terça-feira, 11 de outubro de 2016

RESENHA: O homem que caiu na Terra

“Olhou para si mesmo por muito tempo, até que começou a chorar. Não soluçava, mas as lágrimas rolavam de seus olhos – lágrimas iguais às dos humanos – e desciam pelas bochechas estreitas. Chorava em desespero. Então perguntou a si mesmo em inglês e em voz alta: “Quem é você? E a que lugar você pertence?” (TEVIS, 2016, p. 122)

Atualmente, a ficção científica parece ter cedido espaço às distopias que, por sua vez, parecem ter se tornado sinônimo de tramas de ação. E é por ver tantos lançamentos soarem como “mais do mesmo” que recorrer aos clássicos do gênero me é tão atraente. Foi com esse espírito que li “O homem que caiu na Terra”, livro que inspirou o filme homônimo que marcou a estreia do camaleão David Bowie nos cinemas.

Newton é um antheano que veio para a Terra com uma missão. Munido de tecnologias e inteligência muito superiores as dos humanos, ele não demora a conseguir os recursos que o permitirão colocar seus planos em prática. Mas ao tentar se misturar aos humanos, nem tudo sai como ele havia previsto.  

Eu nunca havia lido Walter Tevis (inclusive me surpreendeu saber que ele é o autor por trás dos livros que inspiraram os filmes “Desafio à Corrupção” e “A Cor do Dinheiro”, estrelados por Paul Newman) e a primeira coisa que me impactou na sua narrativa foi a habilidade de fazer o leitor se conectar rapidamente com os sentimentos de um personagem extraterrestre. Newton vem de um lugar diferente, com intenções que, nas primeiras páginas, ainda não sabemos quais são, mas simpatizamos com ele imediatamente. Nos primeiros capítulos eu me perguntava: “Qual será a desse sujeito? As intenções dele são boas ou más?”, mas de alguma forma eu sentia que podia confiar em Newton, o que me deixava ainda mais ansiosa para ver o desenrolar do seu plano. Eu havia lido a sinopse há tempos e por isso já havia esquecido esses detalhes quando iniciei a leitura, o que enriqueceu ainda mais o meu envolvimento com a jornada. Aliás, eu nunca havia reparado que a editora Darkside opta por não colocar sinopses em seus livros (apenas no site) e com base nesse caso isso me pareceu justificado, afinal, se o leitor já está com o livro em mãos, a última coisa que ele precisa é de informações sobre a história justo quando está prestes a embarcar nela.

A narrativa se dá em terceira pessoa, mudando o enfoque de personagem para personagem, nos permitindo ver a posição de cada um diante das situações. É interessante, inclusive, que cada um dos primeiros capítulos vá nos apresentando a um personagem novo, todos muito diferentes (o alienígena, o empresário, o professor) inserindo aos poucos as peças que irão compor a trama antes de começar a definir os seus contornos. O texto de Tevis nos conduz com fluidez, porém sem urgência, fazendo deste um livro que não se sente as páginas passarem.

Também chama a atenção como Tevis consegue destacar Newton em meio a ambientação da trama e não só por sua estranheza física. Me parece que nada recebe tantos elementos descritivos quando o protagonista, deixando a sensação de que todo o resto está em preto e branco e apenas ele está em cores (e aqui é preciso dizer que é impossível imaginar outra pessoa encarnando o personagem que não Bowie).

E por falar em Newton, engana-se quem pensa que “O homem que caiu na Terra” é sobre os planos do protagonista porque a verdade é que ele é sobre o próprio Newton e é interessante que o título se refira a ele como “homem” já que como extraterrestre ele provavelmente não deveria ser classificado dessa maneira. Mas o livro é justamente sobre isso: sobre a humanidade que existe no protagonista. E é isso que torna esta uma ficção científica tão diferente. Se pensarmos na maioria dos grandes livros do gênero (como “Androides sonham com ovelhas elétricas?”, “O Homem do Castelo Alto”, “Fahrenheit 451” e “Admirável Mundo Novo”) o que costumamos ter é um cenário modificado, quando comparado ao nosso, e a adaptação de vida que ele exige. Já em “O homem que caiu na Terra” temos o nosso mundo sendo visto por uma pessoa que é estranha a ele e é obrigada a se adaptar, a partir das suas limitações. Esse é o impacto da trama: ao se adaptar à Terra, Newton perde muito da sua conexão com Anthea, mas ainda assim nunca conseguirá ser um humano. De certa forma o personagem fica preso entre dois mundos, o que dá à trama um caráter melancólico que eu, particularmente, apreciei muito.

Sempre acreditei que as melhores distopias são as que nos levam a enxergar os nossos hábitos em meio a um contexto que os deturpa, o que nos leva a questionar os tais hábitos em si. “O Homem que caiu na Terra” nos faz assistir a tentativa de seu protagonista de se adaptar a esses hábitos, a fim de cumprir sua missão, em uma história que mais do que qualquer coisa é comovente, pois fala, acima de tudo, de solidão. Não, “O homem que caiu na Terra” não é um livro de grandes acontecimentos. É o livro de um grande personagem. Não é um livro de ação e adrenalina. É um livro de sentimentos. Uma história essencialmente humana envolta em uma áurea de ficção cientifica.

