sábado, 10 de setembro de 2016

RESENHA: A Trilogia de Nova York

“Auster não passava de um nome para ele, uma casca sem conteúdo. Ser Auster significava ser um homem sem interior nenhum, um homem sem pensamentos. E se não havia pensamentos à sua disposição, se sua própria vida interior se tornara inacessível, então não existia um lugar para onde ele pudesse fugir.” (AUSTER, 2016, p.72)

Descobri “A Trilogia de Nova York” por acaso, passeando pelo catálogo da Editora Companhia das Letras há alguns anos. Até então, nem mesmo seu autor, Paul Auster, eu conhecia. Contando com três histórias de atmosfera detetivesca e um texto denso e interessante, o livro imediatamente me atraiu, mas estava fora de catálogo. Anos depois, arrisquei a leitura de outro livro de Auster e a experiência satisfatória me deixou ainda mais curiosa para conferir sua obra mais importante. Por isso, quando “A Trilogia de Nova York” ganhou uma reimpressão recentemente, aproveitei a oportunidade.

A princípio parece que os únicos elementos em comum entre as três histórias serão a cidade de Nova York, o caráter detetivesco das tramas e protagonistas masculinos solitários. Mas aos poucos Auster revela camadas e acredito que apenas ao final do livro o leitor seja capaz de compreender a magnitude da obra que passou pela sua mão. Ao menos foi isso que aconteceu comigo.

Em “Cidade de Vidro” conhecemos Quinn, um antigo poeta que, após a morte do filho e da esposa, adotou um pseudônimo e começou a escrever livros policiais. Um certo dia, sua rotina é interrompida por uma ligação perguntando se ele é o detetive Paul Auster e querendo contratar os seus serviços. Na terceira noite em que o engano se repete, Quinn resolve se passar por Auster e encarar o trabalho.

Por não conhecer a fundo obra de Auster, a minha impressão era a que teria em mãos histórias tipicamente policiais com uma certa atmosfera noir. Justamente por isso, eu acreditava que lia para encontrar respostas e desvendar mistérios e esse equívoco me levou a ter alguns problemas com o primeiro conto. Lendo com esse olhar, a história é um tanto confusa (e sim você leu certo: o autor se faz um personagem dentro de sua própria história) e confesso que chegou um ponto em que perdi um pouco do interesse. Foi só nas últimas páginas que entendi que a intenção de Auster não era encontrar explicações para aquela situação porque a história não era sobre o aparente mistério e sim sobre o que ter deixado esse mistério entrar na sua vida fez com o protagonista. Mais do que isso, era sobre o porquê de ele ter se permitido isso, mesmo que o levasse a sair totalmente da sua realidade. Quando terminei esse primeiro conto, lembrei de “Homem no Escuro”, o outro livro que li do autor, e então entendi que Auster não se preocupa com o sentido em sua forma tradicional. Ao final de “Cidade de Vidro” é possível compreender o que aconteceu, mas isso não significa necessariamente encontrar sentido para tudo.

Com expectativas ajustadas acreditei que teria uma experiência melhor com “Fantasmas”, a segunda história da Trilogia. Nela, um detetive chamado Blue, que costumava ser aprendiz de Brown, é contratado por White para investigar Black. A impessoalidade dos “nomes” dos personagens mostra que não importa quem eles são e sim o papel que desempenham dentro da história. Além disso, eles dão um vislumbre da intenção de Auster com as três histórias, pois é possível encontrar alguns ecos do primeiro conto.

E com “O Quarto Fechado” Auster mostra que um livro que até então parecia estranho, na verdade, beira a genialidade. Nessa história, a única narrada em primeira pessoa, o protagonista é abordado pela esposa de um grande amigo de colégio com quem perdeu contato. O tal amigo desapareceu, deixando para trás um romance que nunca ninguém leu e com a orientação de que a esposa mostrasse apenas para ele. É com essa história que Auster mostra que as três podem sim serem lidas de maneira independente, mas que há muito escondido nas entrelinhas e é justamente isso que as conecta.

