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quinta-feira, 16 de maio de 2019

RESENHA: Morte nas Nuvens

Morte nas Nuvens / Agatha ChristieHercule Poirot está voltando de Paris para Londres quando uma agiota é encontrada morta no voo onde ele está. A arma do crime não poderia ser mais inusitada, uma zarabatana (artefato indígena) utilizada para atirar um dardo envenenado. Mas como alguém poderia usar tal arma sem ser visto pelos demais passageiros?

Um espaço pequeno onde todos podem ser suspeitos de terem cometido o crime. Ninguém domina essa premissa melhor que Agatha Christie.

“Existem coisas mais relevantes do que descobrir quem é o assassino. E justiça é uma palavra bonita, mas às vezes é difícil de explicar com precisão o que ela quer dizer. No meu ponto de vista, a coisa mais importante é inocentar quem merece ser inocentado.” (CHRISTIE, p.156, 2013)

É sempre incrível observar como a autora consegue cegar o seu leitor, mesmo quando ele se arrisca a encontrar a resposta para o mistério e sabe que deve ficar atento a todos os detalhes. Em “Morte nas Nuvens” passei o livro todo tentando encaixar um detalhe nas minhas teorias e encontrar uma solução, mas é claro que, enquanto isso, Agatha estava planejando outra coisa. É como se, durante todo o tempo, a autora construísse duas tramas: aquela que despista o leitor e cada vez mais lhe dá certeza que seus palpites estão certos, e a verdadeira que acontece quando ele não está olhando. Para mim, é impossível não sorrir quando Poirot revela que a pista fundamental era uma que havia me chamado a atenção, mas da qual depois esqueci completamente, graças às muitas habilidades de manipulação da Dama do Crime.

A verdade é que ninguém consegue me fazer sentir tanto prazer em ser enganada como Agatha Christie. Em “Morte nas Nuvens” ela me distraiu direitinho.

Título: Morte nas Nuvens
Autora: Agatha Christie
N° de páginas: 254
Editora: L&PM

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segunda-feira, 20 de novembro de 2017

RESENHA: Assassinato no Expresso Oriente

Assassinato no Expresso Oriente / Agatha Christie / Hercule Poirot
Hercule Poirot planejava tirar uns dias de férias quando recebe um chamado para voltar com urgência a Londres. O detetive embarca às pressas no Expresso Oriente, mas sua viagem é interrompida devido a uma nevasca que impede a passagem do trem. No dia seguinte, um dos seus colegas de viagem é encontrado morto, apunhalado 12 vezes.

Um caso do sempre ótimo Hercule Poirot, “Assassinato no Expresso Oriente” é um dos livros mais famosos da extensa (e recheada de grandes sucessos) obra de Agatha Christie. Isso se deve ao desfecho, absolutamente inusitado, considerado um dos mais surpreendentes propostos pela autora. E não é para menos. Ao criar a trama desse livro, Agatha deve ter pensado: “O que eu ainda não fiz? Já sei! Um caso em que o assassino…..”. Até Raymond Chandler disse (embora seu comentário passe bem longe de parecer um elogio) que nenhum leitor em sã consciência desvendaria o mistério porque a resposta não passaria pela cabeça de ninguém.

A trama se divide em três partes: na primeira, conhecemos rapidamente os personagens e os vemos em situações que antecedem o crime; na segunda, Poirot conduz os interrogatórios; e na terceira, é chegado o momento em que o detetive, tendo em mãos todas as informações, coloca suas células cinzentas para trabalhar e encontrar a resposta.

Ninguém desenvolve a premissa “um grupo de pessoas confinadas em um mesmo lugar, todas sendo suspeitas de um crime” melhor do que Agatha Christie. Nesse caso, todos estão presos no trem e Poirot não pode ao menos confirmar as informações que recebe, tendo que confiar estritamente no seu discernimento e na palavra daqueles desconhecidos.

“O impossível não pode ter acontecido, assim sendo o impossível deve ser possível apesar das aparências." (CHRISTIE, p. 213 – edição britânica) Tradução livre

Por contar com um elenco grande de personagens, o ritmo acaba se tornando um pouco mais lento já que boa parte do desenvolvimento da história consiste nas entrevistas que o detetive faz (o passageiro chega, é entrevistado, o passageiro sai, entra outro e assim por diante), mas Agatha consegue manter o interesse do leitor.

