quarta-feira, 23 de julho de 2014

RESENHA: Uma Longa Queda

“O problema é a distância (...) Não dá pra distinguir rostos, certo, quando eles se tornaram apenas minúsculos pontos, e então não é mais preciso se preocupar se estão triste ou alegres. É por isso que somos capazes de matar formigas. Aí, depois de um tempo, o suicídio já é algo que a gente consegue imaginar, o que não seria possível se elas estivessem me olhando nos olhos todos os dias.” (HORNBY, 2014 p. 132)

A premissa de “Uma Longa Queda” é inusitada, trágica e divertida, e promete render um livro nada menos que genial. Porém, a leitura não me encantou tanto quando esperava.

Quatro pessoas se encontram por acaso no topo de um prédio em Londres na noite de Ano Novo. A intenção de cada uma é a mesma: se matar. Apesar daquele ser um dos lugares mais escolhidos pelos suicidas e aquela uma das noites mais concorridas do ano para tal ato, eles não esperavam encontrar companhia e é justamente essa surpresa que faz com que adiem os planos por algumas semanas, afinal, o clima já passou. Assim, fica combinado um reencontro dos quatro no mesmo lugar, semanas depois, na segunda noite favorita dos suicidas: o dia dos namorados. Até lá todos precisarão encontrar distrações de suas vidas para evitar que acabem com elas antes do prazo.

Eis os suicidas em potencial: Martin, um apresentador de tevê que viu sua vida pessoal e profissional desmoronar após ser preso por transar com uma menina de 15 anos; Maureen, uma mulher que não tem vida própria e cujos dias giram em torno do filho em estado vegetativo; Jess, a típica adolescente problemática e inconsequente, porém assombrada pelo desaparecimento – e possível morte - de sua irmã; JJ, um músico frustrado que viu sua banda e seus sonhos acabarem e agora passa os dias fritando hambúrguer em um país que nunca foi seu lar.

Narrado em primeira pessoa pelos quatro protagonistas, o livro apresenta uma linguagem informal, compatível com as quatro personalidades, e eu não consigo imaginar essa história sendo narrada de qualquer outra forma. O autor foi feliz em traduzir para a narrativa em primeira pessoa a maneira como cada personagem fala e vê o mundo, mas acredito que tenha sido essa informalidade que me incomodou um pouco. Reconheço, porém, que a narrativa de Hornby é divertida e fluida de uma maneira que dá a impressão que ele simplesmente sentou e escreveu (o que colabora para que o leitor leia com o mesmo espírito) e que o autor tem sacadas verdadeiramente geniais. Apesar das coisas que me incomodaram, me parece que todas as escolhas do autor foram, de fato, as mais adequadas para a história que ele tinha para contar.

Por motivos óbvios, os quatro personagens são frustrados e por vezes até irritantes, mas em nenhum momento tentam encontrar desculpas para os erros que cometeram ou mesmo pelo egoísmo de suas ações. Isso, a meu ver, é um ponto muito positivo. Os personagens são quem são e suas personalidades devem ser exploradas ao máximo. Eu, particularmente, acho que quanto mais defeitos os personagens têm, mais interessantes eles são (não é a toa que entre os meus personagens favoritos da literatura estão Heathcliff e Hannibal Lecter). Também conta pontos o fato das relações entre eles não serem forçadas, já que se trata de quatro personalidades completamente distintas. Entre discussões e deboches, pessoas que nem mesmo gostam de verdade umas das outras desenvolvem uma dinâmica de apoio. Um se escora no outro e o grupo se sustenta das maneiras mais curiosas. Mesmo que passem brigando, cada um tem aquilo que o outro precisa.

Apesar de girar em torno dos problemas de personagens que tem como objetivo maior na vida acabar com ela, o livro rende situações hilárias. Esse tom já fica claro desde as primeiras páginas (afinal, como não rir de uma cena em que o cara está prestes a pular de um prédio e uma mulher pede sua escada emprestada, dizendo que espera ele terminar para que daí ela possa fazer o mesmo?). Hornby sabe mostrar que o trágico é, muitas vezes, ridículo e, consequentemente, engraçado e essa é a essência de “Uma Longa Queda”.

