quinta-feira, 14 de março de 2019

RESENHA: Você nasceu para isso

Você nasceu para isso / Michelle Sacks / Intrínseca
Gosto muito de histórias que abordam a imperfeição dos relacionamentos. Se for em forma de thriller, melhor ainda.

Sam e Merry deixaram os Estados Unidos e se mudaram para a Suécia, onde vivem uma rotina de contos de fadas. Merry é a dona de casa perfeita e passa o dia preparando receitas, cuidando do jardim e do filho recém nascido enquanto Sam dá os primeiros passos em direção a uma nova carreira. Quando o casal recebe a visita de Frank, melhor amiga de Merry desde a infância, todos são obrigados a encarar as mentiras por trás da aparente magia de seus relacionamentos.

Intercalando os pontos de vista de Sam e Merry, a autora nos mostra a vida que ambos querem acreditar que têm. É assim que ela fisga o leitor nas primeiras páginas, afinal não somos inocentes para acreditar que aquela perfeição toda é real, o que leva a crer que justamente o oposto deva ser verdadeiro. “Tem alguma coisa muito errada com esses dois. Ninguém é assim tão feliz.” Foi meu primeiro pensamento ao iniciar a leitura de “Você nasceu para isso”.

Não demora até que comecemos a enxergar onde estão os problemas e quanto mais sabemos sobre esses personagens, mais os detestamos. Merry é falsa, invejosa, dissimulada e as mesmas características podem ser aplicadas a Frank (o que fica claro a partir do momento em que ela se torna a terceira narradora da história). Já Sam é hipócrita e mulherengo. A verdade é que os três são um verdadeiro pesadelo e despertam o que têm de pior uns nos outros.

A narrativa de Sacks é arriscada. Em alguns momentos, a autora não se preocupa com continuidade, trazendo informações soltas na forma de lembranças ou episódios isolados. Pequenas pílulas que nos mostram quem esses personagens são. Um recurso que, para mim, funciona bem.

“Faço tudo isso para que, quando ele acorde, eu esteja transformada; para que, quando me quiser, eu esteja pronta. Toda sua, digo. Sou toda sua. É mentira. Guardo uma pequena parte para mim mesma.” (SACKS, 2018, p.40)

Mas tenho uma implicância com livros que intercalam narrativas em primeira pessoa. Da maneira como eu vejo, se é o personagem quem está contando a história, é preciso que sua narrativa tenha mais do que apenas a sua versão dos fatos. É preciso que tenha sua personalidade. Isso foi algo que me incomodou muito em “Você nasceu para isso” já que os três soavam de maneira tão semelhante que muitas vezes eu tinha que interromper a leitura e verificar novamente quem era o narrador do capítulo para me situar.

Por mais que eu aprecie personagens cheios de defeitos e relacionamentos complexos e que admire um autor que não tenha medo de arriscar em sua narrativa, deixando coisas soltas para o leitor, devo dizer que achei “Você nasceu para isso” um livro bastante fraco. Uma coisa é ser disfuncional. Outra é ser estapafúrdio. A relação entre Merry e Frank é totalmente doentia e não de um jeito que nos faz pensar “bom, a realidade é imperfeita mesmo”. Já o casamento de Sam e Merry é uma farsa tão grande (por parte de ambos, cada um a seu modo) que eu não consegui identificar nada ali que se assemelhasse a amor. E quanto mais nos aproximamos do desfecho, mais absurdas as coisas ficam.

Para mim, fica claro que a intenção de Michelle Sacks era mostrar que nem tudo o que as pessoas deixam transparecer é real, que ninguém conhece verdadeiramente ninguém, que a felicidade absoluta não existe e que todos somos uma composição de diversas versões de nós mesmos (todas lembranças válidas em um mundo cada vez mais obcecado por postar e acompanhar as vidas alheias nas redes sociais). A realidade é imperfeita e na tentativa de criar um triângulo que mostrasse essa imperfeição, a autora esqueceu que ele ainda deveria soar como realidade.

Título: Você nasceu para isso
Autora: Michelle Sacks
N° de páginas: 271
Editora: Intrínseca
Exemplar cedido pela editora

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8 comentários:

O Vazio na Flor disse...

Primeira resenha que leio deste livro e adorei! Amo isso desse se jogar nos relacionamentos e entender de uma vez por todas que nem tudo é o que realmente parece.
Tantos casais felizes, dignos de propaganda de margarina, mas que por trás escondem frustrações, desesperos e infelicidades.
Só a capa não me agradou muito..rs
Mas mesmo assim, se tiver oportunidade, quero muito poder conferir!
Beijo

Gabriela CZ disse...

Pela capa e pelo título jamais adivinharia o tema do livro, Mari. A questão de não conseguir soar real me deixa com ressalvas, mas acho que conferiria. Ótima resenha.

Beijos!

Ludyanne Carvalho disse...

Não sou fã de thriller, mas gosto quando há personagens imperfeitos, sinto que nos aproximamos mais.
Não é o meu tipo de leitura, mas espero que agrade quem ler.

Beijos

RUDYNALVA disse...

Mari!
A autora nem precisava escrever um livro para mostrar que nada é perfeito, principalmente em relacionamentos, né?
O que não gostei foi o fato de ela ter extrapolado o limite exposto através dos relacionamentos...
cheirnhos
Rudy

Alice Duarte disse...

Oiii Mari

Eu nem sabia sobre esse livro e apesar de ter achado a proposta interessante, ainda falta pra me chamar a atenção, acho que de momento não é uma leitura pra mim.

Beijos

www.derepentenoultimolivro.com

Luana Martins disse...

Olá, Mari
Entendo o lado da autora que nos mostra a realidade as vezes como ela é através de personagens tão reais.
A capa não é tão atrativa assim, porém gostei do enredo. Espero ter chance de ler.
Beijos

Larissasm disse...

Esse primeiro parágrafo me representa todinhaa rs! Se tem uma coisa que me incomoda numa narrativa com vários pontos de vista é o confundimento, eu me perder entre as narrações e, como você disse, ter que lançar mão de conferir "quem é que está narrando esse capítulo mesmo?", isso desestimula a leitura pra mim. Amo uma história realista, mas realista de verdade, não algo que extrapole o crível. Obrigada pela resenha, já estava querendo ler esse livro e ela foi ótima pra não me fazer inicia-lo com grandes expectativas.

Ana I. J. Mercury disse...

Mari,
li a sua resenha e mais outra desse livro e achei uma história beeeem tensa e pesada, com personagens muito chatos, dissimulados e doentes.
Quero não kkkkk
Sei lá, não é meu tipo, parece ser tão pra baixo!
Gosto de livros que tiramos algo de bom para refletir...
bjs

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