terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

RESENHA: Mosquitolândia

“Fico me olhando no espelhinho e desejo mil coisas. Desejo que nunca tivéssemos saído de Ashland. Desejo que minha mãe não estivesse doente. Desejo que não tivéssemos ido ao Denny’s naquele dia. Desejo que Kathy se jogue de um penhasco. Desejo que não tivesse jogado as cartas fora. Desejo que não tivesse comprometido as evidências. Desejo que ainda tivesse algo tangível, um não sei o que...Alguma coisa.
Desejo que desejar fosse o bastante, mas não é.
Às vezes, você precisa de alguma coisa." (ARNOLD, p. 55, 2015)

Desde o lançamento, “Mosquitolândia” foi um livro que me atraiu e me deixou com um pé atrás em iguais proporções. Gosto de YA, mas a premissa soava como mais do mesmo. Ainda assim, decidi dar uma chance, pois gostei do que li na prova no site da editora. Mas eis que a minha intuição estava certa.

Mim Malone tem dezesseis anos, está depressiva e tomando medicamentos contra a sua vontade. Para piorar, desde o divórcio repentino dos seus pais, ela está morando em um lugar que detesta e o único contato que tem com sua mãe são cartas (que nas últimas semanas pararam de chegar). Ao entreouvir uma conversa falando sobre uma possível doença da mãe, ela decide embarcar em uma viagem para reencontrá-la e voltar para o lugar de onde nunca devia ter saído.

“Meu nome é Mary Iris Malone e eu não estou nada bem.” É com essa frase que o autor nos apresenta sua protagonista, já prometendo que o que virá a seguir será repleto de sentimentos e sinceridade. A história é narrada pela própria Mim, intercalando cartas que escreve listando os motivos que a levaram a embarcar nesta jornada e a narrativa dos acontecimentos da viagem.

O problema é que nada na trama tem a força necessária para cativar e apesar de contar com bons elementos o autor não os explora a ponto de transformá-los em algo realmente significativo. Mim sofre de depressão, mas seu comportamento é condizente com o de uma menina imatura e mimada, enquanto a carga dramática que poderia vir de sua doença é deixada de lado. Além disso, sua busca pela mãe e seu desprezo pela madrasta também não convencem, já que ambos são clichês e justamente por isso precisam de uma conexão ainda mais convincente com os motivos da personagem para que funcionem. Mim conta momentos que viveu com a mãe, mas em nenhum deles eu consegui sentir a força do relacionamento das duas. Da mesma forma, sua raiva pela madrasta parece existir apenas porque esta é a mulher que casou com o seu pai.

Sem estabelecer uma forte conexão com a mãe (linha de chegada da jornada) nem com o pai e a madrasta (ponto de partida) era de se esperar que a viagem em si fosse o ponto alto do livro. Mas assim como tudo mais na trama, os acontecimentos da viagem também soam avulsos. Ao invés de aproveitar a promessa de inusitado que vem atrelada às histórias de road trip, tudo o que o autor faz é jogar no caminho da protagonista personagens que permitam a ele mencionar alguns assuntos, sem de fato abordá-los a fundo ou fazer deles algo significativo para a trama (como uma velha senhora aceitar o sobrinho gay, abuso sexual, um jovem com Síndrome de Down). Assim, David Arnold parece querer aproveitar sua estreia literária para falar sobre uma série de coisas, mas acaba não falando sobre nada.

No final da leitura, percebi que o autor estava escondendo algumas cartas na manga para poder surpreender o leitor. Não sou contra manipulações bem feitas e gosto de ser surpreendida, mas Arnold não dá as pistas que permitiriam ao leitor chegar aquelas conclusões (e ao reler o primeiro capítulo fica claro que o autor estava fazendo jogo). Além disso, algumas das explicações e decisões dos personagens não me convenceram, em especial por Mim se tratar de uma menina de 16 anos e não de 12.

O que impede “Mosquitolândia” de ser uma completa decepção é sua narrativa fluida e leve, mas falta carisma aos seus personagens e coesão a sua trama. O autor tinha vários assuntos interessantes para abordar (e quando todas as cartas são colocadas na mesa no final do livro isso fica evidente), mas ao tentar falar sobre várias coisas, acabou deixando tudo muito supérfluo. Apesar de ser uma leitura agradável, “Mosquitolândia” não faz nada que outros livros do gênero já não fizeram melhor.

Título: Mosquitolândia (exemplar cedido pela editora)
Autor: David Arnold
 de páginas: 350
Editora: Intrínseca

30 comentários:

RUDYNALVA disse...

Mari!
ando um tanto abusada do gênero também que acaba sendo, como falou, mais do mesmo...
Bom poder ler sua resenha sobre o livro, assim, nem me arrisco na leitura, porque seria perda de tempo...
“Saber interpor-se constantemente entre si próprio e as coisas é o mais alto grau de sabedoria e prudência.” (Fernando Pessoa)
cheirinhos
Rudy
http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
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Diego França disse...

