quinta-feira, 5 de março de 2015

RESENHA: Uma Rua de Roma

“Já vivera a minha vida e não era senão uma alma penada que flutuava no ar morno de uma noite de sábado. Por que desejar de novo atar laços rompidos e procurar passagens muradas há tanto tempo?” (MODIANO, 2014, p. 57)

Começo essa resenha ainda incerta sobre se gostei ou não de “Uma Rua de Roma”. Graças a temas como “amnésia”, “busca pela identidade” e expressões como “detetive de si mesmo”, “características noir” e “narrativa labiríntica” contidas na sinopse, achei que o livro tinha tudo para me arrebatar, mas não foi isso que aconteceu.

O tema não poderia ser mais interessante: um homem que há dez anos não sabe quem é, o que fazia ou mesmo o que aconteceu com ele, sai em busca de pessoas que possam lhe ajudar a encontrar essas respostas. Essa poderia até ser uma trama policial – inclusive o protagonista é um detetive -, mas Patrick Modiano a leva para o lado do existencialismo e foi isso o que me atraiu. Como se sente, como vive e como convive com si mesmo esse homem que não sabe quem ele mesmo é?

Essa é uma história saudosa de algo que não se sabe o quê e que impede que o agora seja completo. O livro já começa com esse sentimento quando o homem com quem o protagonista trabalhou por oito anos se aposenta e o deixa sozinho. O homem que lhe deu uma profissão (ironicamente uma em que se investiga pessoas, logo ele, que não sabe quem é) era, de certa forma, o que dava sentido a uma vida que ele nunca teve certeza ser sua. Afinal, como saber?

É entre simplicidade e complexidade que “Uma Rua de Roma” se faz. Existe beleza na maneira como Modiano constrói as frases dando ritmo a um texto que, em essência, é simples. Esse ritmo pede que o leitor pare em alguns momentos e aprecie as frases que acabou de ler para que extraia delas todo o seu significado que, caso o contrário, pode se perder camuflado pela simplicidade das palavras. Mas apesar disso e mesmo contando com capítulos curtos eu não diria que é uma narrativa fluida. Em alguns momentos eu me senti envolvida, mas em outros me senti cansada. A complexidade fica por conta da carga dramática que o protagonista experimenta, mesmo que na superfície pareça que nada acontece e que tudo que ele faz é conversar com algumas pessoas.

Pessoas essas que passam pelo seu caminho e não retornam. Pessoas que, até onde ele saiba, nunca viu antes, mas tem a esperança de que o reconheçam ou que o levem a outras pessoas que talvez o reconheçam. Em sua busca, fica evidente a ânsia de se encontrar, nem que seja naqueles que cruzam o seu caminho. Seria eu esse? Teria eu essa vida? Teria eu morado aqui? O que essa pessoa significava para mim? Porque esse nome não me desperta nada? Essa música deveria me remeter a algo? Ou esse cheiro? São alguns dos pensamentos que cruzam a mente desse personagem que, sem saber para onde ir, segue a linha que surgir na esperança que isso o leve até ele. Esse é o alvo da sua busca: ele mesmo.

A narrativa em primeira pessoa nos coloca dentro da mente do protagonista e com isso o livro dá uma sensação de inquietude e vazio, reflexo de como o protagonista se sente. O problema é que, mesmo evocando tantas sensações no leitor, é difícil se apegar a um personagem sobre o qual nada sabemos já que ele mesmo não sabe nada sobre si. É difícil se apegar às pessoas por quem ele cruza, porque elas não voltam a transitar pela narrativa, da mesma forma que é difícil se apegar as pessoas da sua suposta vida porque não sabemos se elas são, de fato, pessoas da sua vida já que a cada nova informação, todas as outras podem ruir. Uma hora ele acredita ser Howard de Luz, depois descobre que o mais provável é que seja Pedro (qual o sobrenome?). Nem ao menos sua idade ele sabe e em um certo momento se espanta quando lhe dizem que é jovem, pois nunca havia pensado que fosse. E não é apenas a falta de passado do protagonista que o torna incerto de quem é. Parece que todos que cruzam o seu caminho experimentam uma espécie de vazio, como a moça que tinha obsessão em ter alguma nacionalidade, pertencer a algum lugar, e que comete suicídio por medo de envelhecer.

