terça-feira, 5 de maio de 2015

RESENHA: Flores da Ruína

“Atravessei os jardins. Teria sido o encontro com aquele fantasma? Ou as alamedas do palácio de Luxemburgo por onde eu não caminhava havia uma eternidade? Sob a luz do entardecer, tive a sensação de que os anos se confundiam e o tempo se tornava transparente.” (MODIANO, p.42, 2015)

Foi com muita expectativa que, há alguns meses, tive minha primeira experiência com a obra de Patrick Modiano. Ao final da leitura, eu não estava certa se havia gostado ou não. Gostei muito do texto, das frases, do conceito da obra, mas não pude deixar se sentir que faltava algo. Ainda assim, a experiência fora positiva o suficiente para me fazer querer ler “Flores da Ruína”.

Andando pelas ruas de Paris, um homem tenta encontrar respostas para um duplo suicídio ocorrido na década de 30, ao mesmo tempo em que se depara com lembranças de sua própria vida.

Existem muitas características que me fazem admirar esse livro, mas mesmo elas não me fazem gostar dele, o que torna essa uma resenha bem estranha de escrever.

Temos um narrador sem nome, que passeia pelas ruas e encontra em cada esquina uma lembrança. A história que ele conta não acontece, já aconteceu há décadas, mas só temos acessos aos fragmentos dos quais lembra e que não são suficientes para compreendermos tudo. É como se invadíssemos seus pensamentos sem convite, o que o tira da obrigação de nos explicar do que as coisas se tratam. Vamos entrando cada vez mais fundo, mas o caminho não está iluminado porque não éramos esperados. Vamos para 1933, para 1964 e voltamos para o presente (1990), sem avisos prévios e interrupções. A narrativa flui da mesma maneira como a memória passeia.

O suicídio do jovem casal é apenas o ponto de partida. Se no começo esse evento se entrelaça com a história do narrador, aos poucos ele abre espaço para que a história do narrador tome conta. Não encontramos respostas para nada e nisso reside certa beleza. Em “Flores da Ruína” não existem respostas, não existem protagonistas. Existem eventos e uma voz que os conta para o leitor.

Por tudo isso, é muito difícil dizer sobre o que se trata “Flores da Ruína” (tanto que não há sinopse no livro, apenas um trecho do texto na contracapa e um comentário de Eurídice Figueiredo na orelha).

A sensação que fica é que o livro tem mais atmosfera do que conteúdo. É como se o autor quisesse captar uma essência, mas sem aplicá-la a situações. Isso é um problema? Não exatamente, mas torna muito difícil se envolver com a história visto que não há uma.

Ainda assim, há outros méritos. Com um texto belo e poético, Modiano evoca sensações e sentimentos mesmo que não conte uma história nos moldes tradicionais (com eventos e personagens bem definidos). Nesse caso o que temos é um narrador que não pode ser considerado um protagonista já que o fato de ele contar uma história parece ser mais importante do que o de tê-la vivido. Quanto aos eventos, eles parecem estar pela metade na última página, mas também já pareciam estar pela metade na primeira. O que temos acesso é uma fatia e mesmo ela não está delimitada, dando voltas e voltas.

Ao caminhar como que em um labirinto, encerrei a jornada me sentindo ainda meio perdida, buscando algo que não sabia exatamente o que era e me parece que esse é exatamente o tema do livro: as incertezas que temos e as respostas que buscamos sem nunca encontrar.

Assim como ao terminar “Uma Rua de Roma” fico com a sensação de que gostei de algumas coisas em “Flores da Ruína”, mas que não gostei totalmente do livro embora tudo que eu constate sobre ele me indica que eu deveria ter gostado. Quem sabe um dia ainda goste. Por enquanto, interrompo minha história com Modiano, mas ainda pretendo reler esses livros. Talvez sob outra luz, ou com outros olhos, eu encontre essa fagulha que ficou faltando.

Título: Flores da Ruína (exemplar cedido pela editora)
Autor: Patrick Modiano
Nº de páginas: 144
Editora: Record

17 comentários:

Soraya Abuchaim disse...

Não conhecia esse livro e nem o autor, mas confesso que sua resenha ficou primorosa, e me deixou muito curiosa.
Primeiro porque falou de mortes, o que já me anima (hahaha), mas o fato de parecer que tudo fica nas entrelinhas, subentendido, me fez adorar o estilo dele.
Acho que fico tão cansada de histórias óbvias que quando me deparo com algo dessa magnitude (porque foi o que senti com sua resenha, não sei se era sua ideia), tenho vontade de aclamar o autor.
Se eu puder indicar um livro que me marcou demais também com estilo diferente (embora não parecido com o de Modiano), eu indico "A base do Iceberg", livro de estreia do autor brasileiro Flavio Sanso. Sou a maior fã dele, e tem resenha no blog, caso tenha interesse. Não sei se é seu estilo, mas você parece gostar das mesmas coisas que eu rs.
Beijinhos

Meu Meio Devaneio

Milena Nones disse...

Olá! Não conhecia o livro ainda. Nunca tinha ouvido falar, mas a premissa me pareceu ser bem interessante. Parabéns pela resenha

Beijos
albumdeleitura.blogspot.com.br

Helena Cintra disse...

Oi, Mari.
Adorei sua resenha, acho que passou bem a sensação que o livro te passou... uma angústia, uma curiosidade, muitas dúvidas!
Bjos,
Helena

http://doslivrosumpouco.wordpress.com

Luana Moser disse...

