quinta-feira, 30 de julho de 2015

RESENHA: A Morte do Pai

“Mas, quando eu me encontrava naquele estado, o futuro não existia, tampouco o passado, só aquele momento, e era por isso que eu desejava tanto vivê-lo, por que o meu mundo, em toda a sua insuportável banalidade, brilhava.” (KNAUSGÅRD, 2015, p. 364)

***

Sempre ouvi muitos elogios à série Minha Luta, do autor norueguês Karl Ove Knausgård, porém, tinha um certo receio, visto que a obra é autobiográfica e seu autor não fez nada de excepcional a ponto de merecer um livro, muito menos seis. Este ano, com o lançamento do terceiro volume no Brasil, resolvi que Knausgård merecia uma chance.

No primeiro livro da série, Knausgård relembra episódios de sua juventude, tendo como cerne a trajetória decadente e destrutiva de seu pai, bem como as consequências da morte dele em sua vida. Ao mesmo tempo, o autor compartilha seus pensamentos de sua vida presente, como a rotina familiar, seu receio da paternidade e suas ambições literárias.

Fica claro para o leitor, logo nas primeiras páginas, que Knausgård deu início a série Minha Luta de uma forma despretensiosa. Minha sensação era de que ele sentou-se em frente ao computador e deixou-se levar pelas memórias e reflexões que surgiam em sua mente. E é este fator, a liberdade para escrever, que faz de A Morte do Pai um livro memorável, mesmo partindo de uma premissa que tinha tudo para dar errado.

De certa forma, Knausgård subverte a literatura. Primeiro, por que o autor contava com apenas 40 anos quando da publicação do livro e sua vida é tão comum que chega a ser um pouco presunçoso de sua parte escrever uma autobiografia. Segundo, por que Knausgård não se importa com a forma e a estrutura do livro. O autor não segue uma ordem cronológica, misturando episódios da infância com os da adolescência e da vida adulta. De certa forma, não há o que se pode chamar de início, meio e fim. A única regra do autor é a brutal honestidade, e é isso que faz o livro ser tão verossímil.

O ponto alto são as reflexões de Knausgård sobre os mais diversos assuntos, desde morte, vida, amadurecimento e até mesmo sobre a vida de escritor. É interessante ver que todas essas reflexões partem das experiências do autor, de modo que tais temas não são abordados por um ponto de vista teórico, mas prático. Ainda, fica nítido a despretensão do autor, pois ele não escreve tentando causar um grande impacto ou levar o leitor a uma grande epifania. Pelo contrário, ele apenas compartilha seus pensamentos, e é isto que impacta o leitor.

O pai de Knausgård é a principal constante no decorrer do livro, seja por sua presença física, seja por sua sombra pairando sobre a vida do autor. A relação entre pai e filho é explorada com sutileza, mostrando as inúmeras facetas deste relacionamento distante e frio. Creio que uma das motivações do autor em escrever o livro foi tentar compreender melhor quem era seu pai e lidar com seus sentimentos latentes, mesmo tantos anos após o falecimento dele.

Causa uma certa estranheza o fato do livro não ser dividido em capítulos, mas em duas grandes partes. A primeira se limita aos episódios da infância e da juventude, enquanto a segunda encara os eventos da vida adulta, em específico os preparativos para o funeral. A narrativa é extremamente envolvente, a ponto de me ver refletindo sobre o livro no decorrer do dia e esperar ansiosamente para retomar a leitura.

Minhas únicas críticas se limitam ao excesso de descrições que ocorrem em alguns trechos do livro, assim como a parte destinada ao funeral. Neste momento, o texto assume um caráter ainda mais introspectivo, focando nas emoções do autor, visto que não há muitos acontecimentos a serem narrados.

Admito que fiquei impressionado ao ver como A Morte do Pai é um livro que funciona, e minha teoria é de que funciona por causa da liberdade que o autor se deu. Acredito que se Knausgård tivesse planejado escrever uma grande biografia, contando causos da sua vida intercalados com profundas reflexões, o resultado seria desastroso.

Encerro dizendo que já ouvi um crítico dizer que A Morte do Pai é um livro sobre nada. Não concordo com tal juízo, mas se A Morte do Pai é um livro sobre nada, tenho certeza de que este foi o melhor nada sobre o qual já li.

Título: A Morte do Pai - Minha Luta 1 (exemplar cedido pela editora)
Autor: Karl Ove Knausgård
N.º de páginas: 402
Editora: Companhia das Letras

14 comentários:

Ju M disse...

Ainda não conhecia essa série, e nem lembro de ter ouvido falar desse autor. Não curto muito ler biografias, mas esse livro parece ser bem interessante e reflexivo. Esse autor deve ser muito bom, pois não é fácil pegar uma vida normal e sem grandes acontecimentos e transformar em bons livros.

Kamila Villarreal disse...

Olá!