De maneira geral, gostei do livro. Acredito que Nick Hornby criou uma história original e personagens capazes de reverter clichês (o músico frustrado, a adolescente revoltada, o cara bonitão com diversos casos amorosos) ao contar para ao leitor em suas próprias vozes porquê suas vidas são tão desastrosas a ponto de valer mais a pena acabar com elas (mesmo que nesse processo eles mesmos possam mudar de idéia). Com uma premissa que me cativou instantaneamente e a lembrança de já ter visto inúmeros elogios às obras do autor, a leitura não foi tudo o que esperava, mas agradou.

Assim como outras obras do autor, o livro recebeu uma adaptação cinematográfica estrelada por Pierce Brosnan, Toni Collete, Aaron Paul e Imogen Poots.

Título: Uma Longa Queda (exemplar cedido pela Editora)
Autor: Nick Hornby
Nº de páginas: 329
Editora: Companhia das Letras

7 comentários:

Bruna Monteiro disse...

Após ler a sua resenha fiquei pensando se esse livro me atraiu ou não, e eu realmente não sei. Nunca li nenhum livro que abordasse esse tipo de história e acho que é isso que me faz ficar em dúvida. Acho que preciso ler algo assim mas por enquanto irei adiar esse tipo de leitura, mesmo assim vou anotar a dica pro caso de eu mudar de idéia rs. Beijos!

Jéssica Soares disse...

Oi, Mari! Tudo bem? Quando vi o trailer do filme, não imaginava que aquela história era baseada em um livro e logo o coloquei na minha lista de desejados! Ainda não pude ler, mas eu tenho algumas expectativas não só pela quantidade de resenhas positivas que andei lendo, como também pela premissa em si, que achei bem original! Bom saber que cada personagem tem a sua visão em 1ª pessoa, não sei se a 3ª funcionaria nesse tipo de trama... Mesmo que a história não surpreenda, se a narrativa fluir e o livro for agradável, com certeza essa é uma leitura válida! Bjs
Jéssica - http://lereincrivel.blogspot.com.br/

Gabriela Cerutti Zimmermann disse...

Nunca li nada do autor e acho que nem opiniões a respeito. Simplesmente nunca procurei, e nem sei dizer porque. Mas seus comentários me deixaram bastante curiosa, Mari. É uma premissa interessante e que pelo visto foi bem conduzida. Espero poder conferir. Ótima resenha.

Abraço!
http://constantesevariaveis.blogspot.com.br/

Lais Cavalcante disse...

Nunca vi o trailer do filme, nem sabia da existência do mesmo, muito menos do livro rs. [mas assim que sair daqui, vou procurar o trailer]. Bom, assim como você, acho que esse livro sai totalmente do padrão clichê. Tudo que o autor criou, na minha opinião, tem um quê de original. Talvez pelo fato de nunca ter lido nada parecido, ou por não estar na minha zona de conforto literário [se é que você me entende rs]. Já coloquei na minha lista de desejados (((:

Letícia Souza disse...

Oiee
Ei sinceramente não gostei do livro,o tema abordado é totalmente fora
do meu interesse e os personagens não me agradaram nenhum pouco.
Acho que nem o filme baseado nessa obra eu veria,a história acaba me cansando um pouco então eu passaria longe do livro.
Mas para quem vai ler espero que não se decepcionem.
beijos

Virginia de Oliveira disse...

Após ler sua resenha tive que ir pesquisar sobre o autor e seus outros livros e descobri que ele é autor do livro alta fidelidade, livro este que tenho muita vontade de ler.
Sobre o livro uma longa queda, achei a premissa bastante interessante, e ele também parece ser bastante verossímil.
Gosto muito de ler suas resenhas, pois você sempre expõem os pontos positivos e negativos que você encontrou na leitura.
Bjs!

Nardonio disse...

A premissa é realmente bem interessante. Acho um grande achado do autor colocar a história narrada pelas quatro personagens completamente distintas, e conseguir dar uma maneira diferente de falar a cada uma delas. Esse toque de humor no trágico também me agrada bastante. Fiquei bem curioso pra dar uma conferida.

Seguidor: DomDom Almeida
@_Dom_Dom

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