quinta-feira, 16 de abril de 2015

RESENHA: Nuvens de Ketchup

“Vamos fingir apenas por um momento que isso poderia de fato acontecer. Você fecha os olhos, e eu fecho os meus, e nós sonhamos o mesmo sonho através do Atlântico, iluminando a escuridão entre nós. Consegue enxergar, Stu? Consegue nos ver lá em cima, brilhando na escuridão?” (PITCHER, p. 218, 2015)

De vez em quando me deparo com livros que considero terem tanto potencial para serem bons quanto para serem insignificantes. “Nuvens de Ketchup” foi um desses livros e não passou bem no teste.

Há quase um ano, Zoe guarda um segredo terrível: um menino morreu e o que todos pensam ter sido um acidente ela vê como culpa dela. Ela sente que escapou impune de um crime, mas não consegue falar com ninguém sobre isso e quando descobre que alguns prisioneiros no Corredor da Morte trocam correspondências, ela escolhe um que escreve poemas e que, ao contrário dela, aceitou pagar pelo crime que cometeu. Assim, ela encara o desafio de colocar sua história e seus segredos no papel e confessar tudo para alguém que está do outro lado do Atlântico e que não irá julgá-la.

Uma adolescente que troca cartas com um sujeito que está no Corredor da Morte porque não consegue se livrar da culpa que sente me parece uma boa premissa. O tormento da menina, a história que culminou na tal morte, a história do presidiário que tem seus dias contados e a relação que nasce entre eles, são elementos que parecem capazes de render um livro que poderia transitar entre momentos intensos, mas também leves já que boa parte da trama gira em torno de uma história de amor adolescente. Mas por alguma razão Annabel Pitcher jogou fora tudo que poderia fazer do seu livro um bom livro e preferiu fazê-lo morno.

Nas primeiras páginas já me incomodou a narrativa de Zoe que soa muito infantil para a sua idade. Apesar de ter seus 15 anos, a protagonista soa como uma criança de 11, o que incomoda e torna difícil levar a história a sério já que faz com que tudo que Zoe conta soe, de certa forma, falso pois parece haver uma discrepância entre a pessoa que fala e o que ela fala.

Além disso, a premissa da troca de correspondências se perde já que as únicas cartas que vemos são as de Zoe. Isso não seria um problema porque a autora poderia facilmente inserir o relacionamento que a menina constrói com o presidiário nas cartas e respostas dela, sem que necessariamente precisássemos ver as dele, mas não existe nenhum sinal de que existe uma pessoa do outro lado dessas cartas a não ser ocasionais “Stuart” que Zoe insere ao longo da narrativa para indicar que a menina fala com o homem e o fato que cada capítulo inicia e encerra de maneira como cartas o fazem. Assim, o que temos é uma adolescente que conta a sua história para um papel, exatamente como faria se estivesse escrevendo em um diário.

Tudo isso poderia ser irrelevante se a história que Zoe conta provocasse o envolvimento do leitor, mas não é o caso. O cerne de “Nuvens de Ketchup” é uma menina dividida entre dois meninos que, após estar um pouco envolvida com ambos, ela descobre que são irmãos. O clichê mais novelesco que existe não é o maior problema e sim a falta de profundidade das relações. Em nenhum momento eu consegui me importar com esse triângulo amoroso, com a escolha que Zoe precisaria fazer ou mesmo com os meninos a ponto de ficar angustiada sabendo que um deles iria morrer.

No geral, me pareceu que a autora teve uma ideia, mas que na hora de escrever esqueceu que essa era a ideia e simplesmente deixou que a história tomasse a forma que quisesse quando cabia a ela moldá-la. Acho ótimo que tramas e personagens tomem seus próprios rumos – acredito que os melhores livros são os que os personagens ganham vida própria e conduzem o autor a contar a sua história – mas nesse caso Pitcher parecia apenas insistir que contava algo que não contava. O romance não era intenso, as cartas não soam como cartas, o presidiário não tem importância alguma e Zoe nem mesmo parece atormentada. Está tudo no papel, mas ficou apenas no papel. Não ganhou vida.

