sexta-feira, 11 de julho de 2014

RESENHA: Porto Inseguro

"Se você for bom neste serviço, o que sou, cada passo num caso de homicídio avança numa direção: rumo à ordem. Jogam em cima de nós estilhaços de destroços sem sentido, e nós os reunimos até conseguirmos extrair a imagem da escuridão e exibi-la à luz clara do dia, sólida, completa, nítida. Por trás de toda a papelada e da política, é esse o nosso trabalho. É esse o seu núcleo frio e luminoso que eu amo com todas as fibras do meu coração. Esse caso era diferente. Ele estava andando para trás, arrastando-nos com ele em algum violento refluxo da maré. Cada passo nos mergulhava mais fundo num caos negro, nos enroscava mais em tentáculos de loucura e nos puxava mais para baixo." (FRENCH, 2014, p. 338).  

***

Os observadores já devem ter notado que tenho resenhado poucos livros policiais nos últimos tempos. A verdade é que me tornei absurdamente exigente com o gênero e são poucos os autores que conseguem me agradar. Porto Inseguro foi um tiro no escuro e, infelizmente, não acertei em nada. 

Os detetives Michael Kennedy e Richie Curran são designados para investigar o brutal assassinato de Patrick Spain e de seus dois filhos. Sua esposa, Jennifer Spain,  foi a única sobrevivente do ataque, mas seu crítico estado de saúde impede que auxilie nas investigações. Sobre as lentes da mídia, os policiais terão que averiguar todas as facetas de um crime confuso e com provas contraditórias para encontrar quem é responsável de tamanha barbárie. 

É difícil fazer um livro funcionar quando narrado em primeira pessoa por um personagem desagradável. E desagradável, sinceramente, não é o suficiente para descrever o detetive Michael Kennedy. O fato de ter como parceiro um policial novato que está em treinamento sob sua supervisão torna tudo ainda pior, pois o detetive passa metade do tempo dando lições sobre como ser um bom policial. 

Considerando que a interação da dupla de detetives discutindo as inúmeras possibilidades sobre o caso corresponde a mais da metade da obra – sendo que o restante mostra o contato daqueles com as testemunhas, peritos, técnicos e policiais, ou seja, personagens com participação pontual – o destaque vai para Richie, que conseguiu apresentar muito mais carisma em comparação com o protagonista. 

Embora esteja patente o esforço da autora em criar uma investigação extremamente verossímil, o tiro saiu pela culatra. French seguiu a risca os passos seguidos por qualquer agente policial, tornando a sequência de eventos previsível. Tal abordagem seria aceitável se a autora tivesse a habilidade de inserir reviravoltas no decorrer da estória, porém, ao não fazê-lo, tornou a leitura monótona. 

A trama parelala desde o ínicio me pareceu enfadonha, pois inserida na obra muito mais com o intuito de dar um aspecto humano ao detestável protagonista, pouco influenciando a trama principal. Como efeito colateral tivemos uma inaceitável quebra no ritmo da narrativa, já suficientemente lenta. 

Mas, como em todo o livro policial, a expectativa se volta para o desfecho, oportunidade em que todos os deslizes podem ser perdoados se o autor conseguir surpreender o leitor. Infelizmente, o final de Porto Inseguro é patético, pois as respostas que tanto aguardávamos não convencem em nenhum aspecto. É impossível chegar ao final sem a sensação de tempo perdido. 

Não criei grandes expectativas quanto ao livro, mas tampouco esperava encontrar tamanha bobagem. Se reduzido pela metade, contasse com uma motivação decente para o assassino e conduzido por um protagonista com um mínimo de carisma, talvez tivesse funcionado. 

Título: Porto Inseguro (exemplar cedido pela editora)
Autora: Tana French
N.º de páginas: 495
Editora: Rocco

6 comentários:

Gabriela Cerutti Zimmermann disse...

Nem sei o que comentar, Alê. Até queria ler esse livro, mas se o protagonista é tão detestável já deixo pra lá. Sendo tão arrastado e sem uma motivação digna então... Passo. Ótima resenha.

Abraço!
http://constantesevariaveis.blogspot.com.br/

Letícia Souza disse...

Oiee
A hora que bati os olhos no nome do livro achei que era "Porto seguro" do Nicholas Sparks,haha
Não há nada pior em um livro do que não simpatizar com os personagens principais,se o enredo for bom ainda há uma salvação mas se a história for ruim,daí já era.
Gosto bastante do gênero policial mas já risquei esse livro da minha lista.
bjos

Virginia de Oliveira disse...

Não conhecia este lido, não leio muitos livros policiais e depois de ler sua resenha tive cheguei a conclusão de que esse será um livro que nunca lerei, gosto de ler livros em que o protagonista me conquiste, não quero me aventurar em uma leitura e acabar tendo os mesmos sentimentos que você sentiu a ler esse livro, o de ter perdido seu tempo.
Obrigado pela resenha.
Bjs!

Bruna Monteiro disse...

Olá :)

Depois de ler a sua visão sobre o livro fui ler algumas coisas a respeito dele e sinceramente não me atraiu em nada. É frustrante quando um livro nos desaponta, os personagens não agradam etc.

Abraços!

Lais Cavalcante disse...

Engraçado como vocês conseguem persuadir uma pessoa com uma simples opinião bem formulada né? Já tinha lido umas resenhas positivas sobre esse livro, e como gosto bastante de livros policiais, já tinha adicionado a minha lista de desejados. Ao ler a sua resenha, todos os pontos negativos que você escreveu, me fizeram acreditar que o livro não era tudo aquilo que eu estava esperando. Confesso que coloquei muita expectativa nele e se eu lesse, provavelmente ficaria bem decepcionada.

Nardonio disse...

Nossa! Esse é um belo exemplar pra ser esquecido nas estantes das livrarias, hein?!?! kkkkkkk
Acho que faz muito tempo que não leio por aqui, uma resenha tão negativa assim. Ao ler sua opinião, fico me perguntando como a Rocco se propôs a publicar um livro tão fraquinho assim. Tem tantos outros do gênero tão bons por aí, e ela me vem com uma dessas?!?!

Seguidor: DomDom Almeida
@_Dom_Dom

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