Hercule Poirot planejava tirar uns dias de férias quando recebe um chamado para voltar com urgência a Londres. O detetive embarca às pressas no Expresso Oriente, mas sua viagem é interrompida devido a uma nevasca que impede a passagem do trem. No dia seguinte, um dos seus colegas de viagem é encontrado morto, apunhalado 12 vezes.
Um caso do sempre ótimo Hercule Poirot, “Assassinato no Expresso Oriente” é um dos livros mais famosos da extensa (e recheada de grandes sucessos) obra de Agatha Christie. Isso se deve ao desfecho, absolutamente inusitado, considerado um dos mais surpreendentes propostos pela autora. E não é para menos. Ao criar a trama desse livro, Agatha deve ter pensado: “O que eu ainda não fiz? Já sei! Um caso em que o assassino…..”. Até Raymond Chandler disse (embora seu comentário passe bem longe de parecer um elogio) que nenhum leitor em sã consciência desvendaria o mistério porque a resposta não passaria pela cabeça de ninguém.
A trama se divide em três partes: na primeira, conhecemos rapidamente os personagens e os vemos em situações que antecedem o crime; na segunda, Poirot conduz os interrogatórios; e na terceira, é chegado o momento em que o detetive, tendo em mãos todas as informações, coloca suas células cinzentas para trabalhar e encontrar a resposta.
Ninguém desenvolve a premissa “um grupo de pessoas confinadas em um mesmo lugar, todas sendo suspeitas de um crime” melhor do que Agatha Christie. Nesse caso, todos estão presos no trem e Poirot não pode ao menos confirmar as informações que recebe, tendo que confiar estritamente no seu discernimento e na palavra daqueles desconhecidos.
“O impossível não pode ter acontecido, assim sendo o impossível deve ser possível apesar das aparências." (CHRISTIE, p. 213 – edição britânica) Tradução livre
Por contar com um elenco grande de personagens, o ritmo acaba se tornando um pouco mais lento já que boa parte do desenvolvimento da história consiste nas entrevistas que o detetive faz (o passageiro chega, é entrevistado, o passageiro sai, entra outro e assim por diante), mas Agatha consegue manter o interesse do leitor.
Além do desfecho, outra coisa inusitada em “O Assassinato no Expresso Oriente” é a posição que Poirot se encontra ao desvendar o crime. Pela primeira vez o detetive se pergunta o que fazer diante da verdade e se deve, ou não, deixar que o criminoso fique impune. A decisão, de um jeito ou de outro, lhe parecerá errada.
Eu já havia lido “O Assassinato no Expresso Oriente” há muitos anos e dessa vez aproveitei a oportunidade para reler em inglês. Foi a primeira vez que li um texto de Agatha Christie no original e embora ler em outro idioma seja sempre um processo mais lento, ainda é possível encontrar nele a fluidez que costumamos encontrar no texto traduzido.
Além de ser um ótimo entretenimento, fica de “O Assassinato no Expresso Oriente” a satisfação de constatar, mais uma vez, que uma autora que conta com uma obra que ultrapassa os 80 livros, consegue sim ser muito original.
“Quanto a mim, eu suspeito de todo mundo até o último minuto.” (CHRISTIE, p. 78 – edição britânica) Tradução livre
Em 1974, o livro ganhou uma adaptação cinematográfica considerada a mais bem sucedida adaptação de uma obra de Agatha Christie. No elenco, nomes como Lauren Bacall, Jacqueline Bisset, Sean Connery, Anthony Perkins, Vanessa Redgrave, Ingrid Bergman e Albert Finney (os dois últimos vencedores do Oscar na categoria melhor atriz coadjuvante e melhor ator, respectivamente, por suas atuações no longa). Assisti o filme há alguns anos, mas não tenho condiçõess de comentar sua fidelidade à obra original já que assisti muito após minha primeira leitura e muito antes da segunda.
Na TV, a série "Agatha Christie's Poirot" (que traz o nada menos que perfeito David Suchet no papel do detetive Belga) também apresentou sua versão do livro. E se nunca comentei aqui antes, comento agora: o adjetivo perfeito não é um exagero para Suchet. Não só o ator adota os trajeitos, a maneira afetada falar, de andar, as obsessões de Poirot em cada gesto, como parece ter saído fisicamente da mente da Dama do Crime. Com exceção dos olhos verdes, é incrível que até a cabeça em formato de ovo Suchet tenha. Aliás, fica a dica: “Agatha Christie’s Poirot” é um pouco difícil de encontrar, mas vale a pena conferir (em especial a partir da quarta temporada quando os episódios passam a ser como filmes de 90 minutos de duração, cada um apresentando um livro). Todos os casos de Poirot foram contemplados pela série.
Em 2017, Kenneth Branagh assume a direção e o papel de Hercule Poirot, com direito a um bigode indescritível e a companhia de um elenco de peso que conta com Johnny Depp, Judi Dench, Michele Pfeiffer, Penélope Cruz e Williem Dafoe. O filme chega aos cinemas no final de novembro.
Título: Assassinato no Expresso Oriente
Autora: Agatha Christie
N de páginas: 248
Editora: L&PM
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