Além do desfecho, outra coisa inusitada em “O Assassinato no Expresso Oriente” é a posição que Poirot se encontra ao desvendar o crime. Pela primeira vez o detetive se pergunta o que fazer diante da verdade e se deve, ou não, deixar que o criminoso fique impune. A decisão, de um jeito ou de outro, lhe parecerá errada.

Eu já havia lido “O Assassinato no Expresso Oriente” há muitos anos e dessa vez aproveitei a oportunidade para reler em inglês. Foi a primeira vez que li um texto de Agatha Christie no original e embora ler em outro idioma seja sempre um processo mais lento, ainda é possível encontrar nele a fluidez que costumamos encontrar no texto traduzido.

Além de ser um ótimo entretenimento, fica de “O Assassinato no Expresso Oriente” a satisfação de constatar, mais uma vez, que uma autora que conta com uma obra que ultrapassa os 80 livros, consegue sim ser muito original.

“Quanto a mim, eu suspeito de todo mundo até o último minuto.” (CHRISTIE, p. 78 – edição britânica) Tradução livre

Em 1974, o livro ganhou uma adaptação cinematográfica considerada a mais bem sucedida adaptação de uma obra de Agatha Christie. No elenco, nomes como Lauren Bacall, Jacqueline Bisset, Sean Connery, Anthony Perkins, Vanessa Redgrave, Ingrid Bergman e Albert Finney (os dois últimos vencedores do Oscar na categoria melhor atriz coadjuvante e melhor ator, respectivamente, por suas atuações no longa). Assisti o filme há alguns anos, mas não tenho condiçõess de comentar sua fidelidade à obra original já que assisti muito após minha primeira leitura e muito antes da segunda.

Na TV, a série "Agatha Christie's Poirot" (que traz o nada menos que perfeito David Suchet no papel do detetive Belga) também apresentou sua versão do livro. E se nunca comentei aqui antes, comento agora: o adjetivo perfeito não é um exagero para Suchet. Não só o ator adota os trajeitos, a maneira afetada falar, de andar, as obsessões de Poirot em cada gesto, como parece ter saído fisicamente da mente da Dama do Crime. Com exceção dos olhos verdes, é incrível que até a cabeça em formato de ovo Suchet tenha. Aliás, fica a dica: “Agatha Christie’s Poirot” é um pouco difícil de encontrar, mas vale a pena conferir (em especial a partir da quarta temporada quando os episódios passam a ser como filmes de 90 minutos de duração, cada um apresentando um livro). Todos os casos de Poirot foram contemplados pela série.

Em 2017, Kenneth Branagh assume a direção e o papel de Hercule Poirot, com direito a um bigode indescritível e a companhia de um elenco de peso que conta com Johnny Depp, Judi Dench, Michele Pfeiffer, Penélope Cruz e Williem Dafoe. O filme chega aos cinemas no final de novembro.

Título: Assassinato no Expresso Oriente
Autora: Agatha Christie
N de páginas: 248
Editora: L&PM

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sexta-feira, 27 de maio de 2016

RESENHA: Cipreste Triste

“ – Mas não seria um pouco antiético o que está propondo? Chegar à verdade, sim, isso sempre me interessa. Mas a verdade é uma faca de dois gumes. Suponhamos que eu descubra fatos contra essa senhora?” (CHRISTIE, p. 121, 2014)

Após uma longa doença, a velha Sra. Welman morre durante o sono. Para a surpresa de todos, ela nunca havia elaborado um testamento e assim toda a sua fortuna vai para a sobrinha, a bela Elinor Carlisle. Atendendo os desejos da tia, Elinor distribui uma generosa quantia para os empregados, as enfermeiras e principalmente para a jovem Mary Gerrard, filha de um dos empregados a quem sua tia era muito apegada. Mas quando Mary é assassinada, Elinor é acusada pelo crime. As provas contra ela são bastante incriminadoras: ninguém tinha motivo para querer Mary morta e nenhuma outra pessoa tivera oportunidade de matá-la. Além disso, todos sabem que o noivado de Elinor e seu primo Roddy terminou depois que ele se apaixonou por Mary. Agora cabe a Hercule Poirot descobrir a verdade e livrar Elinor de um crime que talvez ela não tenha cometido.

