quinta-feira, 17 de março de 2016

RESENHA: Precisamos falar sobre o Kevin

“Você só consegue afetar quem tem consciência. Só pode punir quem tem esperanças para serem frustradas ou laços a serem cortados; quem se preocupa com a opinião dos outros. Você, na verdade, só consegue punir quem já é pelo menos um pouquinho bom.” (SHRIVER, p. 170, 2012)

Há alguns anos se falava muito de “Precisamos falar sobre o Kevin”. O curioso é que só agora, baixada a poeira, é que tive vontade de conferi-lo e não foi nada difícil entender o porquê do sucesso.

Prestes a completar 16 anos, Kevin Khatchadourian planejou e executou cuidadosamente o massacre de sete colegas de classe, uma professora e um servente do colégio onde estudava. Quase dois anos após a tragédia, sua mãe, Eva, começa a escrever cartas para seu pai reavaliando as escolhas feitas em família e a convivência no lar a fim de tentar entender os motivos que levaram o filho a cometer tamanha atrocidade.

Ao optar por uma narrativa epistolar, Lionel Shriver permitiu que todas as fases da vida do casal Eva e Franklin e seu filho se entrelaçassem com naturalidade já que as cartas que a mulher escreve seguem o fluxo de sua memória, sem obrigação nenhuma com ordem cronológica, dando ao leitor uma noção de tudo ao mesmo tempo.

Como já se sabe desde as primeiras páginas o que Kevin fez, todos os acontecimentos (desde os planos para gravidez, o parto, a infância de Kevin, as primeiras crises do casamento) são vistos através de olhos contaminados pela tragédia. Isso confere doses extras de carga dramática já que Eva é obrigada a encarar toda sua vida em família como nada mais do que os capítulos que antecederam o massacre. Já o leitor vê Kevin crescer sabendo exatamente o que ele irá se tornar. Além disso, o fato de já haverem se passado um ano e oito meses da tragédia faz com que a poeira já tenha baixado, permitindo focar nas consequências (ou seja, na dor dos envolvidos passado o choque) mais do que nos acontecimentos.

Sabendo que o livro era narrado pela mãe de Kevin, imaginei que a intenção da autora seria mostrar, através de um olhar contaminado de amor, um personagem que fez algo abominável. Isso me parecia bastante interessante, já que faria o leitor lidar com a dualidade de odiar Kevin por suas ações, enquanto o conhecia através do olhar de alguém que o ama profundamente. Seria uma versão interessante, sim, mas eu estava enganada. Ao contrário, o que Shriver nos mostra é que Eva é a única pessoa que percebe as coisas erradas do comportamento de Kevin, enquanto Franklin fecha os olhos para elas, sempre encontrando desculpas e passando a mão na cabeça do filho. Também surpreende o relacionamento conflituoso dessa mãe com esse filho. Na verdade, é difícil dizer se Eva chegou a amar Kevin, se algum dia foi feliz em ser sua mãe (acredito que não). Agora que tudo está no passado e as piores consequências possíveis já se tornaram uma triste realidade, ela pode finalmente falar sobre coisas que nunca se atreveu a verbalizar para o marido antes.

A história abrange um longo período de tempo (o que passa batido pela narrativa epistolar e a fluidez do ir e vir de memórias), já que vai desde a época que antecede a gravidez de Eva até o momento atual, mas durante o tempo todo seu foco está em apenas três personagens: Eva, Franklin e Kevin. E que personagens! Verossímeis, complexos e capazes de despertar os mais diversos sentimentos no leitor. Eva é uma mulher independente, que ama o marido e quer uma família por acreditar que deve haver mais na vida do que apenas a vida em casal e entre amigos, mas que nunca se sentiu confortável com Kevin, nem mesmo durante a gravidez. Quando ela se dirige a Franklin, existe amor, mas também existe ressentimento por todas as coisas para as quais o marido escolheu fechar os olhos. Existe um tom de acusação à cegueira do marido, mas também de remorso por nunca ter conseguido ser a mãe que queria ser. Franklin, por outro lado, tenta fazer o que é melhor para a família, mas a maneira como lida com o comportamento de Kevin e com as angústias de Eva é irritante e até mesmo revoltante em alguns momentos. Kevin, por sua vez, é um personagem maravilhosamente perturbador desde o primeiro instante e Shriver faz um excelente trabalho ao retratar alguém que cometeu uma monstruosidade não como um mostro, mas sim como alguém inteligente, calculista, maldoso e apático, esta última a característica mais marcante para mim. Kevin não se importa com nada nem com ninguém. Justamente por isso não tem nada a perder e é um verdadeiro cretino desde muito criança. Como educar uma criança assim, desconectada de tudo?

