sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

RESENHA: A Humilhação

“Não conseguia dar e não conseguia reter; não tinha fluidez e não tinha reserva. A atuação tornou-se uma tentativa, repetida noite após noite, de conseguir se livrar de um fardo.” (ROTH, 2010, p. 8) 

Passeando por uma livraria, me deparei com uma estante com vários títulos de Philip Roth e comecei a ler a abertura de cada um, apenas o primeiro parágrafo para ter uma ideia do tom do livro, na tentativa de escolher qual seria meu primeiro contato com a obra do autor. Quando cheguei em “A Humilhação” um parágrafo se tornou dois, que se tornaram a primeira página, que se tornou a segunda e eu já não queria devolver o exemplar ao seu lugar.

Simon Axler construiu uma carreira de sucesso no teatro por 40 anos. Mas agora, aos 65, ele percebeu que já não consegue atuar. Não consegue convencer as pessoas, nem a si mesmo, de que é aqueles personagens. Apenas decora falas que já nem sabe como dizer. Depois dessa difícil constatação, Axler passa por um momento conturbado, se interna em uma instituição e, tempos depois, conhece Pegeen, uma ex-lésbica decepcionada com as mulheres tanto quanto Axler está decepcionado com si mesmo.

Um bom autor se reconhece não pelo tamanho dos livros que escreve, nem pelas reviravoltas das tramas que cria. Bons personagens contam muitos pontos, uma história que causa impacto também. Mas um bom autor se reconhece principalmente pela força do seu texto porque um bom texto pode transformar míseras páginas e uma história simples em um livro fantástico. Em “A Humilhação” há uma força e uma intensidade no texto que prova com uma única página que Philip Roth é um desses autores. Se fosse apenas pelos eventos que testemunhamos ou pelas interações que Axler vivencia, conheceríamos pouco do protagonista, mas Roth encontra um jeito de fazer seu personagem transbordar em cada frase, de forma que sentimos na pele toda a sua angústia.

Tanto Axler como Pegeen são excelentes personagens, não porque nos cativam ou porque nos apegamos a eles (nenhuma das duas coisas acontece), mas porque são frágeis e cheios de defeitos, tomam péssimas decisões (para si mesmos e para os que os cercam) e justamente por isso se tornam ricos. Sua história não abrange uma larga série de acontecimentos e sim um curto, porém intenso, período em suas vidas.

Dividido em três partes e narrado em terceira pessoa, o livro se dedica a mostrar o processo de decadência (e, talvez até, de autossabotagem) do seu protagonista. Na primeira parte temos o momento em que ele constata que a mágica da interpretação se perdeu nele. A maneira como lida com isso e seus conflitos internos são completamente envolventes e, de longe, a melhor fase da obra. Na segunda, acompanhamos o envolvimento de Axler e Pegeen. Como essa mulher 25 anos mais nova surge na vida dele, como ele, aos poucos, tenta transformá-la e como, por um tempo, a novidade mexe com a vida de ambos. Na terceira, temos o momento em que os personagens se obrigam a encarar o que estão fazendo e o que estão ganhando com isso.

A qualidade, a meu ver, não é constante. Enquanto Axler está voltado para si mesmo, o livro é hipnotizante e deliciosamente melancólico, mas a partir do momento em que a trama passa a focar no envolvimento de Axler com Pegeen muita dessa intensidade se perde (talvez justamente porque o caso dos dois seja supérfluo). Pegeen é uma espécie de fuga para Axler. Ele quer se reinventar, mas não sabe como e assim acaba se escondendo em um caso fadado ao fracasso que funciona como uma máscara cobrindo suas verdadeiras emoções. Por isso, para mim, essa nova perspectiva foi uma espécie de balde de água fria após testemunhar as mais íntimas angústias do personagem.

Foi fácil perceber, ainda nas primeiras páginas, que a história não seria grandiosa por seus acontecimentos e sim por suas emoções, porém o desenrolar me decepcionou por não tornar constante o fascínio que a primeira parte provoca. Ainda assim, gostei do meu primeiro contado com a obra de Philip Roth. “A Humilhação” é breve e cuidadosamente executado para ser apenas aquilo que se propôs a ser, sem enxertos, sem adornos, salientando a fragilidade do ser humano, a dependência que temos das coisas que amamos, e a profundidade dos buracos que cavamos para nós mesmos ao longo da vida.

Título: A Humilhação (exemplar cedido pela editora) 
Autor: Philip Roth
N° de páginas: 102
Editora: Companhia das Letras

18 comentários:

RUDYNALVA disse...

Mari!
Nunca li nada do autor e achei que seria mais um livro existencialista, o que não deixou de ser, mas ao tentar inserir um romance para "consertar" a vida dos protagonista, perdeu um pouco o brilho.
Gostei de saber que "“A Humilhação” é breve e cuidadosamente executado para ser apenas aquilo que se propôs a ser, sem enxertos, sem adornos, salientando a fragilidade do ser humano, a dependência que temos das coisas que amamos, e a profundidade dos buracos que cavamos para nós mesmos ao longo da vida."
Bom carnaval e moderação, hein?
“Quanto mais nos elevamos, menores parecemos aos olhos daqueles que não sabem voar.” (Friedrich Nietzsche)
cheirinhos
Rudy
http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
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Gabriela CZ disse...