Não digo que “Nuvens de Ketchup” é ruim porque ele não comete erros graves a ponto de ser chamado assim. Seu maior problema é não desenvolver as histórias que propõe, não trazendo nada de inédito e se contentando em ser morno quando poderia ter despertado diversas emoções.

Talvez o problema tenha sido comigo. Fiz uma imagem do livro com base na sinopse e no potencial que vi nela, mas talvez ele nem tenha pretendido ser nada disso. Ainda assim, não consigo deixar de achar que a mesma história (inclusive com o romance novelesco) poderia ter envolvido outras escolhas por parte da autora e tomado inúmeros rumos diferentes, se tornando sim um bom livro. Mas com uma soma de pequenos erros e oportunidades que Annabel Pitcher deixou escapar, virou um livro bobinho fantasiado de livro profundo. Por ter uma narrativa fluida e poucas páginas, pode entreter você quando estiver no clima para uma leitura despretensiosa, mas não se engane achando que fechará o livro e guardará dele alguma coisa com você.

Apesar de eu não ter visto nada de significativo em “Nuvens de Ketchup”, o livro foi premiado com o Edgar Allan Poe (romance juvenil) e o Waterstones (em duas categorias).

Título: Nuvens de Ketchup (exemplar cedido pela editora)
Autora: Annabel Pitcher
Tradução: Petê Rissatti
Nº de páginas: 270
Editora: Rocco

27 comentários:

Elder Ferreira disse...

"De vez em quando me deparo com livros que considero terem tanto potencial para serem bons quanto para serem insignificantes. “Nuvens de Ketchup” foi um desses livros e não passou bem no teste." AHHAHAHAHAHHAHA sei como é isso

"No geral, me pareceu que a autora teve uma ideia, mas que na hora de escrever esqueceu que essa era a ideia e simplesmente deixou que a história tomasse a forma que quisesse quando cabia a ela moldá-la." Er... Obrigado, mas depois desse comentaŕio o livor se perdeu pra mim :P

É complicado, viu, ainda mais a Rocco que tem uns livros tão caros haha, daí você gasta quase uns 40 reais pra ver se lê algo maravilhosamente lindo e meh. Enfim, bola pra frente, mas gostei da honestidade da tua resenha (anda faltando na blogosfera).

Um abraço,
Elder F.
oepitafio.blogspot.com

Luis Carlos disse...

O livro me agradou bastante quando eu li o começo da resenha, mas, depois, vi que não é nada do que eu imaginava hahahah Tem alguns livros que eu tenho a impressão de que a história deveria ter tomado um rumo, mas a autora acaba decidindo outro rumo, fazendo com que a história não saia como a gente esperava, e isso acaba se tornando chato! Pelo visto, esse livro é exatamente o que eu falei, então não prefiro me arriscar!

Diane Ramos disse...

A sua resenha me influenciou bastante , isso porque estava na dúvida se comprava ou não esse exemplar e depois de sua resenha me desanimei muito :(
Gosto de ler livros intensos , que ao acabar a leitura fique alguma coisa de marcante na minha memória .

http://coisasdediane.blogspot.com.br/

Tabatha Cuzziol disse...

Adorei o nome do livro! É totalmente diferente do que eu esperava que era o livro!
Adorei sua resenha.
Beijos, Tabatha
http://aproveiteolivro.blogspot.com.br/

RUDYNALVA disse...

Mari!
Interessante como um mesmo livro atinge as pessoas de forma diferenciada.
Sim porque para ganhar dois prêmios importantes, deve ter agradado e muito a comissão que o julgou,,,
Realmente a premissa do livro é mais que interessante e poderia ser mais desenvolvida como falou. E fiquei curiosa só em saber como tudo terminou para ela...
Não sei o que anda acontecendo com os escritores, parece que querem deixar os livros abertos e não se aprofundarem no que realmente deve ter valor.
cheirinhos
Rudy

Mania De Estrelato disse...

♡ ❤ AMEI O BLOG! TUDO PERFEITO ! ♥ ♡ ❤
SE PUDER OLHE O MEU ,E SE GOSTAR DE ALGO ,
✦ ✧COMENTA LÁ ! VLW !✦ ✧
http://mestrelato.blogspot.com.br/

Mandy disse...