Mais uma ótima trama da Dama do Crime, “Cipreste Triste” inicia com um breve prólogo em que temos um vislumbre do julgamento de Elinor. Depois disso, a trama se divide em três partes: na primeira, somos apresentados aos personagens e a dinâmica da família enquanto a Sra.Weldon ainda é viva, acompanhamos como lidam com a sua morte e chegamos à morte de Mary. Na segunda parte entra em cena Hercule Poirot e a investigação do detetive tem início. Por fim, na terceira parte acompanhamos o julgamento de Elinor.

Nessa história Agatha usa de três ótimos personagens: Mary, Elinor e Roddy. Mary é a moça que veio de uma classe inferior e é grata por alguém ter lhe proporcionado uma educação que não estava dentro das suas condições. Mary parece ter um carinho genuíno pela velha Sra.Weldon e querer retribuir o que a senhora fez por ela da maneira que lhe for possível, mas será isso mesmo ou será ela uma interesseira?

Temos também os primos Elinor e Roddy que sempre tiveram carinho pela tia e mesmo cientes de que sua morte lhes traria uma generosa quantia em dinheiro, nunca quiseram pensar em um cenário em que a velha já não vivesse, até porque o dinheiro para eles pouco significa e pouco importa se os dois ou apenas um serão herdeiros visto que em breve pretendem se casar. Mas serão eles mesmo tão desapegados à fortuna? Será que Roddy realmente quer se casar com Elinor? Será que Elinor é tão gentil e generosa quanto parece ou está armando alguma coisa por trás? As dúvidas pairam especialmente porque sabemos que tanto Elinor quanto Roddy sempre foram hábeis em esconder seus sentimentos e se estendem a Mary que é, em muitos aspectos, uma desconhecida.

Usando do núcleo familiar como origem do crime e de seu detetive mais célebre para conduzir essa investigação, Agatha acrescenta um elemento poucas vezes visto em seus livros: o tribunal. Embora já tivesse escrito a peça de teatro “Testemunha de Acusação” (que anos depois ganhou as telas de cinema sob a direção de Billy Wilder) esse é o primeiro romance que Agatha reveste de thriller jurídico, contando com a participação de Poirot (com direito ao detetive belga no banco de testemunhas e tudo).

Mas não pense que por causa disso você irá encontrar um romance que foge do que conhecemos (e amamos) em Agatha Christie. Com uma narrativa fluida e envolvente que é característica dos seus livros, a trama de “Cipreste Triste” se desenvolve como um típico mistério da autora e, justamente por isso, agrada.

Título: Cipreste Triste
Autora: Agatha Christie
Nº de páginas: 271
Editora: L&PM

sábado, 11 de outubro de 2014

RESENHA: A Terceira Moça

“Também achava, cada vez mais, que havia maldade verdadeira em algum lugar. Ele conhecia a crueldade. Já deparara com ela antes. Conhecia seu lado picante, seu gosto, os trejeitos que tinha. O problema era que não sabia ainda exatamente onde estava localizada. (...) Algo estava acontecendo, algo estava em andamento, algo que ainda não estava concluído. Alguém, em algum lugar, estava em perigo." (CHRISTIE, 2012, p.227).

Hercule Poirot, “o mais verdadeiro dos detetives de verdade” (pag.41), está tomando seu café da manhã tranquilamente quando uma moça pouco bonita e muito desesperada requisita alguns minutos da sua atenção e faz a mais estranha das confissões: ela acredita que talvez tenha assassinado alguém. Depois disso, foge e desaparece. Intrigado, e percebendo que a moça realmente precisa de ajuda, Poirot tenta encontrá-la e descobrir o que está acontecendo, afinal, ter assassinado alguém é algo que sabe. Ou se fez ou não se fez. Nessa aventura, ele conta com a ajuda de sua amiga de longa data, a escritora de romances policiais Ariadne Oliver.

A alegria e o bem-estar de voltar para casa. É assim que me sinto cada vez que leio um livro de Agatha Christie. Talvez com “A Terceira Moça” isso tenha se intensificado já que há muitos meses eu não tinha a oportunidade de ler nada dessa que é uma das minhas autoras favoritas desde que eu tinha 12 anos. E estamos falando de Agatha Christie, portanto, é claro que eu encontrei nessa aventura tudo que eu esperava.

