sábado, 14 de novembro de 2015

RESENHA: Eu sou a lenda

“Não podia deixar de perceber o quão esquisita sua voz soava. Quando um homem não escuta o som da própria voz por quase um ano, ela soa muito estranha para ele. Um ano era tempo demais para se viver em silêncio.” (MATHESON, 2015, p.200)

Quando um autor como Stephen King diz que um livro foi uma de suas grandes influências, sei que devo ler tal livro.

Robert Neville é, provavelmente, o último homem na Terra. Após uma epidemia que assolou o mundo e transformou a humanidade em criaturas noturnas sedentas de sangue, tudo que resta a ele é tentar manter-se vivo e preservar sua sanidade dia após dia.

A narrativa se dá em terceira pessoa, mas nos permite conhecer o íntimo de Neville. No primeiro capítulo, o autor nos joga em um dia comum do protagonista e na sua rotina para proteger a casa dos ataques que acontecerão à noite. Acompanhamos tudo junto a ele, sentimos na pele o que ele precisa fazer para chegar ao dia seguinte e não são poucas as vezes em que nos perguntamos (assim como o personagem se pergunta) o que o faz continuar vivo. Afinal, se ele se mantém vivo apenas para continuar tentando sobreviver, não seria mais fácil desistir de tudo?

Visto que o protagonista está sozinho no mundo e, portanto, não interage com ninguém, tudo o que a narrativa tem para explorar são os seus pensamentos e suas ações. Mas, acredite, isso não é pouca coisa já que Neville vive uma situação extrema e tudo que ele sente (saudade, raiva, tristeza, vazio) é intenso. E se por um lado temos a solidão do personagem, por outro temos um grupo de personagens aterrorizantes que o perseguem. Um homem solitário e uma multidão. O silêncio e a algazarra. O tédio e o medo. A calmaria e a violência. As dicotomias estão presentes onde quer que se olhe, fazendo de “Eu sou a lenda” um livro de contrastes que se complementam.

Não é difícil concluir que, em um cenário como esse, sobre pouco a Neville além de manter-se saudável, alimentado e escapar das criaturas infectadas que o perseguem. Em teoria seria monótono e é por isso que me admira como o autor conseguiu manter sua história em movimento da primeira à última página. Além disso, a falta de diálogos e a escassez de acontecimentos são duas coisas perigosas para qualquer livro, mas Matheson consegue fazer “Eu sou a lenda” fluir ao não se ater demais a detalhes e contar a história rapidamente, sem nem por isso deixar de ir a fundo nas questões apresentadas (que vão muito além de um ataque vampiresco), se concentrando nas angústias existenciais do protagonista.

E se você torceu o nariz quando viu que os grandes vilões da história são seres vampirescos, não se preocupe. Matheson adota uma abordagem científica, desmistificando as lendas e dando explicações biológicas para pessoas normais terem se tornado vampiros. Ou seja, tudo é muito diferente do que vemos nos livros e filmes. Os vampiros querem sangue, não suportam a luz e o cheiro de alho sim, mas essas são meras reações de um organismo contaminado por uma doença.

É ao nos apresentar as pesquisas cientificas de Neville (que busca encontrar uma resposta para, quem sabe, poder curar os infectados) que o autor nos permite entender o que aconteceu e como a situação chegou àquele ponto. Flashbacks pontuais também nos permitem conhecer o passado do protagonista, quando a vida ainda tinha alguma normalidade e ele ainda tinha um trabalho, esposa, filha e amigos.

A trama abrange um período de três anos no qual ocorre uma evolução sutil, mas notável, sofrida por Neville e é impossível não sentir o sofrimento do personagem e, em algum momento, não se imaginar na situação dele. Afinal, uma das coisas mais essenciais para o ser humano é a companhia de outros. Como pode alguém suportar tanto tempo na mais completa solidão? Como se mantem são um homem para quem o som da própria voz ou da própria risada soam estranhos, já que não são ouvidos há muito tempo?

Com uma temática angustiante e um personagem que luta para preservar sua humanidade enquanto tudo que lhe permite ser humano lhe é tomado aos poucos, Richard Matheson cria uma trama que mistura ficção científica, terror e drama.

Essa edição em capa-dura conta com um prefácio assinado por Stephen King, falando sobre a importância de Richard Matheson na sua formação como escritor, e outros dois extras, entre eles uma entrevista com o próprio Matheson.

Em 2007, “Eu sou a Lenda” ganhou uma adaptação cinematográfica protagonizada por Will Smith. Essa foi a terceira vez que o livro foi levado para as telas de cinema.

Título: Eu sou a lenda (exemplar cedido pela editora)
Autor: Richard Matheson
N° de páginas: 384
Editora: Aleph

25 comentários:

Maurilei Teodoro disse...

Eu sou a lenda está na minha lista de leituras para o ano que vem. Estou a procura de um livro sobre vampiros que eu goste tanto quanto Salem do King. Drácula chegou perto, e acho que Eu sou a lenda e a trilogia A Passagem talvez supere Salem.

bomlivro1811.blogspot.com.br

Carolina Garcia disse...

