quinta-feira, 7 de julho de 2016

RESENHA: A Caçada

“Então, pela primeira vez, o eper produz um som. Um grito, muito diferente dos gritos de desejo e fome ao redor. É um grito de horror e resignação. Que me assombra. É a expressão do que sinto dentro de mim há anos.” (FUKUDA, 2013, p.103)

Às vezes, tudo o que você quer é uma leitura descompromissada, que não deixa você sentir as páginas passarem e que, mesmo não sendo uma daquelas que você vai guardar para o resto da vida, empolga e deixa querendo mais a cada final de capítulo. Era isso que eu esperava de “A Caçada”.

Em um mundo onde humanos estão em extinção, Gene precisa esconder sua natureza eper. Um passo em falso e ele será vítima de uma morte cruel, devorado pelas pessoas normais. Quando uma nova edição da Caçada Eper é anunciada, o maior pesadelo de Gene ganha vida: não só ele está no centro das atenções, como está privado de todos os seus artifícios de disfarce. Além disso, se espera que ele anseie ser o vencedor tanto quanto os outros e pelo mesmo motivo: a chance de devorar os últimos epers do planeta.

Desde a primeira página, “A Caçada” é um livro sobre sobrevivência, mas o que torna sua premissa interessante é que não se trata de uma situação específica e momentânea a que se precisa sobreviver e sim toda uma existência. Nesse mundo, os humanos (denominados “epers”) estão em extinção. Assim, as pessoas normais são seres vampirescos (apesar de não receberem essa denominação) mais fortes, mais velozes, dotados de presas, sensíveis à luz e que se alimentam de carne eper quando possível.

Quem nos apresenta esse mundo é Gene. Sua narrativa não se preocupa em explicar como o mundo ficou assim (e isso nem se faz necessário já que se trata da sobrevivência da espécie mais forte) apenas nos relata as coisas que precisa fazer diariamente para esconder a sua natureza. É assim que vemos que Fukuda pensou em todos os detalhes: Gene usa gel antisséptico para camuflar o cheiro da pele, bebe água escondido para manter-se hidratado, pode praticar apenas natação como esporte pois não pode ter vestígios de suor, e ainda deve cuidar para não ter pequenas reações inconscientes como tremer, ficar corado ou apertar os olhos para tentar enxergar quando é escuro.

Para apresentar tudo isso, o autor leva tempo e é por isso que o primeiro terço do livro dedica-se apenas a contextualizar a existência de Gene. A escassez de acontecimentos não chega a incomodar porque a narrativa é fluida e estamos falando do primeiro livro de uma trilogia, então é de se esperar que seu caráter seja mais introdutório. Quanto à caçada eper, seu início só acontece no último terço do livro, já que antes dela há toda uma preparação dos participantes.

Por motivos óbvios, o melhor que Gene pode fazer é se manter isolado e é aí que os problemas de “A Caçada” começam. Ao eliminar as interações com outros personagens, Fukuda eliminou também um pouco da humanidade de seu protagonista. Não há relações, consequentemente, não há nada com que Gene se importe, nada que o mova. Sua vida parece se resumir a continuar vivendo e isso prejudica o envolvimento do leitor.

Em alguns aspectos, “A Caçada” remete a “Jogos Vorazes”. Além de termos um adolescente e uma narrativa em primeira pessoa, a trama gira em torno de uma competição violenta da qual muitos adorariam fazer parte, menos o protagonista (que, claro, será justamente um dos participantes). Não gosto de fazer comparações, mas nesse caso elas me ajudarão a explicar minha decepção. Quando terminei de ler o primeiro livro da trilogia de Suzane Collins, eu não tinha a menor ideia de qual rumo os livros seguintes tomariam, mas o primeiro havia sido intenso o suficiente para me fazer querer descobrir. O que Collins é bem sucedida em fazer é criar um contexto que desperta uma curiosidade no leitor que vai além do desfecho dos jogos. Isso vem da existência de Katniss fora da arena, dos relacionamentos que ela deixou para trás quando se tornou um tributo e da vida que as pessoas levam na capital e nos distritos que gera empatia no leitor. Assim, os jogos surgem como algo a que Katniss precisa sobreviver para voltar a algo. Já na trama de Fukuda, a caçada é apenas uma repetição: antes dela, tudo o que Gene fazia era esconder sua origem eper. Agora, tudo que Gene faz é esconder sua existência eper. A única diferença é que isso se torna mais difícil já que ele está cercado e sem recursos. É uma situação interessante por prometer muita ação, o problema é que não há nada além disso. Não há um contexto, não há perguntas, não há arcos cujo desenvolvimento queremos acompanhar.