Em todas as histórias o leitor experimenta da mesma agonia do protagonista: sabe como a situação teve início, mas a partir de determinado ponto já não sabe mais o que está acontecendo. Em todas também os personagens se distraem de si mesmos, sendo homens vazios que largam tudo para se preencherem da vida de outros e no processo acabam se perdendo.

O texto de Auster tem uma sonoridade maravilhosa e consegue ser rico em detalhes mesmo sem ser excessivamente descritivo.

“A Trilogia de Nova York” é um livro difícil de resenhar. Não quero entrar em detalhes sobre as histórias e não me parece necessário entrar em detalhes sobre os personagens. Da maneira como vejo, tanto as tramas quanto seus protagonistas são ferramentas que Auster usa para dizer que somos todos solitários e que é fácil nos perdermos porque o que somos não é tão definitivo ou tão certo como gostamos de pensar.

Título: A Trilogia de Nova York (exemplar cedido pela editora)
Autor: Paul Auster
N° de páginas: 337
Editora: Companhia das Letras

19 comentários:

Luiza Helena Vieira disse...

Oi, Mari!
Não conhecia esse autor e confesso que achei a obra um cadinho confusa, mas com certeza vou dar uma chance.
Beijos
Balaio de Babados
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Art Of Life and Books disse...

Amei a obra, achei o enredo bem interessante.
Não conhecia o autor.
beijo
Art of life and books

Gabriela CZ disse...

Adoro vir aqui e descobrir um livro incrível como esse, Mari. Não conhecia A Trilogia de Nova York, e seus comentários me transmitiram uma obra peculiar e brilhante. Fiquei com muita vontade de ler e espero ter a oportunidade. Ótima resenha.

Beijos!

Eduarda Rozemberg disse...

Que enredo diferente! Gostei muito da premissa, principalmente porque o foco não é no mistério em si, e no que esse caso fez com o protagonista. Nunca vi uma abordagem parecia e adoraria conhecer essa história. Aliás, nunca tinha ouvido falar nem do autor, assim como você. Quando as coisas confusas fazem sentido, acredito que é uma leitura que vale a pena.
Um abraço!

http://paragrafosetravessoes.blogspot.com.br/

Adriana Holanda Tavares disse...

Oi Mari, não sei como entender bem um personagem dentro de um personagem, talvez eu tenha achado um pouco fora do meu contexto de livros policiais (a maioria que leio perco logo o interesse porque no início da maioria eu já desvendo o final e isso é muito frustrante) e quando isso se torna constante aí me desestimulo de ler qualquer livro do Gênero!

Guilherme disse...

Oi!
Não conhecia esse livro mas adorei a premissa, adoro o estilo e parece ser bem complexo e intrigante.
Abraço!
http://leituraforadeserie.blogspot.com/

Lapso de Leitura disse...

Oi, Mari!
Adorei esse livro. Ele parece ser bem complexo em todas a formas e a mensagem que o autor quis passar parece ser bem única com todos os contos.
Adorei a resenha e já quero conhecer o livro.
Bjs!

-Ricardo, Blog Lapso de Leitura

Laís Lubrani disse...

Oi Mari!
O livro parece ótimo. Uma pena que eu não estou tendo tempo pra ler nada. Minha lista está cheia e minha cabeça tb.
Saudades!

www.chadefirulas.com.br

Caverna Literária disse...

Mari, que resenha incrível! A sua percepção quanto à mensagem subentendida nas três histórias, e a construção dos próprios personagens, acho que o livro tende a ser mais do que é proposto, né? Ele começa abordando determinados elementos e segue um caminho diferente. Não sei exatamente se é tipo de livro que eu leria, mas achei a premissa bem instigante!

xx Carol
http://caverna-literaria.blogspot.com.br/

O Que Tem Na Nossa Estante disse...

Oi Mari!

