segunda-feira, 26 de novembro de 2018

RESENHA: Uma coisa absolutamente fantástica

Uma coisa absolutamente fantástica / Hank Green
Eu estaria mentindo se dissesse que minha curiosidade de ler “Uma coisa absolutamente fantástica” veio por qualquer outro motivo além de Hank Green ser irmão de John Green. Ok, eu já tinha visto alguns vídeos de Hank e simpatizava com ele e claro que sei que ter um irmão talentoso não significa que você também o seja. Mas com os Green isso é verdade.

Nas ruas de Nova York tudo pode acontecer e April May sabe bem disso. Ao voltar do trabalho em uma madrugada, ela se depara com a escultura gigantesca de um robô de três metros de altura e chama seu amigo Andy para que faça um vídeo para o YouTube, afinal, ele está sempre em busca de um bom vídeo. Mas eis que diversas cidades do mundo têm a mesma escultura e ninguém sabe de onde elas surgiram, apenas que todas surgiram no mesmo exato momento. Tendo sido o primeiro vídeo a revelar a existência dos “Carl” - como April apelida o robô gigante - ele viraliza, catapultando a jovem e seus amigos para um mundo de fama construído inteiramente com base em redes sociais.

Quando pego um livro novo na mão, uma das primeiras coisas que faço é ler o parágrafo de abertura, mesmo que eu não esteja iniciando a leitura naquele momento. Quando fiz isso com “Uma coisa absolutamente fantástica” eu soube que se tratava de um ótimo livro.

A voz narrativa de April (que nos conta toda a história em primeira pessoa) é divertida, espirituosa e levemente irônica, do tipo que cativa já nas primeiras linhas. Não apenas isso, April é uma personagem maravilhosa porque está em um processo de construir uma identidade para si. Ela sempre foi April May, mas agora as redes sociais a tornaram “April May: a primeira pessoa a fazer contato com os Carls” e ela deve decidir o que quer fazer com isso, como quer agir e quais bandeiras quer levantar. De repente ela tem uma voz que é ouvida por milhares de pessoas no mundo todo e isso lhe dá um poder inesperado, mas também lhe torna um alvo.

A história é completamente non-sense. Robôs gigantescos, sonhos compartilhados, mãos que têm vida própria, vidas extraterrestres. Nada disso é limitação para a imaginação de Hank. O que torna “Uma coisa absolutamente fantástica” um livro especial é que dentro de uma história de acontecimentos completamente absurdos, o autor fala sobre coisas extremamente relevantes e atuais, fazendo inclusive uma crítica a nossa sociedade. É como se houvesse uma história oculta. De um lado, o assunto é leve, divertido e tem tom de brincadeira. Do outro, é sério e real ao extremo.

Você nunca pode parar de criar conteúdo, não só porque a sensação de que as pessoas te ouvem é boa, mas também porque você precisa manter a atenção delas presa. E eu tinha me acostumado a medir minha vida em curtidas.” (GREEN, 2018, p. 174)

Logo no começo, April diz que as pessoas nem olham para a estátua porque mesmo ela sendo absolutamente fantástica (e daí temos o título do livro), Nova York é a cidade das coisas absolutamente fantásticas. Cada dia surge uma diferente, então as pessoas nem enxergam mais. Todos passam por Carl agindo como se ele fosse invisível. Mas no dia seguinte, é só o vídeo viralizar no YouTube que multidões fazem fila para ver a estátua. É só April criar um perfil no twitter para falar sobre isso que milhares de seguidores surgem a cada minuto. Ou seja, Carl não era interessante quando simplesmente fazia parte da realidade, mas passa a ser a coisa mais fantástica do mundo porque apareceu no YouTube. Que realidade é essa em que as pessoas não conseguem mais decidir por conta própria o que é “absolutamente fantástico” e precisam que alguém lhes diga isso? Se está na rede social, se o vídeo tem milhares de visualizações e curtidas, então vale a pena, caso o contrário não?

Hank também usa a trama para explorar a obsessão das pessoas pelas redes sociais. A partir do momento em que April entra neste mundo, ela fica obcecada com seu número de seguidores e twittar torna-se grande parte da sua vida. Ela precisa escrever coisas inteligentes e com frequência para que continue sendo relevante.

Há espaço também para o autor criticar a cultura de celebridades (já que April vira, literalmente da noite para o dia, uma celebridade internacional) e o extremismo a que algumas ideologias levam.

Em meio a tudo isso, Hank ainda consegue inserir pinceladas a respeito da bissexualidade da protagonista e também sobre os questionamentos comuns que uma jovem de 23 anos enfrenta ao descobrir quem ela quer ser e o que quer fazer com a sua vida.