Se eu adoro incondicionalmente a autora, isso se duplica quando se trata de um caso do Poirot que, além de genial, excêntrico e incomparável, é absolutamente hilário. Se ler Agatha é voltar para casa, ter Poirot na aventura é ser recepcionada por um dos meus melhores (e mais antigos) amigos. Em “A Terceira Moça”, o detetive e Ariadne Oliver (provável alter-ego de Agatha) precisam encarar as mudanças advindas da década de 60, em especial o comportamento (e as roupas!) da juventude da época, a independência das moças e os relacionamentos. Inclusive nesse livro são abordados temas que não recordo ter visto com frequência nos livros de Agatha, como uso de drogas.

O mistério é magistralmente arquitetado. O inusitado é que, ao contrário dos casos que têm mortes e suspeitos, esse não tem uma morte. Não tem o crime. Apenas um possível crime que o detetive nem mesmo sabe qual é, onde ou quando ocorreu. De certa forma, esse é um caso que não é um caso. Então do que se suspeita?

A mocinha que pode, ou não, ser louca; o namorado que pode, ou não, ser um interesseiro; as colegas de quarto independentes; o pai ausente que há pouco voltou para casa trazendo consigo uma madrasta indesejável; o tio rico, desmemoriado e cego e sua jovem e bela secretária que pode, ou não, ser uma espécie de espiã ou simplesmente uma interesseira; são os personagens que desfilam por essas páginas.

Agatha manipula seus leitores como ninguém e é a rainha da pista-recompensa. Por isso sempre encerro uma leitura com orgulho de mim mesma quando consigo desvendar suas artimanhas (quem já leu os livros da autora divide o sentimento comigo, tenho certeza). Nesse caso, descobri o quem, o como e o porquê, mas ainda assim a autora aprontou algumas que eu não captei.

Leitura deliciosamente fluida, intrigante e bem amarrada. “A Terceira Moça” poderia ganhar muitos elogios, mas para mim basta um: é um Agatha Christie.

Título: A Terceira Moça
Autora: Agatha Christie
Nº de páginas: 287
Editora: L&PM

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Conexões Além da Contracapa #15

Georges Simenon é um dos mais importantes autores da literatura policial em especial por ter apresentado - em 75 romances e 28 contos – o comissário Jules Maigret que mudou a imagem que os detetives da literatura tinham até aquele momento. O autor nasceu na Bélgica assim como...

...o famoso detetive Hercule Poirot, personagem excêntrico criado Agatha Chistie que também possui uma obra extensa composta por contos, peças de teatro e romances, alguns deles escritos sob o pseudônimo de Mary Westmacott que permitiu à Dama do Crime experimentar outro gênero que não o policial. Quem também usa de pseudônimos para experimentar outro gênero que não o que a consagrou é...


...Nora Roberts que assina como J.D. Robb a Série Mortal, protagonizada pela tenente Eve Dallas, que se passa em uma Nova York futurista na década de 2050. A cidade também é o palco das investigações...


...do detetive particular Nero Wolf, criado pelo escritor Rex Stout que em 1959 recebeu o prestigioso Grand Master Award dado anualmente pela Mystery Writers of America (organização da qual também foi presidente). Em 1966 quem recebeu essa honra foi Georges Simenon.

terça-feira, 16 de julho de 2013

RESENHA: Os Crimes ABC

“— Quem é você? Você é da polícia?
— Eu sou melhor do que a polícia. — disse Poirot. Disso isso sem arrogância consciente. Para ele, tratava-se de um simples fato.” (CHRISTIE, 2011, p. 87).

***

Faz algum tempo que tinha acrescentado Os Crimes ABC a minha lista de livros desejados, mas sempre que fazia compras online, o livro estava indisponível. Acabei adquirindo-o na 26ª Feira do Livro de Passo Fundo, e embora tenha pagado caro pelo mesmo, ele valeu cada real investido.

Um serial killer está a solta na Inglaterra e suas vítimas são mortas em ordem alfabética. A primeira vítima, Alice Ascher, é assassinada em Andover; por sua vez Bety Barnard é morta em Bexhill; enquanto Carmichael Clark é assassinado em Churston. Além de ter esta estranha fixação pelo alfabeto, o homicida desafia Poirot a impedi-lo de cometer os crimes, informando-lhe por cartas, os dias de cada assassinato.

