quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

RESENHA: Dragão Vermelho

“Está na sua natureza fazer uma única coisa corretamente: tremer devidamente diante de Mim. O que me deve não é o medo, o senhor e outras formigas. O senhor me deve pavor.” (HARRIS, pag. 197, 2013)

Meu primeiro post no blog foi a estréia da coluna “Quem vem para o jantar” e um dos meus convidados foi Hannibal Lecter: um personagem que considero fascinante. Nesse post, comentei sobre a minha frustrante experiência com “O Silêncio dos Inocentes” e sua leitura lenta e arrastada. Mas muitos anos se passaram desde essa malfadada leitura e várias coisas me fizeram querer ler a obra de Thomas Harris na totalidade, entre elas a série “Hannibal” e um comentário do diretor do filme “Hannibal”, Ridley Scott, sobre final do último livro e sua adaptação para o cinema. Ao ler “Dragão Vermelho”, minha segunda experiência com o autor se tornou igualmente frustrante.

Depois de um evento traumático, Will Graham encontra-se afastado do FBI e vive os dias tranquilamente com a esposa e o enteado. Porém, quando duas famílias são brutalmente assassinadas em circunstâncias semelhantes, ele é chamado por seu ex-chefe, Jack Crawford, para ajudar a encontrar o assassino conhecido como Fada do Dente. Não demora até que Will perceba que precisará de ajuda para compreender a mente doentia desse criminoso e recorre a aquele que há três anos quase lhe tirou a vida: o psiquiatra canibal Hannibal Lecter.

Evitarei comparar o livro com o filme e a série (embora essas adaptações tenham influenciado a minha leitura) para não me estender na resenha e dedicarei outro post a isso, mas não posso deixar de dizer que a minha impressão foi que Harris criou ótimos personagens, mas não extraiu deles todo o seu potencial, o que só veio a acontecer nas adaptações. Isso ocorre especialmente com Lecter que, a meu ver, deve sua notoriedade à magnífica interpretação de Anthony Hopkins.

Thomas Harris peca por desperdiçar elementos que parecem ser promissores, mas que acabam relegados a segundo plano (o que seria aceitável caso dessem lugar a algo mais interessante, mas não é o caso). Um desses elementos é a relação de Will e Lecter. Este é mantido envolto em uma áurea de mistério nas primeiras páginas e tudo que podemos fazer é ir montando o seu perfil aos poucos. Quando, finalmente, somos apresentados a ele, a expectativa em relação ao personagem já é alta, mas tudo que temos é um rápido encontro entre o doutor e Will e depois suas aparições são reduzidas a meras duas cartas.

Talvez não seja justo focar em Lecter e criticar sua falta de destaque já que o autor deixa claro no prólogo que não concebeu o personagem para ser um protagonista e que ele surgiu em sua mente após a criação de Will Graham e dos crimes investigados em “Dragão Vermelho”. Isso pode ser um choque para quem conhece o impacto do personagem pelos filmes, mas fica evidente em cada página do livro.

Mas se a atenção dedicada a Lecter é quase insignificante, bastam poucas páginas para que a personalidade interessante e atormentada de Will Graham fique evidente e o autor deixe no ar várias perguntas sobre ele. Will é um recurso poderoso para o FBI, pois não enxerga as coisas como a maioria das pessoas e é capaz de extrair informações das cenas dos crimes de maneira que nenhum outro investigador consegue. O problema é que esse processo que o personagem adota é mal explicado – talvez porque nem mesmo ele entenda direito como ocorre – e parece ser, muitas vezes, fruto do acaso. Sua mente não funciona de maneira convencional, mas saber isso não é o suficiente para acreditarmos em algumas de suas atitudes e conclusões (como a decisão repentina de ver Lecter ou como conseguiu desmascarar o canibal há alguns anos).

Outra coisa que, a meu ver, não funcionou é a condução da história em dois núcleos: o do assassino e o da investigação. Antes da metade do livro, já sabemos quem é o Fada do Dente e em torno de quê giram seus crimes (o que o atiça e como escolhe suas vítimas). Esse é um ótimo recurso do autor que rende momentos tensos (até mesmo repugnantes) e permite que o leitor conheça detalhes da vida do criminoso e entenda porque ele se tornou o que se tornou. É uma decisão que costuma me agradar e que exige segurança do autor e confiança de que o suspense de sua história não gira simplesmente em torno de descobrir a identidade do assassino, sendo mais complexo do que isso. O problema em “Dragão Vermelho” é que de um lado conhecemos o assassino e a essência de seus crimes e do outro somos forçados a acompanhar Will e Crawford em uma investigação pouco estimulante, pois sabemos estar indo para o lado errado.

Além da condução da história, a narrativa de Harris também deixou a desejar em alguns momentos, em especial em certos diálogos que pareceram não acontecer entre os personagens e sim de forma a explicar algo para o leitor.