Eu não conheço o autor, mas a proposta parece interessante. Acho que a melhor coisa em qualquer leitura e alinhar mesmo a expectativa, levarei tudo isso em conta quando for conferir!

Bjs, Mi

O que tem na nossa estante

Sil disse...

Olá, Mari.
Nunca ouvi falar nem sobre o livro nem sobre o autor. É engraçado como as editoras dão tanta enfase para alguns livros e para outros não. No momento eu não sei se leria ele. Acho que somente pela ultima história, que é a que realmente vale a pena, não tenho muita vontade de ler no momento.

Blog Prefácio

Vanessa Meiser disse...

Nossa, que louco isso de o autor ser um personagem dos livros, é mesmo bem original. Não sei bem o que pensar da trilogia, mas acho que leria ao menos o primeiro para tirar a prova e ver o que acho...

Bj, Vanessa Meiser - Retrô Books
http://balaiodelivros.blogspot.com.br/

RUDYNALVA disse...

Mari!
Pelo que entendi, apesar do livro usar detetives, não é realmente um livro policial, é mais um livro que nos leva a conjecturas pessoais.
Como gosto de contos, gostaria de ler.
“Demore na dúvida...E descubra a sabedoria que insiste em se esconder na ausência de palavras.”(Padre Fábio de Melo)
cheirinhos
Rudy
http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
TOP Comentarista de SETEMBRO com 3 livros + BRINDES e 3 ganhadores, participem!

Márcia Saltão disse...

Olá!
Não conhecia a obra e nem o autor, mas gostei muito da resenha e fiquei bem interessada na leitura do livro. Gosto desse tema, sempre é muito bom conhecer novas escritas de autores que ainda não tivemos oportunidade de ler. Ótima dica. Beijos.

Alice Duarte disse...

Oiii Mari

Não conhecia essa obra e a dizer a verdade não me lembro de já ter escutado sobre o autor porém achei o contexto bem interessante. Gosto de histórias detetivescas, sempre me remete ao meu primeiro amor literário que foi justamente Sherlock Holmes...rsrs, o cenário em Nova York me parece bem interessante afinal, é a Big Apple, que melhor ambiente para uma história detetivesca? E o fato de serem 3 histórias me parece ótimo, as tramas certamente são mais rápidas do que se fosse uma história só.
Fica anotado para minhas futuras leituras, acho que iria gostar.
Obrigada pela dica.

Beijos

unbloglitteraire.blogspot.com.ar

Desbravador de Mundos disse...

Olá, Mari.
Não conhecia o autor, mas fiquei bastante interessado, principalmente por causa do lado policial não convencional. Esse primeiro conto da obra, principalmente, chamou-me demais a atenção, pelo fato do foco não ser a investigação em sim.
Para variar, mais um livro que você coloca na minha lista de desejados.
Você e o Ale ainda vão me falir.

Desbravador de Mundos - Participe do top comentarista de setembro. Serão três vencedores, cada um ganhando dois livros.

Andrea Barbosa disse...

Oi..
Nao conhecia o livro consequentemente tb nao conhecia o autor,mas parece ser uma ótima leitura,parece que tem uma riqueza de detalhes que é espantosa, assim como o desfecho da narração,sem dúvidas parece ser uma ótima leitura, porém não é um livro que tenha me agradado entao eu passo a dica.
Um abraço e muito sucesso :)

Lais Rodrigues disse...

eaaai.
eu não conhecia esse autor e essa jogada de ter um personagem dele mesmo no livro é bem chamativa haha.
me interessei pelo livro, sua resenha me deixou bem intrigada e com vontade de entender mais!
Obrigada por me apresentar o autor e até mais!

Ana I. J. Mercury disse...

Nossa, que demais!
Não conhecia nem ou autor, nem o livro, mas achei bem original e chamativa!
Fiquei bastante curiosa e com vontade sim de lê-la!
Só não sei se eu compreenderia kkkkk é diferentão do que leio kk
bjss

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