segunda-feira, 19 de junho de 2017

RESENHA: Foi Apenas um Sonho

“Porque é preciso um pouco de coragem pra enxergar o vazio, mas é preciso muito mais pra enxergar o desespero. E acho que, quando a gente enxerga o desespero, a única opção é mesmo cair fora. Pra quem pode.” (YATES, 2009, p. 178)

Na época em que assisti o filme inspirado em “Foi apenas um sonho”, eu não sabia que havia um livro por trás do roteiro. Quando descobri, fiquei imediatamente interessada, mas protelei a leitura por anos, lendo a prova no site da editora inúmeras vezes, sem nunca ficar cativada a ponto de me convencer a ler, mas também sem me desapontar a ponto de eu desistir. E ainda bem que eu insisti porque existem poucos livros como “Foi apenas um sonho”. Livros humanos, acima de tudo.

Na década de 60, Frank e April Wheeler são um jovem casal suburbano, embora tenham jurado para si mesmos que jamais seriam como seus vizinhos desinteressantes. Porém, dois filhos que chegaram cedo demais tornaram April uma dona de casa infeliz e entediada e um emprego desprezível tornaram Frank um homem preso em uma rotina que detesta. Quando os dias se acumulam, o mais difícil para os dois é chegar feliz ao final da noite.

Há poesia nas palavras de Yates que fazem de sua narrativa em terceira pessoa um texto intenso e delicado ao mesmo tempo (exatamente como a trama), nos conduzindo calmamente pela vida conjugal de casal infeliz e acomodado que vem se obrigando a reconhecer que nada do que eles sonharam para as suas vidas está acontecendo. Eles estão se tornando pessoas que não gostariam de ser e já não sabem como mudar isso.

Os diálogos também merecem destaque. Não são apenas palavras saindo da boca dos personagens e sim uma enxurrada de desprezo, frustração, ódio, mágoa, angústia, desespero e euforia que revelam essa tristeza constante que aos poucos descobrimos que eles sentem.

Esse é um livro que poderia facilmente dar errado, afinal, não há grandes acontecimentos e os protagonistas não são exatamente carismáticos (na verdade, é mais fácil listar defeitos, tanto em April quanto em Frank, do que encontrar qualidades neles), mas funciona justamente porque se alimenta do cotidiano, algo com que qualquer leitor é capaz de se identificar. Nos reconhecemos nos protagonistas, em suas frustrações. Às vezes elas não têm causa. É só cansaço da forma que a vida adquiriu. Não é possível apontar que os personagens tenham cometido um erro aqui, tomado uma decisão ruim ali e que a causa dos seus problemas seja essa ou aquela, pois se trata de um acúmulo de coisas. Não é que algo tenha acontecido. A vida aconteceu. Simples assim. Não há nada de especial em Frank e em April e é isso o que os torna tão especiais como personagens.

Aos poucos, a narrativa intercala o presente com lembranças do passado (que fazem com que o presente pareça ainda mais amargo). A verdade é que os personagens são tão infelizes que não sabemos se vale a pena torcer para que fiquem juntos e encontrem uma maneira de resolver seus problemas, até porque, não se trata de um casal com problemas e sim de duas pessoas problemáticas que compartilham a vida. Nem Frank nem April tiveram a chance de descobrir quem são, o que querem, o que gostam. Apenas deixaram a vida acontecer. E é por isso que nada consegue satisfazê-los, nem mesmo um ao outro.

Nick Horby e Kurt Vonnegut comparam “Foi apenas um sonho” a “O Grande Gatsby” e de fato é possível reconhecer no livro de Yates o retrato de uma geração, assim como podemos observar o mesmo no livro de Fitzgerald (em um, a geração que testemunhou a Primeira Guerra Mundial, no outro, a Segunda). Mas enquanto em “Gatsby” as festas e a opulência tentam disfarçar a melancolia e o vazio daqueles personagens inesquecíveis, em “Foi apenas um sonho” há apenas o vazio e uma total falta de noção de como preenche-lo. Inclusive, não é apenas o casal que merece atenção. Através da secretária de Frank vemos as mulheres dando os primeiros passos rumo à liberdade sexual, através do vizinho secretamente apaixonado por April vemos o quanto o casamento podia aprisionar as pessoas em uma época em que as mulheres ainda pareciam ter a função de servir aos homens.