Oi, Mari!!

Esse livro está entre os meus desejados há séculos, mas ainda não comprei.
Sua resenha está ótima e me deu mais vontade ainda de lê-lo.

Eu ficava imaginando como seria a história sem diálogos já que o cara está sozinho no mundo, mas pelo visto isso não é problema algum.

Assisti somente à última versão cinematográfica, com o Will Smith, e gostei bastante. Mas não posso comparar até ver as outras duas também, né?

Bjs

livrosontemhojeesempre.blogspot.com.br

Maria Silvana Santana disse...

Olá, vim visitar =)
Menina, menina... definitivamente é um livro que não consigo ler, nem o filme consegui vê, sou muito medrosa com esse gênero, cagona mesmo ;s

Beliscões da Máh <3
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RUDYNALVA disse...

Mari!
Indicação de King não podemos desprezar.
Minha dúvida não é porque viraram vampiros através da epidemia, ou os questionamentos do protagonista em relação a continuar vivendo. Minha dúvida é: por que o protagonista não vira vampiro também? O que aconteceu para ele ficar humano...
Assiti a versão do filme com Will Smith e gostei.
“Só é lutador quem sabe lutar consigo mesmo.”(Carlos Drummond de Andrade)
cheirinhos
Rudy
http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
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Karina Valshe disse...

Eu sou a lenda é um dos meus desejados e pretendo ler no próximo ano, se nada atrapalhar. Sendo indicado por Stephen King, creio que não devemos desprezar a obra sem conhece-la.
Admito que fico curiosa para saber como uma história conseguiu fluir tão bem não havendo diálogos e não muitas ações, mas creio que a narrativa do autor e o modo como ele envolve o leitor com o protagonista são dois elementos que explicam muito bem o porquê dessa trama, que poderia ser cansativa a um primeiro olhar, conseguiu tamanho sucesso.
Não curto muito vampiros, eis a verdade, mas como não estamos em contato com a mitologia e sim com uma doença nesse livro, creio que não será um problema.
Abraços

Ycaro Brito disse...

Olá, Mari. Quando soube que Eu Sou a Lenda era uma inspiração para o mestre Stephen King fiquei, também, muito curioso em relação a leitura. Com o inicio da resenha, fiquei extremamente receoso sobre a história, pois como um autor conseguiria tornar uma leitura fluída com um personagem solitário e seus monstros perseguidores? Mas, com o desenvolver da mesma, fui percebendo que a narrativa não torna-se cansativa e é dado um ar sombrio e de agradável leitura a cada página. Eu Sou a Lenda entrou para os meus desejados.

Ana Clara disse...

Oi Mari!

Primeiro eu preciso dizer que a Aleph arrasou nessa edição de Eu Sou a Lenda, viu. Dá vontade de ler só pela beleza do livro, sem nem levar em consideração o tanto que eu adoro temas pós-apocalípticos. E não ligo de as criaturas serem vampiros, cada autor cria um personagem diferente, de jeitos diferentes, então não duvido o tanto que deve ser bom.

Beijo!
http://www.roendolivros.com

Luiza Helena Vieira disse...

Oi, Mari!
Eu estou passada que foi a terceira adaptação do filme oO
Se o King disse que teve influência, eu tenho de ler. Anotei aqui pra adquirir na Black Friday
Curti ser narrado em terceira pessoa. Com esse cenário, seria um desperdício se fosse em primeira.
Beijos
Balaio de Babados

Luiz Paulo Nunes disse...

Esse livro já foi adaptado pelo menos três vezes no cinema. Na ultima recebeu o nome homônimo. Creio eu a ultima sendo a melhor de todas versões também, onde conciliou-se além de um acompanhamento de perto com o autor, pelo que aparece nos extras. Acho essa realmente uma história fascinante.
quatroselos.blogspot.com

Sil disse...

Olá, Mari.
Eu assisti a adaptação com o Will e vou ser sincera em dizer que não gostei muito da história. mas agora lendo a resenha, eu me interessei. Meu receio era o livro ser muito parado por ele estar sozinho, mas como você disse que a história é ágil, eu acho que não terei problemas em ler ele.

Blog Prefácio

Thalita Branco disse...

Olá Mari!
Excelente resenha! A tempos quero ler esse livro e agora a vontade só aumentou!
Bjs

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Gabriela CZ disse...

Descobri a existência do livro apenas no ano passado, e como o filme com Will Smith é um dos meus favoritos fiquei curiosa para conferir a obra original. Sei que nem sempre esse é um dos melhores motivos, mas seus comentários me deram muitos outros, Mari. Fiquei empolgada. Ótima resenha.

Abraços!
http://constantesevariaveis.blogspot.com.br/

Gus disse...