Este é apenas mais um livro simplesmente perfeito da Dama do Crime, especialmente para aqueles que apreciam uma boa caçada humana. Em Os Crimes ABC Agatha Christie mais uma vez demonstra sua genialidade, montando uma trama repleta de desdobramentos, mas que se concatenam impecavelmente ao final.

A obra possui uma narrativa fluída e em poucos capítulos envolve o leitor. Falar que o final de um livro de Agatha Christie é surpreendente pode soar redundante, mas este livro realmente me surpreendeu (creio que apenas não ganha de clássicos como Assassinato de Roger Acroyd e O Caso dos Dez Negrinhos).

O que mais me chamou a atenção foi o protagonista, o inesquecível Hercule Poirot. Não sei se é por estar mais familiarizado com o personagem após a leitura de outros livros, mas algumas frases e atitudes do detetive belga soavam tão típicas, tão características, que me impressionei com a construção do personagem.

Se você nunca leu Agatha Christie, este é um excelente livro para ser introduzido ao mundo da Dama do Crime. Se você já conhece a obra da autora, sei que não preciso dizer mais nada.

Título: Os Crimes ABC
Autora: Agatha Christie
N.º de páginas: 248
Editora: L&PM

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Quem vem para o jantar? #11

"Quem vem para o jantar?" é a coluna mensal do Além da Contracapa em que um jantar fictício se torna a ocasião em que personagens e autores interagem em encontros inusitados. 

O jantar desse mês recebe dois dos amigos mais leais (e pacienciosos) que alguém pode ter. Seus melhores amigos são homens brilhantes, cada um a sua maneira, trabalham na mesma área de atuação e têm ambos suas excentricidades. Algo me diz que esse será um jantar bastante interessante e que nossos convidados terão muitos assuntos em comum e muitas histórias para compartilhar. São eles: Arthur Hastings – o melhor amigo do grande detetive Hercule Poirot – e John Watson – o fiel companheiro do detetive Sherlock Holmes.

O primeiro a chegar é o Dr. Watson e como é estranho vê-lo sem o seu companheiro! Ele que mais que amigo de Sherlock Holmes é quase um amigo do leitor, visto que são suas palavras que nos contam as aventuras do detetive. Além disso, Watson é um personagem com quem é fácil se identificar, afinal, assim como ele, o leitor também fica perdido no decorrer da investigação e não consegue compreender as brilhantes e ágeis deduções de Sherlock até que ele as explique. É por isso que, mesmo acompanhando de perto os acontecimentos e a investigação, Watson nunca sabe ao certo o que está acontecendo, até que Sherlock ilumine seu caminho. Watson é colega de quarto de Sherlock o que lhe deixa em posição privilegiada para testemunhar como a mente do detetive funciona, infelizmente, isso também o obriga a tolerar o comportamento por vezes extremamente irritante do detetive mais famoso da literatura policial, criação de Sir Arthur Conan Doyle. “Um estudo em vermelho” e “O Cão dos Baskervilles” são algumas das aventuras de Sherlock Holmes que conhecemos através das palavras de John Watson.

E logo em seguida chega o Capitão Hastings. Menos conhecido do público do que Watson, Hastings não acompanha o insuperável Hercule Poirot com a mesma frequência com que nosso primeiro convidado acompanha Sherlock Holmes. Hastings e Poirot são amigos, conhecidos de longa data, mas não são sócios ou parceiros. No caso de Hastings, ele tem a sorte (ou o azar, dependendo do ponto de vista) de estar ao lado de seu amigo quando incidentes acontecem em seu caminho durante férias ou viagens, por exemplo. Hastings faz sua estreia e tem sua despedida nos mesmos livros que Poirot: “O Misterioso Caso de Styles” e “Cai o Pano”, respectivamente, que vem a ser o primeiro e último livros da Dama do Crime, Agatha Christie. Embora não acompanhe Poirot em todos os casos, Arthur Hastings também deixou sua marca na literatura policial, sendo o responsável por narrar para o leitor as aventuras que compartilha com o amigo. Levando em consideração a extensão da obra de Agatha Christie e o número de casos de Hercule Poirot, pode-se dizer que a participação de Arthur Hastings é pequena, mas pode ser conferida em “A Casa do Penhasco”, “Os Quatro Grandes” (RESENHA) e “Os Crimes ABC”, entre outros.