Thomas Harris apresenta em “Dragão Vermelho” ótimos personagens, mas que não têm todo o seu potencial desenvolvido e o livro só não foi uma decepção maior porque eu já não havia gostado de “O Silêncio dos Inocentes”. Na verdade, se esse fosse qualquer outro livro, eu estaria bem tentada a usar a frase “não tem nada de extraordinário”, se ele não tivesse uma das coisas mais extraordinárias que um livro de suspense poderia ter: o Dr. Hannibal Lecter.

Título: Dragão Vermelho
Autor: Thomas Harris
Nº de páginas: 381
Editora: Best Bolso

10 comentários:

Ana Paula Barreto disse...

Não consigo imaginar como esse livro pode não ser bom. Eu simplesmente adoro os personagens, são tão bem construídos que dá até gosto! rs
Mas minha experiência com Will e Hannibal se resume a filmes e série de tv, então não posso julgar a obra original.
Pelo que entendi os personagens são o ponto alto da trama, já que a narrativa e o desenrolar da história deixam a desejar.
Não pretendo ler o livro. Fico com minha boa experiência em outras mídias mesmo.
bjs

Erick Sant Ana disse...

Como a Ana Paula disse ai em cima, é estranho pensar que esse livro não seja "O Livro", a série e o filme são tão bons, os roteiros e construção dos personagens beiram a perfeição (exagerei um pouco rs), como o livro não tem essa magia? Agora estou até com receio de lê-lo e me decepcionar :/

Enfim Abraços

des-construindooverbo.blogspot.com.br

Nardonio disse...

Que pena que essa segunda experiencia com o autor não foi tão boa, assim como a primeira. Esse é mais um daqueles casos clássicos em que o autor tem tudo nas mãos, mas acaba não extraindo o melhor que tudo pode proporcionar. Pelo menos as adaptações são bem melhores do que o livro, né?!?!

Seguidor: DomDom Almeida
@_Dom_Dom

Gabriela Cerutti Zimmermann disse...

Como essa semana li Psicose e adorei, cogitava seriamente ler O Silêncio dos Inocentes e a série de Hannibal. Mas saber que os personagens não são bem aproveitados... Acho que verei só os filmes mesmo e talvez a série. Ótima resenha.

Abraço!
http://constantesevariaveis.blogspot.com.br/

Lais Cavalcante disse...

Esse livro não me chamou a atenção, não sei porquê. A temática do livro é super interessante e gosto bastante dos filmes e série de tv. Mas o livro não me conquistou mesmo. Provavelmente não tenho interesse em ler.

Paula Souza disse...

"mas não posso deixar de dizer que a minha impressão foi que Harris criou ótimos personagens, mas não extraiu deles todo o seu potencial, o que só veio a acontecer nas adaptações"
Nossa, fiquei surpresa com essa parte da resenha. Geralmente acontece o contrário rs
Foi uma pena o livro não ter sido um dos melhores, parece que sua expectativa nele era um pouquinho alta. Tinha vontade de ler esse livro, bateu um certo desanimo aqui rs

Beijinhos,
http://www.interacaoliteraria.com/

camila rosa disse...

É a primeira vez que vejo esse livro, mas pelo visto ele não é muito bom mesmo, a capa não me agradou nem um pouco, mas a historia até que parece ser interessante, quem sabe eu mude de ideia e dê uma chance ao livro.
Beijos!!!

Mirelle Marques disse...

Excelente resenha! Parabéns! Vou ser sincera, não sabia sobre esse livro! Gostei muito do que escreveu, mas não tenho muita certeza se quero ler. Livros que são um pouco arrastados me fazem pensar duas vezes sobre a leitura! rsrsrs Mas não posso deixar de dizer que me deu muita vontade de ler! Assisti aos filmes e gostei bastante! É um cenário que me atrai. Gosto de livros e filmes do gênero. Vou pensar bastante antes de ler, porque esse ano já me decepcionei com leituras que queria muito fazer! rsrsrs

Beijinhos
Mirelle - meumundoemtonspasteis.com

Larissa e Carol disse...

Nunca tinha visto esse livro, nem ouvido falar, a capa me chamou a atenção por ser um tanto estranha kkkkk' Então decidi ler a resenha, eu não costumo ler livros desse gênero, como quase todas as garotas, leio mais romances, mas depois de ler sua resenha, a pequena vontade de ler esse livro foi embora. Enfim, não comprarei esse livro, pois sei que não irá me agradar e me arrependerei.

Poison Girl disse...

Eu morro de medo de livros assim, não curto!
Da ultima vez que tentei ler algo desse gênero passei semanas tendo pesadelo, eu sou uma pessoa que se impressiona com facilidade.
Porém com filmes eu já sou diferente, não fico tão assustada e consigo acompanhar bem. Realmente sou uma pessoa estranha.

http://worldbehindmywall.fanzoom.net/

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