segunda-feira, 19 de outubro de 2015

RESENHA: O Homem do Castelo Alto

“Um mundo psicótico, este em que vivemos. Os loucos estão no poder. Há quanto tempo sabemos disso? Encaramos isso? E...quantos de nós sabem? (...) Talvez, se soubermos que somos loucos, então não sejamos loucos. Ou estamos, finalmente, deixando de ser loucos. Despertando. Suponho que apenas poucas pessoas tenham consciência disso. Pessoas isoladas, aqui e ali. Mas as grandes massas...o que será que elas pensam? As centenas de milhares de pessoas aqui nesta cidade. Será que imaginam que vivem num mundo são? Ou adivinham, vislumbram, a verdade...? (DICK, p. 52, 2009)

Considerado a obra-prima de Philip K. Dick, “O Homem do Castelo Alto” faz o que mais encanta na ficção cientifica. A pergunta: “E se...?”.

O Eixo venceu a Segunda Guerra Mundial. Agora, a Alemanha e o Japão são as duas potências mundiais, os Estados Unidos foram reduzidos a quase nada e os judeus e africanos praticamente deixaram de existir. Neste cenário, o I Ching - oráculo chinês - ajuda as pessoas a tomarem decisões. É também neste cenário que um livro tornou-se proibido, pois nele seu autor se atreveu a imaginar uma realidade alternativa. Uma em que os Aliados teriam vencido a Guerra.

Esse ano aprendi a fazer algo crucial na vida de um leitor: perceber quando o livro que se tem em mãos não é o certo para aquele momento e que, se continuar a leitura, o sentimento ao acabar será: “finalmente acabei”. Isso aconteceu com “O Homem do Castelo Alto” e (nunca pensei que fosse dizer isso) fico feliz de ter abandonado a leitura para voltar a ela meses depois. Naquele momento, tudo parecia potencialmente interessante, mas enfadonho. Já a segunda leitura me mostrou um texto denso que pode sim ser cansativo em alguns momentos, dando até a impressão de patinar para chegar a algum lugar, mas foi impossível não admirar a genialidade do autor.

Como muitas vezes acontece na ficção cientifica, na obra de Dick é mais importante apresentar um cenário do que desenvolver os dramas dos personagens. É por isso que vejo os protagonistas como ferramentas usadas pelo autor para mostrar como essa realidade teria sido para pessoas em diversas situações. Para começar, temos Childan, um comerciante de antiguidades americano que sonha em conquistar um lugar melhor na sociedade. Para isso, ele se esforça para adotar os costumes e trejeitos japoneses, afinal, a cultura oriental é a mais forte. Usando cada oportunidade que sua realidade alternativa oferece, Dick aproveita Childan para mostrar a que se reduziu a cultura norte-americana (ou seja, a nada), quando objetos populares (como pôsteres ou um simples relógio de Mickey Mouse) passam a ser considerados artefatos históricos, representativos de uma cultura que foi eliminada. Outro personagem ilustrativo é Frank Frink, um judeu que conseguiu sobreviver à Guerra e vive sob uma identidade falsa (seu sobrenome original é Fink) tendo passado por cirurgias plásticas para disfarçar feições e esconder suas origens. Juliana, ex-mulher de Frank, é a única personagem feminina de destaque (e a personagem mais cativante na minha opinião). Ela teve um trauma no passado e aprendeu a se defender lutando judô (novamente a cultura oriental se sobressaindo), mas é uma pessoa sem rumo definido na vida.

É curioso que os personagens praticamente não se cruzem ao longo da trama e quando o fazem seja de maneira tênue. Isso vem a reforçar meu argumento de que o que acontece a eles não é tão importante para história quanto o que eles representam dentro dela. O problema, para mim pelo menos, é que essa abordagem que reduz o personagem a segundo plano afasta o leitor e dificulta a sua conexão com a história. É como se estivéssemos ali apenas para assistir de fora e não para nos envolvermos. Talvez seja até mesmo proposital para evitar que o leitor se sinta confortável diante de um cenário sombrio como o proposto. Pensando bem, quando lembro das minhas distopias favoritas, nunca lembro dos personagens e dramas pessoais. O que lembro é dos cenários, das minhas reflexões. Então talvez isso seja uma característica do gênero (uma com a qual ainda preciso aprender a conviver).

E por falar em reflexões, as perguntas “O que é realidade?” e “Como distinguir o real do falso?” são o verdadeiro cerne da história e aparecem de inúmeras formas, desde a historicidade exigida nos negócios de Childan (o que faz com que um objeto seja verdadeiro: o objeto em si ou o documento que confirma sua autenticidade? O que faz o documento verdadeiro?), ou a identidade de Frank (como saber quem é o verdadeiro homem por trás da nova aparência e do novo nome? Se o nome já não é judeu, se ele já não tem hábitos da cultura judaica, se já não tem as feições características, ele ainda é judeu?) e, claro, no livro de ficção científica que apresenta a realidade alternativa dentro da realidade alternativa (aquela em que os nazistas teriam perdido a Guerra).

Dick merece aplausos por muitas coisas em “O Homem do Castelo Alto”, entre elas sua atenção aos detalhes. Para o leitor se torna fácil acreditar que aquele mundo é real (tão fácil quanto para os personagens?) porque o autor mostra exatamente como ele funciona. Que territórios pertencem ao Japão, quais pertencem à Alemanha, a que as potencias escolheram se dedicar econômica e politicamente, como é a sociedade sob o domínio de cada uma delas (a japonesa mais zen, a alemã mais autoritária). Até os novos preconceitos que se criariam são abordados pelo autor.

