terça-feira, 5 de junho de 2018

RESENHA: O Morcego

O Morcego / Jo Nesbø / Harry HoleQuando a Editora Record deu início à publicação da série Harry Hole no Brasil, o primeiro livro lançado foi “Garganta Vermelha”, o terceiro da série. Depois, a publicação seguiu a ordem dos lançamentos, até o oitavo livro, “O Leopardo”. Foi apenas em 2016 que os leitores tiveram a oportunidade que conhecer “O Morcego” e “Baratas” as duas primeiras histórias desse personagem fascinante.

Inger Holter, uma jovem norueguesa, foi encontrada estuprada e assassinada no fundo de um penhasco em Sydney. Harry Hole foi o escolhido para representar a polícia de Oslo e ajudar nas investigações na Austrália. Logo ele descobre que a morte de Inger pode não ser um crime isolado e que um assassino pode estar à solta, atacando mulheres loiras em todo o país.

Fã confessa que sou de Nesbø e de seu investigador, e tendo lido todos os livros da série, fiquei empolgadíssima para saber como a história de Hole teve início, em especial porque o personagem passa por uma palpável evolução de uma trama para a outra, não estando ali apenas para encabeçar as investigações. Além disso, o caso de “O Morcego” é frequentemente mencionado no decorrer da série já que atuar na busca de um serial killer dá uma espécie de status a Hole dentro da polícia norueguesa que tem pouca experiência no assunto devido à pouca ação de serial killers no país.

Com tanta expectativa, e já familiarizada com o que o futuro reserva para o personagem, tive uma boa experiência com “O Morcego”. O tom das histórias, os crimes violentos, o ritmo (sempre lento no começo) característicos das histórias de Nesbø já estão presentes nesse primeiro livro, assim como a essência da personalidade de Hole. Essa, talvez, fosse a minha principal curiosidade: teria Harry Hole já nascido um personagem problemático e angustiado ou teriam sido os casos que o deixaram assim? E a resposta é: Harry Hole já é Harry Hole desde o primeiro livro. É claro que há muito caminho a percorrer e o personagem se tornará cada vez mais sombrio e seu fardo cada vez mais pesado. O fascínio que provoca irá crescer, mas sua personalidade já estava desenhada em “O Morcego”. Harry já é assombrado pelo fantasma de um amor que ficou para trás (mesmo que nos livros seguintes ele venha a perder a importância), já carrega o peso da morte de um colega nas costas, já enfrenta problemas com alcoolismo (sob controle neste momento) e já dá indícios de que está disposto a burlar as regras sempre que achar que isso é o certo a fazer. Nesbø também já apresenta, através de breves comentários, um pouco da história familiar de Harry (o pai, a morte da mãe, a irmã com Síndrome de Down) algo em que irá se aprofundar nos livros seguintes.

“A alma humana é uma grande floresta escura, e todas as decisões são tomadas na solidão.” (NESBØ, 2016, p. 346)

Quanto à trama, o caso de Inger e das loiras é interessante e bem amarrado, mas não me envolveu tanto quanto poderia. Antes que a investigação se aprofunde na morte da norueguesa, descobrimos os outros casos. A partir desse momento, não se trata de uma vítima e sim de várias vitimas, de forma que a individualidade delas perde a importância porque o relevante passa a ser o conjunto e a pergunta “quem é o homem que tem esse tipo de mulher como alvo?” passa a ser o cerne da trama. Assim, a investigação se torna um pouco genérica, o que impede o leitor se de envolver profundamente.

Outro fator que contribui para isso é que essa não é uma típica caçada a um serial killer na qual uma nova vítima pode surgir a qualquer momento e a investigação é uma luta contra o tempo. Aqui não se tem a menor ideia de onde e quando um novo ataque poderá ocorrer e a maioria dos casos já é antiga. Assim, por mais que a investigação flua bem e que o desfecho seja satisfatório, confesso que não senti urgência em descobrir as respostas. Por outro lado, não posso dizer que fiquei decepcionada porque vejo a trama de “O Morcego” como uma introdução, uma apresentação do estilo de casos da série, e isso ela consegue fazer muito bem. Nesbø mostra cenas violentas, deixa claro que nenhum personagem está a salvo, que qualquer um pode ter motivações ocultas e que sempre há um preço a se pagar.

