyne
Em 2017, O Pacifista alcançou o primeiro lugar na minha lista de melhores leituras do ano e, desde então, me interessei em ler as demais obras do autor. As Fúrias Invisíveis do Coração logo chamou minha atenção, mas, por contar com uma temática semelhante, me manteve afastado por imaginar que poderia ser mais do mesmo. Felizmente, eu não poderia estar mais enganado. 

Cyril foi adotado por Maude e Charles Avery, um casal excêntrico e pouco paterno, que sempre fez questão de dizer a Cyril que ele não era um Avery de verdade. Sem nenhum senso de identidade ou de pertencimento, Cyril se sente ainda mais perdido ao perceber que é homossexual em um país extremamente conservador e preconceituoso. 

Em As Fúrias Invisíveis do Coração acompanhamos um período de setenta anos, começando com a mãe de Cyril, negada pela família e comunidade, de modo que entendemos desde o início o que a motivou a colocar o filho para adoção. O livro conta com saltos temporais de sete anos, de modo que vamos acompanhando todas as fases da vida do protagonista e testemunhamos os momentos mais marcantes. 

O livro, narrado em primeira pessoa, logo envolve o leitor e apesar das mais de quinhentas páginas, a leitura é extremamente fluida e prazerosa, sendo que em nenhum momento o leitor sente que a estória está patinando. Outro aspecto que precisa ser destacado é a ironia refinada do autor, que em diversos momentos me levou as gargalhadas. 

Cyril é um personagem cativante e ao qual nos apegamos, mas que, curiosamente, não tem nada de especial. Ele é uma pessoa absolutamente comum, mas com uma estória extraordinária. Cabe salientar que Boyne é um mestre quando se fala na construção de personagens. Tanto o protagonista quanto os coadjuvantes são bem desenvolvidos e ganham uma profundidade psicológica que os torna reais. E creio que justamente por isso as estórias de Boyne são tão verossímeis e impactantes. 

“Era uma época difícil para ser irlandês, ter vinte e um anos e ser um homem que sentia atração por outros homens. Ser as três coisas simultaneamente exigia um nível de subterfúgio e astúcia incompatível com a minha natureza. Eu nunca havia me considerado uma pessoa falsa, detestava me imaginar capaz de tanta mendacidade e hipocrisia, porém, quando mais examinava a arquitetura da minha vida, mais me dava conta do quanto os seus alicerces eram fraudulentos. A certeza de que passaia o resto do meu tempo na terra mentindo para as pessoas pesava muito sobre mim e, nessas ocasiões, eu pensava seriamente em acabar com a vida.” (BOYNE, 2017, p. 190). 

A temática LGBT mais uma vez está presente, sendo muito bem abordada e discutida. Começando no pós-guerra, vemos uma Irlanda extremamente preconceituosa — e não apenas em questões LGBT — e que se tornou, em 2015, o primeiro país a aprovar por referendo o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Obviamente, temas como preconceito, intolerância, violência, injustiça, aceitação e identidade vem à tona, mas em nenhum momento ofuscam a estória

Outro tema interessante que o livro acaba abordando é a questão da família. Ao longo das décadas, vemos que Cyril forma uma família extremamente inconvencional, mas que representa o verdadeiro significado da palavra: pessoas que se amam incondicionalmente, ligadas por laços afetivos e não necessariamente sanguíneos. Impossível não se questionar sobre as definições excludentes da “família tradicional” que vemos por aí. 

A trama é genial. Considerando o longo período que o livro cobre, é evidente que há inúmeros personagens. E a forma como Boyne cruzou a vida deles, mostrando os impactos que causaram uns aos outros é incrível. Preciso confessar que, em alguns momentos, a estória ganha contornos um tanto novelescos, contando com coincidências improváveis. Ainda assim, Boyne tem tanto controle sobre a estória e envolveu o leitor a tal ponto que estes detalhes são facilmente relevados.

Encerrei a leitura de As Fúrias Invisíveis do Coração com um sorriso no rosto, pois é o tipo de leitura que acalenta a alma. Trata-se de uma estória linda e impactante, que mostra tanto a beleza quanto a feiura do mundo e, por isso mesmo, é impossível não se identificar. Encerro dizendo, mais uma vez, que está resenha não fez jus a montanha russa de emoções que apenas John Boyne sabe provocar. 

Título: As Fúrias Invisíveis do Coração
Autor: John Boyne
N.º de páginas: 535
Editora: Companhia das Letras
Exemplar cedido pela editora

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7 comentários:

Daiane Araújo disse...

Oi, Alê.

O autor foi bastante preciso em abordar e trazer à tona a rigidez, como uma questão como essa, era vista a olhos nus em uma época na qual o livro se passa.

O personagem é sem dúvidas sofrido, por enfrentar problemas familiares e na sua escolha sexual.

Gabriela CZ disse...

Já tinha gostado do título, Alê. E com esses seus comentários fico realmente com vontade de ler o livro. Ótima resenha.

Beijos!

Ludyanne Carvalho disse...

Ainda não tive a chance de ler algo do Boyne, mas quero muito começar pelo O menino do pijama listrado. E pelo visto o autor consegue escrever uma ótima história em poucas páginas e em calhamaços também.
Achei interessante essa história, ainda mais por tratar de temas tão relevantes em outra época.
Me deixou curiosa.

Beijos

Alessandra Salvia disse...

Oi Ale,
Entrar para a lista de favoritos é uma baita responsabilidade, hein?
Confesso que fico na expectativa, pois não é um livro que eu leria normalmente, sem recomendações e a temática é diferente do que estou acostumada.
Beijos
https://estante-da-ale.blogspot.com

RUDYNALVA disse...

Alê!
Tão bom terminar um liro com um sorriso no rosto.
Já gostei porque mostra a ambientação na Irlanda, poucos livros são ambientados por lá.
Ver que Cyril atravessou parte do século passado e chegou até a atualidade e que o enredo poderia ser real, de alguém que conhecemos, acredita que nos aproxima da leitura.
Nunca li nada do autor e bem queria ler esse livro.
Gostei dos assuntos bem abordados.
Uma semana cheia de luz e paz!
“Sou uma pessoa insegura, indecisa, sem rumo na vida, sem leme para me guiar: na verdade não sei o que fazer comigo.” (Clarice Lispector)
cheirinhos
Rudy
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Helena Carvalho disse...

Oi Alê!
Gostei muito da resenha, esse é um tipo de livro que de cara só pela capa e pelo título eu nem daria bola, mas depois de ver alguém que gostou tanto falando sobre e explicando melhor do que se trata deu bastante vontade de ler.
Gostei muito disso da estória cobrir um período de setenta anos, faz com que a gente se envolva mais com os personagens, estou ansiosa para conhecer o Cyril e sua história.

Marta Izabel disse...

Oi, Alê!!
Mas uma vez leio uma resenha da obra do John Boyne, e cada vez que isso acontece fico me perguntando por que ainda não peguei algum livro do autor para ler. E mesmo o livro abordando um longo período de tempo acho interessante conhecer a história do Cyril.
Bjoss

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