sexta-feira, 30 de outubro de 2015

RESENHA: Sobre Meninos e Lobos

Sobre Meninos e Lobos Mystic River Dennis Lehane
Sempre me intrigou que, mesmo sem apontar defeitos nos livros de Dennis Lehane e reconhecendo que suas tramas e personagens tinham tudo para entrar no rol dos meus favoritos, eu não conseguisse gostar de verdade dos três livros que havia lido do autor. Mas, por alguma razão, eu sempre soube que haveria algum que mudaria isso. Eis “Sobre Meninos e Lobos”, um suspense de tirar o fôlego não por reviravoltas, nem por um ritmo alucinante, mas pelo buraco que deixa na vida do leitor depois da última página.

Quando crianças, Jimmy, Sean e Dave eram bons amigos. Isso até a manhã em que dois policiais levaram Dave embora como reprimenda por uma briga de rua entre os meninos. Quatro dias depois, Dave retorna e nada mais será como antes. Na hora os meninos não perceberam, mas policiais de verdade não teriam agido daquela forma. Agora eles sabem que alguma coisa estava errada e ninguém quer falar sobre o que os homens fizeram com Dave. O episódio faz com que se separem, mas vinte e cinco anos depois, o caminho dos três amigos volta a se cruzar quando a filha de Jimmy é assassinada e Sean, agora um detetive, é encarregado de solucionar o crime que ocorreu na mesma noite em que Dave chegou em casa coberto de sangue.

A carga dramática que será a marca essencial de “Sobre Meninos e Lobos” está presente desde as primeiras páginas. Em poucos parágrafos, Lehane já nos mostra quem são esses meninos e que neles está a semente para os homens que se tornarão.

A narrativa em terceira pessoa não deixa a desejar em nada ao nos fazer conhecer o íntimo desses personagens focando não apenas nos três meninos, mas também nas esposas de Jimmy e Dave, em especial na desconfiança dessa última sobre o que o seu marido possa ter feito.

Uma sacada genial de Lehane é fazer o leitor desconfiar de um personagem de quem ele sente pena. Sabemos o que aconteceu com Dave na infância, sabemos do trauma que ele carrega e não queremos mais sofrimento em seu caminho, mas também não seremos capaz de aceitar caso ele tenha assassinado uma pessoa inocente. Você se pergunta se ele teria sido capaz, ou porque teria feito, mas no fundo não quer saber a resposta.

Pungente, desesperançoso e até mesmo melancólico,Sobre Meninos e Lobos” é um suspense desprovido de senso de urgência, o que torna tudo mais denso. E para que apressar as respostas quando você sabe que as coisas não irão acabar bem? Quando digo isso, não quero dizer que se pressente uma grande tragédia no futuro dos personagens, mas sim que nada os salvará deles mesmos, da vida que se construiu ao seu redor. Jimmy quer saber porque e por quem sua filha foi assassinada, mas a resposta não será o fim do seu sofrimento. Não queremos que Dave precise encarar a prisão, mas mesmo inocente e livre, isso não faz dele um homem feliz porque seu tormento jamais chegará ao fim. Sean é, sem dúvida, o menos trágico dos três, mas também enfrenta seus demônios, entre eles a culpa de ter deixado o amigo entrar no carro com aqueles homens. Eles eram apenas crianças, mas não deveriam saber que havia algo errado? Uma parte deles não sabia? Afinal, por que ele e Jimmy não foram junto?

“Era aquilo que se levava consigo por toda parte (...), a consciência exasperante de que as pessoas eram repulsivas, de que as pessoas eram estúpidas e más, muitas vezes tinham instintos assassinos, abriam a boca somente para mentir, e quando se encontravam desaparecidas sem nenhum motivo plausível, normalmente eram achadas mortas ou num estado ainda mais terrível.” (LEHANE, 2004, p.165)

A impressão que se tem é que a história já existia muito antes da primeira página e que continuará bem depois da última. O livro que temos em mãos nada mais é do que uma janela que se abre e nos permite uma espiada - e apenas excelentes autores são capazes disso.

