quinta-feira, 22 de junho de 2017

Quem vem para o jantar? #29

Ninguém mais ouviu falar neles depois daquilo. Ninguém soube como tudo havia começado. Bom, ninguém a não ser eu. E Tabitha. Mas talvez eu devesse começar pelo começo. Pelo jantar daquela noite. Se eu soubesse o que iria acontecer, nunca teria dado início àquela jornada maluca. Parecia tão emocionante e tão simples ao mesmo tempo. Se ao menos eu soubesse...

Ali estávamos nós. Depois do jantar, apenas rindo e estendendo um pouco mais a conversa. Isaac Asimov, Agatha Christie, Georges Simenon, David Lynch, Thomas Harris, Suzane Collins, Emily Brontë, Pierre Boileau e eu. Tabitha àquela hora já havia se retirado, dizendo que não queria testemunhar a loucura que eu estava prestes a propor aos nossos convidados. Eis que esse infeliz episódio serviu para provar, mais uma vez, que eu devo escutar a minha mulher. Sempre!

Mas em minha defesa, todos pareceram achar a ideia estimulante. Bom, todos menos Simenon. “Com certas coisas não se brinca”, disse ele. “Não existia disso no meu tempo.” Houve também o bizarro comportamento de Lynch, que eu tinha certeza que seria o primeiro a embarcar na aventura, mas que saltou fora alegando estar com muitos compromissos graças ao retorno de Twin Peaks. Aliás, estou devendo a ele a minha opinião sobre os novos episódios, mas quem tem cabeça para assistir séries quando se está vivendo sob a sombra de ter feito o que eu fiz? Voltando ao assunto, foi assim que nosso grupo se formou: Asimov, Agatha, Tom, Pierre, Suzane, Emily e eu.

Mas me desculpe, Leitor Fiel. Eu ainda não lhe contei o que deu início a essa confusão toda. Talvez eu esteja apenas envergonhado. Ou talvez você deva estar, afinal, você pode ter sido um dos que me alfinetaram a buscar isso, então talvez possamos dividir a culpa. O que você acha? Porque tudo começou quando muitos de vocês criticaram o final de “Sob a Redoma”. Tantos foram os argumentos de vocês que até eu mesmo passei a acreditar que era melhor se eu não tivesse explicado as origens da redoma, afinal, vocês tem razão: ninguém se importa com a tal redoma. O que importa são os personagens. São sempre os personagens. Então é por isso que a minha intenção naquela noite era a seguinte: entrar em uma realidade paralela que me permitisse alterar o final da história. Tabitha disse que era perigoso e que não daria certo, mas para mim aquela era uma chance única de fazer algo que poucos fizeram antes. A turma concordou e por isso aceitaram vir junto. Pierre, inclusive, disse que aproveitaria para tentar fazer alterações em “Vertigo – Um Corpo que Cai” porque acabou gostando mais da abordagem de Hitchcock do que daquela que ele e Narcejac propuseram originalmente.

Foi no dia seguinte que partimos. Não darei detalhes sobre a caixa, sua localização ou sobre como tivemos acesso a ela porque não me foi permitido revelar essas informações. Tudo o que posso dizer é que, quando entramos naquele corredor imenso, para onde olhávamos, o que víamos era o nada. Um longo corredor, tão iluminado que ofuscava a visão, cercado de portas e paredes envidraças, porém opacas, de forma que tudo o que tínhamos eram vislumbres incompreensíveis do que estava do outro lado.

Como a coisa toda havia sido minha ideia, eles deixaram que eu escolhesse a porta que cruzaríamos. E eu escolhi. Eu devia ter previsto. Devia saber que aquele era o melhor momento para voltar para casa.

Assim que a porta se fechou atrás de nós, a confusão começou. A primeira a constatar isso foi Agatha, por puro acidente. Sempre agarrada em um livro, a dama do crime estava relendo “O Morro dos Ventos Uivantes” e com espanto perguntou para Emily se havia mais de uma versão da história. Surpresa, a senhorita Brontë deu a resposta óbvia: “Não”.
– Mas então como Catherine e Heathcliff estão se casando? - perguntou Agatha realmente confusa - Eu já li a história antes e não é isso que acontece.
– É claro que não é isso que acontece. Do que você está falando?
– Está aqui, na página 122. Cathy e Heathcliff estão se casando.
– Mas eu não entendo – disse Emily mais para si mesma do que para o grupo.
Atento, Asimov se aproximou de mim, mas ele nem precisou dizer nada para que eu entendesse o que se passava naquela mente que tantas vezes imaginou realidades alternativas. Tudo o que eu queria era alterar o final de “Sob a Redoma”, mas jamais havia me ocorrido que, ao cruzarmos aquela porta, os romances dos que estavam comigo poderiam sofrer mudanças consideráveis.