Não posso encerrar essa resenha sem mencionar que a oportunidade de ler esse livro veio da editora Darkside que nos abordou quando ele estava prestes a ser lançado, nos oferecendo um exemplar para resenha. Fica aqui o nosso agradecimento, em especial pela confiança da editora.

Título: O homem que caiu na Terra (exemplar cedido pela editora)

Autor: Walter Tevis

N° de páginas: 224

Editora: Darkside

26 comentários:

Marília Leocádio disse...

Olá
Já tinha lido sobre o livro pra comprar uma vez depois mudei de ideia, mas eu achei bem inteligente a história eu acho que a editora realmente soube fazer uma ótima escolha, enfim ainda pretendo ler o livro.

Luiza Helena Vieira disse...

Oi, Mari!
Menina, eu jurava que seria uma biografia do Bowie e ainda assim queria. Agora que li sua resenha, mudei a ideia de como seria o livro, mas ainda assim quero muito ler.
Beijos
Balaio de Babados
Participe da promoção 5 Anos de Além da Contracapa
Participe da promoção Halloween Literário

-Lunii † disse...

Olá, tudo bom?
Eu sempre tive vontade de ler ficção cientifica misturado com algo distópico, mas eu não sou muito fã de distopia e eu to sempre fugindo deles, os livros atuais que tem esse tema são sempre iguais que retratam os mesmo problemas sempre.
Mas me deu muita vontade de ler esse livro, acho que é algo que eu vou gostar pra caramba.

Sessão Proibida

Carol Espilotro, disse...

eu sou doente para ler esse livro! além que a darkside arrasa nas edições @_@ e olha graças a deus que as distopias finalmente estão sendo vistas como ação e genérica ainda por cima, pq novidade tem nenhuma nas tramas.... Eu adorei sua resenha, ótimos pontos foram ditos (como da narrativa) e bom, eu quero ler né

bjs, Carol | Espilotríssimo
http://carolespilotro.com

Lapso de Leitura disse...

Oi, Mari! Tudo bem?
Primeiramente, gostaria de parabenizar pelo contato entre o blog e a editora. Segundamente, parabenizar pela resenha que eu adorei!
Já havia ouvido falar desse livro, mas não fazia a menor ideia sobre o que ele falaria, apenas o que o próprio título já diz. Achei incrível.
Bjs!

-Ricardo, Lapso de Leitura

Gabriela CZ disse...

Preciso muito ler esse livro, Mari. Já queria, e depois de conferir seus comentários sobre a trama e principalmente sobre o protagonista vejo que realmente preciso ler. E também ver o filme com o ilustríssimo Bowie. Ótima resenha.

Beijos!

Adriana Holanda Tavares disse...

Se não me falha a parca memória eu assisti esse filme anos atrás, e achei bem legal, mas nem imaginava que tinha um livro sobre ele, acho a capa linda e não sei porque me faz lembrar de Laranja Mecânica... hihihih
Adriana Holanda Tavares
"Que brilhe a tua Luz!"

Tô pensando em Ler disse...

CA-RA-CA!! Que resenhaaaaa!!!
Bom, eu já queria o livro, mas agora, eu necessito pra viver.
Perfeito! Estou bem chocada! Sério.
Quero!!

Lele

Cristiane Dornelas disse...

Não tinha visto muito coisa que me fizesse ter vontade de ler esse livro. Mas agora eu estou com vontade! Adoro um bom livro cheio de sentimentos e que me faz questionar algumas coisas. Se ele tem disso deve ser do tipo que gosto. Achei legal a narrativa também, com enfoques diferentes. Acho mais interessante livros desse jeito por mostrar mais coisas, ampliar a história mesmo. Interessei.

Luiza disse...

Oi Mari, gostei da resenha pois pude conhecer mais desse livro e pareceu ser bem interessante pela sua resenha que está ótima.
Bjs
http://eternamente-princesa.blogspot.com.br/

Vanessa Vieira disse...

Gostei da resenha Mari. Aprecio livros intensos e que de certa forma levam o leitor a uma profunda reflexão. Beijo!

www.newsnessa.com

Michele Lima disse...

Oi Mari!

Eu ando bem cansada de distopias, mas essa por ser um clássico eu leria com certeza! O fato de não ter "ação adrenalina" não me incomoda nenhum pouco! E que bom que você gostou da leitura!


Bjs, Mi

O que tem na nossa estante

Indicar Livros disse...

oi tudo bem?

não conhecia esse livro, mas gostei da resenha. a premissa da obra me chamou muita atenção. vou deixar anotado na lista de desejados beijos

Taynara Mello |Indicar Livros
www.indicarlivros.com

Vanessa Sueroz disse...