Esse autor deve ser muito habilidoso com as palavras, porque escrever um livro memorável sobre nada, sobre sua vida comum, significa que há todo um brilho especial que o autor mostrou durante o registro de sua vida.

resenhaeoutrascoisas.blogspot.com

Gabriela CZ disse...

Não conhecia essa série e confesso que se viesse a descobri-la de outra forma talvez também não tivesse interesse. Mas seus comentários foram bem pertinentes, Mari. Parece que autor construiu uma verdadeira série de livros de memórias, e o que a torna especial é a falta de pretensão. Acho que daria uma chance. Ótima resenha.

Abraços!
http://constantesevariaveis.blogspot.com.br/

Tamara Costa disse...

Tenho uma amiga que leu esse livro e passou meses falando bem dele, ouvi boas críticas mas não tinha lido nenhuma resenha mas também achei estranho um romance autobiográfico de alguém desconhecido. Por mais que tenha sido bem escrito, no momento a história não me chamou...

Tony Lucas disse...

Oi, Alexandre! Tudo bem? Ainda não conhecia a obra, mas gostei de conhecê-la. Geralmente eu não leio obras desse gênero, mas curti a premissa de "A Morte do Pai", e os seus comentários só me fizeram ficar ainda mais empolgado para ler o livro. Adorei a resenha! :)

Abraço

http://tonylucasblog.blogspot.com.br/

Ariane Reis. disse...

Oie Ale =)

Não conhecia o livro e nem o autor, mas uma das coisas que mais adoro é perceber o quando um blogueiro realmente se envolveu com o livro. E isso está bem visível em casa palavra sua.

Confesso que o seu paragrafo final me deixou bem curiosa, para conhecer esse "nada" rs...

Adorei a dica ;)

Beijos e um ótimo final de semana;***

Ane Reis.
mydearlibrary | Livros, divagações e outras histórias...
@mydearlibrary

Ana Clara disse...

Oi Alê!

Eu gosto muito de biografias/autobiografias. É um dos meus gêneros literários preferidos, tanto que leio biografia de qualquer pessoa, mesmo sem conhecê-la. Nunca ouvi falar sobre Karl Ove Knausgård, mas fiquei interessado pela sua obra justamente pelo fator citado acima. Sabe, às vezes acho que as coisas mais simples podem render grandes histórias.

Beijo!
http://www.roendolivros.com/

RUDYNALVA disse...

Alê!
Perdoe-me a ignorância, mas nunca ouvi falar do autor, aliás, que nome é esse, pelo amor de Deus?!...
E sinceramente, não ando em fase boa para uma leitura desse nível, reflexiva e sem muito rumo.
“A preguiça é a mãe do progresso. Se o homem não tivesse preguiça de caminhar, não teria inventado a roda.”(Mario Quintana)
cheirinhos
Rudy
http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
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Thamiris Dondóssola disse...

Olá Alê,
Pelo que pude perceber com os primeiros parágrafos da sua resenha, o autor tem uma forma de escrever única, sem se importar com regras, salvo o fato que você mencionou. Gosto quando leio livros que me fazem refletir (sem que eles tenham sido elaborados para isso). O seu último parágrafo foi o clímax para que eu ficasse interessada nesse livro. Parabéns pela ótima resenha!

Sucesso! Tão doce e tão amarga.


Caverna Literária disse...

É estranho o livro não ter capítulos e por isso mesmo ele se tornar mais agradável. Pela impressão que tive não me agradaria muito, ainda mais por ser uma história mais baseada na rotina do dia a dia, mas só se aventurando pra descobrir né. Ótima resenha!

xx Carol
http://caverna-literaria.blogspot.com.br/
Tem resenha nova de "No Mundo da Luna" no blog, vem conferir!

Carina Pontes disse...

Olá!
Eu não conhecia essa série, mas ela parece ser realmente boa e bem forte. Acabei me interessando e vou procurá-lo...
Beijos Carina.

www.carinapontesss.blogspot.com

Andresa Linhares disse...

Olá, tudo bem?

Não conhecia essa série, nem o autor.
Essa parece ser bem interessante, o autor é muito habilidoso com as palavras e nos faz transmitir certas emoções. Parabéns pela resenha, você fez um verdadeiro passeio pela história!

Beijos, And!

Blog Cantinho da And

Dan Igor disse...

Oiê, tudo bom ?! :))

Te marquei em uma tag, para você poder repassar. Espero que goste dela! Abraços ;))
http://bookdan.blogspot.com.br/2015/08/tag-complete-frase.html

Cleni Accorsi disse...

Li todos da tetralogia. Fiquei encantada com escrita do autor. É literatura da boa. É muito interessante a maneira como, despretensiosamente, Karl Ove nos faz querer saber mais de seu universo, às vezes tranquilo e noutras vezes doloroso. Amei. [Gostei da sua Resenha]

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