Espantada, Agatha fez uma leitura dinâmica e logo compartilhou conosco que o destino do casal criado por Emily continuava trágico: Heathcliff morreria de uma queda de cavalo e Cathy se tornaria tão amarga quanto seu amado fora na versão original da história.

Foi Pierre quem sugeriu que fossemos embora e eu concordei. Então voltamos para o corredor e eu escolhi uma nova porta. A nova realidade que se abriu diante de nós não era nada melhor do que a anterior. Nela, Will Graham se tornava aprendiz de Hannibal Lecter e dava continuidade ao seu legado sanguinário quando o doutor estava atrás das grades. Clarice, aliás, nem chegava a ter acesso a Lecter, já que Graham, obsessivo em continuar sendo o preferido de seu mentor, impedia que qualquer mente promissora chegasse perto de Hannibal.

A essas alturas, Leitor Fiel, você já entendeu o cenário de horror que se formou diante de nós? Não importa quantas vezes voltássemos, quais portas eu escolhia, sempre nos deparávamos com as nossas melhores obras totalmente distorcidas. Agatha viu seu lendário Hercule Poirot não embarcar para uma de suas viagens de férias e, consequentemente, ninguém foi assassinado na história, pois todos os leitores sabem que é a presença do pequeno Belga que atrai os crimes. O livro foi um fracasso! Quase arruinou a carreira da grande Dama do Crime. Asimov viu sua fantástica série dos robôs se tornar uma história de horror de quinta categoria em que os robôs escravizavam os humanos e os colocavam uns contra os outros, descartando-os sempre que não serviam ao seu propósito, ou seja, eliminar outros seres humanos a serviço da supremacia dos robôs.
- Isso é terrível – disse Asimov – É contra tudo o que eu quis propor com as 3 Leis Fundamentais da Robótica.

Suzane Collins viu Prim servir como tributo nos Jogos Vorazes, o que deixou Katniss desolada, principalmente depois que a irmã foi morta ainda no segundo desafio dos jogos. Sem uma personagem forte à frente da série, a trilogia foi reduzida a um único livro, sem espaço nem mesmo para desenvolver o triângulo amoroso que Suzane tanto havia preservado até as últimas páginas.

Quando achamos que não haviam mais livros para sofrerem da maldição da realidade paralela, foi a minha vez de vivenciar o horror que meus amigos vinham experimentando. No meu caso, a nova realidade foi buscar minha primeira história e transformou “Carrie” em um dramalhão no qual a mãe era quem descobria ter poderes telecinéticos, matava todos os adolescentes da cidade que ela considerava serem más influências para a sua filha que, por sua vez, acaba sendo injustamente culpada pelos assassinatos que todos acreditavam serem cometidos por ela em vingança ao bulliyng de anos. Da prisão ela escrevia a sua história em um diário e jurava guardar para sempre o segredo da mãe.

Se antes eu já estava apavorado, ver minha Carrie ser reduzida a uma mártir novelesca fez com que eu me arrependesse amargamente de ter dado início àquilo tudo. Mas agora não tinha mais volta. Tudo ficaria bem se eu conseguisse cumprir o meu propósito. Eu mudaria o final, todos voltaríamos para casa e nossas histórias ficariam bem.

Foi por isso que, pela última vez, eu levei todos para o corredor, mas dessa vez o que encontramos não foram as paredes envidraçadas e sim cortinas vermelhas por todos os lados. Um longo corredor vermelho, uma torta de cereja e o número exato de xícaras de café, uma para cada um de nós. Emily, que estava precisando de uma bebida forte, se contentou com o café e correu para a xícara mais próxima. Eu tentei impedi-la, mas ela foi mais rápida do que eu e, quando a alcancei, ela já havia bebido. Parecia apenas um inocente café, mas eu tinha minhas dúvidas. Aquilo só podia ser coisa do David. Estaria ele ali em algum lugar? Teria entrado conosco sem que percebêssemos? Eu sabia que ele não ficaria de fora de uma experiência como essa, mas o que ele estaria tramando?

Enquanto todos discutiam a respeito do que havia levado o nosso corredor a se transformar em um cenário de Twin Peaks, fiz o que acreditava ser o melhor para todos: deixei meus amigos onde estavam, escolhi uma nova porta e a cruzei sozinho. Assim, pelo menos, o meu seria o único trabalho em risco.

Sentei para trabalhar e meu desespero só aumentou. Eu já não sabia para qual história eu deveria reescrever um final! Era como se ela nunca tivesse existido na minha mente. Entrei em uma livraria e perguntei pelo meu próprio livro, mas ele nunca havia sido lançado. E eu não tinha a menor ideia de como escrevê-lo. Tudo que eu tinha era um título. Nada mais.