Oie,
não conhecia o livro, mas a premissa é bem legal.
Dica anotada!

bjos
Blog Vanessa Sueroz

Teca Machado disse...

Mari, quero muitoooooo ler esse livro!
Essa é a primeira resenha que leio, mas me pegou e me interessou muito.
Nunca li nada do autor, mas tenho certeza que a experiência vai ser muito boa.
Adoro ficção científica, ainda mais a que foi a estreia cinematográfica do Bowie.
<3

Beijoooos

www.casosacasoselivros.com

Sil disse...

Olá, Mari.
E você ainda não citou que as distopias de hoje em dia todas tem triângulos amorosos e basicamente são feitas para virarem filmes hehe. Achei a proposta desse livro bem interessante e se der eu vou ler ele. Alguns livros da DarkSide que tenho aqui tem sinopse sim hehe.

Blog Prefácio

RUDYNALVA disse...

Mari!
Tive oportunidade de assistir o filme há alguns anos por dois motivos, além de amar ficção, amo David Bowie e pelo jeito o livro é quase fiel...
Ler uma boa ficção mesclada a distopia e a busca de adaptação de um 'homem' na terra e tendo de conviver com sua solidão, deve ser uma leitura maravilhosa para quem aprecia o estilo.
“Buscamos, no outro, não a sabedoria do conselho, mas o silêncio da escuta; não a solidez do músculo, mas o colo que acolhe.” (Rubem Alves)
cheirinhos
Rudy
http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
TOP Comentarista de OUTUBRO com 3 livros + BRINDES e 3 ganhadores, participem!

Desbravador de Mundos disse...

Olá, Mari.
Também tenho procurado ler os clássicos do gênero, já que os atuais sempre têm me decepcionado. Aliás, indico o Dick para você. Acho que você vai amar. Ao menos eu gosto bastante.
Quanto ao livro especificamente, a premissa é muito boa e a ideia de ver o ser alienígena tentando se adaptar aos nossos hábitos deve ser interessante. Isso, aliado à narrativa que prende de maneira rápido, deve gerar uma ótima obra.
Excelente resenha.

Desbravador de Mundos - Participe do top comentarista de outubro. Serão dois vencedores, dividindo 5 livros.

Nessa disse...

Oie
Tenho muita curiosidade por este livro, ele parece ser bem interessante. Essa editora publica muita coisa boa que sou louca para ler, sem falar na diagramação perfeita e bem caprichada. Adorei conhecer mais da obra e saber sua opinião sobre.

Beijinhos
http://diariodeincentivoaleitura.blogspot.com.br/

Clayci disse...

Esta edição está tão linda..
Sempre namoro quando passo pela livraria *_*

Quero muito!
Beijos
www.saidaminhalente.com

Ana Clara disse...

Oi, Mari!

Eu acho a DarkSide muito diferenciada em tudo... Não só por não colocarem sinopse na capa (eu, particularmente, prefiro ler o livro sem saber nada dele), mas pela obra em si. É muito bom quando a gente já se conecta com o protagonista de cara, né? Mas penso que Newton deve viver num dilema... Fazendo uma comparação fajuta... É muito difícil ser diferente em uma coisa que todo mundo não é. Por exemplo, no seu grupo de amigos, é muito ruim quando, sei lá, você gosta de uma banda que eles não gostam. Não consigo imaginar realmente o quão melancólico seria ser um extraterrestre na Terra, mas acho que eu também apreciaria esse tom.

Beijo!
http://www.roendolivros.com.br/

Márcia Saltão disse...

Olá!
Sua resenha está perfeita! Ainda não li esse livro, mas está na minha lista de desejados, desde que começou sua divulgação. E sendo DarkSide, não tem como não querer. A premissa me conquistou e agora, lendo sua resenha, mais certa fiquei de que vou gostar muito da leitura. Beijos.

Eduarda Rozemberg disse...

Sua resenha está maravilhosa! O final achei até meio poético falando sobre a relfexão de nossos hábitos, adorei, sério. Eu nunca tinha visto nada sobre esse livro e conhecia só de capa, e adorei a forma que o protagonista tenta se adaptar aos hábitos. Quero muito ler.
Um abraço!

http://paragrafosetravessoes.blogspot.com.br/

Stephany Santim disse...

Confesso que esse livro já estava na minha wishlist faz um tempo mas com essa resenha minha vontade de ler só aumentou. Estou muito curiosa. Um beijo!

Fernanda Mendonça disse...

Oi!! Primeiramente fora temer, segundamente parabens e invejinha da sua parceria com a Dark. É tipo um sonho meu auhsaushaiuhsaishiahs Enfim, eu amo filmes e livros de ficção cientifica e ele está na minha lista há tempos, ainda mais agora com a edição da dark. Eu realmente espero conseguir ler em breve

Ana I. J. Mercury disse...

Não é o tipo de livro que curto muito, porém, fiquei curiosa.
Parece ser uma narrativa bem interessante e original.
Só não sei se eu conseguiria entendê-la bem,rs
bjs

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