Tenho um especial apreço por livros que se revelam simples quando analisamos suas tramas, mas que são extremamente intensos durante toda a leitura. Livros que priorizam bons personagens acima de tudo e que se preocupam em entregar um texto que não apenas desenha cenas para o leitor, mas que em alguns momentos o obriga a interromper a leitura apenas para ler novamente um parágrafo e apreciar sua intensidade e beleza. Por tudo isso, fiquei absolutamente encantada com “Foi apenas um sonho”. A única coisa que lamento foi ter assistido o filme antes, pois desde as primeiras páginas eu sabia o desfecho que me aguardava e isso, certamente, diminuiu seu impacto, embora não tenha diminuído em nada o meu envolvimento. Um livro sensível e melancólico que carrega o tipo de história que o leitor nunca esquece.

O tempo que levei para, finalmente, pegar esse livro em mãos, certamente não irei repetir para outros livros de Richard Yates.

Título: Foi apenas um sonho
Autor: Richard Yates
N° de páginas: 312
Editora: Alfaguara
Exemplar cedido pela editora

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8 comentários:

Luiza Helena Vieira disse...

Oi, Mari!
Não sabia que o filme era adaptação. Como não assisti, creio que sofrerei esse impacto no final.
Beijos
Balaio de Babados
Sorteio Três Anos do blog A Colecionadora de Histórias

Nessa disse...

Oi Mari
Não conhecia este autor e nem o livro, mas gostei do enredo, parece ser uma história bem interessante. Também não conhecia o filme.

Beijinhos
http://diariodeincentivoaleitura.blogspot.com.br/

Lara Caroline disse...

Oi Mari, tudo bem?
A princípio a premissa do livro não tem nada de especial, mas retrata uma realidade presente na vida de muitos casais, que é essa infelicidade e o momento em que percebem que não sabem mais quem são. Fiquei bem curiosa para assistir ao filme, e quem sabe ler o livro.
Beijos

Raquel disse...

Oie!
Não conhecia o livro nem o filme, mas pela sua resenha, já me apaixonei pela história! Acho interessante ler sobre como era a vida em uma época não tão distante, e todos os obstáculos que o casal passou. Deveria ser realmente horrível terem que ficar juntos apenas porque naquela época era normal acontecer assim. Ainda bem que a realidade mudou, né? x)

Beijinhos
http://tipsnconfessions.blogspot.com

O Que Tem Na Nossa Estante disse...

Oi Mari, tudo bem? É muito bom quando a gente se surpreende positivamente com uma obra. o filme está na minha lista de longas para ver faz tempo já e agora vou adicionar o livro tb!

Bjs, Mi

O que tem na nossa estante

Marta Izabel disse...

Oi, Mari!!
Para falar bem a verdade não conhecia este autor e nem o livro. Achei a premissa até um pouco interessante mas no momento não seria um livro que gostaria de ler agora.
Bjoss

Gabriela CZ disse...

Já ouvi falar muito no filme, embora ainda não tenha visto, mas não sabia do livro, Mari. Realmente parece uma trama intensa em sua simplicidade, daquelas que nos faz pensar se querer uma vida "diferente" é o suficiente. Interessante. Ótima resenha.

Beijos!

Márcia Saltão disse...

Oi.
Não conhecia o livro e nem o autor. Assim como também não conhecia o filme. Mas, por sua ótima resenha, a dica estará anotada e se surgir uma ocasião, vou ler. Parece ser uma leitura bem intensa e reflexiva. Obrigada.
Beijos.

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