É muito bom ter surpresas assim, né Mari? Só conheço o autor de nome e não conhecia o livro, mas gostei da premissa. Percebe-se que mesmo com alguns pontos negativos é uma grande história. Me deixou curiosa. Ótima resenha.

Beijos!

Luiza Helena Vieira disse...

Oi, Mari!
Creio que, por causa do tamanho, a história não pode ter sido muito desenvolvida..
Lendo sua resenha, eu tive a impressão que o livro lembra um pouco Birdman.
Beijos
Balaio de Babados
Sorteio Literário de Carnaval

Sil disse...

Olá, Mari.
Eu não conhecia esse autor ainda. É tão bom quando um livro já pega a gente logo nos primeiros parágrafos né? E você tem razão, quando o autor é bom, ele pega uma história que nas mãos de outro seria apenas mais uma história e transforma em algo único. Mas que pena que isso não foi até o fim da história. Fiquei na dúvida em ler ou não.

Prefácio

Larissa Dutra disse...

Olá, tudo bem? Não conhecia o livro nem o autor, mas depois de sua resenha fiquei curiosa para ler algo dele...

Beijos,
Duas Livreiras / Sorteio literário

Renato Almeida disse...

Olá, Mari. Tudo bem?
Já tinha conhecimento sobre essa obra, e muito interesse. Sua resenha só veio a aumentar mais ainda minha curiosidade. Adoro livros que os sentimentos presentes nos personagens são objetivos, claros e intensos ao ponto do leitor facilmente se por em seu lugar.

Enfim, quero muito ler. Até mais.
https://realidadecaotica.blogspot.com.br/

Marília Leocádio disse...

Muito legal conhecer um autor que nunca tinha lido nada a respeito a obra me pareceu com uma história bem elaborada e com um gostinho de quero mais.
Até mais!!!

Thaynara ribeiro disse...

Não conhecia o livro e me intrigou muito a capa e sinopse.
Gostei da resenha e é otimo quando ficamos presos numa leitura. Fiquei curiosa para saber como o personagem se autosabota

LegalJunior disse...

Legal seu blog, se puder passa lá no meu, to recomeçando!

http://legaljunior.blogspot.com.br

Alessandra Salvia disse...

Oi Mari,
Não conhecia a obra, nem autor.
Confesso que não faz muito meu estilo de leitura.
Mas é bem curtinho, hein? Entendo o problema de desenvolvimento.
Beijos
http://estante-da-ale.blogspot.com.br/

Rafaela. disse...

Oi, Mari!

Eu tenho muita vontade de ler os livros de Philip Roth, mas nunca sei por qual começar. Agora, acho que também irei escolher "A humilhação" como primeiro contato. Concordo contigo, uma história bem escrita, envolvente e intensa não precisa ter muitas páginas para se desenvolver melhor, basta o autor ser incrível - este é caso também de Ian McEwan, vários livros dele são curtos, mas maravilhosamente bons!
Ótima resenha! Fiquei muito curiosa para ler, mesmo que as outras partes do livro não tenham sido tão boas quanto a primeira.

Beijocas.
http://artesaliteraria.blogspot.com.br

Vanessa Vieira disse...

Gostei da resenha Mari. Me pareceu ser um livro intenso e profundo e fiquei bem interessada pela leitura. Beijo!

www.newsnessa.com

Magia é Sonhar disse...

É a primeira vez que ouço falar sobre esse livro e sobre este autor. Me interessei muito pelo livro, mas tenho um medo de me decepcionar como você falou por não ser o constante fascínio do início, mas estou pensando em ler sim, hein! Vou colocar na minha lista!
Adorei seu blog, estou seguindo!
Magia é Sonhar

O Que Tem Na Nossa Estante disse...

Oi Mari! Eu super concordo com vc, livro grande não quer dizer nada! E que pena que foi uma narrativa tão inconstante porque a premissa é interessante, principalmente o protagonista.

Bjs, Mi

O que tem na nossa estante

Marta Izabel disse...

Oi, Mari!!
Não conhecia o livro é também nunca li nada do autor!! Para falar a verdade não gostei da história. Então no momento eu passo.
Bjoss

suzana cariri disse...

Oi!
Ainda não li nada desse autor e lendo a resenha do livro do Philip Roth, fiquei muito curiosa para poder ler, achei muito interessante o tema que ela aborda, geralmente o livro nos trás sempre o auge da vidas das pessoas ou o caminho para, e achei interessante o autora nos trazer esse fase da decadência !!

Ana I. J. Mercury disse...

Parece ser um livro bem reflexivo, mas fiquei meio confusa, é bem diferente do que estou habituada a ler, ache que eu não leria não rsrsrs
bjss

João Victor Muniz disse...

Nunca li nada do autor e nem conhecia essa obra, mas confesso que vou colocar na lista porquê fiquei curioso para le-lo, realmente o autor que sabe fazer o leitor sentir o que sente o personagem é bem gostoso de se ler, e tava pensando aqui, nunca li um livro que tivesse um personagem ator.

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