domingo, 27 de março de 2016

RESENHA: Para você não se perder no bairro

“Não tinha coragem de entrar na casa. Preferia que ela continuasse a ser para ele um desses lugares que nos foram um dia familiares e que às vezes ocorre visitarmos em sonhos: na aparência, são os mesmos, mas ficam impregnados de alguma coisa insólita. Um véu ou uma luz direta demais....E, nesses sonhos, cruzamos com pessoas de quem gostávamos e que sabemos estarem mortas. Se lhes dirigimos a palavra, elas não ouvem a nossa voz.” (MODIANO, p. 119, 2015)

Jean Daragane é um escritor solitário, já na casa dos sessenta anos, vivendo uma vida apática até que recebe um telefonema de um estranho alegando ter encontrado uma caderneta sua perdida há semanas. Quando se encontram para a devolução, Daragane descobre que o estranho tinha um interesse pessoal em conhecê-lo: perguntar a respeito de um nome que consta na caderneta (sobre o qual Daragane não tem lembrança alguma) e que faz parte da investigação de um assassinato ocorrido há décadas. O nome – Guy Torstel - inicialmente, não lhe remete à nada, mas aos poucos vai se associando a outros que trarão à tona um passado do qual Daragane não lembra.

Das minhas experiências prévias com os livros de Modiano, aprendi que é inútil esperar por histórias bem definidas, já que os personagens estão sempre em busca de algo que deixaram para trás e que muitas vezes nem sabem o que é. Ao que me parece, todos os personagens do autor compartilham esse sentimento de estarem incompletos e todas as histórias tem um caráter melancólico. Inquietos graças a essas lacunas, os personagens colocam a história em movimento ao buscar respostas para preenche-las. Mas estar rumo a alguma coisa não significa que se chegará lá e muitas vezes as respostas servem apenas para perguntas que não haviam sido feitas de começo, enquanto outras ficam sem qualquer resposta. Tudo isso se aplica também a “Para você não se perder no bairro”, mas não sei se foi a condução desse livro em específico, ou o fato de esta ser a minha terceira experiência com os livros do autor, mas dessa vez não senti que a história ficou tão dispersa.

Logo de início três personagens misteriosos e suas motivações já me deixaram curiosa: o estranho que encontrou a caderneta (e seu interesse em Guy Torstel), a moça calada que o acompanha (e que logo descobrimos ter deixado seu nome verdadeiro para trás), e o próprio protagonista (sua completa solidão e apatia). Mas para a minha surpresa, mesmo com elementos promissores em mãos, não demora para que Modiano os descarte para focar apenas no mergulho de Daragane ao seu passado. A partir desse momento, nada mais é tão nítido e voltamos a terra onde andamos a esmo com os personagens, descobrindo a história aos poucos sem saber exatamente onde ela pretende nos levar. A verdade é que raramente sabemos (ou lembramos) tudo sobre todos os aspectos de nossas próprias vidas, então não existe obrigação de termos todas as respostas em uma história como essa. Além disso, estando fora de contexto, qualquer evento se torna misterioso. É disso, dessa veracidade incomoda, que Modiano se vale para contar a história de Daragane.

Além da sonoridade poética do texto, outra coisa que me cativa é a maneira como o autor consegue criar tramas sobre questionamentos existenciais que mais se parecem quebra-cabeças detetivescos.

“Para você não se perder pelo bairro” é sobre reencontrar a si mesmo quando nem se sabe que se está perdido. É sobre as milhares de pequenas coisas que nos tornam quem somos, mas que depois caem no esquecimento. Assim como “Uma Rua de Roma” e “Flores da Ruína” parece terminar sem ter chegado ao fim, deixando uma sensação de que existe naquelas poucas páginas muito mais do que coube nelas. Talvez seja isso que sempre me faz terminar os livros de Modiano com vontade de relê-los um dia.

Título: Para você não se perder no bairro (exemplar cedido pela editora)
Autor: Patrick Modiano
Tradução: Bernardo Ajzenberg
N° de páginas: 142
Editora: Rocco

26 comentários:

Tamires Marins disse...

