sábado, 17 de outubro de 2015

RESENHA: Capitães da Areia

“O que ele queria era felicidade, era alegria, era fugir de toda aquela miséria, de toda aquela desgraça. Havia, é verdade, a grande liberdade das ruas. Mas havia também o abandono de qualquer carinho, a falta de todas as palavras boas.” (AMADO, 2008, p. 38). 

***

Há anos me sinto em falta com a literatura nacional, e um dos autores que tinha curiosidade de conhecer mas que sempre deixava para depois era Jorge Amado. E após a leitura de Capitães da Areia, fiquei a me perguntar por que nunca li nenhuma obra de sua autoria antes. 

A estória gira em torno do grupo de meninos de rua conhecidos como Capitães da Areia, que vive nas ruas de Salvador, morando em um trapiche abandonado e sobrevivendo de furtos e assaltos. Sob a liderança de Pedro Bala, os meninos crescem sem saber o que é infância, fazendo o que for necessário para sobreviverem, descobrindo os sabores e dissabores da vida. 

O fator que mais chama atenção em Capitães da Areia é a crueza da narrativa. Jorge Amado não poupa palavras para mostrar como é a vida das crianças abandonadas, muitas vezes órfãos, que não recebem apoio do Estado, que são vistos pela sociedade com uma mistura de piedade e ojeriza e que, sem outra saída, juntam-se ao bando para a prática criminosa, a única opção que lhes restou. 

A obra é um verdadeiro romance de formação, pois acompanhamos a evolução destes meninos, sem família e sem educação, mas que anseiam por amor e carinho. Não é de surpreender que nesta busca, descobrem cedo a sexualidade, seja com prostituas, seja com “negrinhas no areal”, seja nos braços um dos outros. Tudo o que querem é o sentimento de pertencimento, e ante o desamparo da sociedade, encontram isto no grupo, que não lhes dá apenas uma identidade, mas também um motivo para viver e lutar. Marginalizados, não é de se surpreender que criem suas próprias leis e que tenham a lealdade como o maior mandamento.  

“Mesmo não sabendo que era amor, sentiam que era bom.” (AMADO, 2008, p. 193)

Capitães da Areia não seria o livro impactante que é se não fosse pela habilidade de Jorge Amado em criar personagens complexos, verossímeis e que despertam a empatia do leitor. Pedro Bala, o líder destemido, que faria de tudo por seu grupo, e que olha para o futuro com incertezas; Professor, o único adolescente alfabetizado e que aspira se tornar um artista; Pirulito, que encontrou forças em sua fé e que vive entre a culpa dos furtos que comete e o regozijo de sua religião; Sem-Pernas, o aleijado que sente apenas o ódio pulsar em seu coração; e Dora, a garota que junta-se ao grupo após perder a mãe, que inicialmente desperta o desejo dos meninos, mas que depois apreendem a vê-la como uma irmã. 

Embora a estória, a meu ver, não tenha um protagonista, quem se destaca é Sem-Pernas. Ele, que nunca teve perspectivas, que recebeu apenas desprezo da sociedade, que não teve uma família para amar e ser amado, que sofreu tantas injustiças, mesmo sendo tão novo. Embora a maioria daqueles adolescentes viva em situação semelhante, Sem-Pernas nunca conseguiu lidar com tais sentimentos e apenas o ódio, a raiva e o desprezo enchem seu coração. 

Como se vê, há uma cacofonia de personalidades e é através desta cacofonia que vemos estes garotos crescerem e serem confrontados com as mais adversas situações. Não é por menos que a estória dos Capitães acaba sendo um pano de fundo utilizado por Jorge Amado para abordar assuntos como ódio, amizade, vingança, companheirismo, piedade, violência, amor, abandono, lealdade, entre tantos outros. 

Fica claro desde o início que Jorge Amado sabe sobre o que está falando e que possui conhecimento sobre a dura vida dos menores abandonados. Ao final do livro, Zélia Gatai confirma que, para escrever o livro, seu marido viveu com crianças de rua, inclusive dormindo com elas no trapiche, o que além de explicar a riqueza de detalhes, elevou ainda mais o meu respeito e admiração pelo autor. 

