domingo, 10 de janeiro de 2016

RESENHA: Aliança do Crime

“Embora o momento decisivo tivesse ocorrido muito antes, talvez o fim de noite no Colonnade resumisse melhor do que tudo a maestria com que Bulger virara a mesa do FBI e quão corrupto o bureau se tornara. Bêbado, Morris foi levado para casa em seu próprio carro por Whitey Bulger. Flemmi ia atrás no Chevy preto. Talvez um dia Morris e Connolly tivessem acreditado que estavam no controle da relação, mas eles e o FBI já não passavam de passageiros embriagados.” (LEHR; O’NEILL, p.142 2015)

Eu adoro histórias que envolvam o mundo do crime organizado, por isso fui imediatamente atraída por “Aliança do Crime”, a história real do criminoso que se tornou informante do FBI e corrompeu dois agentes em favor dos seus próprios interesses.

Whitey Bulger, que já foi considerado um dos homens mais procurados nos Estados Unidos, e John Connolly, agente do FBI, são as figuras centrais do livro. Outros que também ganham destaque são Stephen Flemmi, criminoso da gangue de Bulger, e John Morris, supervisor do Esquadrão do Crime Organizado no FBI.

Para Connolly, ser responsável por um informante como Bulger era sinônimo de status dentro da agência. Não apenas porque o cultivo de informantes era algo valorizado pelo FBI e estimulado desde a academia, como também por Bulger ser um dos maiores criminosos locais e alguém que jamais se acreditou que poderia tornar-se um dedo-duro. A razão pela qual o agente consegue essa conquista é, em grande parte, devido ao fato de que os dois cresceram no mesmo bairro em Boston. Connolly, apenas um menino quando Bulger começa a dar seus primeiros passos com gangues, via Bulger como uma personalidade, uma estrela, e em nenhum momento o tratou como um informante deveria ser tratado.

Nesse caso, todos os papéis se inverteram. Connolly e Morris, que deveriam monitorar seus informantes de perto, faziam vista grossa para todas as atividades da dupla (em tese, as únicas que poderiam ser aceitas eram jogos e agiotagem, mas os agentes deixam claro que a única coisa que não aceitarão é assassinato – o que, claro, também acaba acontecendo sem consequências).

Na época, o foco principal era acabar com a Máfia italiana e nisso residia a importância de informantes como Bulger e Flemmi. Porém, as informações que eles repassavam nunca foram relevantes a ponto de os dois serem recursos valiosos para o FBI e para impedir que isso fosse percebido Connolly e Morris falsificavam relatórios. O que começa com essas alterações de documentos escala até aceitação de propina. Valia tudo para derrubar a Cosa Nostra, mas Bulger e Flemmi nunca foram fundamentais nesse processo e só continuaram como informantes porque os agentes responsáveis manipularam as informações já que ficava bem em suas fichas terem contatos dessa magnitude no crime organizado. Eventualmente Connolly e Morris passam a avisar os criminosos sobre escutas instaladas, dando dicas sobre quando se afastar de determinados lugares para não se comprometerem e fazendo todo o possível para que eles nunca fossem pegos. A verdade é que os quatro se tornaram amigos (do tipo que vão jantar na casa uns dos outros) e como bons amigos, Connolly e Morris fazem todo o possível para proteger seus amigos.

Além das interferências dos agentes, os esforços que o FBI concentrava em cima da Máfia também serviam aos propósitos de Bulger, já que quanto mais a agência se focava nos italianos, mais espaço sobrava para as suas atividades. Foi assim que Whitey Bulger conseguiu dominar o submundo de Boston sem ser importunado pelas autoridades durante muitos anos. Eventualmente, foi justamente essa imunidade que despertou a atenção dos jornalistas. 

Por se tratar de um relato jornalístico, a narrativa não flui rapidamente e exige um pouco de paciência, em especial pelos inúmeros nomes que entram e saem de cena de acordo com a fase da ascensão e queda desses homens que está sendo relatada. Particularmente, demorei um pouco a me envolver, mas depois (conforme as relações se aprofundavam e me era permitido conhecer mais dessas pessoas, conforme Bulger e Flemmi expandiam seus negócios, e Connolly e Morris se tornavam cada vez mais corruptos) fui conquistada. De qualquer forma é inegável que o livro é interessante desde o início e vale a pena para quem se interessa pelo tema, tanto pelo submundo do crime organizado, quanto por um dos maiores escândalos envolvendo corrupção dentro do FBI.

Em alguns momentos, os autores relatam coisas que parecem terem saído de um filme e não da vida real. Por isso não surpreende que “Aliança do Crime” tenha ganhado as telas de cinemas. O filme conta com um Johnny Depp quase irreconhecível na pele de Whitey Bulger (em sua performance mais elogiada desde o ótimo “Sweeney Tood - O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet”) e Joel Edgerton como John Connolly, além de outros grandes nomes como Benedict Cumberbatch, Kevin Bacon e Peter Sarsgaard no elenco.