Acompanhar um protagonista que não se conhece é, em essência, uma viagem rumo ao desconhecido, consequentemente imprevisível. Essa possibilidade me encantou quando li a sinopse, mas a partir de um certo momento da leitura minha sensação foi de frustração já que eu não parecia chegar a lugar algum. O desfecho, em termos de verossimilhança e reflexão, é muito adequado, mas me deixou com uma sensação incômoda de que o que eu sabia nas primeiras 20 páginas era o mesmo que eu sabia 200 páginas depois. Gosto muito de finais abertos e o que Modiano propôs é um belo final, mas eu queria um pouco mais para poder me declarar satisfeita com o livro. É claro que isso também é um reflexo da jornada do protagonista. Quem define quando é chegada a última página e quem diz que ela deve trazer todas as respostas? Fique contente que você encontrou algumas. Esse é o meu sentimento ao final de “Uma Rua de Roma”. Não foi tudo o que eu queria, mas foi um pouco. E o que foi, conseguiu ser bonito e por vezes também entediante, até cansativo, para logo depois ser bonito de novo. O desconhecido depois de cada página para mim, depois de cada esquina para o personagem que eu acompanhava. De fato caminhamos juntos.

Patrick Modiano foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura em 2014.

Título: Uma Rua de Roma (exemplar cedido pela editora)
Autor: Patrick Modiano
Tradução: Herbert Daniel e Cláudio Mesquita
Nº de páginas: 222
Editora: Rocco

11 comentários:

Gabriela CZ disse...

Tenho que dizer esse livro não me interessou de cara. Mas seus comentários me deixaram na dúvida, Mari. Os diferentes sentimentos que te proporcionou me deixaram curiosa, e com isso eu assumiria o risco. Ótima resenha.

Abraço!
http://constantesevariaveis.blogspot.com.br/

Sil disse...

Olhe sua resenha está magnifica, mas infelizmente não me interessei pelo livro. Até fiquei um pouco interessada com essa coisa de amnésia, mas depois lendo sua resenha, percebi que esse livro não é para mim.

Blog Prefácio

Teca Machado disse...

Oi, Mari!
Aaah, finais abertos não são muito comigo.
Até achei a sinopse super bacana, mas o fato de você ter achado que no final sabia o mesmo tanto que no começo, que não te arrebatou, não me chamou mais atenção.

Beijoooos

www.casosacasoselivros.com

Ágata Bresil disse...

Confesso que não tenho muito interesse por livros assim que abordam tantas questões existenciais, se fosse pro lado mais "detetive" da coisa, acho que eu me interessaria, mas infelizmente não curti. É uma pena que você não tenha decidido sua opinião certa do livro, isso sempre acontece comigo haha.

Sua resenha é muuuuuuuuuito bem escrita. Parabéns. Beijos. Tudo Tem Refrão

Kathleen Yasmin disse...

Oi Mari!
Então, fiquei meio assim com esse livro... vou explicar: A essência em si é ótima e rende boas histórias, mas acho que ele não foi muito bem trabalhado e essas questões de existencialismo, questões pessoais e internas e etc não me agradaram muito. Não cheguei nem a terminar o livro, tava praticamente empurrando com a barriga hahaha
Mas, que bom que pra ti existiram partes boas, minha experiência no todo, infelizmente, não foi assim.
Beijoss
http://vidaemmartee.blogspot.com.br/

Maria Martins disse...

Olá!

Parece ser um livro interessante, tem uma boa história, mas pelo fato de não se apegar aos personagens é o que me deixou uma pouco desinteressada. Talvez um dia eu possa dar uma chance para ele, ou quando eu for escrever algo que tenha a ver com o assunto.

http://refugiorustico.blogspot.com.br/

Carolina Xavier disse...

Parece ser um bom livro, mas não faz o gênero que gostaria de ler, na verdade prefiro livros mais romântico sabe. Amei seu blog e estou seguindo biejos http://www.blogdaxavier.com.br/

Hangover at 16 (contato) disse...

Realmente, essa é uma leitura bem diferente, porque é como você comentou, nós não somos apresentados ao personagem pois nem ele mesmo sabe quem é, então vamos o conhecendo aos poucos, ao mesmo que ele vai conhecendo a si próprio. Adorei também a resenha, você tem uma escrita super desenvolvida e que instiga nossa curiosidade! :D

xx Carol
http://caverna-literaria.blogspot.com.br/
Tem post novo sobre séries no blog, vem conferir!

RUDYNALVA disse...

Mari!
Complexo, realmente complexo... difícil manter uma identificação com o protagonista quando ele é apenas um vazio...
Na verdade acredito que pela resenha algo de filosófico deve haver para os questionamentos interiores do protagonista.
É um livro denso e confuso e não sei se no momento conseguiria acompanhar esse tipo de leitura.
Desejo uma semana cheinha de energia positiva!
Cheirinhos
Rudy
http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/

Anelise santana disse...

A resenha esta de uma perfeição sem igual, escrita de uma forma que eu ainda não tinha visto pela blogosfera :) No entanto, não fiquei atraída pelo livro.
Uma das coisas que eu mais aprecio nas leituras são as reflexões que fazemos, e amo também quando consigo conhecer o personagem tanto quanto ele conhece de si mesmo; o que não seria possível com este personagem. Me pareceu ser um livro muito complexo, eu não me arriscaria a ler.

Unknown disse...

obg

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