domingo, 11 de janeiro de 2015

RESENHA: A vida como ela era

“É um modo tão estranho de viver. Não acredito que ficaremos assim por muito mais tempo. Por outro lado, estou começando a me esquecer de como era a vida normal, com relógios marcando a hora certa, lâmpadas ascendendo quando apertamos o interruptor, internet, postes de rua, supermercados, McDonald’s e...” (PFEFFER, 2014, p.69)

Séries distópicas envolvendo adolescentes têm se tornado cada vez mais comuns. O que Pfeffer faz para diferenciar a sua série “Os Últimos Sobreviventes” dentre tantas é mostrar o ponto de ruptura da sociedade como conhecemos e os eventos que se seguiram imediatamente a esse momento. A ideia é muito boa, mas poderia ter sido melhor aproveitada.

Aos dezesseis anos, Miranda vê a vida como ela conhece mudar drasticamente. Um meteoro atinge a lua resultando em um impacto muito maior do que o previsto pelos cientistas, o que acarreta em uma série de mudanças climáticas. Cidades litorâneas são dizimadas, vulcões entram em erupção, a energia elétrica quase não existe mais, assim como comida nas prateleiras dos supermercados. Sem previsão de que as coisas voltem a ser como antes, Miranda e sua família precisam encontrar um jeito de sobreviver diante das novas circunstâncias.

“A vida como ela era” é narrado por Miranda na forma de diário e acredito que essa escolha tenha comprometido todo o resultado do livro. Desde o início achei a personagem imatura para a sua idade, mas acreditei que isso era uma estratégia para mostrar o quanto os eventos impactariam sobre ela que se revelaria, mais adiante, modificada por sua luta pela sobrevivência. A questão da maturidade também me incomodou em outros personagens. Ao contrário de Miranda, Matt (seu irmão mais velho, que está apenas na faculdade) soa adulto demais, principalmente em comparação a ela.

Também senti falta de um impacto maior na voz da protagonista. Ela parece querer relatar o quanto as coisas mudaram, mas não a vi sentir essas mudanças de fato (a não ser em seus hábitos alimentares). Ela conta, mas seus sentimentos não transparecem, o que não me permitiu me conectar com a situação.

É intrínseco ao conceito de diário que os eventos sejam relatados dia a dia. Com isso a autora estica desnecessariamente a narrativa já que a evolução dos acontecimentos não é expressiva de um dia para o outro e a impressão que se tem é de ler páginas e páginas da mesma coisa.

Mas o principal problema em “A vida como ela era” é que ele se revela um livro de circunstâncias e não de acontecimentos. A autora se esforça tanto para mostrar os problemas gerados devido ao impacto da colisão que deixa de investir nos relacionamentos entre os personagens. É claro que é importante contextualizar, em especial em uma trama distópica, mas em nenhum momento eu senti que a história era sobre os personagens e sim sobre a situação. Assim, o livro parece ser mais sobre os problemas que decorrem após um meteoro atingir a lua do que sobre pessoas. A situação e o contexto evoluem, mas não os relacionamentos.

Me ocorreu que a intenção Pfeffer poderia ser mostrar a queda da sociedade como conhecemos e sua caminhada rumo à distopia, culminando nesse cenário no último livro. Eu acharia essa proposta muito interessante, mas se for esse o caso, a escolha de Miranda e seu diário como narração se revela mais uma vez pouco adequada, já que tudo que a menina tem conhecimento é da sua própria situação. Em um cenário em que não apenas uma cidade é atingida e sim todo o planeta, o resultado poderia ser uma trama ampla caso enriquecida com múltiplos pontos de vista, mas a condição de Miranda é parcial. Com isso, só sabemos sobre ela, sua família e seus conhecidos mais próximos. Nem mesmo sabemos o que acontece com outras pessoas da cidade.

A mim, parece que a autora não adequou a estratégia usada para contar a história à intenção de sua saga. Ao escolher uma narrativa em primeira pessoa essencialmente íntima (já que um diário é escrito da pessoa para ela mesma) a autora faz a história pedir por sentimentos e pelo desenvolvimento de relações entre os personagens, mas o que entrega é apenas o desenvolvimento de um cenário (o que também acaba comprometido, já que a visão da narradora sofre pelas limitações).

Se, por outro lado, a intenção era o desenvolvimento do cenário, a escolha da narradora parece ainda mais infundada, já que a situação que Miranda vive não parece se diferenciar da situação de outras pessoas. A verdade é que o que ela nos conta é tão genérico que poderia ser contado por qualquer um e, a meu ver, uma narrativa em primeira pessoa só se justifica se aquela história precisa ser contada por aquele personagem, caso contrário não será a mesma história.

“A vida como ela era” é apenas o primeiro livro de uma quadrilogia, então é aceitável que os eventos sejam introdutórios. Ainda assim, me parece que o primeiro livro foi desperdiçado já que os acontecimentos mais significativos se resumem ao começo e ao final. O resto parece uma ponte, cuja única função é conectar as duas pontas. Não imagino para onde a história irá se encaminhar nos livros seguintes, mas “A vida como ela era” não me envolveu o suficiente para querer descobrir.