O mais decepcionante é que Fukuda parece saber que sua trama precisa mais do que a mera sobrevivência de Gene, mas suas soluções são preguiçosas: uma espécie de relacionamento amoroso e um cliffhanger na última página, ambos previsíveis desde os primeiros capítulos.

“A Caçada” tem um ótimo ponto de partida (um mundo em que nada é mais perigoso do ser humano), uma situação empolgante (uma competição que se precisa ganhar para sobreviver, mas na qual esconder reações humanas será praticamente impossível) e uma narrativa ágil o suficiente para caracterizá-lo como bom entretenimento. Mas não apresenta as camadas que realmente dão vida a uma história e por isso decepciona.

Título: A Caçada (exemplar cedido pela editora)
Autor: Andrew Fukuda
N° de páginas: 286
Editora: Intrínseca 

21 comentários:

Luiza Helena Vieira disse...

Oi, Mari!
Nossa! Eu não sabia que o livro era tão decepcionante assim. Ele tem uma premissa ótima. Que pena que o autor não sobre explorar melhor isso.
Beijos
Balaio de Babados
Participe da promoção de aniversário do blog Crônica sem Eira

Gabriela CZ disse...

Estava mesmo em duvida sobre esse livro, Mari. A premissa é interessante mas também um pouco clichê, a questão dos jogos por sobrevivência e tal. E com seus comentários vejo que deixa a desejar em outros pontos também. Vou me informar sobre as sequências, mas acho que vou passar. Ótima resenha.

Beijos!

Desbravador de Mundos disse...

Olá, Mari.
Uma pena que falte ao livro essa contextualização mais profunda. Ademais, acredito que as semelhanças com Jogos Vorazes iriam irritar-me. Sou bem chatinho com essas coisas.
Acredito que o único ponto realmente positivo é a narrativa ágil.

Desbravador de Mundos - Participe do top comentarista de julho. Serão quatro livros e dois vencedores!

Laís Lubrani disse...

Estou passando para agradecer o apoio que recebi e pedir desculpas por sumir tanto tempo. Estou tentando voltar aos poucos.
Um beijo enorme! Sucesso!

www.chadefirulas.com.br

Cristiane Dornelas disse...

Achei a ideia do livro legal, mas não tive coragem pra ler. Ainda mais depois que vi muita resenha dizendo que era enrolado até pegar embalo e que o final nem tinha tanta graça. Imaginei que perderia a vontade de ler os outros e sou pirracenta, então se pegasse, até se não gostasse iria ler o resto. Aí já viu: desânimo pra começar, nem olhei...
E no fim das contas não acho que esteja perdendo muito, porque ele parece desanimar muita gente. De novo aqui. É essa falta de profundidade, de explorar algumas coisas essenciais que faz perder a graça. Deve servir como entretenimento mesmo, mas só...

Carolina Garcia disse...

Oi, Mari!!

Quando vi o lançamento desse livro não fiquei muito interessada pela sinopse, mas achei que seria um livro legal.

Compreendo perfeitamente sua resenha e fico desanimada até de manter o livro na lista de títulos a serem lidos. Hahaha
Com certeza ele vai para o fim da fila agora.

Espero que o próximo livro seja melhor!! :)

Bjs

http://livrosontemhojeesempre.blogspot.com.br

Carla A. disse...

Oi, Mari! A premissa não me chamou a atenção. Eu não li "Jogos vorazes", só assisti aos filmes. Mas de fato o que torna tudo tão interessante é o que está em jogo fora dali. Sem a contextualização é apenas luta por luta. Não sei se pretende ler os volumes seguintes, mas espero que melhore. De repente certos aspectos serão trabalhados mais à frente.

Beijos, Entre Aspas

Sil disse...

Olá, Mari.
Apesar das suas ressalvas, eu me interesso em ler o livro. No começo fiquei pensando que raça era essa de epers hehe. Ainda não tinha lido nenhum resenha dele e como acho que sou um pouco menos exigente que você em relação as histórias, acho que vou gostar hehe.

Blog Prefácio

Lapso de Leitura disse...

Oi, Mari, tudo bem?
Eu gostei bastante desse livro. Concordo com suas ressalvas, mas achei que a muitas delas não me afetaram tanto assim com a leitura. Mas admito que algumas coisas foram bem previsíveis.
Abraços!

-Ricardo, Lapso de Leitura

Ariane Reis. disse...

Oie Mari =)

Confesso que esse livro nunca me chamou muito a atenção. Mas acredito que por ser distopia alguns pontos durante a leitura realmente acabam remetendo a outros livros do estilo. Anda dificil os autores fugirem de alguns clichês, não é?

