sexta-feira, 19 de junho de 2015

RESENHA: Toda Luz Que Não Podemos Ver

“— Seu problema, Werner, [...] é que você ainda acredita que sua vida lhe pertence.” (DOERR, 2015, p. 277)

***

Ano passado vi o livro Toda Luz Que Não Podemos Ver entre os mais vendidos da Amazon americana, sendo que a recepção do público e da crítica foi calorosa. Neste ano o livro foi laureado com o prêmio Pulitzer de Literatura, o que apenas aumentou minha curiosidade para conferir a obra de Anthony Doerr.

Werner é um órfão com um talento inato para concertar rádios, habilidade esta que lhe rendeu uma vaga em uma escola nazista que preparava os adolescentes para a guerra. Ainda antes de se formar, Werner recebe a missão de encontrar as fontes das transmissões de rádio dos Aliados. Marie-Laure ficou cega aos seis anos, e seu pai fez de tudo para adaptá-la ao mundo sem precisar da visão. Quando a guerra chega a Paris, eles buscam refúgio na cidade litorânea de Saint-Malo.

A meu ver, o principal problema de Toda Luz Que Não Podemos Ver consiste em seus capítulos curtos (que geralmente não passavam de cinco páginas) e na alternância do ponto de vista entre os personagens principais. O resultado foi uma narrativa fragmentada, a qual não conseguiu me envolver com a estória, tampouco me conectar com os protagonistas. 

O autor alterna entre o presente — que se situa no desfecho da Segunda Guerra Mundial — e o passado — mostrando a sucessão de eventos que iriam culminar com o encontro daqueles personagens. Ou seja, livro se foca na jornada deles. Entretanto, para que uma obra nesse estilo funcionasse, era necessário que a jornada fosse empolgante, o que não é o caso. Os episódios relatados não eram significantes, pois consistiam em um mero “relato de viagem”, mostrando o que aconteceu para levar os personagens do ponto A ao ponto B. 

A partir do momento em que o cerne da obra é a jornada, e que os eventos narrados não se revestem de nenhuma excepcionalidade, minha expectativa voltou-se para os personagens. Imaginei que iria ver uma abordagem psicológica, mostrando o desenvolvimento deles, mas também não foi o caso. O que vi foi um grupo de pessoas vivendo em uma situação extrema e apreendendo a lidar com os problemas oriundos desse contexto, mas não vi evolução, nem amadurecimento. 

Some-se a este quadro que a narrativa de Doerr é extremamente descritiva, o que apenas corrobora a minha impressão de que os episódios narrados na vida daqueles personagens eram insignificantes. E já que não havia estória para contar, o autor se põe a descrever tudo com riqueza de detalhes. Permita-me exemplificar: 

“Além da janela coberta com papelão, gotas de chuva caem de um céu tingido de prata. Uma pomba cisca na sarjeta gritando hu hu hu. Lá na enseada um esturjão dá um único salto, como um cavalo prateado, e desaparece.” (p. 372).

Me pergunto qual era a importância do leitor saber que as gotas caiam não de um céu normal, mas tingindo de prata. Ou que o barulho que a pomba fazia era hu hu hu. E pior ainda: que o esturjão (uma espécie de peixe) pulou no mar. Mas veja bem, não foi um salto comum. Foi como o salto de um cavalo. E não de um cavalo qualquer, mas prateado. Fica claro que tais informações se mostraram completamente desnecessárias para o desenvolver da estória, e me pareceram estar inseridas no texto com o único propósito de “encher linguiça”. 

O final tampouco me convenceu. Quando a vida destes personagens finalmente se cruza, a motivação de um deles para agir da forma como agiu simplesmente não faz sentido, ainda mais considerando o que estava em jogo. É claro que há várias explicações implícitas, mas nenhuma delas se mostrou o suficiente, de modo que faltou verossimilhança. 

