quarta-feira, 24 de setembro de 2014

RESENHA: Passarinho

“Onde estava toda aquela alegria, e onde ela se esconde depois de abandonar uma família? Será que vai para outra família, funde-se à terra ou se dissolve no ar como a fumacinha de nossa respiração no inverno? E se a alegria não vai embora, então por que não sobrou nem um pouquinho para mim?” (CHAN, 2014, p.25)

Algumas histórias escondem o quanto são especiais por trás de premissas aparentemente simples. É o caso de “Passarinho” que à primeira vista me pareceu interessante, mas não pulou para o topo da minha lista, porém durante a leitura me cativou intensamente.

Joia tem 12 anos e pelo que sabe recebeu esse nome porque é preciosa. Mas não é fácil saber das coisas (e se sentir preciosa) em uma casa habitada pelo silêncio, por um pai e uma mãe de idéias conflitantes e um avô que não fala uma palavra e passa os dias trancado no quarto. Tudo começou porque o irmão de Joia, John, gostava de pular das coisas e acreditava que podia voar. Foi por isso o avô o apelidou de Passarinho. Até que um dia, John tentou voar de um penhasco, caiu e morreu. Ele tinha 5 anos. E no mesmo dia, Joia nasceu. Vivendo em uma casa carregada pela culpa, Joia nunca sentiu que é amada pelos pais da maneira como eles parecem amar John. Mas as coisas mudam quando ela conhece um menino chamado John que também gosta de subir em árvores.

O primeiro mérito de “Passarinho” é a narrativa em primeira pessoa feita por Joia. Apresentar a história pelo olhar de uma criança, especialmente uma história que envolve tantas reflexões como essa, exige cuidado do autor para que não soe forçada e ainda consiga manter a sonoridade infantil. Crystal Chan realiza isso com maestria.

Essa é a história de uma menina que vive a vida como se a tivesse roubado. Que não sabe o que é ter uma festa de aniversário porque o dia do seu aniversário é o dia da morte do irmão que ela nunca conheceu. Que não conta nem divide com os pais nada que é importante para ela porque é como se não tivesse esse direito.

Longe de soar melodramático, mas sem tentar soar divertido, “Passarinho” revela aos poucos suas camadas. Não é apenas a história de Joia. É a história de John - o menino que quer ser astronauta quando crescer para voar para longe e deixar tudo para trás - com quem descobre uma conexão instantânea. É a história do avô e seu silêncio ensurdecedor, do pai, da mãe, das superstições familiares e dos sonhos que Joia acredita que nunca poderá realizar. A verdade é que todos vivem uma situação extremamente difícil. Os pais, por mais que queiram se dedicar à filha, ainda estão muito presos ao que aconteceu ao filho. É possível sentir a dor de cada personagem e assistir suas tentativas de viver como a família que eram antes de John morrer, mas parecem ter desaprendido como. Eles querem voltar a ser como eram antes. Antes, quando Joia não existia. “Passarinho” é a visão de vida (e de família) dessa menina.

Joia é uma personagem extremamente cativante. Inteligente, doce e, ao mesmo tempo, determinada que vive em um mundo que tem uma cratera gigante no centro a qual todos circundam enquanto ela tenta preenche-la de algum modo, mas não sabe como, afinal, para ela a cratera sempre esteve ali. Tudo que ela pode fazer é enterrar suas pedras.

Foram várias as vezes em que interrompi a leitura para pensar sobre o que havia lido. Inúmeros os belos quotes que marquei. “Passarinho” é uma leitura que se faz sem sentir, que apresenta uma narrativa leve e fluida, mas repleta de significado e muito mais tocante do que se pode imaginar à primeira vista. É comovente, reflexivo e profundo.

Título: Passarinho (exemplar cedido pela editora)
Autora: Crystal Chan
Nº de páginas: 224
Editora: Intrínseca

15 comentários:

Ana Clara disse...

Oi Mari!

Se tem uma coisa que eu gosto muito é livro narrado por crianças, dá um tom totalmente diferente para a obra. Adorei o nome da personagem principal (dá até vontade de arrumar uma menininha pra colocar esse nome), maravilhoso. Fiquei com bastante vontade de ler o livro.

Beijos!
http://www.roendolivros.com/

Bárbara Prince disse...