Título: Aliança do Crime (exemplar cedido pela editora)
Autores: Dick Lehr e Gerald O’Neill
N° de páginas: 413
Editora: Intrínseca

31 comentários:

Amanda Ferreira disse...

Gente, preciso começar a ler livros sobre crimes, investigação, já peguei várias dicas de vocês e espero que esse ano eu consiga ler vários dos que vocês indicam por aqui. Gostei da resenha, mas não sei se colocaria Aliança do Crime na minha lista de leituras. Gostei do livro envolver manipulação e corrupção e se for ler já sei que a leitura pode ser cansativa e não fluir rapidamente.

Gabriela CZ disse...

Também adoro histórias sobre o mundo do crime e as vezes até me sinto culpada por não conferir tantos livros e filmes sobre o assunto como gostaria, Mari. Já estava curiosa por esse livro e seus comentários me deixaram ainda mais interessada. E quero muito ver o filme, pois além de tudo o elenco é brilhante. Ótima resenha.

Abraços!
http://constantesevariaveis.blogspot.com.br/

Desbravadores de Livros disse...

Olá, Mari.
A premissa do livro é bem diferente, o que me agrada. Fiquei ainda mais entusiasmado por sua um enredo verídico e que tenha o formato jornalístico. Adoro obras assim.
Além disso, gostaria de conferir como aconteceu a corrupção por parte desses agentes do FBI.

Desbrava(dores) de livros - Participe do top comentarista de janeiro. Serão dois vencedores!

Jul T. disse...

Ual! Nunca li livros nesses formato, mas tenho muito interesse, ainda porque se trata de algo verídico. Sua resenha ficou top, muito completa!

- Entretanto -

Diane disse...

Oi...
Eu nem havia percebido que era Johnny Depp na capa! Se você não fala...
O livro até parece ser legal, mas, não é o que estou procurando no momento:(
Beijos

http://coisasdediane.blogspot.com.br/

Vida de Leitor disse...

Oi Mari, nunca li um livro que é um relato jornalístico, não sei qual seria minha reação, se gostaria ou não. Acho que vou assistir o filme, aí se for legal, lerei o livro.

Beijos,
Natália.
www.doprefacioaoepilogo.blogspot.com.br

Priscilla Frasnelli Rocha disse...

Oi Mari, tudo bem?
O último filme nesse estilo mais policial baseado em fatos reais que assisti foi Prenda-me Se For Capaz. Esse do Johnny Depp acabei não conferindo. Apesar de não ser meu estilo de leitura, parece uma boa história!
Beijos,

Priscilla
http://infinitasvidas.wordpress.com

Tony Lucas disse...

Oi, Mari! Tudo bem? Bom, não sei se esse seria um livro que eu gostaria de ler... A obra é diferente de tudo que estou acostumado a ler (nunca li um livro com uma pegada jornalística, acredita?), mas a premissa é legal, então por causa disso creio que seria interessante arriscar a leitura! :)

Abraço

http://tonylucasblog.blogspot.com.br/

Tatiana Castro disse...

Olá,Mari!
Acredito que essa seja uma das épocas mais conturbadas dos Estados Unidos, onde a realidade é mais louca que a ficção...kkkk... Quero ler o livro antes de assistir ao filme :)
Beijos!
Gatita&Cia.

Ariane Reis. disse...

Oie Mari =)

Não sabia que o filme tinha sido baseado em um livro O.o. Eu amo o Depp, e assisto TODOS dos filmes dele, até mesmo os "ruins"rs...
Por não ser muito o tipo de leitura que busco no momento, acho que primeiro vou assistir ao filme, e ai se ficar curiosa posso dar uma chance ao livro ^^

Quando estou na dúvida sempre faço o caminho inverso rs...

Beijos;***

Ane Reis.
mydearlibrary | Livros, divagações e outras histórias...
@mydearlibrary

ps: Da Richelle só li um livro até hoje e amei *--* quero muito ler mais obras dela.

Érick Vinícius disse...

Eu não era fã do gênero até ler livros do mesmo. Sério, quando leio livros policiais com aqueles crimes misteriosos fico sem conseguir largar o livro. Hehe. Gostei da sua resenha, despertou minha curiosidade.
Abraço, www.likelivros.blogspot.com

RUDYNALVA disse...

MARI!
Gosto também de livros com relatos sobre a Máfia, principalmente aqui, onde há um relato jornalístico, pesquisa e os fatos devem ser mesmo reias.
Assisti o filme e gostei muito, principalmente porque as cenas davam a impressão de estar lá, na época.
“A imaginação é mais importante que o conhecimento.” (Albert Einstein)
cheirinhos
Rudy
http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
Participe do TOP COMENTARISTA de Janeiro, são 4 livros e 3 ganhadores!

Jess Sena disse...