Nossa... ja queria esse livro... mas com essa sua resenha fantasticamente maravilhosa, me pergunto o porquê de eu não ja ter comprado este livro... vou adicionar para comprar no proximo ano (infelizmente :/)

www.cidadedosleitores.blogspot.com

Milena Schabat disse...

Eu assisti ao filme sem saber que existia um livro, acredita? Estou sabendo só agora, depois de ler sua resenha. Fiquei chateada por não ter lido o livro antes =(

Abraço,
literarizei.blogspot.com

Vinicius Correa disse...

Eu já o li faz algum tempo. Gostei bastante, mas na minha opinião a adaptação cinematográfica, aquela com o Will Smith, ficou melhor do que o livro. Mas não sei explicar o porquê... Vá entender uhueheuhe

Será que mudou muita coisa nessa nova edição? Eu li em uma antigona...

Decidindo-se \o/

Não Vivo Sem Livros disse...

Já quero ler. Vi o filme é não sabia que se tratava de uma adaptação. Amei o filme é não espero nada menos que isso do livro,

Adorei a resenha.
Beijos.
Blog Não Vivo Sem Livros

Camila Monteiro disse...

Não li o livro, paeri direto para o filme, mas me arrependi. Imagino o quanto a obra é legal e acredito que ainda vou fazer essa leitura.

Sobre a Mulher Enjaulada, meu, grudei naquele livro porque ficar ANOOOOS presa naquela situação mexeu comigo de uma maneira que nem sei explicar. Hahahaha
Já tô com o outro livro aqui e vou ler ainda esse ano.

>> Vida Complicada <<

Ariane Reis. disse...

Oie Mari =)

Não assisti ao filme, pois um amigo me disse que caso eu tivesse interesse era melhor ler o livro primeiro. A premissa da história me chama a atenção visto que ela narra não é uma realidade assim tão distante do que pode realmente acontecer com todo esse caos que estamos vivendo.
No momento não é o tipo de leitura que estou buscando, mas com certeza é um livro que não pode ser ignorado.

Beijos;***

Ane Reis.
mydearlibrary | Livros, divagações e outras histórias...
@mydearlibrary

Mih Prado disse...

Olá Mari! Confesso que apesar de já ter visto o filme, não conhecia o livro, no inicio não tive muito interesse pelo livro,mas no decorrer da sua resenha, minha ideia sobre ele foi se desfazendo e minha vontade de realizar a leitura aumentou.Pois um livro com uma temática assim e ainda mais não ser monótono nos atiça a curiosidade. Ótima resenha!

Aline Al disse...

Olá, Mari!
Estou tendo boas surpresas essa semana, não sabia que havia esse livro e nem o "Eu robô" e estou me agradando muito pelas resenhas.
Beijos,
Borboletas de papel

Tony Lucas disse...

Oi, Mari! Tudo bem? Acredita que eu não sabia que existia o livro "Eu sou a lenda"? Sabia da existência do filme, mas do livro não... Mas enfim, adoro essa capa e curto uma boa trama angustiante, então é provável que goste da obra. Adorei a resenha! :)

Abraço

http://tonylucasblog.blogspot.com.br/

Vitor Leonardo disse...

Olá ótima resenha e obrigado pela dica, porém essa eu deixo passar kkk não me despertou interesse e fiquei espantado ao ler aqui nos comentários que o livro já tem 3 adaptações. Essa temática de vampiros não me prendeu, infelizmente.

Nadja disse...

OI! Realmente, quando King manda você prestar atenção em um livro, você tem que parar para ler, justamente ele, o mestre do terror, dizer que certo livro lhe influenciou é porque a trama só pode ser fascinante. E lendo a resenha dar para perceber isso, muito difícil um autor conseguir manter a trama com "todo o gás" não tendo diálogos, confesso que não gosto de histórias assim, mas sei que o autor foi brilhante do inicio ao fim. E as explicações teóricas para a existência dos vampiros parece ter sido uma jogada de mestre.

Eloísa Pompermayer disse...

Oláá Mari, tudo bem??
Nossa, pode me chamar de desatualizada, mas acredita que eu não sabia que o King havia recomendado o livro e nem que o livro Eu Sou A Lenda existia?! Tanto é verdade que eu assisti ao filme e amei, mas não sabia sobre o livro, caramba estou chateada comigo mesma... E agora estou com medo de não me envolver e me surpreender tanto devido a ter assistido o filme. Oh dúvida cruel, vou ficar aqui remoendo a minha burrada! :/
Enfim, parabéns pela resenha, quem sabe eu não acabe lendo e curtindo a leitura. ^^
Bjoos

Jovem Literário

Rose Gs disse...

Olá!!
Coloquei esse livro na minha lista de desejos assim que o vi entre os lançamentos, o que é novo pra mim já que estamos falando de um livro de um filme e um filme que eu já assisti, e quando eu assisti o filme dificilmente leio o livro, mas esse não posso deixar de ler, pra começar eu nem sabia que esse filme que gosto tanto é adaptação de um livro, e que quero muito lê-lo, muito mesmo.
Bjocas!!

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