É comum acharmos que uma trama policial gira em torno da resposta do crime. Em “Sobre Meninos e Loboso impacto do crime na vida das pessoas é muito mais relevante do que saber quem matou ou mesmo porquê. Se pensarmos bem, livros ao estilo “whodunnit” são relativamente felizes, afinal, queremos descobrir a identidade do assassino e vê-lo pagar por seu crime e é isso que recebemos no final. Depois, fechamos o livro e não voltamos a pensar nele. Na trama de Lehane essa é a ponta do iceberg e se já não existia felicidade nas primeiras páginas, nas últimas ela não faz a menor questão de aparecer.

Sem se preocupar com reviravoltas desnecessárias, Lehane encontra outra maneira de arrebatar o leitor que é deixa-lo com a incômoda sensação de que não está no destino de ninguém ser feliz e que não há respostas suficientes para preencher as lacunas das perguntas que nos fazemos. Essa sensação é muito mais chocante do que, por exemplo, o esquartejamento detalhado de um corpo, porque o que nos choca de verdade e que não seremos capazes de esquecer não é a atitude física de um personagem. É sua mente, seu estado de espírito. Sua razão (ou sua falta de) para fazer o que faz, o impacto e as consequências que isso gera. Nada é capaz de apagar essa sensação, mas litros de sangue escorrendo só precisam de produtos de limpeza para nunca mais serem lembrados.

Os personagens são complexos e magnificamente construídos e pouco a pouco adentramos mais em sua psique. Destaque para Jimmy e Dave. Não é à toa que, em 2003, a adaptação de “Sobre Meninos e Lobos” rendeu a Sean Penn e Tim Robbins o Oscar de Melhor Ator e Melhor Ator Coadjuvante, respectivamente. O filme de Clint Eastwood foi indicado ainda a outras categorias, como Melhor Filme e Melhor Roteiro Adaptado. Um raro caso de excelente filme derivado de um igualmente excelente livro.

Título: Sobre Meninos e Lobos
Autor: Dennis Lehane
N° de páginas: 483
Editora: Companhia das Letras

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27 comentários:

Silviane Casemiro disse...

Oi, Mari! Eu li um livro desse autor e gostei bastante da narrativa. Fiquei surpresa quando soube que Sobre Meninos e Lobos é um livro, pois já assisti ao filme e não sabia sobre isso. Fiquei bastante curiosa para ler o livro e espero acabar gostando.

Beijos
SIL ~ Estilhaçando Livros

Milena Schabat disse...

Adorei essa capa, ela é intrigante e me faz ficar interessado no seu significado (saber o que significa a capa é uma das minhas partes favoritas ao ler um livro).

Abraço,
literarizei.blogspot.com

Thalita Branco disse...

Olá Mari!
Excelente resenha! É o unico livro que li desse autor e também adorei!

EntreLinhas Fantásticas

Gabriela CZ disse...

Sabia do filme (embora ainda não tenha assistido) mas não sabia do livro, Mari. Parece mesmo ser uma história bastante profunda e cheia de reflexão. E bem trágica também. Seus comentários me deixaram muito curiosa, quero ler. Ótima resenha.

Abraços!
http://constantesevariaveis.blogspot.com.br/

Tony Lucas disse...

Oi, Mari! Tudo bem? Nossa, que livro mais complexo! Às vezes eu gosto de livros assim, que tendem a se focar no impacto do crime nas vidas das pessoas. E esses personagens parecem ser tão interessantes e complexos... Ah, fiquei com vontade de ler "Sobre Meninos e Lobos"! Adorei a resenha! :)

Abraço

http://tonylucasblog.blogspot.com.br/2015/10/resenha-premiada-muito-mais-que-5inco.html <- Tá rolando promoção do livro "Muito Mais Que 5inco Minutos" lá no blog! ;)

Rose Gs disse...

Olá!!
Nunca li nenhum livro de Dennis Lehane, mais amei sua resenha e percebi que "Meninos e Lobos", é a melhor pedida pra começar a ler os livros dele.
Bjocas

Sil disse...