Estes fatores criaram um livro cuja narrativa é monótona e morna, que não prende a atenção, nem empolga. O único motivo pelo qual eu não abandonei a leitura do livro se resumiu a um dos personagens coadjuvantes, que manteve-se envolvido em uma aura de mistério, e que sempre despertava o meu interesse quando de sua aparição na estória. 

Creio que Anthony Doerr criou uma estória simples, com poucas reviravoltas e com episódios irrelevantes, por que não queria tirar o brilho de sua mensagem. Mas no afã de criar uma obra extremamente impactante, esqueceu de todo o resto. E esquecendo do resto, a mensagem perdeu o impacto. 

Título: Toda a Luz Que Não Podemos Ver (exemplar cedido pela editora)
Autor: Anthony Doerr
N.º de páginas: 526
Editora: Intrínseca

23 comentários:

Markus Andrez disse...

Oii! Eu já nao me interessava muito por esse livro. Adorei sua resenha, super detalhista e sincera!
Beijo
mundoemcartas.blogspot.com.br

Gabriela CZ disse...

Queria ler esse livro porque parecia ter uma história bonita e profunda, mas pelos seus comentários me pareceu que o autor escolheu um tema incrível e o tratou de forma superficial, Alê. E que descrição bizarra é essa? Ser detalhista é uma coisa, mas isso aí é absurdo! Pior que agora ficarei tentando imaginar como um peixe pode saltar como um cavalo, se é que isso é possível. Ainda mais um prateado, se é que faz diferença. Vou já tirar esse livro da lista de desejados. Bem, ótima resenha.

Abraço!
http://constantesevariaveis.blogspot.com.br/

Cabine de Leitura disse...

Saudades de suas resenhas Alê e com a mesma essência de sempre.
Gosto da sua sinceridade e realmente estórias assim não prende a tenção de muitos leitores, pelo trecho destacado por você tenho uma leve impressão de que o autor tentou poetizar o enredo, o que não caiu muito bem rsrs.

Beijos e bom final de semana.
http://cabinedeleitura1.blogspot.com.br/2015/06/resenha-palavras-alem-de-mim-quando.html

The Nice Age disse...

Oi Alê!

Adorei sua resenha, detalhista e muito sincera. Não tinha interesse nesse livro e agora com certeza passarei longe.

Beijos!

Cintia
http://www.theniceage.blogspot.com.br/

Pâm Possani disse...

Nossa!

Pela capa bonita e o tema de segunda guerra pensei que fosse diferente :I
talvez eu leia algum dia,,, rsrs
opa!
Um beijo!
Pâm - www.interruptedreamer.com

rafaela disse...

Eu comprei esse livro essa semana, só estou esperando chegar, e agora me arrependi de ter comprado :(
Eu imaginava que o livro era bem melhor. Já que eu já vou ter o livro, talvez eu até leia ainda, mas vai demorar bastante pra começar ele...
Beijos!

nathalia silva disse...

Nossa, pensei que esse livro era maravilhoso, vi uma propaganda bem mais que positiva do pessoal de editora. Sobre os dialogos curtos, eu até gosto sabe? Só acho um pouco ruim quando é narrado por vários personagens. Sobre esses detalhes que você apontou, realmente são bem insignificantes. É uma pena que o livro pecou nesses detalhes...

bju
http://ventoliterario.blogspot.com.br/

Maisanara F. disse...

Nossa, acho que agora não vou ler esse livro. Achava que fosse muito boom mas tenho certeza de que vai ser muito chato.

Carla disse...

Oie!
Meu deus, eu estava esperando tanto do livro... bom saber disso que assim, quando começar a leitura, eu não não me surpreendo.
Bjks!
http://www.historias-semfim.com/

Tony Lucas disse...

Oi, Alexandre! Tudo bem? Desde que eu vi esse livro eu não me interessei por ele, sabe? Dos lançamentos da Intrínseca esse foi o que menos me interessei. Não dei bola alguma para ele e pelo visto, fiz uma boa escolha! Acredito que iria demorar uma eternidade para ler esse livro que ao meu ver é bem cansativo. Adorei a resenha! :)

Abraço

http://tonylucasblog.blogspot.com.br/

Jéssica Soares disse...