É uma pena quando criamos expectativas para um livro e ele não as atinge. Se fosse realmente uma troca de cartas eu leria sem dúvidas mas sem as respostas parece mesmo superficial. Adorei a resenha
Beijoos,
Sétima Onda Literária

Gabriela CZ disse...

Assim como você tive a impressão que esse livro poderia ser muito bom ou ruim, mas confesso ficar triste em saber que não passou no seu teste, Mari. É frustrante quando um autor não faz bom uso de sua premissa e faz com que sua história seja menos do que poderia ser. Talvez se tivesse as respostas do presidiário teria sido mais profundo, mas não sei. É uma pena. Ótima resenha.

Abraço!
http://constantesevariaveis.blogspot.com.br/

Mariana Ogawa disse...

gente na metade do post eu fiquei: nossa eu definitivamente NÃO vou ler esse livro
e pior que pela história tinha tudo p ser bom, mas livro morno ninguém merece ...
vou ser sincera depois do "De vez em quando me deparo com livros que considero terem tanto potencial para serem bons quanto para serem insignificantes. “Nuvens de Ketchup” foi um desses livros e não passou bem no teste."
achei interessante que vc comenta que não é um livro ruim (por causa dos erros)
tvz o problema é que como o livro ganhou prêmios vc esperava mais e acabou se decepcionando, pois colocou a expectativa muito alta e a já viu

p.s. qt a voz da narradora que parece mais infantil, eu raramente reclamo disso antes de ler algo no original, já vi muito disso se perder nas traduções e principalmente qda narrativa é em primeira pessoa ou diálogos, já vi caso que as pessoas falavam de um jeito diferente (regionalismo que era um detalhe importante ) e na tradução se perdeu..

Fernanda disse...

Acho uma delícia esse título, tenho curiosidade em lê-lo também, colocarei na minha interminável pilha rsrs

Daily of Books

Guilherme disse...

Oi!
Nuca tinha ouvido falar do livro e é uma pena tu não ter gostado. Provavelmente não lerei mas capa e a proposta dele é interessante.
Abraço
http://leituraforadeserie.blogspot.com/

Nana ~* disse...

Oi Mari,
Que pena que a leitura não superou suas expectativas, meu interesse partiu pela capa.
Acho que sua resenha foi a primeira que li e a premissa me atiçou.

Parabéns pela resenha!

bjs e tenha um maravilhoso domingo
Nana - Obsession Valley

Anelise santana disse...

Não sei se consigo levar a sério um livro com o título "Nuvens de Catchup". Não soa como comédia? rçrç Mas aí eu li a sinopse e me pareceu ser bom, só que não era.
Acho que o pior tipo de decepção literária que existe é aquela onde você se depara com um livro que teria tudo para ser ótimo, e o autor/autora não consegue desenvolver a estória de forma inteligente. Ao leitor fica aquela sensação de que se você tivesse escrito sairia algo melhor *O*

DominO Simmons disse...

Que legal a sua resenha adorei!
beijos http://cantodadomino.blogspot.com.br/

Lary C disse...

Oi, Mari.
Nossa, como esse livro foi premiado? E não uma, mas duas vezes!
Esse livro tinha muito potencial... O enredo era diferente, original, mas pelo jeito a autora se perdeu no meio do caminho. O mais interessante era a troca de cartas com o presidiário, aí você me diz que ele nem aparece. Como assim, Brasil?! kkk
Deixa quieto... Esse não vai para a minha lista.
E eu tinha achado a capa muito linda, mas nós já sabemos como é... Nada de julgar um livro pela capa!
Beijos!

Bianca Santana disse...

Poxa, li sua resenha pq achei o título bem interessante, mas foi uma pena saber que uma história que parece interessante, não foi bem explorada pela autora. Chato quando isso acontece.
www.viciadosemleitura.blog.br

Jéssica Peixoto disse...

Oi Mari, como vai?
Nossa, esse livro prometia tanta coisa pela sinopse! Mas estou de cara que, pelo que você contou, ele não chega nem perto do que promete. Não existe livro mais decepcionante do que esses! Lembrei de um que li, Deslembrança, que tinha tudo pra ser maravilhoso, mas o desenvolvimento da história foi um fracasso tremendo.

