quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

RESENHA: O Jantar

“A infelicidade adora companhia. A infelicidade não suporta o silêncio, especialmente o silêncio desconfortável que se instala quando tudo é solitário.” (KOCH, pag. 9, 2013)

Algo que me chamou a atenção nas resenhas que li sobre “O Jantar” foi o cuidado dos blogueiros em não falar demais para não arriscar spoilers sobre a trama. A meu ver, quando existe essa preocupação é porque é de fundamental importância que as surpresas que o livro reserva sejam reveladas no momento, e da maneira, como o autor idealizou para não perderem o seu impacto. Não precisei chegar ao final da leitura para constatar que estava certa. Herman Koch é um mestre em manipular a linha temporal da trama pra prender, surpreender e chocar o seu leitor.

Dois casais se encontram para um jantar. A conversa, que a princípio parece girar apenas em torno de amenidades, adquire contornos mais pesados conforme os pratos vão sendo trazidos e o assunto que os reuniu naquela noite vem à tona. Os quatro são pais de adolescentes que juntos estiveram envolvidos em um ato terrível com consequências que podem ser desastrosas e não apenas para os futuros de suas famílias. Agora eles precisam encontrar uma maneira de amenizar o problema.

Ao começar esta resenha encontro a mesma dificuldade que outros blogueiros antes de mim: como falar sobre “O Jantar” sem estragar o trabalho brilhante do autor?

Se durante o Aperitivo não existe tensão, existe a chance de se conhecer os relacionamentos entre os personagens como se os estivéssemos observando na mesa ao lado. Embora a história central não comece a se revelar nessas páginas, cada frase é permeada de tamanha verdade que os personagens ganham vida e envolvem o leitor em seus dramas, de forma que quando chegamos ao Prato Principal estamos completamente fisgados.

O autor faz suspense com todos os elementos que tem disponível e constrói o clima de tensão de maneira soberba. As atitudes e reações dos personagens são chocantes e as relações do leitor com seus atos se formam conforme os protagonistas revelam suas diversas facetas. Trata-se de personagens com tantos defeitos que fazem com que nos perguntemos se eles têm alguma qualidade. Como maior exemplo disso, temos Paul que é um narrador pouquíssimo confiável. Podemos sentir que algumas coisas não são exatamente como ele quer dar a entender, embora não possamos dizer porquê exatamente. Além disso, quanto mais descobrimos, mais entendemos que o que achávamos saber não era o que imaginávamos. Graças a esses artifícios, “O Jantar” é uma história cheia de nuances que é contada exatamente como uma história feita de lados e pontos de vista deveria ser contada.

Mesclar as revelações da história de acordo com as etapas do jantar também é um ótimo recurso de que o autor se utiliza e que não me recordo de ter visto alguma outra vez. São coisas assim que fazem o trabalho de Koch tão marcante. Além de contar uma história que não aborda um tema usual, ele o faz de maneira igualmente pouco usual, fazendo um livro de meras 254 páginas um suspense único e marcante.

Já vi o livro de Herman Koch ser comparado ao excelente “Garota Exemplar” - também publicado pela Editora Intrínseca - porém, confesso não encontrar paralelo algum entre os dois, a não ser pelo fato de que são ótimos thrillers psicológicos que deixam o leitor pasmo ao virar a última página e terem sido escritos por autores que não têm medo de usar o lado mais negro do ser humano em favor de suas tramas. Minha reação ao terminar “O Jantar” foi semelhante a que tive ao terminar o livro de Gillian Flynn: fiquei paralisada por um momento, pensando como era possível que pessoas pudessem agir daquela forma.

Não acho que “O Jantar” seja um livro capaz de agradar a todos os que gostam de suspense, mas certamente encontrará seu público naqueles que apreciam de histórias intrigantes, envolventes e que não têm medo de embarcar em uma jornada desagradável, mesmo que breve. Um livro que, a meu ver, não se compara e não esquece tão fácil.

"O Jantar” já recebeu uma adaptação cinematográfica na Holanda, país de sua publicação original. Além desta, uma adaptação hollywoodiana está em fase de produção e contará com Cate Blanchett na direção.

Título: O Jantar (exemplar cedido pela Editora)
Autor : Herman Koch
Nº de páginas: 254
Editora: Intrínseca

7 comentários:

Gabriela Cerutti Zimmermann disse...

A sinopse não tinha me atraído, mas as resenhas que li mudaram isso. Todos os comentários e medos de revelar spoilers me deixaram curiosa. E com seu aval Mari, só fiquei com mais vontade de ler.

Abraço!
http://constantesevariaveis.blogspot.com.br/

Ana Paula Barreto disse...

Estou de olho no livro há um tempinho.
O que me encantou nessa história é o fato do autor conseguir combinar o suspense com as partes do jantar.
Além disto, me parece que a trama é envolvente e surpreendente em seu conteúdo.
bjs

Nardonio disse...

Gosto quando os autores não tem medo de ousar e mostrar o lado mais sombrio do ser humano. Isso deixa essas personagens muito mais reais do que se possa imaginar. Como adoro essa carga de tensão do início ao fim, já o coloquei na minha listinha de próximas aquisições.

Seguidor: DomDom Almeida
@_Dom_Dom

Paula Souza disse...

Nunca li Garota Exemplar, eu costumo evitar thrillers... não porque eu não goste, mas porque eu fico muito, muuuito perturbada! Meio psicótica até...
Ando lendo livros bem levinhos hhahaha
Adorei a resenha Mari ;D
Beijinhos
http://www.interacaoliteraria.com/

MsBrown disse...

Olá, Mari.
Gostei de saber sobre este livro, aprecio um livro cheio de tensão e desagradável haha. Nas primeiras linhas do texto lembrei de Quem Tem Medo de Virginia Woolf, de Edward Albee, porque é um livro de suspense também e acontece em apenas um dia. Achei interessante!

Eduarda Menezes disse...

Tô interessada nesse livro desde que li a sinopse pela 1º vez. Sua resenha apenas reforçou isso, Mari! Adoro tramas que manipulam o leitor, que nos conduzem por caminhos tortuosos evidenciando o talento de quem os escreveu.
Certamente é um livro que pretendo ler e possui todos os elementos que me fascinam em um thriller psicológico!

camila rosa disse...

Nossa eu nunca pensei que o livro fosse tão bom assim, confesso que vi a capa e pensei ah esse livro não deve ser muito bom não, mas agora que li sua resenha penso diferente, fiquei bem curiosa para saber o que acontece.
Beijos!!!

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