Oi, Alê! Tudo bem?
Eu adoro o título desse livro e acho a capa maravilhosa, mas é uma pena saber que o conteúdo não é tão incrível como esperava. Eu estava cheia de expectativas, mas é difícil mantê-las frente a encheção de linguiça (totalmente desnecessário esse trecho que você comentou) e personagens que não evoluem. Aliás, eu até suportaria a narrativa descritiva se houvesse desenvolvimento dos personagens. De qualquer forma, é bom saber sua opinião, caso leia "Toda luz que não podemos ver", irei esperar bem menos da trama. Abçs
Jéssica - http://lereincrivel.blogspot.com.br/

Liih Ferreira disse...

Eitchaaa que fechamento foi esse ha, ha. Cara agora fiquei triste com o livro oh. Realmente algumas coisas das que você citou são muito toscas. Só achei a do céu de boas kkkk e claro que depois dessa não lerei. Detesto histórias que exageram na descrição sério. Acabo ficando entediada.

Inquietudes Secretas

Luis Carlos disse...

Não fiquei interessado pela obra por ver a sua opinião, pois eu não gosto de livros que não me cativa, porque a leitura acaba ficando chata!

Carol Cristina disse...

Hahahahaha, ri muito aqui com vc explicando a citação do pombo!
Poxa vida, é uma pena q vc n gostou tanto do livro =/ Ele ainda está na minha lista de desejados, mas já fiquei com um pé atrás... Nem o final valeu a pena?
Bjs
http://acolecionadoradehistorias.blogspot.com

Karina Valshe disse...

Esperava mais desse livro =/ Parecia ter um grande potencial, porém foi muito mal desenvolvido e infelizmente, não arriscarei a leitura.

Nardonio disse...

Bem, esse livro já não tinha chamado a minha atenção e, depois de ler essa resenha, percebi que não estava errado. Até gosto de capítulos curtos, mas narrativa descritiva demais não é comigo. E quando percebo que tem encheção de linguiça, a coisa só piora. Enfim, esse eu passo!

Seguidor: DomDom Almeida
@_Dom_Dom

Milena Soares disse...

Eu estava bastante interessada em ler esse livro só pela sinopse, e agora depois de ver essa resenha fiquei bastante desanimada.

Mirian Viegas disse...

Olá!
Pela resenha, não me interessei pelo livro. Achei que a história seria mais interessante, pois gosto de histórias que se passam durante a segunda guerra.
Os personagens também não me chamaram a atenção. Não gosto quando o autor descreve demais as situações que ocorrem no livro, pois acho que fica chato, e pelo que foi escrito aconteceu isso nesse livro.

Ana I. J. Mercury disse...

To curiosíssima para ler esse livro!
Amoooo livros que falam de guerra, escravidão, etc.
E esse parece tratar o tema sobre a 2 guerra de uma forma bem intensa e triste.
preciso!!
bjs

Amália Teles Machado disse...

Já tinha visto falar dos prêmios que esse livro ganhou, mas confesso que pela sinopse ele não despertou minha atenção, e agora, depois de ler sua resenha, é que meu interesse pelo livro foi a zero. Não gosto de livros que não cativam e que perdem tempo com narrativas desnecessárias.

Karolyne K. disse...

É muito chato quando um livro que é tão bem comentado não te agrada 100%.
Quando um livro não consegue fazer o leitor se conectar com os personagens, a leitura fica muito chata =/

Cecília Vieira disse...

Mesmo não sendo um livro tão impactante e cheio de reviravoltas, espero ler em breve, já que costumo ler tudo ambientado na Segunda Guerra. É uma pena que ele não tenha te agradado totalmente, mas acho que tem tudo para me encantar pela mensagem que traz.

Elaine Cristina disse...

Acabei a leitura do livro poucos dias atrás. Mesmo sendo bem detalhista a leitura não foi cansativa para mim. Gostei muito e recomendo, se tivesse que avaliar, daria um 9.

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