Um abraço,
http://winterbird.com.br

Rafaela. disse...

Oi, Mari!

A sinopse não me interessou e depois de saber quão decepcionante a leitura foi, fico aliviada por não ter dado uma chance... Afinal, eu provavelmente não iria gostar.
É triste quando isso acontece.

Beijocas.
http://artesaliteraria.blogspot.com.br

Helana Ohara disse...

Oi Mari.
Puxa, a ideia do livro parece ser ótima. Principalmente o fato dela esconder essa culpa da morte.
Não gostei das trocas de cartas do livro Simplesmente Acontece, achei tão confuso aquilo. Certamente este livro iria me incomodar também.


Beijinhos, Helana ♥
In The Sky, Blog / Facebook In The Sky

DominO Simmons disse...

Oie Mari... Nossa mas que livro legal, fiquei bastante interessada até pela história, mas isso de troca de cartas não é algo que possa ser feito de qualquer modo, o que me assusta um pouco!
Beijos adorei!

http://www.skoob.com.br/usuario/633378

http://cantodadomino.blogspot.com.br/

Denise (@dnisin) disse...

O que me chamou a atenção nesse livro num primeiro momento foi o título, Nuvens de Ketchup já é algo que eu leria, mas lendo a resenha, primeira dele que leio, já desanimei total. To fugindo de livros com triângulos amorosos no momento, tá vindo muito livro assim e estou ficando saturada.

Bjs, @dnisin
www.seja-cult.com

Vanille vie disse...

Oi Mari!
Quando comecei a ler a sua resenha e ver do que se tratava a história, já me aconcheguei na poltrona, pronta pra mais um exemplar que iria de imediato para a minha lista de "Desejados" rsrs.
E, de fato, a ideia da autora tinha um potencial incrível! Imagina, uma adolescente com um grande segredo e uma grande angústia trocando cartas com um sujeito que está no Corredor da Morte... Tinha a fórmula pronta pra conter belas conversar e filosofias existenciais e se tornar um livro de grande sucesso.
Eu, como você e como outros leitores, lamento a guinada que houve na história, transformando-a em uma narrativa rasa da vida de uma adolescente.
De qualquer forma, parabéns pela resenha sincera e detalhada!
Beijos!
Julia.
http://vanille-vie.blogspot.com.br

Nardonio disse...

Que complicado isso, hein?!?! Lendo essa resenha, me passou a impressão de que essa trama não passou da superficialidade. A autora tinha ótimas ideias, mas não conseguiu se aprofundar em nenhuma. O que acho estranho é um livro como esse ganhar prêmios. Mas enfim, não sabemos o que se passa na cabeça dos jurados, né?!?!

Seguidor: DomDom Almeida
@_Dom_Dom

Cecília Vieira disse...

O livro em si não me atraiu, ainda mais porque eu não gosto de personagens como essa. Pena que a autora não conseguiu se aprofundar, ao menos foi o que me pareceu. Então esse eu vou acabar passando, porque há vários outros que eu realmente quero ler.
Beijos!

Ju M disse...

Já ouvi falar muito sobre esse livro, mas não tinha nem ideia do que se tratava, nunca tinha lido uma resenha, uma critica, nada. Esse título me deixou com asco do livro, me pareceu muito bobo e me afastou de qualquer vontade que poderia surgir de ler o livro, eu sei que é idiotice minha, mas foi assim. Comecei ler a resenha e vi que a história poderia ser interessante, mas pelo jeito, apesar de partir de premissas que poderiam fazer um grande livro, não foram bem exploradas, Uma pena, a ideia foi boa. Mas mesmo assim, quando tiver um tempinho vou ler para ver o que acho.

Letícia Souza disse...

Achei o livro morno demais,pelo que você falou nada na história ganha um enfase tão grande a ponto de você entrar na vida da personagem.E esse Stuart que nem aparece direito no livro,achei que ele fosse um dos personagens principais.E eu não entendi o por que desse nome,olhando somente o título acho que nunca compraria.

Aline disse...

Acabei de ler o livro e super concordo com você! Achei a estoria sem graça, não me "pegou".

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