Por sorte não tivemos nenhum incidente trágico nesta noite. Talvez isso se deva a ausência dos amigos dos nossos convidados: os detetives que parecem ser chamarizes para tais acontecimentos. Como eu previra, o jantar se revelou um evento inesquecível. Espero que os dois cavalheiros tenham se sentido da mesma forma que eu. Quem sabe um dia nosso adorável jantar seja contado por eles nas páginas dos livros? Quem sabe...


sábado, 17 de dezembro de 2011

Resenha: Os Quatro Grandes

“- É um duelo mortal, mon ami. De um lado, você e eu. Do outro, os Quatro Grandes. Eles venceram o primeiro round; mas falharam no plano de me tirar do caminho. Em breve vão ter que acertar as contas com Hercule Poirot” (CHRISTIE, 2010, p.22).



Eu já mencionei aqui no blog que sou fã confessa e incondicional da Agatha Christie? Se não, eu digo agora: sou fã confessa e incondicional da Agatha Christie! E não se preocupe. Caso você perca essa declaração hoje, eu garanto que voltarei a afirmar isso nas muitas outras resenhas que ainda farei de livros da eterna Dama do Crime.

“Os Quatro Grandes” é mais um caso do incomparável Hercule Poirot, por quem eu já expressei todo o meu carinho no meu primeiro post aqui no blog (se você perdeu, pode conferir AQUI), em companhia do adorável Capitão Hastings. Para quem não está familiarizado com a obra de Agatha Christie, Arthur Hasting é amigo de Poirot e personagem recorrente em algumas aventuras. Leal e inocente, é sempre um toque especial nos livros em que participa. Em “Os Quatro Grandes” os dois enfrentam uma organização criminosa internacional formada pelo número 1, um chinês poderoso, conhecido como o cérebro do oriente; o número 2, um americano rico; o numero 3, uma mulher francesa; e o número quatro, que vem a ser o grande inimigo de Poirot nessa aventura: um mestre nos disfarces conhecido como “Destruidor” (o apelido dispensa explicações). Na aventura, Poirot e Hastings contam ainda com a participação do inspetor-chefe Japp, detetive da Scotland Yard que também é conhecido dos fãs de Agatha, e se deparam com diversos casos que tem os Quatro Grandes como responsáveis.

O livro é ótimo e tem tudo o que se pode esperar: revelações surpreendentes, suspense e um ótimo desfecho. É o tipo que você começa a ler e não quer largar porque a leitura flui deliciosamente (e porque o imenso ego do Poirot sempre rende momentos divertidos e ótimas risadas. Destaque para o momento da queda da árvore. Deixei você curioso? Era essa a idéia). Os capítulos curtos e a trama em constante evolução contribuem para essa ânsia de continuar lendo até chegar a ultima página. Em nenhum momento você se sente enrolado pela autora ou desestimulado pelo rumo dos acontecimentos. Tudo, até mesmo os mais insignificantes comentários, tem uma função na corrida contra a quadrilha e uma explicação que, quando revelada, parece até mesmo óbvia, mas que até aquele momento não nos ocorria.

Assim como nenhum criminoso é páreo para as células cinzentas de Hercule Poirot, nenhum escritor policial é páreo para Agatha Christie. “Os Quatro Grandes” é ótimo como todos os livros da autora e posso dizer que é o melhor dela que eu li nesse ano.

Título: Os Quatro Grandes
Autora: Agatha Christie
Nº de páginas: 204
Editora: L&PM

sábado, 24 de setembro de 2011

Quem vem para o jantar?

"Quem vem para o jantar?" é a coluna mensal do Além da Contracapa em que um jantar fictício se torna a ocasião em que personagens e autores interagem em encontros inusitados. 

Para iniciar minha participação aqui no blog decidi fazer algo diferente. Não é uma resenha, não discorre sobre um livro específico ou mesmo sobre um autor ou gênero literário. A idéia partiu de algo que li há certo tempo (uma crônica ou uma reportagem, não lembro ao certo) que fazia a instigante pergunta: “Se você pudesse jantar com um personagem da literatura qual seria?” Difícil, não? Eu pensei muito, mas leitora ávida que sou desde criança, me deparei com inúmeras lembranças de personagens que me marcaram, nas mais diferentes épocas e pelas mais diferentes razões, e não consegui me decidir por um único apenas, escolhendo dois que, curiosamente, saíram da literatura e foram para o cinema. São eles Hercule Poirot e Hannibal Lecter.