Oi Mari. Tudo bom?
Menina que leitura ótima você fez!
Confesso que estou com vontade de ler, mas também tenho um pé atrás e me parece que estou certo em ter um pezinho á atrás mesmo.
Quem sabe eu leia futuramente, né?

Bjão.
Diego, Blog Vida & Letras
www.blogvidaeletras.blogspot.com

Jess Sena disse...

oi, tudo bem?
Acho que é a primeira resenha super sincera que leio sobre esse livro.
Quando vi o lançamento me encantei com a capa mas a sinopse não me fez querer ler. Se um dia tiver oportunidade, lerei, mas nada urgente :D


@saymybook
saymybook.blogspot.com

Alice Lima disse...

Adorei tua resenha, entendi perfeitamente teu ponto de vista!
Sou fã de livros com reviravoltas surpreendentes, embora esteja cada vez mais dificil de eu ler alguma que realmente seja muito bem montada, o que é bastante decepcionante.
Beijinhos,
Alice
www.wonderbooksdaalice.com

Sil disse...

Olá, Mari.
O gênero é um que não chama muito a minha atenção, por isso nem olho duas vezes. A sua é a primeira resenha que leio desse livro e não me interessou em ler ele. Pleo que li da sua opinião, não tem nada nele que se destaque a ponto de me fazer querer ler o livro. Geralmente me interesso por relacionamentos entre pais e filhos, mas esse me pareceu ser muito mal desenvolvido.

Blog Prefácio

marlene conceiçao disse...

Oi Mari.
Apesar de ter gostado muito da sua resenha.
Esse livro não faz muito meu gênero literário, em outros tempos eu até compraria para ler, mas como minha estante estar lotada, e não tenho previsão para por as leituras em dia, para mim não vale a pena.
Boa Tarde.

Carla A. disse...

Oi, Mari!
Poxa... Que pena que não curtiu tanto. Eu gosto bastante do gênero e já quer ler esse livro há algum tempo. Os pontos negativos que você enumerou são coisas que também me desagradam, então talvez eu também não vá gostar tanto da leitura.

Beijos, Entre Aspas

Tô pensando em Ler disse...

Nossa, li outras resenhas tão positivas... Agora fiquei curiosa e muito confusa.
Acho que vou ter que ler pra decidir, mas sinto que suas considerações foram mais plausíveis.

Enfim, adorei a sinceridade da resenha!!!

Bjks

Lelê

Livros & Entretenimento disse...

Olá :)
Acho que também não vou curtir o livro, como você disse ele quer falar sobre tanta coisa e não fala de nada é meio decepcionante mesmo.

Beijos

Alana Gabriela disse...

Helloo, Mari! Tudo numa nice?!
Eu estava querendo ler esse livro há algum tempo, não sei porque, acho que por causa do título diferente e da capa legal. Mas quando vi sua resenha aqui quis conferir para ter certeza se leria ou não.
Saber que os personagens não são cativantes o suficiente não me agrada, fiquei com um pé atrás com alguns pontos que ressaltou aqui. Com essa coisa de viagem percebi um pouco de Paper Town - que na verdade não me agradou de maneira nenhuma.
Ainda não sei se vou ler, mas com certeza esse livro não é minha prioridade para a meta de leitura.
Ótima resenha.
Beijin...
Pieces of Alana Gabriela

Desbravadores de Livros disse...

Olá, Mari.
Confesso que eu meio que abandonei esse gênero pelos motivos que você não gostou desse livro: premissa clichê, enredos não tão bem aproveitados e personagens imaturos (parecem, muitas vezes, confundir problemas com maturidade). Ao menos a narração é boa (geralmente é) e a capa é legal. Porém, isso é pouco para me fazer ler a obra.
Ótima resenha.

Desbrava(dores) de livros - Participe do top comentarista de fevereiro. Serão dois vencedores!

Diane disse...

Oie...
A premissa é realmente interessante, porém, todos esses pontos negativos me desanimaram a ler...
Essa é a primeira resenha que li desse livro e confesso que valeu a pena!
Beijos

http://coisasdediane.blogspot.com.br/

Carolina Rocha disse...

Oi oi, tudo bem? Eu li esse livro recentemente e tive praticamente a mesma opinião que você. Mas, o que mais me deixou "decepcionada" foram os personagens!

Um super beijo!

Lendo Distopias

Gabriela CZ disse...

Também estava dividida com esse livro, Mari. E com seus comentários não me empolgo em dar uma chance. É uma pena quando autores querem abraçar o mundo tentando abordar vários assuntos e acabam transformando coisas sérias em superficiais. Ótima resenha.

Abraços!
http://constantesevariaveis.blogspot.com.br/

Sandra disse...

Este tipo de livro de narrativa não me agrada, e depois da sua detalhada resenha, menos ainda...não ouso nem em começar a ler !!

Camila Monteiro disse...

É nesse exato ponto que os YAs me perdem também. Sempre usam a mesma fórmula que já foi usada inuuuumeras vezes e não enriquece nada. Eu ando dando um tempo nestas leituras para ver se refresca a mente. Daqui a pouco eu volto.

>> Vida Complicada <<

Florescer Literário disse...

