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quinta-feira, 18 de setembro de 2014

RESENHA: O Homem Mais Procurado

“Quais daqueles homens e mulheres com sorrisos afáveis e olhares enviesados eram seus amigos do dia, e quais eram os inimigos? A qual comitê, ministério, crença religiosa ou partido político obscuro eles deviam fidelidade? Pelo que sabia, somente um pequeno punhado deles tinha ouvido uma bomba explodir, mas na guerra longa e silenciosa pela liderança do Serviço Secreto, eram veteranos calejados.” (LE CARRÉ, 2014, p. 256)

Sempre gostei de thrillers de espionagem e Le Carré é um dos maiores representantes do gênero. Porém, eu nunca havia lido um livro do autor pela simples razão de não saber por onde começar. Já vi muitos comentários a respeito da sua obra e minha impressão é que ela se divide em duas fases: a primeira, que apresenta uma espionagem mais de ação e menos política; e a segunda, mais psicológica, com conflitos mais dissimulados, mas nem por isso menos interessante (pelo contrário). Qual dos estilos eu gostaria mais? Qual me faria conhecer o “verdadeiro” (se é que se pode usar esse termo) Le Carré? Essas perguntas fizeram com que eu protelasse a primeira leitura, mas quando a nova edição de “O homem mais procurado” nos foi oferecida pela Editora Record, decidi aproveitar a oportunidade.

Issa é um jovem checheno, muçulmano devoto, que chega na Alemanha clandestinamente com uma mochila cheia de dinheiro e a intenção de formar-se em medicina. Tendo sofrido tortura no passado (que ele afirma ter sido motivada exclusivamente por suas origens) ele desperta o interesse das autoridades que estão em estado de alerta já que no passado a cidade abrigou autores dos atentados de 11 de setembro. Issa se alia à jovem e idealista advogada Annabel e conta ainda com a ajuda de Tommy Brue, um banqueiro que precisará encarar as contas de origens obscuras mantidas em seu banco por seu falecido pai a pedido do pai de Issa, um cruel militar.

“O homem mais procurado” utiliza como pano de fundo as consequências dos atentados de 11 de setembro para o mundo da inteligência ao invés da Guerra Fria como as primeiras obras do autor. Já vi comentários negativos a respeito dessa segunda fase da obra de Le Carré, por ser menos empolgante que a primeira, mas também já a vi receber muitos elogios por ser mais intricada e psicológica. Como não posso me basear em outras leituras, minha opinião sobre essa é que a história é excelente, mas a execução foi um tanto confusa.

O começo do livro é puramente psicológico e toma seu tempo para apresentar os personagens. É lento, mas muito interessante. Aos poucos a história revela a sua complexidade e começa a se tornar um tanto confusa. A minha sensação era que os personagens sabiam bem mais do que eu. Isso acontece com livros de suspense, mas nesse caso, me parecia que eu devia estar sabendo tanto quanto eles, porém não encontrava as ferramentas para isso. Eu sabia todos os “o quês” da história, entendia o que estava acontecendo, mas quanto os “porquês”, apenas 50% estavam claros e eu não tinha certeza se essa era a intenção ou se eu deveria estar sabendo 100%.

Em geral o livro é bastante denso. Cada personagem se torna um núcleo e cada núcleo tem seus mistérios. Brue e o banco, Bachmann e as operações, Annabel e seu relacionamento com Issa além do próprio Issa que por si só é um mistério constante (tanto seu passado quanto o que realmente pretende no presente). Paira também a sensação de que cada personagem pode ter motivações ocultas.

Merece destaque que Le Carré foi de fato um espião para o Serviço Britânico de Inteligência no tempo da Guerra Fria. Talvez por isso a imaginação e criatividade empregadas em sua obra se fundamentem mais nos conflitos que ele tantas vezes deve ter testemunhado, do que em artefatos e malabarismos (se seu primeiro pensamento quando o assunto é espionagem é “Bond, James Bond” esqueça isso ao ler Le Carré). Talvez por essa razão alguns eventos sejam confusos, afinal, quanta clareza pode haver nos corredores do mundo da espionagem? De minha parte, me sinto atraída por ambas as abordagens.

Depois de “O homem mais procurado” fico ansiosa para ler outros livros do autor? Não exatamente. Mas certamente lerei se tiver oportunidade.

Nesse ano, “O homem mais procurado” ganhou uma adaptação cinematográfica estrelada por Philip Seymour Hoffman. Esse é apenas um dos livros do autor a ganhar as telas. Entre os outros estão “O espião que sabia demais”, com Gary Oldman e “O Jardineiro Fiel”, com Ralph Fiennes.

Título: O Homem Mais Procurado (exemplar cedido pela editora)
Autor: John Le Carré
Nº de páginas: 349
Editora: Record
 

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