Começando com a mais inusitada das minhas escolhas e com o espanto que possa causar, e possivelmente com a vergonha que eu deveria ter de dizer, arrisco confessar que a-do-ro o doutor “Canibal” Lecter. Nascido da imaginação do escritor Thomas Harris e protagonista de três livros “Dragão Vermelho”, “O Silêncio dos Inocentes” “Hannibal” e posteriormente um quarto onde é narrada sua juventude “Hannibal – A Origem do Mal” o psiquiatra mais brilhante e assustador da literatura foi imortalizado no cinema pelo magnífico Anthony Hopkins.
Para aqueles que conhecem o Dr. Lecter não deve ser tão difícil de entender porque esse personagem me provoca certo fascínio. Elegância, inteligência e brilhantismo são apenas algumas das características dele que me ocorrem. A fineza aliada à frieza com que ele age me confunde e me causa admiração, ao mesmo tempo. Psiquiatra, profundo conhecedor da natureza humana, com gosto refinado e desprezo por toda e qualquer demonstração de falta de educação, seu único problema é o alternativo gosto que tem para alimentação. A maldade se confunde ao pensamento de que, na verdade, está prestando um serviço para a sociedade com sua atividade canibal e assusta leitores e platéias em todo o mundo há trinta anos (se considerarmos a publicação do primeiro livro), além de assombrar Clarice Starling em seus sonhos, tenho certeza.
Para aqueles que não conhecem a trajetória do médico canibal eu aconselho que se deixam assustar, e encantar, a começar pelo filme “O Silêncio dos Inocentes” que, para mim, continua sendo o melhor filme da série mesmo depois de acompanharmos Lecter nas adaptações cinematográficas de outros livros. Em relação ao livro, confesso que minha experiência não foi, nem de longe, tão interessante. Thomas Harris tem uma narrativa lenta que não me agradou na ocasião da leitura e não me estimulou a ler mais do que um capítulo por vez (o que é estranho e vergonhoso para mim). Ainda assim, pretendo dar mais uma chance ao escritor e, um dia, ler mais algum de seus livros e das aventuras do Dr. Lecter. De qualquer forma, Harris merece reconhecimento por ter criado um personagem único e complexo, capaz de provocar reações das mais diversas.


Andando agora em terras menos sombrias, mas tão interessantes quanto, falo sobre meu grande herói: o perfeccionista detetive belga Hercule Poirot.
O mais famoso personagem criado pela eterna Rainha do Crime Agatha Christie é um detetive baixinho que usa um bigode inconfundível, trajes sempre impecáveis, é extremamente detalhista, não tem nada de modéstia e soluciona os mais intrigantes crimes. Porém engana-se quem pensa que Poirot é o tipo de detetive “cão buldogue” como ele mesmo fala. Aquele que se ajoelha no chão com uma lupa à procura de pistas e pegadas, muito semelhante ao imortal Sherlock Holmes criado por Arthur Conan Doyle. A principal ferramenta de Poirot são suas “células cinzentas” com as quais trabalha, de preferência no conforto de sua casa, muitas vezes montando castelo de cartas, buscando encontrar uma explicação para as pistas obtidas pelos “farejadores” da polícia.
Adepto da “ordem e método” e dotado de uma mente atenta a todos os detalhes, nada passa despercebido a Poirot e nada além da verdade e do encaixe perfeito de todos os fatos lhe satisfaz. Meu herói desde a adolescência, o detetive belga traz elegância e humor aos inteligentes livros de Agatha Christie (de quem sou fã incondicional, como os que me conhecem bem sabem), presente em mais de 40 livros da escritora, entre eles alguns de seus maiores sucessos como “O Misterioso Caso de Styles”, “O Assassinato de Roger Ackroyd”, “Morte no Nilo” e “Assassinato no Expresso do Oriente”.


Difícil escolha de companheiro de jantar, não é mesmo? Ambos elegantes e inteligentes. Ambos fascinantes e prometem grandes ensinamentos. Sendo assim, convido os dois distintos senhores para jantar com a condição que o Dr. Lecter aceite minha tradicional refeição com carne animal e Monsieur Poirot não a recuse caso não esteja disposta simetricamente no prato. Alguém se habilita a jantar conosco?
 

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