Decidi que o melhor a fazer era deixar essa ideia absurda de lado, mas quando voltei para o corredor, qual não foi o meu espanto ao ver que nenhum dos meus amigos se encontrava ali, que a torta de cereja estava espatifada no chão e todas as xícaras haviam desaparecido? Apavorado, entrei nas portas mais próximas, mas não consegui encontrá-los. Entrei em todas as livrarias e perguntei se haviam visto algum deles, mas em algumas situações nem mesmo seus nomes eram conhecidos. Eu estava sozinho e sem ideias.

E é assim que continuo agora. De alguma forma consegui voltar para casa. Tabitha está aqui do meu lado, dizendo coisas em sua cabeça que eu sei que ela não irá verbalizar. Não há necessidade. Sei exatamente o que ela quer me dizer. Se ao menos eu a tivesse ouvido quando ela tentou me alertar.

David também está aqui tentando me ajudar a encontrar uma solução. Ele jura que não teve nada a ver com o que aconteceu e eu acredito nele. Mas às vezes, quando o olho com atenção, posso jurar que seu cabelo está ficando mais branco e que sua risada não está soando como sempre. “Onde eles estão?”, ele repete histérico. “Onde eles estão? Onde eles estão? Onde eles estão?”


12 comentários:

Lara Caroline disse...

Olá Mari, tudo bem?
Me perdoe a ignorância, mas este é o trecho de algum livro específico? Fiquei curiosa para saber o que aconteceria na sequência e a estória acaba na melhor parte hahaha
Beijos

Isabela Carvalho disse...

Oi Mari ;)
Também não entendi se é um trecho de um livro específico, mas adorei... que maravilhoso esse jantar com autores tão maravilhosos, como Agatha Christie e Suzane Collins!
Achei a escrita ótima, e fiquei curiosa pela continuação.
Bjos

Vanessa Vieira disse...

Amei o texto Mari! Stephen King, Emily Brönte e Agatha Chrstie em uma mesma história é um verdadeiro banquete. Beijo!

www.newsnessa.com

Márcia Saltão disse...

Oi!
Mas esse jantar é para lá de especial! E se Agatha Christie está, só pode ser sensacional!
Parabéns pelo texto, criativo e surpreendente.
Beijos.

Nessa disse...

Oie
Adorei a criatividade do texto, muito bom.

Beijinhos
http://diariodeincentivoaleitura.blogspot.com.br/

Gabriela CZ disse...

Que maravilha de edição do jantar, Mari! Sempre acho teus textos muito criativos, mas dessa vez narrado do ponto de vista do King e ainda com David Lynch no meio ficou espetacular. Adorei! Vai ter continuação? Enfim, ótimo texto.

Beijos!

Diane disse...

Olá...
Eu adoro essa coluna!
Não sei de onde vocês tiram tanta criatividade para botar no jantar! Ainda mais usando os nomes desses figurões da literatura.
Parabéns, mais um texto incrivelmente lindo...
Beijos

http://coisasdediane.blogspot.com.br/

RUDYNALVA disse...

Mari!
Já estava com saudade desses jantares ilustres...
E dessa vez, você conseguiu se superar, crriando um enredo totalmente inédito, com protagonistas best sellers e narrador sendo o maravilhoso King, tornando tudo uma verdadeira história de terror.
Parabéns pela criatividade.
Boas festas juninas e bom final de semana!!!!
“O que importa afinal, viver ou saber que se está vivendo?” (Clarice Lispector)
Cheirinhos
Rudy
TOP COMENTARISTA DE JUNHO 3 livros, 3 ganhadores, participem.
http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/

Sil disse...

Olá, Mari.
menina que texto maravilhoso. Além desse time de peso em um mesmo lugar, ainda tem essas mudanças nas histórias. Que nunca imaginou outros finais para esses livros tão famosos? Fiquei aqui imaginando o Poirot quietinho em casa e nada dos crimes acontecendo a sua volta hehe. Mas até que gostei do Heathcliff e a Cathy se casarem mesmo que não tenha mudado muito coisa hehe. E o pior é que fiquei sabendo que vai saber se não foi algo parecido mesmo que aconteceu com o king hehe. Mais uma vez parabéns!

Prefácio

Carolina Garcia disse...

Adorei, Mari!!!

Acho sempre interessante como você consegue casar esses autores e suas histórias de uma forma fascinante.

O de hoje se tornou meu favorito! :D

Bjs

http://livrosontemhojeesempre.blogspot.com.br

Marta Izabel disse...

Oi, Mari!!
Quantas personagens ilustres nesse jantar!! Gostei da criatividade!! Parabéns!!
Bjoss

Ana I. J. Mercury disse...

Geeeente , que texto perfeito!!
E personagens/escritores incríveis, todos reunidos, fico aqui imaginando como seria na vida real, rsrsrs
Parabéns pelos lindos textos, Mari!
Você tem que escrever um livro!
bjs

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