segunda-feira, 10 de abril de 2017

RESENHA: A guerra que salvou a minha vida

“Burra. Retardada. Educável. Zelosa. Eram só palavras. Eu estava tão cansada de palavras sem sentido.” (BRADLEY, 2017, p. 74)

Ada é uma menina de 10 anos, mas nem mesmo a sua idade ela sabe. Na verdade, Ada sabe quase nada do mundo já que fica trancada dentro de casa, assistindo tudo pela janela, porque sua mãe a proíbe de sair devido a um problema que a menina tem no pé. Na casa vive também Jamie, o irmão mais novo de Ada, foco da devoção e amor da menina. Com o início da Segunda Guerra Mundial, as crianças são evacuadas de uma Londres ameaçada por bombardeios e levadas para o interior para viver sob a tutela de desconhecidos. Deixando os maus tratos da Mãe para trás, Ada e Jamie passam a morar com Susan, uma mulher que não pediu para abrigar refugiados, mas que abre espaço na sua vida para eles.

“A guerra que salvou a minha vida” se utiliza de uma cenário cruel para desenvolver uma história doce sobre superação. A narrativa de Ada nos permite ver a guerra pelos olhos de uma criança que não entende direito o que o conflito representa e que nos diz, já no início do livro, que “existe guerra de tudo quanto é tipo.”. Acostumada com os maus tratos da pessoa que deveria amá-la incondicionalmente, mas que, entre outras coisas, costuma se referir a ela o tempo todo como “aleijada”, ela pensa: o que pode ser pior? Seu olhar não carrega apenas a inocência característica das crianças, mas uma inocência de quem nunca teve a chance de viver, tendo passado a vida sem conviver com outras pessoas, sem ir na escola, sem correr e brincar com outras crianças. Ainda no trem, enquanto viaja para o interior, na primeira vez em que vê uma extensão grande de grama, Ada pergunta: “o que é esse verde todo?”. É com esse olhar de constantes descobertas que ela nos conta sua história ao mesmo tempo em que nos mostra os medos dos adultos diante da Guerra que se aproxima.

Nesse processo, Ada também descobre os pequenos prazeres da vida, como uma coberta macia, uma cama quente e roupas novas. Pequenos gestos de afeto com os quais ela tem dificuldade de lidar com medo de se apegar, afinal, aquela situação é temporária e seu prazo de validade é o fim da guerra que, mais cedo ou mais tarde, chegará e nesse dia ela e Jamie voltarão para a Mãe. A Mãe é a realidade. Susan (que também precisa aprender a lidar com crianças na sua rotina) é apenas uma fase passageira.

Em alguns momentos, as reações de Ada e Jamie chegam a irritar, mas não é difícil entender que elas nada mais são do que mecanismos de defesa. Eles não podem se acostumar com aquela vida (que embora cheia de restrições é muito melhor do que aquela com a qual eles estão acostumados), não podem se acostumar a depender ou a poder contar com alguém. É por isso que “A guerra que salvou a minha vida” é uma história de superação, pois não se trata apenas de superar o momento assustador que a guerra representa ou os maus tratos da mãe, mas as cicatrizes psicológicas que eles deixaram nas crianças, antes que elas se tornem adultos. Por isso também a guerra é apenas o pano de fundo da história, estando longe de ditar o rumo dos acontecimentos.

Por sermos apresentados à história pela perspectiva de Ada, é natural que ela ganhe destaque, mas também é possível observar a evolução de Jamie e da própria Susan (que em nenhum momento pediu para ter essas crianças sob sua tutela). O que torna a dinâmica do trio especial é que a evolução de um depende da evolução do outro para acontecer.

Mostrando que a crueldade pode estar em todos os lugares e adquirir todas as formas, “A guerra que salvou a minha vida” mostra que o amor e a amizade também podem ser encontrados em lugares inesperados e que a vida não depende apenas do cenário em que se está inserido, podendo ser bela mesmo quando tudo ao redor está sendo destruído.

Título: A guerra que salvou a minha vida
Autora: Kimberly Brubaker Bradley
N° de páginas: 234
Editora: DarkSide
Exemplar cedido pela editora

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15 comentários:

RUDYNALVA disse...

Mari!
Livros com pano de fundo sendo a guerra, são sempre uma boa leitura.
E ver a visão de uma criança totalmente inexperiente, inocente e que foi maltratada pela própria mãe, que era quem devia amá-la, é um grande drama.
Imagino o tanto de descobertas que ela fez e como deve ser difícil receber o amor que lhe é ofertado, porque ela nunca soube o que é ser amada.
Desejo uma ótima semana!
“ O amor é a sabedoria dos loucos e a loucura dos sábios.” (Samuel Johnson)
cheirinhos
Rudy
http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
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O Que Tem Na Nossa Estante disse...

