Conversa de Contracapa é coluna off topic do blog Além da
Contracapa. Sem limitação temática, iremos explorar todo e qualquer assunto
relacionado ao mundo da literatura.
“- Achei que o senhor poderia estar curioso para descobrir se é mais inteligente que a pessoa que estou procurando.
- Então, por extensão, você pensa que é mais inteligente que eu, visto ter me apanhado.
- Não. Sei que não sou mais inteligente que o senhor.
- Então como me pegou, Will?
- O senhor estava em desvantagem.
- Qual?
- Paixão. E é louco.
- Você está muito bronzeado, Will.”
Diálogo entre Will Graham e Hannibal Lecter, extraído do livro Dragão Vermelho (HARRIS, pag. 81, 2013), presente também no filme de Brett Ratner.
Costuma-se dizer que o livro é sempre melhor que o filme. Com este tema em mente, há alguns meses, iniciamos uma série de três posts que analisam os diferentes resultados que uma adaptação de um livro para as telas pode render. Hoje, o último post da série aborda o caso de um livro cujas adaptações (tanto para televisão quanto para o cinema) aproveitaram melhor o universo criado pelo autor, amarraram as pontas soltas e tornaram um de seus personagens um dos mais lendários do cinema e da literatura. É o caso de “Dragão Vermelho”, de Thomas Harris, o primeiro livro a contar com a ilustre presença do Dr. Hannibal Lecter.
- Então, por extensão, você pensa que é mais inteligente que eu, visto ter me apanhado.
- Não. Sei que não sou mais inteligente que o senhor.
- Então como me pegou, Will?
- O senhor estava em desvantagem.
- Qual?
- Paixão. E é louco.
- Você está muito bronzeado, Will.”
Diálogo entre Will Graham e Hannibal Lecter, extraído do livro Dragão Vermelho (HARRIS, pag. 81, 2013), presente também no filme de Brett Ratner.
Costuma-se dizer que o livro é sempre melhor que o filme. Com este tema em mente, há alguns meses, iniciamos uma série de três posts que analisam os diferentes resultados que uma adaptação de um livro para as telas pode render. Hoje, o último post da série aborda o caso de um livro cujas adaptações (tanto para televisão quanto para o cinema) aproveitaram melhor o universo criado pelo autor, amarraram as pontas soltas e tornaram um de seus personagens um dos mais lendários do cinema e da literatura. É o caso de “Dragão Vermelho”, de Thomas Harris, o primeiro livro a contar com a ilustre presença do Dr. Hannibal Lecter.
Na resenha que foi ao ar essa semana, comentei sobre a minha recente decepção com o livro tanto por ele não aproveitar o potencial dos personagens principais, quanto por deixar que certas coisas pareçam acontecer ao acaso.
Para exemplificar o que me refiro, cito Will Graham, cuja habilidade de dissecar cenas de crimes como nenhum outro investigador parece vir de uma inspiração divina ou de pura sorte, inclusive nos seus casos mais notórios (quando capturou os assassinos Garrett Jabob Hobbs - cujo confronto rendeu-lhe uma estadia no sanatório sobre a qual não sabemos nada, além de não sabermos nada sobre os crimes de Hobbs - e Hannibal Lecter, cujo confronto quase lhe custou a vida).
Quanto ao potencial mal explorado, comentei na resenha que Hannibal Lecter (por incrível que pareça!) não foi idealizado para ser um protagonista e por isso não ganha destaque no livro (tanto em termos de profundidade, quanto de aparições). É possível compreender esta escolha do autor, mas é impreterível lembrar que embora o personagem também apareça pouco no premiado “O Silêncio dos Inocentes”, seus meros 17 minutos em cena – condizentes com as páginas em que aparece no livro homônimo - foram responsáveis por transformá-lo em um dos maiores vilões de todos os tempos, além de tornar esta uma das interpretações mais icônicas do cinema.
Então como isso aconteceu se o livro parece largar sua história nas páginas, como se não tivesse vontade de contá-la para o leitor, transformando personagens ricos em meros investigadores de mais uma série de assassinatos que poderia ser como tantas outras já vistas na literatura?
Simples. Acontece porque as adaptações das obras de Thomas Harris souberam extrair desses personagens e desses eventos tudo que eles tinham para dar, ao invés de se contentar com os farelos deixados pelo autor em seus livros. Além de dar o devido destaque aos personagens, as adaptações procuraram justificar as relações entre eles além de explorar alguns eventos rapidamente citados.
A começar pelo filme “Dragão Vermelho” que mesmo sendo bastante fiel aos eventos do livro, à sequência da história e até mesmo aos diálogos, tem um roteiro muito melhor amarrado. Nas primeiras cenas fica estabelecido que Lecter e Will têm uma parceria que faz todo o sentido (e não que o psiquiatra surgiu no caminho do investigador por acaso) e quando o médico é desmascarado, isso ocorre porque o investigador juntou as peças do quebra-cabeça e chegou a uma conclusão lógica, não por um golpe de sorte. É assim que a relação dos personagens evolui para ser algo complexo, cheio de nuances, tornando um personagem verdadeiramente marcante para o outro.
