quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

RESENHA: O Circulo dos Mahé

Aprendi a gostar de Georges Simenon através das aventuras do Comissário Maigret. Seus livros policiais têm uma característica única que é colocar o crime em segundo plano, dando prioridade aos conflitos dos personagens. Por isso, não é de se estranhar que, ocasionalmente, Simenon tenha fugido de histórias policiais para mergulhar totalmente em dramas pessoais. É isso que acontece em “O Círculo dos Mahé”, um dos chamados “romances duros” do autor. 

O Dr. François Mahé é um homem jovem, mas apesar de seus 35 anos parece que toda a sua vida já foi vivida. Ao passar o verão com a mãe, a esposa e os dois filhos na ilha de Porquerolles, uma situação inesperada lhe dá um choque de realidade. Quando solicitam seus serviços médicos para atender uma mulher doente, Mahé fica fascinando pela filha mais velha da paciente. 

Como todo livro de Simenon, “O Círculo dos Mahé” traz uma narrativa lenta, introspectiva, sem reviravoltas, mas que pede que o leitor confie no autor e aceite mergulhar na alma dos personagens. 

Neste contexto, Mahé é um personagem fascinante e absolutamente entediante, ao mesmo tempo. Fascinante porque carrega uma carga de conflitos que ele mesmo passa a conhecer nos decorrer das poucas páginas pelas quais seu drama se estende. Entediante justamente por ser quem é: um homem comum demais e sem graça demais para ter carisma. Não digo isso como um defeito, pelo contrário. O que faz o leitor não gostar de Mahé é justamente o que faz o próprio personagem se desgostar da própria vida. Não há vida em seus dias, apenas uma sequência de acontecimentos. Sim, Mahé cumpre com as suas obrigações para com a esposa, os filhos, os pacientes e os vizinhos. Mas por que sua vida deveria se resumir a isso? 

“Era tudo isso e muitas outras coisas mais, era a negação de sua vida, de tudo que tinha sido a sua vida (...)” (SIMENON, 2018, p. 63) 

O fascínio que o protagonista desenvolve pela moça (a ponto de nunca esquecer o vestido vermelho que ela usava) nada mais é do que um abrir de olhos. Não se trata de uma paixão avassaladora e sim de um símbolo de tudo que está errado na vida dele. O estopim para uma angustiante existência que não se contenta mais em cumprir tarefas e passa a ansiar por momentos emocionantes. 

O Círculo dos Mahé” não é um livro empolgante, mas é um excelente estudo de personagem, com a assinatura e todas as características de Georges Simenon.  

Título: O Círculo dos Mahé
Autor: Georges Simenon
Nº de páginas: 119
Editora: Companhia das Letras
Exemplar cedido pela editora

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10 comentários:

O Vazio na Flor disse...

Confesso que não conheço o trabalho do autor, mas pelo que li acima, ele consegue com maestria jogar o leitor na alma dos personagens, ou no caso, do personagem principal desta história em questão.
Quando uma coisinha acaba de certo saindo dos eixos, normalmente é por ter algo errado e parece que a vida do personagem central é uma sucessão de coisinhas que já não estavam certas.
Uma viagem na alma!!!
Com certeza, o livro vai para a lista de desejados!!!
Beijo

Lara Caroline disse...

Olá Mari, tudo bem?
Lendo sua resenha eu acredito que eu cairia numa crise de identidade se lesse este livro, porque as vezes a gente vive tão na rotina que se esquece das coisas emocionantes da vida.
Gostei da resenha.
Beijos

Ludyanne Carvalho disse...

Não conheço o autor, mas uma drama muito me interessa.
Lindo isso; esse processo de mergulhar na alma dos personagens, parece uma leitura que transmite uma sensação incrível.

Beijos

Gabriela CZ disse...

Fiquei curiosa com esse personagem fascinante e entediante ao mesmo tempo, Mari. Isso é tão paradoxal que me intrigou. Ótima resenha.

Beijos!

RUDYNALVA disse...

Mari!
Adoro livros policiais, mas o que me atrai em Simenon é justamente ele trazer os dramas pessoais para compor o enredo do crime ou da situação e torna a leitura totalmente fascinante.
cheirinhos
Rudy

Ycaro Santana disse...

O Círculo dos Mahé é uma história que me chama a atenção devido a carga emocional e profundas características dos personagens. Entretanto, creio que seria um livro de difícil leitura, visto que estou acostumado com distopia e thrillers. A narrativa lenta me atrasaria bastante e possivelmente abandonaria o livro.

Luana Martins disse...

Oi, Mari
Não conheço o autor, é a primeira resenha que leio sobre o livro.
Gosto de livros que trazem essa carga emocional, drama emocional, forte e ainda um delicado estudo da alma do médico.
Espero ter oportunidade de ler/conhecer mais desse livro.
Parece ser uma leitura intensa e fascinante, beijos!

Breno Sylva disse...

Oii
Ainda não conhecia esse escritor, chega até ser cômico um personagem fascinante e ao mesmo tempo entediante. Gostei do jeito que ele coloca os crimes em segundo plano.

Ana I. J. Mercury disse...

Não conhecia o livro, nem o autor, mas achei bem diferente, parece interessante essa leitura.
Só que um tanto complexa, a meu ver.
bjs

Carolina Santos disse...

Eu não conheci o outro mas eu gostei desse lado do livro de colocar todos os crimes e suspense em segundo plano

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