Oi Mari, eu acabei de postar a resenha desse livro tb! Eu confesso que fiquei encantada, principalmente com a Susan! Confesso que esperava algo mais tenso e no fim foi uma bonita história de superação. Foi uma grata surpresa!

Bjs, Mi

O que tem na nossa estante

Vanessa Vieira disse...

Gostei da resenha Mari. Livros que retratam a Segunda Guerra Mundial sempre me chamam a atenção e com essa história de fundo tão bem retratada então... Nem preciso dizer que fiquei interessada pela leitura, né? Beijo!

www.newsnessa.com

Luiza Helena Vieira disse...

Oi, Mari!
Adoro livros que tem Segunda Guerra como pano de fundo e esse eu achei bem diferente. Com certeza vou conferir.
Beijos
Balaio de Babados
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Marília Leocádio disse...

Ainda não tinha lido nada a respeito do livro mas já considero que gostei uma guerra vista com o olhar de uma criança tão inocente achei a edição tão linda e lógico que quero conferir.
Abraços!!!

Jônatas Amaral disse...

Olá,
Enquanto eu fui lendo sua resenha, fiquei bastante empolgado em conhecer a história. Ela não é original exatamente, já vimos várias histórias que tem aspectos em comum, mas o que me surpreendeu de fato é esse trio de personagens e sua relação que você mencionou. Isso parece ser algo interessante, tendo a guerra como pano de fundo é só mais um detalhe extra.

Quando você fala sobre o olhar inocente da criança narrando a história, eu lembro imediatamente de "O menino do pijama listrado".

Muito bom!

Jônatas Amaral
alma-critica.blogspot.com.br

Marta Izabel disse...

Oi, Mari!!
Adorei conhecer um pouca mais desse livro fantástico. Na primeira vez que li a sinopse do livro fiquei me perguntando como uma guerra poderia salvar a vida de Ada, agora que conheço um pouco mais da estória do livro quero urgentemente ler essa obra maravilhosa!!
Beijoss

Sil disse...

Olá, Mari.
Quero muito ler esse livro. Amo histórias que se passem durante a Segunda Guerra e essa me chamou muito a atenção por ser pelos olhos da criança. Já vi que vou amar ela. E me emocionar também hehe

Prefácio

Gabriela CZ disse...

Esse livro me atraiu de cara, Mari. Me atraiu a premissa de dois irmãos salvos de uma mãe opressora por causa da guerra. E pelos seus comentários cumpre a promessa de ser uma história cativante. Quero ler. Ótima resenha.

Beijos!

Carolina Garcia disse...

Oi, Mari!!

Sua resenha está linda e estou com mais vontade de ler esse livro. Pelo o que escreveu, tenho certeza que vou gostar muito também!!

Bjs!!

http://livrosontemhojeesempre.blogspot.com.br

Franciele de Santana disse...

Livro como este nos faz repensar sobre as condições de criança que vivem em situação de Guerra na atualidade, como não pensar nas crianças da Síria e nos mais diversos lugares na mesma situação, nos fazendo repensar como coisas tão pequenas são tão valiosas mas que nem sempre damos valor, como uma cama macia.

Leandro Firmino disse...

Oi Mari,
Caramba!! Resenha incrível. Gostei muito da história do livro também, me chamou muitíssima atenção, antes de comentar isso já o adicionei na minha wishlist hihi sem falar que as edições da Darkside são incríveis, né?

Abraços,
tonylucasblog.blogspot.com.br

Kéziah Raiol disse...

Oi Mari, tudo bom?
Adoro livros com essa temática de Guerra, acredito que conseguimos absorver bastante ensinamentos deles. Acho que esse livro é incrível, já quero ler. Adorei tua resenha *-*

Beijos,
paixaoliteraria.com

Nessa disse...

Oi Mari
estou lendo este livro no momento e gostando bastante. É emocionante ver a reação das crianças diante dos fatos e até do carinho da Sr. Smith.

Beijinhos
http://diariodeincentivoaleitura.blogspot.com.br/

Adriana Holanda Tavares disse...

Acredita que ainda não li nada da Dark Sides?
Mas acho as capas incriveis e essa edição de "A guerra que salvou a minha vida " esta muito linda.
Essa não é a primeira resenha que leio desse livro e vejo que as impressões causadas em você são bem parecidas com a da autora da outra resenha.

O enredo é interessante e o mais inportante parece que a autora soube conduzir a historia .

Beijos

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