Oi, tudo bem?
Adorei a resenha.
Essa história me interessa muito, tanto o livro quanto o filme.
bj


@saymybook
saymybook.blogspot.com

Ju - Conjunto da Obra disse...

Oi Mari, apesar de não gostar muito de livros jornalísticos, acho que a história deste valeria a pena ler. É engraçado como bandidos e mocinhos não existem de verdade e mesmo agentes do FBI podem se corromper facilmente. Acho que vou assistir apenas ao filme, fiquei curiosa :)

Beijos

Postando Trechos disse...

ADORO histórias assim. Não conhecia o livro e adorei a dica. =O

Beijos,
Postando Trechos

Kathleen Yasmin disse...

Oi, Mari!
Não sei se eu leria esse livro, fico pensando que ele é muito mais a cara dos livros que meu namorado gosta hahah
Apesar de eu gostar de livros policiais, eles são sempre mais inclinados pro suspense, com um toque de romance de vez em quando...
Sem falar nessa narrativa jornalística que você comentou... É, acho que ele não é pra mim haha
Beijosss
www.vidaemmarte.com.br

Luiza Helena Vieira disse...

Oi, Mari!
Acredita que eu nem sabia que essa história é real?
Pelo que você descreveu, me lembrou brevemente a série Narcos.
O livro não parece ser uma leitura fácil, mas bem intrigante.
Beijos
Balaio de Babados

Vanessa Vieira disse...

Gostei da resenha Mari. Geralmente não é o tipo de livro que eu costumo ler, mas não deixa de ser uma leitura interessante. Beijo!

www.newsnessa.com

Bruna Vieira disse...

Amei a sua resenha, acho interessante essa premissa, dica anotada.
http://umminutoumlivro.blogspot.com.br/

Carolina Garcia disse...

Oi, Mari!!

Vi o trailer do filme, mas na hora não me chamou a atenção para o livro.
Sua resenha está muito boa e fiquei curiosa pelo livro.

Já estou acostumada com livros jornalísticos e gosto de muitos deles. Principalmente porque sempre trazem histórias comprovadas e reais. Acho muito interessante.

Adicionarei na minha lista com certeza! :)

Bjs

livrosontemhojeesempre.blogspot.com.br

Soraya Abuchaim disse...

Oi, Mari. Adoro suas dicas de livros. Esse não foi diferente.
Também acho que me incomodarei um pouco com tantos nomes indo e vindo, mas se vc diz que se envolveu depois, tenho certeza que vou gostar.

Beijos

Meu Meio Devaneio

Rafaela. disse...

Oi, Mari!

Acho que nunca li um livro sobre crime organizado, mas achei o enredo interessante. Não sabia que o livro foi adaptado, vou procurar o filme para assistir.

Beijocas.
http://artesaliteraria.blogspot.com.br

Carla A. disse...

Oi, Mari! Pelo que descreveu não parece ser mesmo daqueles livros em que a leitura flui facilmente desde o início. Não costumo ler livros sobre crime organizado nem me sentir atraída por eles, mas quem sabe...

Beijos, Entre Aspas

Sil disse...

Olá, Mari.
Ainda não conhecia esse livro e talvez eu confira o filme, porque o livro não me interessou. Eu prefiro ler ficção e por ser uma narrativa não tão rápida acho que eu não iria gostar muito dele. Mas vou ver se consigo conferir o filme.

Blog Prefácio

Thaynara ribeiro disse...

Ter paciência na leitura seria uma coisa complicada, mas não é todo dia q a vida de um gângster é aberta assim rsrs quero ler o livro, pq o filme me interessou bastante.

Minhas Impressões disse...

Oi Mari.
Desde o início de sua resenha fiquei pensando que esse livro daria um bom filme e fiquei surpresa quando no final você diz que tem filme. Quero ler e assistir em breve.

Abraços.

Minhas Impressões

Jessica Lisboa disse...

O livro me parece ser muito bom, faz tempo que eu não leio um livro bom investigativo e tal. Gostei do livro, muito bom!

Kayna Barra disse...

O livro parecer ser ótimo mas no momento vai ficar pra próxima :( mas eu gostei muito da sua resenha.
Bjss

Dan Igor disse...

É bem difícil eu me prender a um livro que precisa de paciência, mas acho que se for esse vou ter um cuidado a mais, parece ser uma obra que nos faz sentir em um cinema, assistindo a um filme. Abraços, adorei a resenha.

suzana cariri disse...

Oi!
Gostei do livro, achei esse historia interessante ainda mais com esse cenário todo de crime organizado que o livro trás, mas acho que por temos muitos personagens acabaria confusa e ainda não sabia que tinha o filme quero da uma olha !!

Ana I. J. Mercury disse...

Pelo que você falou é um livro bem escrito e bem trabalhado nos acontecimentos e fechamento de trama, porém, é beeeem diferente do que estou acostumada, acho que eu teria graves problemas kkkkkk
bjoos

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