Hank Green estreia no mundo da literatura com um livro divertido e sério, absurdo e realista e completamente delicioso de ler. Talento é sim coisa de família, mas na próxima vez, leio Hank Green por ele ser apenas Hank Green.

Título: Uma coisa absolutamente fantástica
Autor: Hank Green
N° de páginas: 340
Editora: Seguinte
Exemplar cedido pela editora

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10 comentários:

Ludyanne Carvalho disse...

Eu gosto da capa, mas não sinto interesse nesse livro.
É chamativo a questão da estátua aparecer em vários lugares, fico curiosa para saber o por quê.

Eu tenho o costume de ler a página 27, independente de ser a minha próxima leitura ou não. Leitores e suas manias. Haha

Beijos

O Vazio na Flor disse...

Também me interessei por este livro quando ele foi lançado, por trazer o sobrenome de peso. Mas o melhor de tudo, foi o tempo passar e mostrar a todos nós, que ele só herdou o sobrenome e não precisou de se espelhar no irmão para começar a trilhar seu caminho.
Conseguiu por si só, construir um enredo atual, repleto de puxadas de orelha e ainda assim, trazer até temas mais fortes e pouco falados!
Com certeza, o livro já está na lista de desejados e espero ler o quanto antes!
Beijo

Atraentemente Evandro disse...

Na primeira vez que vi o livro só o que me chamou a atenção foi ser irmão do John Green mesmo, porque não curti achei a capa sem graça. Lendo a resenha mais detalhista, já se confirmaram algumas coisas que imaginei em torno das estátuas. Dependendo da forma que coisas absurdas tomam forma no enredo, acho que pode funcionar bem. Gosto das críticas que o autor inseriu na trama. Quero ler.

Vitória Pantielly disse...

Oi Mari,
Menina, eu vi esse livro nos lançamentos, e nem me toquei no nome do autor kkk Nem sabia que o John tinha irmão - pasmen.
Não sou tão fã desse tipo de enredo, Jogador número 1 eu terminei na marra, e achei bem parecido, mas aprecio a crítica presente nele. A internet cada vez mais domina nossas vidas, e, como no caso de April, muitas pessoas fazem de TUDO para ter seus minutinhos de fama, infelizmente isso é real ...
Se eu tiver oportunidade irei ler sim, acredito que é sempre válido, e gostei de citarem música também, adoro livros com playlist.
Beijos

Luana Martins disse...

Olá, Mari
Quando vi o lançamento desse livro já fiquei intrigada com a capa, amo azul e ainda tem 2 tons dele. Nem reparei quem era o autor, depois que me toquei pelo sobrenome.
Li algumas resenhas do livro e cada vez fico mais curiosa para ler, pela sua resenha descobri alguns detalhes que não tinha nas outras.
Genial a ideia de Hank Green abordar as redes sociais e como elas tomam conta da nossa vida, tempo.
Beijos

Ana Lima disse...

Nossa eu gostei bastante, não sabia que ele era irmão do John Green (nem tinha associado), mesmo sendo apenas um livro a proposta de apresentar realidade e absurdo, seriedade e divertimento me agradam bastante, pois torna a leitura tão diferente do que as vezes estamos acostumados, nos faz ver por dois pontos tornando o livro especial, senti que a narrativa aqui é bem leve e traz temas que discutimos com alguém na fila do onibus, eu amei a resenha é a primeira que leio sobre o livro e eu já tinha gostado bastante da sinopse e agr quero de verdade muito ler esse livro (e aceitando o conselho, vou ler como Hank Green) Bjs!

Gabriela CZ disse...

Também estava interessada nesse livro por ser do "irmão do John Green", Mari. Mas é bom saber que Hank também é um ótimo escritor e criou uma história absolutamente fantástica. Quero ler. Ótima resenha.

Beijos!

Andressa Palma Santos disse...

Não sabia que John Green tinha irmão, mas que bom que o talento dele inspirou outros membros da família. Só pode sair coisa boa desse livro também (Não criando muitas expectativas rs).
April May e Maya... É pra confundir a mente da pessoa mesmo né?
Gostei do enredo do livro, não seria algo que estaria no topo de livros que pretendo ler ainda esse ano rsrs, mas mesmo assim gostei.
Adorei a resenha, bjs

Ana I. J. Mercury disse...

Que demais!
Eu também queria ler por ser do mano do João Verde, mas adorei sua resenha, deu pra ver que é um livro muito bem escrito e cheeeeio de críticas bem interessantes.
Só não gostei da capa.
bjs

Monique Fonseca. disse...

Que resenha deliciosa de ler,eu leio apenas a ultima página.
Já estou cheia de vontade de ler esse livro.

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