Capitães da Areia foi publicado em 1937, e mesmo transcorridos mais de setenta anos, é impressionante como a obra permanece atual. Neste ano tem-se discutido a redução da maioridade penal, uma medida que na melhor das hipóteses servirá como um paliativo no curto prazo, mas que não resolverá o problema. Nossas prisões estão longe de ressocializar os condenados, e as condições degradantes apenas servem para instilar mais ódio e raiva naquelas pessoas. E como no Brasil não existe prisão perpétua, estamos criando uma população carcerária extremamente violenta e que daqui alguns anos estará nas ruas. Nossas crianças e adolescentes precisam de educação e oportunidades, não de descaso e repressão. 

O grande mérito de Jorge Amado é mostrar uma realidade dura, muitas vezes ignorada pela sociedade, que condena as crianças e adolescentes abandonados como se estivessem nestas condições por opção, e não por necessidade. Capitães da Areia é muito mais do que uma estória de um bando de adolescentes assaltantes, mas sim uma severa crítica social sobre como temos falhado constantemente em estender a mão a quem mais necessita. 

Título: Capitães da Areia (exemplar cedido pela editora)
Autor: Jorge Amado
N. de páginas: 281
Editora: Companhia das Letras

31 comentários:

RUDYNALVA disse...

Alê!
Me estranha muito não ter lido nenhuma das obras de Jorge Amado na escola, porque eles sempre pediam para que lêssemos, na minha época sim...
Jorge Amado foi o precursor das críticas sociais em sua época, embora embotado por seus romances, foi sempre um grande observador dos fatos sociais e levava esses problemas aos seus livros.
“Quem quiser vencer na vida deve fazer como os seus sábios: mesmo com a alma partida, ter um sorriso nos lábios.”(Dinamor)
cheirinhos
Rudy
http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
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Gabriela CZ disse...

Adoro vir aqui e receber uma nova perspectiva. Também faz tempo que me sinto em falta com a literatura nacional, Alê. Mas por conta de uma picuinha adquirida na infância nunca quis ler algo de Jorge Amado. (Longa história.) No entanto, seus comentários sobre Capitães de Areia me fizeram ver o quanto estou perdendo. Me parece uma ótima trama cuja as pessoas deveriam refletir. Preciso ler.
Ótima resenha.

Abraços!
http://constantesevariaveis.blogspot.com.br/

Evelyn Almeida disse...

Eu li na escola e acho que fui a única aluna que gostou.
Post it & Livros

Ycaro Brito disse...

Alê, tenho conhecimento da história, mas não por seu livro e, sim, por filme. Capitães da Areia me conquistou da forma como Jorge Amado cria seus personagens e não tem pesar algum em mostrar a realidade para seus leitores e espectadores, cada menino sofre com um trauma, um maior que o outro, sendo restrito da infância e apresentados ao mundo do roubo. Esta obra foi a mais reflexiva que presenciei, em filme.

Daniela Silva disse...

Oi Alê!
Não conhecia este livro e fiquei interessada, pelos assuntos que aborda. Deve ser um livro forte e reflexivo. Ótima resenha.
beijos ♥
nuclear--story.blogspot.com

Ana Clara disse...

Oi Alê!

Esse é o livro preferido da vida do meu irmão mais novo e sempre tive a curiosidade de saber o porquê, mas como você vou protelando o máximo que posso (em partes por falta de tempo mesmo). Gente, eu não sabia que o autor tinha vivido uma infância tão doída, fiquei de cara aqui! Só me dá mais motivo para criar vergonha na cara ler as obras dele.

Beijo!
http://www.roendolivros.com

Caverna Literária disse...

Esse livro de fato é muito conhecido e aclamado, mas honestamente a leitura nacional dessa época não me agrada nem um pouco :/ costumavam passar bastante na escola, mas pra mim era uma tortura haha que bom que pra você o efeito foi o contrário!

xx Carol
http://caverna-literaria.blogspot.com.br/
Tem resenha nova na Caverna de "A Febre", vem conferir!

Sil disse...

Olá, Alê.
Eu já li Tieta do Agreste, do autor e amei a escrita dele. Lembro que o livro era enorme, mas eu devorei de tão gostoso que ele escreve. Infelizmente eu li na biblioteca da escola, e depois não li mais nada dele. Me interessei muito por esse também, sua resenha está excelente como sempre.

Blog Prefácio

Jacqueline Braga disse...

Oie Alê.
me sinto em dívida com a literatura nacional no momento. Nunca li nada do Jorge Amado, mas só pela sua descrição da obra , eu já vejo que vou amar.
bjos
www.mybooklit.com

Luiza Helena Vieira disse...

