domingo, 3 de abril de 2016

RESENHA: A Marca Humana

“[...] como é fácil a vida virar para um lado em vez de virar para outro, como é acidental o destino de uma pessoa... em contrapartida, como o destino pode parecer acidental quando as coisas não podem deixar de ser o que são.” (ROTH, 2014, p. 143).

***

Philip Roth é um dos mais aclamados autores norte-americanos, tendo sido agraciado com inúmeros prêmios. Com tantos elogios, tanto do público quanto da crítica, sempre tive curiosidade de conferir algum livro de sua autoria e a premissa que mais me chamou atenção foi a de A Marca Humana

Coleman Silk era um respeitado professor universitário até que um incidente, no qual utilizou uma palavra de duplo sentido, o fez ser acusado de racismo por seus alunos. Apesar de ter sido influente no meio acadêmico, Silk se vê isolado e acaba pedindo sua exoneração. Posteriormente, ele se envolve com uma faxineira com metade de sua idade e sem instrução, sendo arrastado para mais um escândalo. 

A Marca Humana é narrado em primeira pessoa por Nathan Zuckerman, um escritor que vive em exílio voluntário e que acaba se tornando amigo de Coleman. Apesar de ser interessante ver o efeito que o protagonista causa no narrador testemunha, o cerne da obra não é esta amizade e sim a vida e o declínio de Silk. 

O problema é que esse olhar de fora de certa forma mantém o leitor afastado do protagonista. Do início ao fim da leitura senti que não conhecia Coleman Silk e que não estabeleci uma conexão com ele, mesmo que ao longo da trama o leitor desvende sua personalidade e seus segredos. 

O texto de Roth me deixou com a impressão de andar em uma montanha russa, em virtude dos altos e baixos. Em alguns capítulos, Roth surpreende não apenas pela profundidade nas reflexões, mas também por sua fluidez. Entretanto, outros capítulos se perderam em digressões de pouca importância para a trama. Inclusive, minha sensação era que esses capítulos tinham sido escritos por alguém com déficit de atenção, que se distraía facilmente e passava a narrar eventos irrelevantes.

Os personagens são incrivelmente humanos. Em nenhum momento Roth se atém a visão maniqueísta de mocinhos versus vilões. Pelo contrário, os personagens possuem diversas facetas, não sendo intrinsecamente bons ou maus. São apenas pessoas, com feridas causadas pelo passado, motivadas por suas paixões, que fazem o que julgam ser o correto. 

Confesso que a estória em si me decepcionou um pouco por parecer subaproveitada. A meu ver, os melhores elementos que a trama proporcionava acabaram ficando em segundo plano, enquanto eventos menos interessantes ganharam demasiada atenção. Creio que se certos arcos tivessem sido explorados, A Marca Humana se tornaria um dos meus livros preferidos. 

O grande êxito de Roth é a crítica à sociedade do politicamente correto, que faz julgamentos precipitados sem conhecer os fatos, e que acima de tudo é hipócrita e moralista. Além disso, o autor também traz reflexões sobre temas como racismo e justiça. 

Apesar de ter me decepcionado com certos aspectos de A Marca Humana, não posso deixar de reconhecer que a fama de Roth é mais do que justificada e que certamente lerei outros livros de sua autoria. 

Título: A Marca Humana (exemplar cedido pela editora)
Autor: Philip Roth
N.º de páginas: 401
Editora: Companhia de Bolso

28 comentários:

Luiza Helena Vieira disse...

Oi, Alê!
Eu ri sobre alguém com deficit de atenção.
Esse livro podemos trazer pra nossa sociedade. Hoje em dia, temos de ter cuidado com o que falamos porque senão se volta contra nós mesmos.
Beijos
Balaio de Babados
Porcelana - Financiamento Coletivo

Maria Fernanda Pinheiro disse...

Gostei de livros que mostrem de verdade como os seres humanos são, não são nenhum tipo de príncipe que sai de um cavalo branco né?
Um livro que mostra a real sociedade julgadora, por isso quero ler

Desbravador de Mundos disse...