“O Morcego” apresenta com competência um autor promissor, que não tem medo de criar tramas violentas e intrincadas, e um personagem que, nos livros seguintes, se revelará um dos melhores detetives da literatura policial contemporânea. Como quase toda estreia, ainda não é o melhor do seu autor, mas me deixa cada vez mais segura em dizer que Jo Nesbø não erra nunca.

Título: O Morcego
Autor: Jo Nesbø
N° de páginas: 346
Editora: Record
Exemplar cedido pela editora

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10 comentários:

Daiane Araújo disse...

Oi, Mari.

É uma pena que o livro tenha pontas soltas, pois o enredo intriga, é curioso.

Ludyanne Carvalho disse...

Já eu não sou fã de crimes, investigações e tudo mais. Corro dessas leituras violentas.
Poxa, a editora deveria ter lançado na ordem certa, ainda mais tendo um desenvolvimento do personagem no decorrer da série.
Espero que isso não seja um grande problema.

Beijos

Gabriela CZ disse...

Me pergunto porque a Editora Record não lançou na ordem, Mari. Mas eu vou ler na ordem. :) Ótima resenha.

Beijos!

Luiza Helena Vieira disse...

Oi, Mari!
Menina, essas resenhas do Nesbo me fazem questionar por que não leio mais livros policiais hahahahah Mas essas capas eu não tenho uma opinião muito formada.
Beijos
Balaio de Babados

Ariane Reis. disse...

Oie Mari =)

Sempre leio boas resenhas dos livro do Jo Nesbo, mas por aparentemente não fazerem meu gênero acabo nunca dando uma oportunidade.

Beijos;***
Ane Reis | Blog My Dear Library.

Mari Zavisch disse...

Oi, Mari!
Eu só tive a oportunidade de ler Boneco de Neve, mas me apaixonei pela trama criada pelo autor. Eu tenho muita vontade de ler a série inteira e vou tentar começar do primeiro mesmo. Já basta eu ter lido a série do Harlan Coben toda fora de ordem, agora quero fazer certo com Jo Nesbo hahahaha
Beijinhos,

Galáxia dos Desejos

O Que Tem Na Nossa Estante disse...

Oi Mari, quando saiu O boneco de Neve até fiquei interessada nos livros do autor, mas confesso que bateu o desanimo, mas é bom saber que apesar de não ser o melhor dele é um bom livro e com uma boa trama!

Bjs, Mi

O que tem na nossa estante

RUDYNALVA disse...

Mari!
Mesmo sendo um bom escritor, sempre ficam algumas lacunas que poderiam ser melhoradas, não é mesmo?
Parece que está no DNA a boa escrita e enredos criativos e até certo ponto assustadores, afinal Jo Nesbo é nada mais, nada menos filho do maravilhoso King...
Não tem como não ser bom, né?
Uma semana cheia de luz e paz!
“Sou uma pessoa insegura, indecisa, sem rumo na vida, sem leme para me guiar: na verdade não sei o que fazer comigo.” (Clarice Lispector)
cheirinhos
Rudy
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Helena Carvalho disse...

Oi, Mari!
Gosto muito de livros com essa temática, conheci a série Harry Hole ano passado por causa de "Boneco de neve" na época que todos estavam falando porque ia ter o lançamento do filme, só que ainda não li nenhum da série, mas estou bastante ansiosa para ler esse e outros trabalhos do Jo Nesbo.
A resenha está ótima, é muito bom ver alguém falando dos livros de um autor que gosta tanto, da mais vontade ainda de ler.

Beijoss

Marta Izabel disse...

Oi, Mari!!
Ainda no li nada do Jo Nesbo. Mas gosto muito de livros policiais. Acho interessante a série Harry Hole, pois já li várias resenhas dos livros do Nesbo mas ainda não conseguir fazer a leitura de nenhum.
Bjos

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