Oi Alê!
Eu nunca li nada do Jorge Amado (na verdade, não li muitos clássicos da literatura nacional) mas, sua resenha me fez sentir mal por nunca ter lido esse livro. Anotei aqui para uma leitura em breve
Beijos
Balaio de Babados

Sávio França disse...

Olá, tudo bem?
"Capitães da Areia" é um livro que todo leitor precisa ler.
Sem dúvidas, é clássico da literatura nacional e eu adoro demais...

Abraço!
http://tudoonlinevirtual.blogspot.com.br/

Vanessa Vieira disse...

Gostei da resenha Alê. Ainda não li nada do Jorge Amado, mas ouço excelentes comentários a respeito de Capitães de Areia. Muito bom saber que a obra é uma verdadeira crítica social e que os personagens são tão tangíveis e intensos. Abraço!

www.newsnessa.com

Silviane Casemiro disse...

Olá! Também me sinto em falta com a literatura nacional as vezes, porém acho que ainda não estou preparada para os clássicos - infelizmente.
Gostei bastante da sua analise da obra.
Beijos
SIL | Estilhaçando Livros

Vitor Leonardo disse...

Nunca li nada de Jorge Amado, devo confessar que estou em falta com a literatura nacional ultimamente!
Esse seria um bom livro para começar a me redimir à literatura nacional!

Kamila Villarreal disse...

Olá!

Li esse livro quando estava no terceiro ano da escola (2011) para o ENEM e Fuvest. Que livro! Um dos poucos nacionais antigos que me cativou até hoje! A história é forte e, se era atual há quatro anos, continua atual. Parabéns pela resenha, me fez lembrar muitas coisas dele.

resenhaeoutrascoisas.blogspot.com

Vanessa Sueroz disse...

Oie,
nossa faz tantos anos que li este livro que mal lembrava a história rsrsrs
Livro muito bom, quero assistir o filme tb.

bjs
http://blog.vanessasueroz.com.br

Carla A. disse...

Oi, Alê! Perfeita sua resenha e o sentido que conseguiu extrair do livro. Eu li esse livro na escola, aos 14 anos e até hoje lembro da força da narrativa do Jorge Amado.

Beijos, Entre Aspas

Alyne Lima disse...

Olá, tudo bem? Tenho uma vontade muito grande de ler esse livro!
Beijos

http://meusdespropositos.blogspot.com.br/

Ariane Reis. disse...

Oie Alê =)

Li esse livro na 8ª série e confesso que na época não curti nenhum pouca a história rs... mania dos professores "obrigarem" os alunos a lerem clássicos sempre dá nisso.
Pretendo reler ele quando tiver oportunidade para ver se tiro essa "má impressão" que a narrativa do Jorge Amado me deixou.

Ótima resenha!

Beijos;***

Ane Reis.
mydearlibrary | Livros, divagações e outras histórias...
@mydearlibrary

Mariele Antonello disse...

Me parece ser bem interessante esse livro, ainda não li nada de Jorge Amado, mas é sempre bom conhecer novos livros da literatura brasileira e a história do livro parece ser bem interessante.
Sua resenha está muito boa.

Nathália Lopes disse...

Olá Alê!
Há alguns dias minha amiga estava lendo esse livro e fiquei bastante curiosa. Já havia ouvindo falar dele e parece ser incrível! É maravilhoso ver a literatura nacional sendo tão "mágica". Fiquei ainda mais admirada pelo fato do autor mostrar a realidade sem pudor. Com certeza lerei esse livro. Adorei a resenha!
Beijos, Nathália
livrosdagarotavermelha.wordpress.com

Tony Lucas disse...

Oi, Alê! Tudo bem? Nossa, adorei a resenha! Ela ficou ótima e bem profunda. Tenho muito interesse em ler esse livro do Jorge Amado! Os personagens parecem ser extremamente bem construídos e cativantes e a crítica que o autor faz parece ser bem colocada! :)

Abraço

http://tonylucasblog.blogspot.com.br/2015/10/resenha-premiada-muito-mais-que-5inco.html <- Tá rolando promoção do livro "Muito Mais Que 5inco Minutos" lá no blog! ;)

Carolina Garcia disse...

Oi, Alê!

Também morro de vontade de ler Jorge Amado, mas não me organizei para isso ainda.