Olá, Mari.
Quando comecei a ler a resenha já pensei no filme, que alias nunca assisti. Então o livro que com certeza eu lerie depois dessa excelente resenha, será totalmente uma surpresa para mim. A história me pareceu ser ótima. Gosto muito de livros cujas histórias não se prendem as páginas dos mesmos. E eu já estou aqui na maior curiosidade para saber o que aconteceu naquela ida com os caras, para ter moldado a vida deles de adulto.

Blog Prefácio

Caverna Literária disse...

A premissa me lembrou um pouquinho um livro do SK. Adorei a resenha! Parece ser um livro com grande suspense e bem elaborado, fiquei muito curiosa!

xx Carol
http://caverna-literaria.blogspot.com.br/
Tem especial de halloween lá no blog, vem conferir!

Ycaro Brito disse...

Mari, eu não conhecia nenhum livro do Dennis Lehane, mas fiquei feliz apenas em descobrir que era um autor de suspense. Como meu gênero, quase, favorito, não pude deixar de ler a resenha. Sobre Meninos e Lobos me encantou desde inicio, uma bela história de amizade para iniciar qualquer história surpreendente, duvidosa e misteriosa. O foco do assassinato em Dave me impressionou bastante. Quero ler!

Camila Monteiro disse...

Não li esse livro e não vi o filme, mas sua resenha MD deixou curiosa. Eu já ouvi falar muito dessa obra. Vou querer ler antes. Certeza.

>> Vida Complicada <<

Ana I. J. Mercury disse...

Amei sua resenha, ótima como sempre!!
Me deu muitaaaa vontade de ler o livro, mesmo sendo tão triste as coisas que acontecem com esses personagens (porque gosto mesmo é de finais felizes).
Anotado aqui, quando der, lerei sem falta!
bjão

Diane disse...

Oi ...
Fiquei bastante curiosa pela leitura desse livro . Gostei bastante de seus comentários sobre ele .
Beijos

http://coisasdediane.blogspot.com.br/

Ju M disse...

Eu tenho muita vontade de ler esse livro, tanto que todas as oportunidade que tive para assistir o filme, eu rejeitei, quero primeiro ler o livro.

Não tinha ideia do que se tratava, só sabia que queria muito ler, de tantos bons comentários que ouvi. Gostei de ver que é um policial que foge dos clichês, é mais denso e estruturado e que não gira em torno da resolução do crime.

Mariele Antonello disse...

Sua resenha está muito boa, mas sinceramente conhecendo um pouco mais sobre esse livro, acredito que ele não faça muito meu estilo de leituras, e por esse motivo não pretendo lê-lo.

Vanessa Vieira disse...

Gostei da resenha Mari. Parece ser um suspense de prender o fôlego, hein? Já tinha visto comentários a respeito do filme e espero conferir tanto a adaptação quanto o livro assim que possível. Beijo!

www.newsnessa.com

RUDYNALVA disse...

Mari!
Tive oportunidade de assistir o filme e fiquei totalmente extasiada.
O livro deve ser igualmente extraordinário, porque todo suspense que o permeia é conquistador.
“Quem comete uma injustiça é sempre mais infeliz que o injustiçado.”(Platão)
cheirinhos
Rudy
http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
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Evelyn Almeida disse...

A premissa é bem legal, me lembrou um livro que li a um tempo.
Post it & Livros

Luiza Helena Vieira disse...

Oi Mari!
Nossa, que eu estou no chão que o filme era adaptação. Simplesmente amo demais o filme.
Adorei sua resenha e já quero o livro para ontem!
Beijos
Balaio de Babados

Saco Literário disse...

Mari, tenho um desafio pra você! Criei no blog o desafio Book Music, que consiste em relacionar uma música a um livro.
Para entender como funciona, olha lá esse link:
http://sacoliterario.blogspot.com.br/2015/11/ed-sheeran-e-colleen-hoover-no-book.html#more
Vou esperar você fazer por aqui, viu?
Beijão!