Apesar de haver momentos não tão importantes que foram inseridos na narrativa, o que pode deixar o livro mais cansativo, gostei da premissa da obra e quero lê-la. Deve ser interessante conferir a derrocada de um homem a partir do olhar de outro. Ademais, o fato dos personagens serem extremamente humanos me agrada demais.
Excelente dica.

Desbravador de Mundos - Participe do top comentarista de abril. Serão três vencedores!

Thalita Branco disse...

Olá Alê!
Não conhecia o autor mas curti a premissa, principalmente do fato dos personagens terem diversas facetas. Só é uma pena, os mesmos pontos que desagradaram a você provavelmente vão desagradar a mim também :(
Bjs

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Theresa Cavalcanti disse...

O livro tem um história bem interessante, mas fiquei com algumas ressalvas. Talvez um dia eu leia, para tirar minhas próprias conclusões

Theresa Cavalcanti disse...

O livro tem um história bem interessante, mas fiquei com algumas ressalvas. Talvez um dia eu leia, para tirar minhas próprias conclusões

Diane disse...

Oie...
Gostei demaaaaiiisss da resenha/premissa do livro!
Achei muito interessante o autor ter criado personagens verdadeiramente humanos... Isso está ficando meio dificil de encontrar :)
Bjos

http://coisasdediane.blogspot.com.br/

Jess Sena disse...

Oi :D
Nossa, achei um livro beem interessante, mesmo tendo te decepcionado um pouco, fiquei curiosa pra ler!
Bj


@saymybook
saymybook.blogspot.com

Vic disse...

Essa capa é tão simples mas bonito ao mesmo tempo, não conhecia o autor mas vou anotar a dica.

Abraços.
aressacaliteraria.blogspot.com

Gabriela CZ disse...

Tenho que confessar que apesar de visto vários livros do autor enquanto navegava pelo Skoob nunca cheguei a ler uma sinopse sequer, Alê. E não sei dizer o por quê. Mas gostei da premissa deste e seus comentários (mesmo com as críticas) me mostraram que devo dar mais atenção ao autor. Cuidarei disso. Ótima resenha.

Abraços!
http://constantesevariaveis.blogspot.com.br/

Amanda e Elidiane disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Amanda e Elidiane disse...

Oi,Alê!

Ainda não conhecia o livro, mas confesso que fiquei muito curiosa para conhecer os personagens e também porque o livro se tornou um dos seus preferidos.

Beijos
Elidiane Ferreira
http://www.leituraentreamigas.com.br/

Ariane Reis. disse...

Oie Alê =)

Sei bem como são essas narrativas montanha russa. E tipo é tão chato quando isso acontece, por que em um momento a história está super envolvente e do nada ela perde toda a fluidez...
Não conhecia o livro, mas achei a premissa bem interessante, apesar desse pequeno detalhe rs...

Beijos;***

Ane Reis.
mydearlibrary | Livros, divagações e outras histórias...
@mydearlibrary


RUDYNALVA disse...

Alê!
Um livro que fala sobre o que é politicamente correto, sobre moralidade, sobre uma sociedade hipócrita, sobre racismo e sobre justiça, me parece bem interessante de ler, embora com as ressalvas que você fez.
“Não basta conquistar a sabedoria, é preciso usá-la.” (Cícero)
cheirinhos
Rudy
http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
TOP Comentarista especial de aniversário em abril: com 6 livros 5 ganhadores, participem!

Bruna Lago disse...

Poxa, que pena que a sua leitura não foi 100% aproveitada.
Eu imagino que esse livro seja mesmo cheio de criticas e o que mais me interessa, mostra como são as acoes do ser humano, o que cada um faz em determinada situação. A vida desse professor realmente deu um revira volta, não é mesmo? Essa seria uma das minhas leituras.
Abraços

Caverna Literária disse...

Só o título já me chamou atenção, e saber que na história o ser humano é retratado de forma real, suas qualidades e defeitos, instiga mais ainda a curiosidade. E outro ponto a ressaltar é o julgamento, como nunca estamos satisfeitos, como as escolhas dos outros ou uma frase mal formulada pode causar o maior alvoroço

xx Carol
http://caverna-literaria.blogspot.com.br/
Tem resenha nova no blog de "Os Humanos", vem conferir!