Título: A vida como ela era (exemplar cedido pelo Grupo Editorial Record)
Autora: Susan Beth Pfeffer
Nº de páginas: 375
Editora: Bertrand

23 comentários:

Alice Aguiar disse...

poxa mari pena q o livro n te envolvem tanto assim =/ caso vá ler a continuação espero q vc goste.

Seguindo o Coelho Branco

Desbravadores de Livros disse...

Oi, Mari.
Que complicado. Só pela capa eu já estava até com vontade de ler. Mas, no decorrer da resenha percebi que a história não era tudo aquilo. Nossa, uma distopia escrita em um diário é complicado. Não há relação dos sentimentos de outras pessoas, apenas limita-se à garota e sua família.
Concordo com você, Pfeffer poderia explorar outros campos, muitos outros.

Lara Melo disse...

Olá! Vi muitas pessoas comentando sobre esse livro e ele não chamou minha atenção,

http://www.whoisllara.com/

thayna ta disse...

Nossa, achei tão legal o enredo. O que o autor criou. Apesar de ter semelhanças com outros. Ele inovou, colocou coisas diferentes. Achei que faltou mais explicação desta parte dos cientistas. A coisa prevista e dar tudo errado e tudo mais. Impossível não prever algo assim. A protagonista não parece marcante. A falta de mais coisas, coragem ( meio difícil neste estado ). Mas enfim, ainda é o primeiro livro. Então acho que a autora, recebendo críticas e ajudas, pode melhorar muito.
Abraços Mari,
ThayQ.

Paula de Franco disse...

Olá, Mari.

Esses dias me deparei com algumas resenhas desse livro que o analisaram de uma forma bem positiva, não que a sua analise foi negativa. Mas você apontou alguns pontos diferentes dos que as outras pessoas apontaram. Todavia ainda tenho curiosidade na leitura desse livro. Quero saber se vai funcionar para mim mais do que para você o livro ser escrito em forma de diário. Só não curti saber que serão 4 livros. Preguiça de ficar esperando lançamentos.

Beijos.
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Gabriela Cerutti Zimmermann disse...

Até estava com vontade de ler esse livro, mas pelos seus comentários vejo que não é pra mim, Mari. Concordo com você que narrativas em formato de diários precisam ter uma visão bem particular, se não for assim não funciona. E um livro de quase 400 páginas cheias da mesma coisa? Estou fora. Ótima resenha e obrigada pelo aviso. [rs]

Abraço!
http://constantesevariaveis.blogspot.com.br/

Rafaela. disse...

Oi, Mariana! Oi, Alexandre!

Tenho a impressão de que esse livro tinha tudo para dar certo, especialmente por abordar a caminho de uma sociedade já conhecida para o universo distópico. É realmente uma pena a autora não ter desenvolvido o assunto de maneira satisfatória. Mesmo sem ter lido, posso concordo contigo que ter como narradora uma garota imatura, sem carisma e que vive no seu próprio mundo, foi uma péssima ideia... Pois assim o leitor não poderá ter uma visão mais ampla do que está acontecendo. =/

Beijocas.
http://artesaliteraria.blogspot.com.br

Bárbara disse...

Olá!!
Adoro ler distopias!
Esse livro eu nunca tinha ouvido falar mas a premissa parece ser muito boa!!
Pena que o livro não te envolveu tanto assim...mas quem sabe no próximo vc não goste mais... =)

Parabéns pela resenha! Tá ótima!!

Beijos, Bá.
http://cafecomlivrosblog.blogspot.com.br

Francielle Couto Santos disse...

Mari, além da onda de distopias, tem o lance das séries, cujo primeiro livro tende a ser bem 'introdutório'. Como a coisa se tornou pop, viu!? Mas, sem querer generalizar, têm enredos que valem a pena. No meu caso, antes de descobrir isso, eu fico muito com o pé atrás... penso muito antes de começar a ler. Bendita popularização! Enfim... ainda bem que existem boas resenhas e blogs com este aqui... :D

Você fez boas observações... no seu caso, não sei se continuaria com a trama. Parece que foi tudo a mesma coisa, o livro todo. Ixe...

Abraços,
http://universoliterario.blogspot.com.br/

Joi =) disse...

Oi Mari, tudo joia?
Já estava ficando interessada na obra, mas no decorrer da sua resenha, percebi que não é assim "tão tão", que pena,

Beijos
intoxicadosporlivros.blogspot.com.br

Inês Gabriela A. disse...

Olá,
Vi muita gente que amou o livro, pena que o mesmo não aconteceu contigo. Confesso que já não tinha me interessado muito mesmo...
Beijos.
Memórias de Leitura - memorias-de-leitura.blogspot.com

Patricia Martins Bueno disse...