The Nice Age disse...

Oi Mari,

Eu sempre fui apaixonada pelo filme. Ele me prendeu do começo ao fim, me fez chorar, me deixou chocada com o final, um misto de emoções. Só tive coragem de assistir uma vez e ainda não tenho estruturas de ler o livro. Mas ele tá sim na minha lista de desejados.

Amei sua resenha, Mari.
Parabéns!

Beijos!

Cintia
http://theniceage.blogspot.com.br/

Ariane Reis. disse...

Oie Mari =)

Pena que o filme não faz jus a livro não é? Esse livro é exatamente como você o descreveu. Nos prende sem precisar de argumentos chocantes e grande reviravoltas. A narrativa nos deixa com um sentimento de melancolia e mesmo assim queremos ler mais.
Sua resenha me deixou com vontade de reler o livro ^^

Beijos;***

Ane Reis.
mydearlibrary | Livros, divagações e outras histórias...
@mydearlibrary

Desbravadores de Livros disse...

Olá, Mari.
Já queria ler esse livro há tempos, sua resenha apenas certificou que eu preciso ler a obra. A premissa é muito boa e eu aprecio essa carga dramática que o autor parece ter utilizado.
Certamente vou conferir o livro.

Desbrava(dores) de livros - Participe do top comentarista de novembro. Você pode ganhar um livro incrível!

Teca Machado disse...

Oi, Mari!
Sabia do filme, mas nunca vi. Na verdade nem sabia que tinha livro.
Mas me interessou muito. Fiquei curiosa.
Ainda mais que você disse que nem é tanto pelas reviravoltas, mas pelo vazio e buraco que fica depois.
Parece ser uma leitura mais pesada, mas muito boa para sair da zona de conforto.
:)

Beijoooos

www.casosacasoselivros.com

Leitora Cretina disse...

Olá, tudo bem?
Assim como muitos, quando comecei a ler a resenha já associei ao filme (que ainda não vi, mas sempre me interessei pela história) e depois de ler a sua resenha a vontade continuou. Como sou aquele tipo de leitor que tem que ler primeiro o livro e depois assistir o filme, esse é um livro que vai entrar para minha lista de leitura. Parabéns pela resenha.

Beijão
http://leitoracretina.blogspot.com.br/

Matheus Braga disse...

Hey, Mari, tudo bem?

Seu blog é um dos poucos que leio por puro prazer e o motivo são textos excelentes como esse. Confesso que não gosto muito de livros que não trazem narrativas frenéticas, ou pelo menos bem dinâmicas, mas fiquei com muita vontade de conferir essa obra, ainda mais por ser tão famosa. Gosto de narrativas em terceira pessoa justamente pela visão de mundo que ela dá, ao contrário das em primeira, que só focam nas percepções e conhecimento de um único personagem.

Você citou um ponto chave que vale para todos os estilos de livro, é muito mais chocante uma narrativa que mexe no íntimo do leitor, do que descrever uma cena de morte ou cena de sexo. Muitos livros hot pecam por achar que sensual é o mesmo que sexual e isso tem uma diferença enorme quando lemos a obra, e o mesmo vale para cenas de ação e terror, não adianta de nada colocar múltiplas explosões ou corpos pendurados sem pele de cabeça para baixo, se o narrador não consegue repassar o sentimento de adrenalina ou medo para o leitor. Vou conferir essa obra o mais rápido possível.

Abraços,
Matheus Braga
Vida de Leitor - http://vidadeleitor.blogspot.com.br/

Eloísa Pompermayer disse...

Oláá Mari,
Nossa, eu conhecia apenas ao filme, mas não sabia da existência do livro, mas agora com toda certeza quero ler, pelo que falou os personagens e da construção da história parece ser ultra estigante... *O*
Foi para WishList haha
Bjoos

Jovem Literário

Ana Paula Laux disse...

Adorei a resenha! Uma das melhores histórias de Lehane, e a adaptação para o cinema ficou sensacional. Abs!

Ana Paula
www.literaturapolicial.com

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