Adorei a resenha! Esse livro também não tinha me chamado muito a atenção, mas parece bom! Me lembrou um pouco "Claros sinais de loucura", você já leu? A protagonista também é uma menina que perdeu o irmão ainda bebê e que tem com o pai uma relação esquisita, cheia do peso dessa perda. Eu recomendo!
www.blogsemserifa.com

Gabriela Cerutti Zimmermann disse...

Quero ler esse livro mais do que nunca, Mari. Já tinha curiosidade, mas também receio da história ser levada muito superficialmente. Mas com seus comentários tive certeza de que deve ser lido. Ótima resenha.

Abraço!
http://constantesevariaveis.blogspot.com.br/

Nardonio disse...

Realmente, Mari! A premissa desse livro me parece ser bem simples, mas pelo que você contou, o autor soube desenvolvê-la muito bem. Fiquei aqui imaginando o quão complicada deve ser a vida dessa garotinha. Reflexões interessantes são o que não faltam nesse livro.

Seguidor: DomDom Almeida
@_Dom_Dom

RUDYNALVA disse...

Mari!
Livro com carga emocional pesada e uma grande drama familiar que deve mesmo nos levar a questionamentos interiores para superação de determinadas barreiras que por vezes a vida nos impõe..
Joia foi condenada se nem ter culpa do acontecimentos passados da família e ainda assim, me parece que ela será a própria cura de todas as angústias.
Cheirinhos
Rudy
http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/

camila rosa disse...

Oi, tudo bom?
Adorei a resenha, fiquei curiosa para ler esse livro desde que o vi como lançamento na turnê Intrínseca a historia me parece ser linda demais, e eu pretendo ler ele em breve.
Beijos *-*

Jaqueline Silva disse...

Oi, Mari!
Puxa, esse livro realmente parece ser cheio de significado e carregado de sentimento e emoções. Curioso o fato da narrativa ser pelos olhos de uma criança, deve ser interessante.
Realmente gostei da sua resenha, vou procurar este livro pra ler. A historia parece bem intensa.

Beijinhos!
Jaque - www.prazermechamolivro.com

Iêda Cavalcante disse...

Oiee.
Que livro mais interessante, eu não conhecia, quando li o nome até pensei que era Passarinha com uma capa nova, mas depois vi que não rsrsrs.
Amo livros que nos fazem refletir sobre o tema ou sobre algum acontecimento, e esse pelo que você escreveu é bem assim, então com certeza esse vai para a minha infinita lista de desejados.
Bela resenha e bela dica!
Bjokas!

Gladys Sena disse...

Não conhecia esse livro, é a primeira resenha que leio.
Que trama mais tocante e profunda.
Histórias narradas por crianças tendem a emocionar mais, mas só quando o autor não pesa a mão e deixa o enredo equilibrado.

Natasha disse...

Esse livro parece ser lindo, daquele jeito que vc fica emocionada ao ler, eu subestimei do mesmo jeito que vc falou , li a sinopse, vi a capa e pensei que não valia a pena, mas agora com certeza vou ler

Maria Trindade disse...

ganhei esse livro em uma promo mais ate agora não tive coragem pra ler ele

Tamires Fernanda disse...

Eu achei essa capa super fofa, mas a resenha me deixou um pouco curiosa, mas eu ainda não sei se leria, estou tentando fugir de livros com muitos dramas.

Abçs :)

Ana Paula disse...

eu adoro livros narrados por crianças, com uma simplicidade e pureza enorme, tambem gosto de autores que não se enchem de metaforas, que são diretos, mas ao mesmo tempo que passam a mensagem de uma forma doce, e que faz você refletir, essa resenha me lembrou o pequeno principe, e ainda mais, me lembrou o estilo de escrita do livro "O alquimista" de Paulo Coelho

breakdaleitura.blogspot.com.br

Loly Fonseca disse...

Desde o inicio da resenha essa historia me cativou bastante... Não costumo ler algo nesse gênero, mas esse me intrigou ao mostrar toda a história por trás... O fato de ser narrado por uma criança sem que perca a visão e a fala infantil me interessou bastante... Vou procurar esse livro pra ler...
Kisses =*

Milena Soares disse...

Nossa o livro parece ser ótimo, bastante emocionante, fiquei doida pra ler!

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