quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

ESPECIAL: O Tempo e o Vento - parte 2

Érico Veríssimo é um gaúcho escrevendo sobre uma história que se passa no Rio Grande do Sul e é maravilhoso vê-lo descrever lugares e dar voz aos seus personagens.

É inegável que para um leitor gaúcho “O Tempo e o Vento” é ainda mais especial, não só por mostrar uma bela história construída por personagens fortes e corajosos, mas porque a voz narrativa de Érico expressa uma verdade que conhecemos no dia a dia. Não foram poucas as vezes que me peguei rindo de expressões, chegando a escutar o sotaque e o tom de voz dos personagens e me perguntando se quem não é gaúcho seria capaz de entender certas expressões, como, por exemplo “foi um pega pra capar” ou “sossega o pito, menino”.

“O prestígio de que gozavam repousava não apenas no fato de serem gente de dinheiro, senhores de terras, casas e gado, mas também no seu patrimônio moral e na tradição, pois em sua maioria descendiam de antigos moradores do município, os quais lhe haviam transmitido uma herança de integridade e amor ao trabalho, e raro era aquele que não tivesse um antepassado herói de alguma campanha militar.” (O Retrato I, pag. 161)

A narrativa do autor é tão rica quanto seus personagens e, mesmo não sendo em primeira pessoa, nos leva a sentir o mesmo que eles. É comum termos a impressão de sentir na pele o frio que os homens sentem fora de casa entre uma batalha e outra. É fácil entender seus conflitos e sentir suas dores. Entendemos, por exemplo, as boas intenções de Rodrigo para com Santa-Fé e seus habitantes e sua visão diferente de mundo adquirida nos tempos da faculdade de medicina em Porto Alegre. Entendemos também que mesmo amando Flora e querendo fazer a esposa feliz é um mulherengo incorrigível e adorável. Sabemos que, apesar dos seus defeitos, ele é um bom homem. Apreciamos a ironia de que justo o filho de Toríbio se torne um irmão marista. Entendemos porque Licurgo mantém seu relacionamento com sua amásia Ismália Caré, mesmo depois de casado e mesmo depois da morte da esposa.

Nos três volumes que compõe “O Arquipélago”, Érico intercala a história principal com os capítulos Caderno de Pauta Simples que presenteia o leitor com uma narrativa mais intimista e que revela os conflitos mais profundos de Floriano Cambará (filho de Rodrigo). Fica claro nesses trechos que o personagem é um reflexo, talvez até mesmo o alter-ego, de seu criador, especialmente quando este expõe os desafios de escrever um livro que seria a crônica de uma família gaúcha ao longo de 200 anos (exatamente o que “O Tempo e o Vento” é). Acompanhamos a frustração de Floriano com sua carreira e é com orgulho que o vemos começar a escrever a grande obra de sua vida.

O Tempo e o Vento é isso: amores, batalhas, história e política.

“Havia naquela figura uma poderosa expressão de vitalidade. Era o retrato de alguém que amava intensamente a vida, que tinha ânsias de abraçá-la, de gozá-la totalmente e com pressa. Sim, ele se reconhecia naquela imagem: a tela mostrava não apenas sua aparência física, as suas roupas, o seu ‘ar’, mas também seus pensamentos, seus desejos, sua alma.” (O Retrato II, pag. 124)

“Fim do segundo tomo”

Confira amanhã a última parte do Especial “O Tempo e o Vento”. Se você ainda não conferiu a primeira parte, confira AQUI.

15 comentários:

Michelli Santos Prado disse...

Olá Alexandre...Cada vez estou mais encantada com esta historia!! deve ser demais poder ler um livro que conta uma historia tão marcante!! Vou querer conferir o mais rápido possível.

Gabriela Cerutti Zimmermann disse...

Não sou gaúcha mas sou descendente, então entendo o que você quer dizer a respeito das expressões, Mari. [rs] Mais um belo post.