Tamanha é a intensidade do relato de Eva e do nível de envolvimento que ele é capaz de provocar no leitor que em alguns momentos eu até esqueci que se tratava de um livro de ficção. Eva, Franklin e Kevin se tornaram reais e me deixaram boquiaberta no desfecho da leitura.

“Precisamos falar sobre o Kevin” é um drama familiar no qual tudo é colocado em perspectiva a partir de uma situação de extrema violência. Onde nada é simples e justificativas não satisfazem. Recomendo.

Título: Precisamos falar sobre o Kevin (exemplar cedido pela editora)
Autora: Lionel Shriver
N° de páginas: 463
Editora: Intrínseca

21 comentários:

Gabrielle Batista disse...

"Precisamos falar sobre o Kevin", é uma das minhas metas de leitura para esse ano. Só leio comentários positivos sobre o livro e sua resenha confirmou isso.
É muito interessante a ideia do leitor ter a oportunidade de conhecer a família de um personagem que causou uma tragédia para outras famílias. Creio que irei amar a leitura do início até o fim.

Beto disse...

Nossa, esse livro parece ser muito forte. Gosto de histórias assim, elas mechem com nossa capacidade de analisar situações e de se colocar no lugar do próximo.

Ótimo post

Beto

blogcoisastriviais.blogspot.com

Vida de Leitor disse...

Oi Mari, já tinham me falado que o filme é bom mas nunca tinha parado pra ver se tinha livro também. Amo livros que fazem a gente esquecer que está lendo um livro hehe.

Beijos,
Natália

www.doprefacioaoepilogo.blogspot.com

RUDYNALVA disse...

Mari!
Ver que a mãe percebeu desde sempre em que Kevin se tornaria e ao mesmo tempo não fazer nada para impedi-lo, deve mesmo causar remorso.
Quando os autores usam cartas em seus livros, me atraem muito para fazer uma leitura.
“A bondade deve estar ligada ao saber. A simples bondade pouco adianta; é o que tenho constatado.” (Mahatma Gandhi)
cheirinhos
Rudy
http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/

Luiza Helena Vieira disse...

Oi, Mari!
Eu ganhei esse livro, mas só assisti o filme até agora. Curti muito e vi que foi bem adaptado. O livro está na meta de leitura desse ano.
Beijos
Balaio de Babados
Participe do sorteio Mês das Mulheres em Dobro
Porcelana - Financiamento Coletivo

Gabriela CZ disse...

Já tinha ouvido falar bem desse livro mas nunca o procurei, Mari. Só que seus comentários... Uau! Não tinha visto comentários tão profundos sobre a trama, parece ser realmente profundo e até angustiante. Com certeza vou procurar. Ótima resenha.

Abraços!
http://constantesevariaveis.blogspot.com.br/

Ariane Reis. disse...

Oie Mari =)

Tenho esse livro em e-book e embora não seja o tipo de livro que eu costume ler tenho bastante curiosidade em conhecer a história. E depois de ler sua resenha, estou achando que já deveria ter lido esse livro faz tempo. Fiquei ainda mais curiosa!

Beijos;***

Ane Reis.
mydearlibrary | Livros, divagações e outras histórias...
@mydearlibrary

Thalita Branco disse...

Olá Mari!
Sua resenha me deu muita vontade de conferir o livro. Vi o filme e gostei muito.
Bjs

EntreLinhas Fantásticas - SORTEIOS NO BLOG! PARTICIPE :)

Desbravador de Mundos disse...

Olá, Mari.
Primeiramente, devo confessar que acho que terei que parar de visitar seu blog, porque você e o Alê estão me falindo. Mais um livro que vejo aqui e vai para os desejados.
Quando o livro estourou nos sucessos, acabei não me interessando, mesmo não conhecendo bem o enredo. Sempre imaginei que fosse algo de momento. Agora, mudei completamente minha concepção. Primeiro porque gosto muito da narrativa epistolar. Na minha visão, esse tipo de narração mostra um envolvimento afetivo bem maior, o que me agrada. Em segundo lugar, o fato da mãe não tentar justificar os atos do filho me surpreende. Só isso já me dá mais vontade de conferir a obra.
Sem dúvidas, parecer uma ótima leitura. Obrigado por colocar mais um livro na minha lista de desejados.