E sempre fico reflexiva depois de ler histórias assim que como Capitães de Areia mostram o lado negro da humanidade. Os marginais que nunca têm uma chance honesta de mudar de vida.

Anos atrás li um livro sobre a prostituição infantil no Brasil, mostrando o sofrimento de meninas no norte, nordeste e sudeste do país. Acredito que também deva atingir as outras regiões, mas o livro só tratava dessas três. É muito triste pensar que essa continua sendo a realidade de milhares de crianças que perdem ou então nunca chegam a conhecer a inocência de brincar sem se preocupar com a própria sobrevivência.

Vou tentar me obrigar a ler Jorge Amado no futuro. Sua resenha está ótima! Acho até que vou começar por Capitães de Areia. Te conto depois quando ler. ;)

Bjs

livrosontemhojeesempre.blogspot.com.br

Rafaela. disse...

Oi, Alê!

Gosto muito de Capitães de Areia e é, sem dúvidas, um dos meus clássicos favoritos da literatura brasileira. O que mais me chamou a atenção foi a forma explícita, verossímil e dura com ele apresenta a história e os personagens - com detalhes e uma caracterização tão bem feita.
Leia os demais livros do Jorge, acho que você irá gostar.

Beijocas.
http://artesaliteraria.blogspot.com.br

Camila Monteiro disse...

Você sabe que, conforma vamos envelhecendo, vamos nos sentido cada vez mais obrigadas a ler esses clássicos! Acredito que nossa literatura é tão rica, que precisaria uma vida para aproveitar tudo. Coloco esse na minha lista tb.
Outra vida, por favor!!!

www.vidacomplicada.com

Diane disse...

Olá ...
Esse é um nacional muito famoso !
Já li algumas coisas de Jorge amado , mas , esse resenhado ainda não :(
Espero ler em breve ...

http://coisasdediane.blogspot.com.br/

Rose Gs disse...

Olá!!
Jorge Amado pra mim é dos melhores autores do mundo, porque o poder que ele tem em nos tocar, em tocar na ferida sabe, ele fala dos fatos sociais como ninguém ousou falar em sua época, e isso me encanta e não é pra menos ele é demais , "Capitães de Areia" é minha resposta quado me perguntam um livro que eu acho que todo mundo deveria ler, é um dos meu livros de cabeceira fica la juntinho com "O Manual do Guerreiro" de Paulo Coelho e "O Pequeno Príncipe"

The Best Words Br disse...

Oie, xará! Tudo bem?
Primeiro, preciso te dar os parabéns por essa resenha maravilhosaaaa... sério! Você conseguiu me levar para dentro da história!!!
Nunca li nada de Jorge Amado, infelizmente... mas, agora, depois dessa resenha, vou colocá-lo no topo da minha lista.
Um enredo que aborda um tema assim continua atual, apesar de ter sido escrito há tempos, e isso mostra que essa discussão precisa de MUITA atenção da nossa sociedade.
Concordo com você sobre a questão da maioridade penal... essa medida seria apenas um paliativo e isso não resolveria os problemas de ninguém... é preciso que essas crianças tenham direito a uma moradia, a uma educação e ao direito de serem cidadãos completos.
Parabéns mais uma vez!
Beijos,
Alexandra
http://thebestwordsbr.blogspot.com.br/

Ana I. J. Mercury disse...

Acredita que também nunca li Jorge Amado?! Pois é, mas agora com sua resenha fiquei me sentindo mal por isso kkkkk devia ter lido há eras, sinceramente! Este homem se faz amado por onde passa!
Que linda história, e ao mesmo tempo, tãooooo triste.
Vou querer conferi-la com certeza!
bjos

Ju M disse...

Faz tanto tempo que li esse livro que nem lembrava direito do que se tratava. Foi o único livro que li do Jorge Amado.

Ao que me parece o autor gosta de fazer uma abordagem mais crítica da sociedade em suas obras. Apesar de não ter lido Gabriela, na série televisiva fica clara a sociedade moralista da época, que apesar de tanto moralista cada um escondia suas imoralidades.

Adorei o que você escreveu sobre a redução da maioridade penal, na maioria das vezes as pessoas não conseguem analisar a situação além da superficialidade,a penas senso crítico ao nível do Datena.

José Rogério disse...

Não entendo como as pessoas dizem gostar de literatura e não ter lifo clássicos da literatura nacional. E não ter lido Jorge Amado, o qual teve traduções em mais de 60 países.

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