sábado, 11 de março de 2017

RESENHA: A Viúva

“A primeira coisa que Sparkes pensou era que Glen parecia um cara comum. Mas monstros raramente parecem como o personagem. Você espera ver o mal irradiando deles — isso tornaria o trabalho policial muito mais fácil, ele costumava dizer. Só que o mal era uma substância fugidia, vislumbrada apenas de vez em quando, e muito mais horrenda por causa disso.” (BARTON, 2017, p. 80). 

***

Jean Taylor era a esposa perfeita e aguentou o julgamento do marido dignamente e sem dizer uma palavra à imprensa. Glen acaba sendo absolvido por um erro técnico da polícia, o que desperta a fúria da sociedade. E quando ele morre em um acidente, a viúva pode ser a única a ter respostas sobre o que aconteceu. E após anos de silêncio, Jean está pronta para falar. 

O que me chamou atenção ao ler a sinopse de A Viúva foi justamente a premissa: uma mulher que apoia seu marido durante o julgamento por um crime bárbaro, o sequestro e assassinato de Bella, uma criança de dois anos. Com a morte do marido e com as investigações paradas, ela pode ser a única a saber sobre o que aconteceu com a criança. 

Assim, o que eu esperava era que o cerne do livro se limitasse às interações entre Jean e Kate, a repórter que a convence a dar uma entrevista, voltando no tempo e revivendo todos os acontecimentos. A meu ver, o mais interessante não seria descobrir o que aconteceu, mas sim as reações e os pensamentos desta mulher. Isso por que Jean é uma personagem extremamente complexa e desvendar todas estas camadas me parecia promissor. Entretanto, esta não foi a abordagem escolhida pela autora. 

A aceitação de Jean em conceder uma entrevista é apenas o estopim, mas a partir daí Barton retorna no tempo, contando a estória do desaparecimento de Bella por três perspectivas: o detetive Sparkes, o encarregado do caso; Kate, a repórter que cobriu a notícia e posteriormente convence Jean a falar; e a própria Jean a partir do momento que Glen se torna um suspeito. 

Creio que esta foi a abordagem errada, pois mais da metade do livro é destinada a mostrar como a investigação e o julgamento ocorreram. Entretanto, como o leitor já sabe desde o início que o resultado será a absolvição de Glen, investir tanto tempo em detalhar isso tudo se tornou cansativo e maçante. E como consequência direta desta abordagem, todo o potencial que Jean oferecia pareceu subexplorado, justamente por que em vez de dissecar a protagonista, Barton se perde em elucidar os detalhes do passado. 

Mas o verdadeiro “tiro no pé” ocorre com a entrevista de Jean, pois o que poderia (e deveria) ter sido o ápice do livro, não é. Barton parece que pisa no acelerador e dá a impressão de estar com pressa de terminar a entrevista para seguir com a estória. Assim, os momentos que Jean poderia ter vocalizado todos os seus pensamentos sem medo de confrontar a verdade se esvaem. Mesmo que o leitor acompanhe o ponto de vista de Jean, tanto no desenrolar da investigação e julgamento, quanto durante os preparativos para a entrevista, a mesma parece manter uma fachada: no primeiro momento por que é submissa a Glenn e não se permite questionar o marido, no segundo por que está perdida em devaneios e pensamentos. 

Quando a solução do caso vem à tona, a mesma causa frustração por ser uma resolução simplista. Se Barton tivesse optado por revelar toda estória através dos olhos de Jean, contando com os demais personagens como meros coadjuvantes, a resposta mais simples não teria causado frustração, afinal, esta não seria o cerne do livro. Entretanto, quando todo o suspense gira em torno de desvendar o que aconteceu com Bella, a resposta morna é pior que um banho de água fria. 

Assim, apesar de todo o potencial que a estória e, principalmente, a protagonista tinham a oferecer, me pareceu que Barton pecou na execução e tornou o que poderia ter sido memorável em uma leitura que não empolga em nenhum momento.

Título: A Viúva (exemplar cedido pela editora)
Autora: Fiona Barton
N.º de páginas: 299
Editora: Intrínseca

18 comentários:

Girlene Viey disse...

Adorei esse livro, fico chocado com atitude da viuvá, afinal ela sabia muito bem o que marido havia feito. Mas parece que ela amava ele demais para ver ele em uma prisão. Depois da morte dele, acho que ela deveria conta, porém teria consequência. Eu adoro livro com pegada de mistérios e também suspense, principalmente quando tem personagens maduros

Gabriela CZ disse...

Me parece mais um caso de autor(a) que não entrega o que promete, Alê. Também tinha achado a premissa interessante, mas como tem acontecido muito isso ia esperar pra conferir algumas opiniões. E pelo visto não vai rolar. Ótima resenha.

Beijos!

Alfrêdo disse...

Oi, Alê!

Ah, não acredito que o livro decepciona :(. Antea de abrir o post, já tava pensando em comentar "EU PRECISOOOOOOO DESSE LIVRO!!!!!", mas à medida que lia suas impressões, ficava chateado por não ser como eu imaginei. O que te incomodou provavelmente me incomodaria também se eu lesse, então isso me deixa com um pé atrás. A premissa e a edição do livro elevaram as minhas expectativas, uma pena que ele parece não corresponder...

Ótima resenha!!
Abraço
https://tonylucasblog.blogspot.com.br/

Marília Leocádio disse...