Desbravador de Mundos - Participe do top comentarista de reinauguração. Serão quatro vencedores!

Carol Hermanas disse...

Gostei muuuito da resenha.PO livro parece bom <3

Beijão :)
http://carolhermanas.blogspot.com.br/
E aí,curte poesia?Estou postando um livro lá no wattpad e juro que não vai morrer de tédio,ahahahah.
https://www.wattpad.com/myworks/41195811-poesias-espalhadas

Sil disse...

Olá, Mari.
Um amigo meu leu esse livro e quando perguntei como era, ele disse que eu não iria gostar. E eu nem fui pesquisar sobre o que era o livro. Me arrependi agora, porque me interessei muito por ele. Acho que o diferencial nos livros do gênero é ver a história sob o olhar de alguém que enxergava realmente o que estava acontecendo. Vou anotar aqui.

Blog Prefácio

Theresa Cavalcanti disse...

Não tinha visto ele ainda! Mas parece ser muito bom, fiquei com muita vontade e vou procurar.

Theresa Cavalcanti disse...

Não tinha visto ele ainda! Mas parece ser muito bom, fiquei com muita vontade e vou procurar.

Cris Setúbal disse...

Lendo a resenha me lembrei muito de uma frase que li em um livro, em que dizia que o pior sentimento não era o ódio, e sim a indiferença, e isso me lembrou bastante o Kelvin. Tenho muita vontade de ler esse livro, e até adiei a leitura por muito tempo. Acho que agora é a hora e sinceramnete não sei o que esperar dessa leitura.

Carolina Garcia disse...

Oi, Mari!

Também fiquei interessada na história por causa do filme, mas não tive chance de ler o livro ainda.
Parece ser incrível também. Ainda mais com uma criança dessas.
Eu não saberia como lidar também. Deve ser muito louco.

Bjs

livrosontemhojeesempre.blogspot.com.br

Jess Sena disse...

Oi, tudo bem?
Eu assisti o filme e é um dos que mais mexeu comigo.
Ainda não tive a oportunidade de ler mas ao ler sua resenha só me lembro de que esse livro é uma das prioridades na minha wishlist.
Bj


@saymybook
saymybook.blogspot.com

Minhas Impressões disse...

Olá, Mari.
Nunca tinha me atentado para esse livro até o presente momento.
Acho que deve ser uma leitura impactante. Uma mãe que tem plena consciência do filho que tem e a narrativa em forma de cartas são fatores que me favoreceriam a leitura. Só não sei se aguentaria o impacto.
Abraços.

Minhas Impressões

Sozinha Na Biblioteca disse...

Oi Mari! Tenho muita vontade de ler este livro. Já assisti a adaptação e fiquei bem impressionada com a história. No filme achei que o pai ficou em segundo plano, que bom saber que no livro a autora explora mais o relacionamento entre os três personagens. Com certeza vou ler este livro em breve.

Beijos!

Sozinha Na Biblioteca

Denise (@dnisin) disse...

Oi Mari,

Eu tenho esse livro tem um tempinho, mas tenho medo dele. Sei lá, o filme me deu uma impressão ruim e eu tô adiando a leitura até hoje. Acredito que um livro como esse precisa de um momento certo para ler, por causa do emocional.

O filme é perturbador, mas ótimo, e não sei quando lerei o livro.

Bjs, @dnisin
www.sejacult.com.br

Kemmy Oliveira disse...

Oi Mari!
Escolhi assistir ao filme antes de ler o livro e acho que não fiz uma boa escolha. Apesar de gostar do filme, ele foi bem confuso pra mim e acredito que isso não aconteceria se eu tivesse lido antes. Lendo sua resenha percebo o quanto a obra é rica e mais bem coordenada. Deve ser incrível e eu estou doida para lê-lo.

Beijos,
Kemmy - Duas Leitoras| CONCURSO CULTURAL: escolha um nome, ganhe prêmios

suzana cariri disse...

Oi!
Já tinha visto esse livro antes mas ainda não conhecia a historia e lendo a resenha ele parece bem interessante ainda mais tendo o ponto de vista da mãe !!

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