Mas que sabe nos próximos volumes a história melhore. Eu admito que quando não curto muito o primeiro livro, dificilmente leio a continuação, mas talvez nessa caso valha a pena dar uma segunda chance.

Beijos;***

Ane Reis.
mydearlibrary | Livros, divagações e outras histórias...
@mydearlibrary

Maria Fernanda Pinheiro disse...

Confesso que minhas expectativas eram bem parecidas com as suas, esperava um livro rápido de fazer a leitura e com uma história que surpreende sempre, assumo também que gosto de livros sobre sobrevivência, mas é uma pena que o livro seja tão decepcionante, com um enredo que não nos deixe com nenhuma vontade de continuar a trama, achei valida a comparação com Jogos Vorazes, infelizmente não é um livro que pretendo ler

Day Morais Blog Lendo 1 Bom Livro disse...

Oi Mari! A premissa é ótima! Mas o seu ponto de vista me fez pensar se vale a leitura! Adoro o gênero, mas para que o livro tenha aquele "Nossa!!" acho que precisa de mais... Não é um livro que vai pra minha lista! :(
Adorei teu blog, seguindo aqui =*
Bjus!!!

www.lendo1bomlivro.com.br

Escuta Essa disse...

Oi Mari
Eu tenho esse livro, mas ainda não li e não devo ler ele por agora, pois estou com outros livros na fila.
Gostei da sua resenha, pois apontou os pontos fortes e fracos do livro, fiquei curiosa e assim que der vou conferir essa história ;)
Beijinhos
Renata
Escuta Essa

Vanessa Vieira disse...

Gostei da resenha Mari. A premissa do livro é bastante atrativa, mas foi uma pena o autor não criar novos horizontes para o personagem e nem tornar sua existência um verdadeiro triunfo. Beijo!

www.newsnessa.com

Alana Gabriela disse...

Hello, Mari! Tudo numa nice?!
Eu comprei esse livro porque uma garota me recomendou no skoob e disse que era maravilhoso, frenético e tudo mais. Eu não curti a leitura e na verdade demorei para terminar apesar das poucas páginas. A falta de ação no início não me incomodou e nem o Gene, mas a preparação remeteu a Jogos Vorazes - digo isso por causa do filme, nunca li o livro - e depois a Caçada foi muito paia. Eu não gostei. Me decepcionou bastante.
A sua resenha está ótima.
Beijin...
Pieces of Alana Gabriela

Ana Martines disse...

Olá Mari

Fico triste por saber que é um livro tão decepcionante. Amei jogos vorazes, mas com certeza não quero ler nada parecido com ele novamente... Porque amei ele, não suas copias. Enfim. Esse livro já não está na minha lista de desejados.

Beijos,
Ana Martines

Edmere Cintra disse...

Oi :)
EU gostei tanto da estória do livro, pois amei Jogos Vorazes e sempre quero ler algo parecido com ele. Uma pena que o livro é tão decepcionante, mas tinha tudo para ser um livro muito bom. Enfim, por conta disso eu não irei ler, obrigada pelo aviso rs.
Beijos.

Sofia Noronha disse...

Olá.
Nunca tinha ouvido falar desse livro, mas quando comecei a ler a resenha, já me lembrei de Jogos Vorazes (trilogia que, por sinal, sou apaixonada).
Gostei muito do que você falou, nunca tinha parado para pensar nisso: o que instiga o leitor a querer o próximo livro, é o fato de Katniss precisar sobreviver para ajudar sua família, tudo o que ela deixou para trás...
Uma pena o autor não ter conseguido desenvolver esse lado em "A Caçada", com certeza serie um sucesso estrondoso, já que é a idéia do livro é muito boa!
Bjos

Carol Souza disse...

Uma coisa que me incomodou nesse livro foi o final. O tempo todo o autor fala sobre A Caçada, o ponto alto do livro, a situação extrema de sobrevivência e isso criou uma expectativa muito grande em mim. Falam sobre como são impiedosos e tudo mais, mas até onde eu lembro, não foi bem isso que ocorreu. Achei o clímax bem fraco. Até então eu estava gostando... Não sei se lerei o segundo livro, mesmo com o gancho.

ourbravenewblog.weebly.com

Naiara Fidelis Da Silva disse...

Eu não conhecia sobre o livro, mas já vou adicionar no skoob, eu amo livros que trata sobre sobrevivência então tem uma boa chance que eu vá gostar deste livro.

Ana I. J. Mercury disse...

Não é bem o estilo que leio, mas achei interessante e diferente, e como lembrou um pouco Jogos Vorazes, que amooooo, fiquei com vontade de ler!
Anotado aqui!
bjos

Postar um comentário

 

Além da Contracapa Copyright © 2011 -- Template created by O Pregador -- Powered by Blogger