Olá,
Parabéns pela resenha.
Eu gostei da sinopse até e me senti atraída pela capa,
Porém, pela sua resenha, fiquei com um pé atras. Acho que não será o tipo de livro que irá me prender.
Beijos.

http://www.leituradelua.com

Kamila Villarreal disse...

Olá!

Meu sonho é conseguir ler alguma obra dele!! Sei que é um dos melhores - se não fosse, claro que não teria ganhado o Nobel, rs mas com a resenha acabei ficando confusa, mas vou dar uma chance pra ele.

resenhaeoutrascoisas.blogspot.com

Diane disse...

Achei bastante interessante "Flores da ruina" . Com certeza quero ler :)
As caracteristicas citadas por você na resenha me fizerem querer ler logo esse livro !

http://coisasdediane.blogspot.com.br/

Gabriela CZ disse...

Tento imaginar como você sentiu lendo esse livro e como eu me sentiria lendo um livro com essas características, Mari. Não sei se conseguiria ler algo que não conseguisse me envolver por falta de uma história em si. Mas como você disse que o texto tem lá sua beleza, quem sabe um dia? Ótima resenha.

Abraço!
http://constantesevariaveis.blogspot.com.br/

Claudia Leonardi disse...

OI Mari
Te entendo bem, tem livros que tbe nao sei dizer se gostei 100% ou não...fica duvida.
A expectativa é mesmo sempre complicada, ne?
Adorei sua visita :)
Bjks mil

www.blogdaclauo.com

Luis Carlos disse...

Quando eu vi no começo que se tratava de um homem que tenta procurar resposta para suicídios, eu fiquei interessado. Porém, vi que o livro não é bem o que eu imaginava. Apesar de você ter gostado, mas achado que faltou algo, eu achei bastante interessante. Provavelmente, você ficou assim porque leu com muitas expectativas!

Maisanara F. disse...

Oi, não conhecia o autor. A capa chama um pouco a atenção e quando você lê que o narrador está tentando desvendar o mistério dos suicídios, imagina que seja um thriller policial, porém, depois de ler sua resenha dá para entender que não tem nada a ver. Talvez leia-o, mas agora estou hesitante. Bjus

Nadja disse...

Pela resenha percebi como esse livro deve ser confuso, acho que talvez seja porque não estava preparada para ler esse livro, isso aconteceu comigo ano passado, me encantei por um livro que tinha apenas uma frase tão misteriosa e ao mesmo tempo reveladora como sinopse e mergulhei na leitura, mas eu não captei a nostalgia da história, senti a essência assim como você sentiu nesse livro, mas não a compreendi, fiquei perdida sentindo que o livro tinha mais do que eu consegui descobrir. Acho que deve fazer exatamente o que disse no final da resenha aposte nesse livro em outra época da sua vida e eu também lerei o livro que me prendeu pela sinopse.
Beijo.

DominO Simmons disse...

nossa que resenha show... te entendo ... comigo também acontece isso de não sentir tudo o que o livro pode me passar com apenas uma leitura, para isso eu decido se vale a pena reler ou não! Mas ai fica caso a caso!
Beijos enormessss
:D
http://cantodadomino.blogspot.com/

RUDYNALVA disse...

Mari!
A mim pareceu mais um livro filosófico, daqueles que ficamos buscando os porquês das coisas e questionando os fatos e acontecimentos.
Interessante sentir a vibração de um livro bom ao tempo que não é tão objetivo e nos faça ficarmos perdidos e sem definir se nos fez tanto bem ou não.
No momento não é uma leitura para mim.
Feliz dia das mães!!!!
“Às mães de todo planeta, Ofereço o brilho de um cometa, Para tal beleza comparar, Sem jamais pestanejar, Por Deus abençoada, Por Maria imaculada, De seu ventre surge a vida, Mãe tu és consagrada.”(Marcos G. Aguiar)
Cheirinhos
Rudy
http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/

Cecília Vieira disse...

A sua resenha me deixou curiosa, mas não sei se gostaria da leitura. Sei lá, acho que ficaria com a sensação de que está faltando alguma coisa, sabe? E eu gosto de personagens bem definidos, então acho que isso acabaria me incomodando durante a leitura. De qualquer forma, vou anotar aqui. Vai que dá vontade de ler, né?
Beijos.

Ju Ribeiro disse...

Nunca tinha ouvido falar desse livro ou do autor, mas pareceu bem interessante pela maneira que você colocou. Sei bem como é essa sensação de não saber definir o que achou de determinado livro, hahaha!

Beijo!
http://www.raciocinacomigo.com/

Nardonio disse...

Que estranho. Não me lembro de ter lido algo em que a atmosfera fosse mais intensa do que o conteúdo. No mais, achei essa estrutura bastante confusa, com essas jogadas com o tempo e sem personagens definidas. Enfim, isso acabou ligando a luzinha da curiosidade em mim. Espero ler algum dia.

Seguidor: DomDom Almeida
@_Dom_Dom

Ana I. J. Mercury disse...

Huuum, esse não me chamou tanto a atenção, preciso de mais detalhes!!! kkk
Porém, parece ser aquele livro que te dá mais sensações, refletimentos e boas ideias, no entanto, ele em si só, não é tãao desenvolvido e trabalhado.
A capa é espetacular!!
bjos

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