Oi, Mari, tudo bem?

Nunca li nada do autor e nem conhecia o livro, mas vi que ele ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 2014, isso deve dizer algo sobre a história! Rss
Fiquei curiosa para saber o que aconteceu no encontro entre o estranho e Daragane.
Parabéns pela resenha, muito bem escrita.

Beijo
- Tami
http://www.meuepilogo.com

Vanessa Sueroz disse...

Oie,
não conhecia nem o livro nem o autor, mas achei bem interessante. Adorei! Vai para a listinha de desejados

bjos
http://blog.vanessasueroz.com.br

Gabriela CZ disse...

Lembro que suas outras resenhas de Modiano me deixaram curiosa para conferir algo do autor, Mari. Mas nenhuma como essa. Não sei se os seus comentários ou a premissa do livro, ou os dois, mas esse aguçou mais minha curiosidade. Espero poder ler. Ótima resenha.

Abraços!
http://constantesevariaveis.blogspot.com.br/

Tô pensando em Ler disse...

Vou encarar meu primeiro Modiano ainda este ano. E pelo que posso perceber, vou amar esse estilo poético do autor.

Adorei a resenha!

Bjks

Lelê

Diego França disse...

Olá! Tudo bem?
Nossa que maravilhosa sua leitura!
Adorei a premissa do livro e essa coisa de personagem buscando um sentido, buscando se encontrar. E se for assim a narrativa despretensiosa, que a gente não sabe onde vai nos levar cai perfeitamente bem porque realmente não encontramos respostas para tudo na vida e ela é uma eterna procura, uma busca incessante por algo sempre.

Acho que vou procurar esse livro.
Obrigado pela dica.
Bjão.
Diego, Blog Vida & Letras
www.blogvidaeletras.blogspot.com

Vic disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Sávio França disse...

Olá!
Nunca tinha ouvido falar desse livro, mas gostei muito da sua visão a respeito do mesmo.
Gosto dessa coisa de questionamentos existenciais, por isso leria esse livro com toda a certeza. Além de ser bem curtinho, a capa é bonita também.
Gostei da sua resenha.

Abraço!
http://tudoonlinevirtual.blogspot.com.br/

Diane disse...

Oie...
Não tinha conhecimento algum sobre esse livro, mas, sua resenha me fez desejar tê-lo em mãos agorinha para ler! Esses personagens misteriosos e essas questões existenciais foram os pontos que mais chamaram a minha atenção em sua resenha.
Espero poder ler em breve...
Bjo

http://coisasdediane.blogspot.com.br/

Desbravador de Mundos disse...

Olá, Mari.
Nunca li nada do autor, mas fiquei bem curioso, principalmente por tratar de dramas existências dessa maneira tão misteriosa. Ademais, gosto dessa escrita poética e profunda. Então, acredito que me darei bem com a obra.
Excelente dica.

Desbravador de Mundos - Participe do top comentarista de reinauguração. Serão quatro vencedores!

Jess Sena disse...

Oi Mari,
Tenho impressão que já vi esse livro mas não parei para dar uma segunda olhada.
Parece ser um belo livro, pelo que você descreveu.
Essa capa ficou muito boa!


Bj
@saymybook
saymybook.blogspot.com

Guilherme disse...

Olá!
Faz tempo que quero ler algo do Modiano e esse livro parece ser incrível para começar, adorei a resenha, deve ser uma leitura muito boa mesmo.
Abraço!
http://leituraforadeserie.blogspot.com/

Vic disse...

Não conhecia o autor mas o livro parece interessante.


Seguindo. Comecei o blog agora, agradeceria se desse uma olhada.
Abraços.
http://aressacaliteraria.blogspot.com.br/

Priscilla Frasnelli Rocha disse...