Olá! É tão ruim fazer uma resenha negativa né? Fiz uma recentemente lá no blog de uma série tbm, e é tão ruim quando temos que parar a série por não ter sido tão interessante! Mas acontece né, com tantos livros bons por aí não vale a pena ficar lendo um que não nos agradou!
Beijo!
http://booksmanybooks.blogspot.com.br/

Guilherme Dias disse...

Oii, tudo bem??
Nossa, eu quando li o trecho que você citou no início achei que este era um bom livro, mas ao que parece o livro não é tão bom quanto imaginei...
Eu adorei sua resenha, muito útil, se quer saber ^^
Abraços!
http://enjoythelittllethingss.blogspot.com.br/

Estante Diagonal disse...

Oi Mari! tudo bem? tudo bem? eu já tinha lido algo semelhante! Mas no momento descartaria a leitura!
Beijos Joi Cardoso
Estante Diagonal

Ana Clara disse...

Oi Mari!

Se por um acaso eu lesse só a sinopse ou a premissa desse livro em algum lugar, eu ia ficar completamente louca para lê-lo, ainda mais sendo uma amante de distopias. A questão é que a cada parágrafo da sua resenha, fui ficando mais e mais desanimada. É uma pena ver autores jogando boas histórias fora por problemas de narração ou desenvolvimento, viu...

Beijo!
http://www.roendolivros.com/

Raimundo Ferreira disse...

Oi, Mari!

Parabéns pela ótima resenha.

Adoro distopia e parece realmente interessante termos essa que faz uma ruptura entre a vida atual e uma possível vida futura, parece instigante percebermos essas mudanças. Todavia, muito me intriga uma narrativa em primeira pessoa que seja tão objetiva, que deixe a desejar em relação a modos de pensar, agir e sentir.

Grande abraço,

http://legereoculis.blogspot.com.br/

Mirelle disse...

Eaí Mari!
Roteiros semelhantes também vem me deixando extremamente decepcionada, sinto falta da verdadeira criatividade ou até daquela velha magia de uma mesma história ser contada de formas diferentes, é uma pena que a criatividade esteja sendo limitada...
http://efeitotranslucido.blogspot.com.br/

Tici Faria disse...

Pelo título achei que fosse ter alguma coisa a ver com Nelson Rodrigues hahaha não imaginava mesmo que fosse uma distopia. Para falar a verdade, nenhuma dessas novas distopias com adolescentes que surgiram agora me convenceram. "Jogos Vorazes" é a mais interessante, mas ainda assim acho que eu curtiria mais "Battle Royale" não fossem pelas 293926392 páginas do livro! rs Beijos!

www.bibliophiliarium.com

Aymée Meira disse...

Confesso que estou boicotando personagens com menos de dezoito anos... principalmente, naquela idade clássica 16/17... ando meio cansada dessas vozes. Adoro distopia, uma das minhas favoritas é a série Feios. Mas como o gênero fez sucesso, uma gama de vários livros medianos foram publicadas junto. Essa imaturidade... falta de voz... eu não sei, provavelmente, não leria. hahaha


Beijos,

Amy - Macchiato

Mariana Ogawa disse...

eu estou ficando cansada da combinação distopias + narração em primeira pessoa + livros em série (esse para não ser uma triologia tem que ser 4?!?) tipo e a novidade nisso?
para eu ler um desse jeito as notas iam ter que ser muito altas, para despertar a curiosidade. só que infelizmente esse já perdeu muitos pontos comigo: diário???
valeu pela dica: esse entra na minha lista do não leio
bjs

Nardonio disse...

A impressão que você me passou nessa resenha é que a autora tinha uma ótima premissa em mãos, mas acabou desperdiçando ao usar esse tipo de narrativa. Uma pena! A questão das personagens em si, pode até ser solucionada no decorrer da séria, afinal, serão mais três volumes, mas tomara que a forma de narração seja mudada, e ela comece a abordar a distopia em si.

Seguidor: DomDom Almeida
@_Dom_Dom

Vitória Pantielly disse...

Mari :}

É uma pena que você não tenha gostado do livro, eu, como fã de distopias, posso dizer que já descartei esse da lista a algum tempo, em primeiro lugar por ser escrito em forma de diário, gosto de livros assim, mas não no caso de uma distopia. E em segundo porque apesar de já ter lido umas três resenhas do livro, e me senti tão perdida na história que desanimei .. Ah, também não gostei do fato de ser uma série, imagina começar a leitura já com o primeiro livro te decepcionando? Enfim, esse não entra pra minha lista!!
Bjs

Amanda Pampaloni Pizzi disse...

A princípio, me pareceu que o enredo tinha tudo para dar certo, mas conforme fui lendo sua resenha e os defeitos apontados, percebi que as escolhas da autora foram equivocadas. Não creio que eu vá ler este, ainda mais com tantas distopias na fila de espera.
Beijos.

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