Dan Igor disse...

Gosto bastante de livros críticos, e a premissa desse me deixou curioso. Porém não sei se leria, pois sou muito fácil de perder a atenção na leitura, e esses altos e baixos do narrador não me acomodariam Abraços :)

Vida de Leitor disse...

Oi Ale. Conforme fui lendo sua resenha, minha curiosidade pelo livro aumentou consideravelmente. Não tinha ouvido falar sobre ele mas me deixou curiosa. Caso um dia eu resolva ler, espero não me decepcionar também :(

Beijos,
Natália

www.doprefacioaoepilogo.blogspot.com

Bianca Sampaio disse...

Oi Alê!
Não conhecia o livro, mas fiquei bem curiosa. A premissa é interessante e o que mais me chamou atenção foi quanto às críticas à sociedade.

Beijos,
Epílogos e Finais

Priscilla Frasnelli Rocha disse...

Oi Alê, tudo bem?
A história parece ser densa e cheia de nuances. Gosto muito!
Fiquei curiosa em conferir a história do protagonista sob os olhos do narrador.
Beijos,

Priscilla
Infinitas Vidas

Soraya Abuchaim disse...

Oi, Alê! Eu gostei muito da resenha e me identifiquei com o livro.
A narrativa da história também parece interessante.
Acho que, mesmo com esses problemas, eu leria. Afinal, a premissa é boa e acredito que cada um acaba entendendo de uma forma.
Beijos

Meu Meio Devaneio

Rafaela. disse...

Oi, Alê!

Não conhecia este livro, mas os pontos negativos me desanimaram - apesar de ter achado a sinopse interessante. A narrativa me lembrou O Grande Gatsby, mas neste caso o protagonista foi muito, muito bem desenvolvido.
Ótima resenha.

Beijocas.
http://artesaliteraria.blogspot.com.br

Devaneios de uma Cindy disse...

Oi Alê,

Não conhecia o livro e muito menos o autor. Fiquei bastante curiosa e adorei a premissa do livro. Mesmo com os pontos negativos, quero lê-lo.
Adorei a resenha.

Beijos!
Cintia

http://www.devaneiosdeumacindy.blogspot.com.br/

Nana Barcellos disse...

Oi Alê,
Uma pena que a leitura não alcançou suas expectativas.
Mas, esse ponto das críticas parece ser interessante e um motivo para dar uma chance. Ótima resenha.
Eu vi a capa e juro que achei que era thriller. O.o

tenha uma ótima quinta. :*
Nana - Obsession Valley

Lucas disse...

Fala Alê, tudo blz?
Sempre vi uma boa fama sobre Philip Roth, só que confesso que acabei me desanimando ao ler os pontos negativos. Apesar de ter achado interessante a narrativa ser narrado em primeira pessoa por um personagem secundário, não gostei de saber que causa um "afastamento" no protagonista. Mas quem sabe não o leria quando tivesse procurando algo mais profundo e reflexivo? Porque foi essa a sensação que tive que o livro é, profundo!

Lucas - Carpe Liber
http://livrosecontos.blogspot.com.br/

Mariana Ogawa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marlene Conceição disse...

Oi Alê...

Gostei bastante da resenha, mas infelizmente esse não seria um livro que me agradaria.
Fiquei curiosa sobre a vida do Silk, acho que gostaria.
Gosto de personagens que se envolvem em escândalos, mas não o suficiente para ler essa obra.
Boa Tarde.

Mariana Ogawa disse...

eu não conhecia o autor
e fiquei dividida em relação a esse livro, por um lado eu quis ler para conhecer os personagens, mas por outro essa "montanha-russa" me levou a pensar se eu vou ler. achei interessante fazer ser narrado em primeira pessoa sem ser pelo personagem principal, pois talvez a gente o conhecesse como os outros o viam
pensar aqui se a minha curiosidade sobre as questões apresentadas vence a chateação da história não ser melhor

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