Puxa o livro pareceu bom no começo apesar de só de já ter lido a parte em que a viúva defende o marido já dá uma raiva daquelas, acho que também o final possa a ser decepsonante a capa é linda mas a estória não me chamou muita atenção.
Abraço!!!

RUDYNALVA disse...

Alê!
Fico sempre decepcionada quando vejo um enredo promissor, se perder nas 'alucinações' de um autor, sério.
Claro que se já no início do livro se sabe que o dito cujo foi absolvido, para que perder tanto tempo em descrever as minúcias do caso?
E quando o ponto alto que seria a declaração da esposa para desvendar quem foi realmente que matou Bella ou que aconteceu a ela, é pífio... triste.
“Ouse saber!(Sapere aude)” (Immanuel Kant)
cheirinhos
Rudy
http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
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Teca Machado disse...

Oi, Alê!
Comecei a ler a resenha super empolgada e fui murchando, hahaha.
Acredito que como você enquanto lia o livro.
:(
Triste quando nossas expectativas não são alcançadas em uma história que parecia ter tudo para ser um excelente thriller.
Pena.

Beijoooos

www.casosacasoselivros.com
www.livrosdateca.com

Tô pensando em Ler disse...

Poxa... que chato! E eu estava tão empolgada com essa leitura.
Caramba.

Vou deixar de lado um pouco e ler bem pra frente.

Bjkssss

O Que Tem Na Nossa Estante disse...

Oi Alê! Tudo bem? Eu vi muitas fotos desse livro no instagram e depois de ler a sinopse fiquei interessada, mas agora vou alinhar minhas expectativas! realmente outra abordagem me parece que tria sido bem mais interessante.... excelente resenha, como sempre!

Bjs, Mi

O que tem na nossa estante

Sil disse...

Olá, Alê.
Quando vi que tinha resenha desse livro aqui corri para ler. Foi um dos lançamentos que mais chamou a minha atenção. E também pensei igual a você, até achei que seria tipo o livro Sua resposta vale um bilhão. É uma pena que não tenha dado certo. Ainda quero ler, mas vou deixar para depois.

Prefácio

Giulianna Santicioli disse...

Pela resenha o livro parece ser um que não leria, parece ser parado demais e as coisas que o autor poderia aproveitar, não foram aproveitados, ou seja, é apenas uma encheção de linguiça, no começo parecia que o livro tinha tudo para ser bom, mas conforme fui lendo a resenha, perdi totalmente o interesse e não fiquei com vontade de ler.
Beijos!

Marta Izabel disse...

Oi, Alê!!
Que pena o livro tinha tudo para ser uma história fantástica mais infelizmente não foi bem assim!!
Beijoss

Jônatas Amaral disse...

Nossa, a sua resenha foi um grande balde de água fria, porque quando li a sinopse achei que era um baita de um livro.
Acho que as vezes os autores pesam a mão em criar uma história cheia de detalhes, reviravoltas, ritmo que esquecem os personagens são o grande trunfo de toda e qualquer história. As vezes, fazer dele o centro é o melhor a se fazer.
Agora nem sei se leio ou não esse livro.

Jônatas Amaral
alma-critica.blogspot.com.br

Carolina Garcia disse...

Oi, Alê!!

Confesso que o livro não tinha me chamado muito a atenção na primeira vez que o vi, mas agora com sua resenha eu nem tenho vontade de lê-lo.

Uma pena que o desenvolvimento não foi bom. Infelizmente isso tende a acontecer de vez em quando.

Bjs

http://livrosontemhojeesempre.blogspot.com.br

suzana cariri disse...

Oi!
Já tinha visto esse livro antes e pela sinopse ele não tinha me chamado a atenção, mas lendo a resenha vi que não é uma historia que irei gostar, acho que esse relato do caso que a historia acaba se tornando acaba mesmo se tornando um pouco maçante e não me deixou com aquela curiosidade para poder saber mais !!

Kemmy Oliveira disse...

Puxa, me desanimei agora... queria muito ler esse livro mas não vejo sentido nessa narrativa do julgamento se já sabemos que o cara será absolvido. É uma pena que a autora não soube explorar a trama e pior ainda a gente ficar o livro todo naquele suspense de saber o que realmente aconteceu e no fim ser algo tão simples e morno. Desanimei mesmo :/

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Priscila Tavares disse...

Oi Alê, que coisa hem. A história tinha tudo para ser daquelas de tirar o fôlego, de fazer com que o leitor se perca nessa linha investigativa, mas pela escolha da autora, as coisas não saíram como esperado... desanimei para ler o livro.
Beijos
Quanto Mais Livros Melhor

Ana I. J. Mercury disse...

Confesso que a premissa em si não me chamou a atenção, e agora pela sua resenha, deu pra ver que é bem decepcionante e mal desenvolvido.
Uma pena, acho que poderia ser melhor e até me agradar, eu que não sou muito do gênero kkkkk
bjs

s.rodrigues disse...

Sempre depois que termino um livro procuro resenhas sobre o mesmo e a sua foi uma delas. Não achei o livro decepcionante. Jean Taylor é uma personagem assustadora em sua frieza calculista obcecada com o desejo de ter filhos. Todas as ações e reações dela estão sob essa perspectiva. Achei que o objetivo da história era menos solucionar o caso do que apresentar o impacto dele nas vidas dos personagens, de acordo com o caráter e interesses de cada um. Vale a leitura.

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