Oi Mari, tudo bem?
Não parece ser o tipo de livro que chama a minha atenção, mas gostei da sua descrição a respeito dos personagens bem construídos.
Beijos,

Priscilla
Infinitas Vidas

Sozinha Na Biblioteca disse...

Oi Mari! Que livro interessante, nunca li nada do autor, mas sempre tive curiosidade. Se você gostou, tenho certeza que o livro é bom mesmo. Vou procurar para ler.

Beijos,

Sozinha Na Biblioteca

Cris Setúbal disse...

Eu ainda não conhecia esse autor e fiquei muito interessada nesse livro. Achei esse fato de os personagens buscarem algo, que as vezes nem sabem o que é, bem interessante. Também já anotei na lista os outros livros que você citou, acho que vou gostar, beijo!

Ariane Reis. disse...

Oie Mari =)

Não conhecia o livro, mas conforme fui lendo a sua resenha me vi envolvida pela trama. Adoro histórias em que tanto a trama como os personagens são bem construidos, e pelo visto é o que acontece aqui.
Mais um para a lista!

Beijos;***

Ane Reis.
mydearlibrary | Livros, divagações e outras histórias...
@mydearlibrary

Vanessa Vieira disse...

Gostei da resenha Mari. Não conhecia o livro, mas a trama me pareceu bastante convidativa. Beijo!

www.newsnessa.com

Nanáh S. S. disse...

Oi Mari, tudo bem?
Não conhecia o autor e a trama me pareceu interessante, apesar de este ser um livro que temos que dedicar toda nossa atenção.
Confesso que fiquei curiosa:)

Beijos
http://manhemedaumlivro.blogspot.com.br/

Sil disse...

Olá, Mari.
Não conhecia esse autor ainda. Achei o enredo interessante, apesar de não ter nada que me chame a atenção. Tem alguns autores que escrevem coisas diferentes e personagens diferentes a cada livro, mas tem uns que sempre usam a mesma formula. As vezes gosto disso, outras não. Mas ainda assim não sei se leria. Prefiro livros com mais ficção se é que me entende hehe.

Blog Prefácio

Theresa Cavalcanti disse...

Não conhecia ainda, mas parece ser bem interessante.

Jessica Andrade disse...

Oi Mari,
Não conhecia o livro e achei a premissa muito interessante. Vai para a lista, mas tem alguns na frente ainda :)
Bjs e uma ótima noite!
Diário dos Livros
Siga o Twitter

Ana I. J. Mercury disse...

Parece ser um livro mais poético e até mesmo reflexivo, mas como não tem um porque bem definido acho que eu não leria, ansiosa do jeito que sou, ia ficar inquieta, incomodada. rsrsrsrs
bjoos

Gabrielle Batista disse...

Gostei muito do caráter melancólico que as personagens possuem, o fato de elas sempre estarem buscando algo que deixaram no passado, me deixou bem curiosa em relação a obra.

suzana cariri disse...

Oi!
Ainda não li nada do Modiano, mas lendo a resenha fiquei bem curiosa para conhecer sua escrita, esse livro pareceu ter uma historia bem misteriosa e intrigante e se tiver oportunidade quero ler !!

Minhas Impressões disse...

Olá, Mari.
Do Modiano ainda não li nada, mas vontade é o quae não falta.
Esse livro me chamou atenção pela subjetividade presente.
Não sei o motivo, mas a capa me lembrou um pouco as imagens de "Onde está Wally", rs.
Abraços.

Minhas Impressões

Carolina Garcia disse...

Oi, Mari!

Sua resenha está ótima, mas não tenho vontade de ler as obras de Patrick Modiano.
Crio uma certa crise de ansiedade quando não tenho todas as perguntas respondidas e odeio finais abertos. Hahahaha
É um problema pessoal que ainda não consegui resolver. xD

Então, quem sabe um dia talvez... Nunca podemos dizer nunca, né?

Bjs

livrosontemhojeesempre.blogspot.com.br

Postar um comentário

 

Além da Contracapa Copyright © 2011 -- Template created by O Pregador -- Powered by Blogger