Abraço!
http://constantesevariaveis.blogspot.com.br/

Lais Cavalcante disse...

No outro post eu disse que iria ver mais opiniões de outros blogueiros e acabei descobrindo que ~quase~ todos tem a mesma opinião que você. Adorei a história e provavelmente vou colocar na minha lista de livros já.

Ana Paula Barreto disse...

Acho bem legal essas referência regionais, ainda mais para quem vive isso tudo. Parece que a trama e os personagens são reais, próximos. E isso é bom!
bjs

Thais Pampado disse...

Acho que eu não entenderia as expressões e teria que recorrer ao google rs
Livros cuja narrativa é feita de modo que o leitor se sente parte dela e entende os personagens são sempre cativantes.

Nardonio disse...

Ler uma trama ambientada em nossa região é outra história. E quando o autor é um conterrâneo, a coisa fica melhor ainda. Essas duas expressões que você citou, eu já conhecia. É bem interior nordestino também. kkkkk

Seguidor: DomDom Almeida
@_Dom_Dom

Mallu Marinho disse...

Acho que as obras do Veríssimo são tão ricas culturalmente. A maneira como ele desenvolve a história, os personagens, interligando premissa com desfecho de maneira impecável e sem deixar a desejar. E o fato dele ambientar seus livros no próprio país conta ainda mais pontos. Você lê e é imediatamente transportado para o lugar... Acho que isso por já estarmos familiarizados com nosso cenário nacional.

Adriana disse...

É muito bom quando nos familiarizamos com as expressões e os lugares que um autor usa pra contar sua historia né...eu também imagino o sotaque do pessoal do sul (que por sinal eu adoro esse sotaque) e conheço as expressões que voce citou no post! Com certeza essa obra todos nós brasileiros temos orgulho e mesmo quem nunca leu nada, conhece pelo menos de nome esse clássico O tempo e o vento!
Adriana

Michelle Agda disse...

Pois é. Com tantos livros na série, não é a toa que o post teve que ser dividido em várias partes. E o melhor de tudo é que conhecendo ainda melhor essa obra, fiquei com mais vontade ainda de ler, até porque como foi dito, mistura romance, política e batalhas em um só livro :)

beth disse...

A vida de antigamente não era nada fácil. E como se morria por qualquer coisa, né? Antes os homens que desfrutavam das mocinhas de família pagavam com a própria morte. hoje em dia nem é tanto assim. Reparando bem, muitas coisas mudaram com o tempo. Até a posição da mulher na sociedade. E essa estória é prova de muitos acontecimentos e fatos que ocorreram em nosso país. Tem uma estória rica e incrível. Beijos.

Tainara H. disse...

"O Tempo e o Vento é isso: amores, batalhas, história e política." Me convenceu ainda mais de que devo ler essa série, principalmente pelos amores e por história, então mesmo não sendo gaúcha (mas quase, sou catarinense), tenho certeza de que vou apreciar a leitura, espero que eu não demore a fazê-lo. ;D

Isa.Bella disse...

Na minissérie que eu assisti ele cortou algumas partes da história... Mas é emocionante, o livro deve ser fantástico... Quero muito ler!

Thaynara Luizy disse...

O tempo e o vento é isso amores e paixões levadas pelo acaso sem direito de falarmos simplesmente adeus. Assim e a vida paixões e amores são tirados de nós por isso eu me interessso por livros desse genero por que me identifico!!!

Wagner Pontes disse...

O tempo e o vento fazem parte de um cenário mítico gaúcho capaz de nos tocar plenamente. Tocando o leitor sobre o peso do tempo na velocidade do vento. :)

Licia Franco disse...

Que legal! Dá vontade mesmo de ler O Tempo e o Vento, principalmente agora ao ver que ele une tudo em uma só coisa, rs...bom, e acho que até mesmo quem não é gaúcho saberia interpretar essas "falas gaúchas", já que só é levar em conta o contexto da conversa entre os personagens e tals...rs

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