Oláaa! Comprei esse livro pra ler há pouco tempo, não sei direito o que esperar. A sua resenha foi um pouco desencorajadora, rsrs.Gostei da sinceridade em relação ao livro. vamos ver...
Bjks
http://florescerliterario.blogspot.com.br/

Luiza Helena Vieira disse...

Oi, Mari!
Primeiramente, amei sua resenha (como sempre).
Eu lia a sinopse desse livro e, apesar de curtir YA, ele nunca me chamou atenção. Tinha algo que não me convencia. Acho que fiz bem em nem começar a ler porque, pelo que li da sua resenha, eu ia ficar com muita raiva da Mim.
Beijos
Balaio de Babados

Luiz Paulo Nunes disse...

Hey Mari!
Eu creio que ta começando a saturar dessa pegada de temas mais depressivos, já li uma porrada de resenhas de livros com essa pegada.
De repente eu acho que nem narrativa pode salvar quando a historia se torna pesada e ruim.
Na verdade olhando a capa eu senti meio... Funhé!
Quatro Selos

Leandro de Lira disse...

Oi, Mari!
Eu realmente não lerei este livro. Precisava ler uma resenha sincera como a sua para decidir se realmente me arriscaria na leitura. Mas provavelmente não iria funcionar comigo. Só o fato da protagonista ser imatura já muito me desagrada.
Parabéns pela resenha.
Abraço!

"Palavras ao Vento..."
www.leandro-de-lira.blogspot.com

Vida de Leitor disse...

Oi Mari. Por que você não resenhou esse livro antes? :'( Eu comprei o livro em dezembro e estava morrendo de vontade de ler mas agora bateu um desgosto. Não gosto quando o autor fala de tudo mas na verdade sai um grande nada. Acho que como já comprei o livro, vou ler só pra descobrir o que a frase do início tem a ver com o suspense do fim.

Beijos,
Natália

www.doprefacioaoepilogo.blogspot.com

Participe do sorteio do blog!

Ariane Reis. disse...

Oie Mari =)

Acho que a sua é a primeira resenha "sincera" que leio desse livro. Todas as resenha que tinha lido até agora eram só elogios e confesso que cheguei a ficar interessada na história. Não descarto por completo dar uma chance ao livro, até por que gosto sempre de tirar minhas próprias conclusões. Porém agora vou com menos sede ao pode para não me decepcionar.

Beijos;***

Ane Reis.
mydearlibrary | Livros, divagações e outras histórias...
@mydearlibrary


Patrini Viero disse...

Gosto muito do gênero YA, mas confesso que a trama desse livro me parece um pouco clichê demais, talvez sem nenhum elemento que a diferencie de outros livros, como tu mesma disse. Os personagens superficiais e até um pouco incoerentes também me deixaram com um pé atrás. Acredito que por conta desses detalhes eu leria o livro com menor expectativa.

Bianca Dickmann disse...

Olá, tudo bem?
Não posso deixar de comentar que adorei sua sinceridade na resenha. Confesso que apenas o título e a capa do livro que me chamam a atenção, pois a premissa parece ser tão normal quanto qualquer outro livro. E eu não gosto quando o autor fica "jogando" com o leitor, isso me irrita muito.
Beijos, http://lendocomabianca.blogspot.com.br/

Laís Lubrani disse...

Oi Mari. O título já é curioso rs. E eu também fiquei bastante curiosa com esse final e coisa e tal. Mas eu tô meio depressiva, então vou ler não! hahaha. Mas obrigada por mais essa dica! Um beijão!!!

www.chadefirulas.com.br

Dan Igor disse...

Oi! Fiquei interessado, apesar de ter percebido que é um livro que não podemos esperar uma coisa grandiosa, mas com uma boa narrativa e personagens bons. Abraços, amei sua resenha ^^

Carolina Garcia disse...

Putz! Que decepção, Mari!
É uma pena quando o autor tem uma boa ideia, mas na prática o livro não é legal. :(

Obrigada por avisar já que estava checando alguns livros YA e, entre eles, esse.

Bjs!

livrosontemhojeesempre.blogspot.com.br

Jessica Lisboa disse...

Sério que o livro é assim? Poxa vida, estava em altas expectativa com ele :( Mas acho que o leria mesmo assim, mas agora não tenho mais taaanta empolgação como antes.

Minhas Impressões disse...

Olá, Mari.
Uma pena que o livro tenha tantos pontos negativos :(
Mas pelo menos a leitura é fluida. Seria muito maçante se no meio de tudo isso, a narrativa ainda fosse pesada.
Abraços.

Minhas Impressões

Fernanda Mendonça disse...

Oi!

Confesso que depois de ler sua resenha eu retirei esse livro da minha lista de desejados. Veja, achei que o tipo de história seria muito legal (adoro livros com dramas, ou algum tipo de doença) e emocionante, mas se o autor não se aprofunda nem na depressão, nem na doença da mãe, nem na viagem da menina nem nada e nem mesmo trabalha seus personagens com profundidade eu não pretendo perder meu tempo com o livro. :/

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