Para exemplificar o que me refiro, cito Will Graham, cuja habilidade de dissecar cenas de crimes como nenhum outro investigador parece vir de uma inspiração divina ou de pura sorte, inclusive nos seus casos mais notórios (quando capturou os assassinos Garrett Jabob Hobbs - cujo confronto rendeu-lhe uma estadia no sanatório sobre a qual não sabemos nada, além de não sabermos nada sobre os crimes de Hobbs - e Hannibal Lecter, cujo confronto quase lhe custou a vida).
Quanto ao potencial mal explorado, comentei na resenha que Hannibal Lecter (por incrível que pareça!) não foi idealizado para ser um protagonista e por isso não ganha destaque no livro (tanto em termos de profundidade, quanto de aparições). É possível compreender esta escolha do autor, mas é impreterível lembrar que embora o personagem também apareça pouco no premiado “O Silêncio dos Inocentes”, seus meros 17 minutos em cena – condizentes com as páginas em que aparece no livro homônimo - foram responsáveis por transformá-lo em um dos maiores vilões de todos os tempos, além de tornar esta uma das interpretações mais icônicas do cinema.
Então como isso aconteceu se o livro parece largar sua história nas páginas, como se não tivesse vontade de contá-la para o leitor, transformando personagens ricos em meros investigadores de mais uma série de assassinatos que poderia ser como tantas outras já vistas na literatura?
Simples. Acontece porque as adaptações das obras de Thomas Harris souberam extrair desses personagens e desses eventos tudo que eles tinham para dar, ao invés de se contentar com os farelos deixados pelo autor em seus livros. Além de dar o devido destaque aos personagens, as adaptações procuraram justificar as relações entre eles além de explorar alguns eventos rapidamente citados.
A começar pelo filme “Dragão Vermelho” que mesmo sendo bastante fiel aos eventos do livro, à sequência da história e até mesmo aos diálogos, tem um roteiro muito melhor amarrado. Nas primeiras cenas fica estabelecido que Lecter e Will têm uma parceria que faz todo o sentido (e não que o psiquiatra surgiu no caminho do investigador por acaso) e quando o médico é desmascarado, isso ocorre porque o investigador juntou as peças do quebra-cabeça e chegou a uma conclusão lógica, não por um golpe de sorte. É assim que a relação dos personagens evolui para ser algo complexo, cheio de nuances, tornando um personagem verdadeiramente marcante para o outro.
E ressaltando o potencial desta relação, surgiu a série de TV “Hannibal”, criada por Bryan Fuller, cuja estréia em 2013 trouxe Mads Mikkelsen encarando a responsabilidade de dar vida a Lecter, em uma interpretação com características próprias que se diferencie da clássica premiada de Hopkins, e Hugh Dancy fazendo de Will Graham um personagem tão interessante quanto Lecter. A série não é a adaptação do livro “Dragão Vermelho” e sim inspirada nos personagens apresentados neste livro (inclusive com algumas pequenas alterações, como personagens masculinos no livro serem femininos na série). Isso porque Fuller tem planejadas sete temporadas de “Hannibal” e as três primeiras serão um desenvolvimento da relação entre Graham e Lecter para que só a quarta se dedique à história de “Dragão Vermelho” (consequentemente, a quinta a “O Silêncio dos Inocentes” e a sexta a “Hannibal”).Com roteiros brilhantes, uma bela fotografia, um suspense tenso e cenas pouco recomendadas para quem tem estômago fraco, a série também explora a relação de outros personagens menores no livro com os protagonistas e ainda ressalta a quantidade de material dramático que Harris deixou em seus livros, usando o caso Garrett Jacob Hobbs como fio condutor de toda a primeira temporada ao explorar o caso (e o impacto dele em Will) ao máximo e, assim, justificar porque um treinado agente do FBI acabou no sanatório após matar um criminoso que estava prestes a matar a própria filha.
Eu gostaria de poder discorrer mais sobre como o filme e a série optaram por desenvolver o que acontece no livro e fazer as devidas comparações e análises, mas isso estenderia demais este texto. Mas são pelas razões aqui mencionadas que acredito que os livros de Thomas Harris ganharam muito com suas adaptações (em especial, claro, com “O Silêncio dos Inocentes”), pois elas salientaram o que de melhor tinham essas histórias e eliminaram o supérfluo. A partir delas, mesmo que esse primeiro livro não crie uma expectativa em torno de Lecter à altura do personagem, é impossível não ficarmos ansiosos para encontrá-lo, sentindo um frio na barriga, apenas ao lembrar do olhar frio, insano, calmo, penetrante e da voz metálica que o magnífico Anthony Hopkins usou ao lhe dar vida no cinema. Uma adição valiosíssima à obra original que qualquer autor só tem a agradecer.