Dick acerta também ao ambientar a trama na década de 60, quando o conflito em si já está distante a ponto de perder a importância. Tudo o que importa é a sociedade que surgiu a partir dele. Ainda assim, todos os personagens principais viveram os tempos de Guerra, conseguindo lembrar como era o mundo antes dela.

Outro aspecto interessante é o uso do oráculo e o quão dependentes dele os personagens se tornam para tomar suas decisões. Impossível não se questionar até que ponto as pessoas querem ser responsáveis pelas suas escolhas. Não seria mais fácil, às vezes, deixar tudo nas mãos de uma força externa e sobre a qual não se tem controle? Como um oráculo milenar ou como a religião?

Como se pode ver, questionamentos não faltam. Por isso mesmo, “O Homem do Castelo Alto” é um livro que se aprecia muito mais ao final do que durante a leitura. Confesso que durante suas quase trezentas páginas eu ansiava pelo momento em que seria cativada e isso não aconteceu. Mas desde que terminei a leitura, continuo a pensar sobre ela e a querer usar as palavras “genial” e “brilhante” . Na verdade, quase sinto Philip K. Dick cutucando meu ombro e perguntando: “O que mais você pode querer?” Talvez ele tenha razão. Afinal, a realidade (o gostar e não gostar) nem sempre tem contornos tão bem definidos.

Como sempre, vale um destaque para a edição da Aleph que complementa o texto de Dick com um interessante posfácio de Fábio Fernandes (tradutor desta edição) acerca da vida do autor, sua visão de mundo e o impacto em sua obra.

Em 1963, “O Homem do Castelo Alto” foi vencedor do Hugo Award, um dos mais importantes prêmios de ficção cientifica. Recentemente, o livro ganhou uma adaptação para a televisão, produzida pela Amazon.

Título: O Homem do Castelo Alto (exemplar cedido pela editora)
Autor: Philip K. Dick
N° de páginas: 304
Editora: Aleph

31 comentários:

Ycaro Brito disse...

Mari, não me dou muito bem com leitura de ficção científica, creio que pelo fato do foco nos cenários, deixando um pouco de lado a verdadeira história dos personagens, seus medos, defeitos e qualidades. O Homem do Castelo Alto me interessou por propor um novo vencedor para a Segunda Guerra Mundial, mas a amostra do cenário mais que os personagens me decepciona.

Sil disse...

Olá, Mari.
Eu preciso prender a fazer isso, insisto mesmo não gostando e depois em decepciono com a leitura. E o engraçado que já aconteceu de eu reler algum livro que tinha acontecido isso e amado hehe. Não sei se leria esse livro no momento, mas vou deixar anotado. Nunca passei por essa experiencia de não me encantar com o livro durante a leitura e depois achá-lo genial. Quem sabe seja a primeira vez hehe.

Blog Prefácio

Neto Araújo disse...

Nunca li esse livro, mas pelo que percebi da uma volta pela Segunda Guerra Mundial e acaba com uma história de ficção intrigante e que acabou me fascinando. Também não havia visto falar do autor, mas me interessei pelo livro.
http://aprovidenciablog.blogspot.com.br/

Cida disse...

Oi Mari! Não li tantos livros deste gênero quanto gostaria, mas percebi que este aqui não é um dos mais fáceis. Concordo com você que há o momento certo para ser ler algo e eu estou numa fase que busco livros mais leves, no entanto não descarto esta leitura por ter achado bem intrigante a construção do enredo e como tudo foi apresentado.

Bjos!! Cida
Moonlight Books

Leitora Cretina disse...

Olá, Mari!
Adoro suas resenhas porque são muito completas, mas sem que solte demais da história, ainda nos deixa com um ar de curiosidade e vontade de ler o livro. Parabéns pela resenha.
Beijão

http://leitoracretina.blogspot.com.br/

Luiz Paulo Nunes disse...

Hey Mariana!
Será que ele dá enfoque ao mundo inteiro? Ou fica apenas em America destruída e algumas partes eurocêntricas tomadas pelos dois países?
Ótima resenha
Sabe o que esse livro me remeteu? Talvez não faça muito seu gênero, mas existe uma HQ chamada Superman Red Son, ou Superman entre a foice e o martelo que instiga como seria o mundo se o maior simbolo do EUA tivesse caído na União Soviética, no período do Pós Guerra, a guerra fria. Ele abre a visão da gente para possibilidades e mesmo ao lidar com fatos.
bjos LP
quatroselos.blogspot.com

Soraya Abuchaim disse...

Oi, Mari!
Gente, que resenha é essa? Fiquei absorta nas suas palavras.
Bom, primeiro que eu amo todas as suas dicas, na minha concepção, vc tem gostos excelentes para leitura hahaha
Eu não sou muito de ficção científica por pura falta de oportunidade, mas adorei a sua dica e, com certeza, esse me ganhou.

Beijos

Meu Meio Devaneio

David Andrade disse...

Oi Mari!
Parece ser um livro bem legal. Depois de tantos elogio. Gosto de ficção cientifica, mas essas mais clássicas eu li pouquíssimas. Ainda não sei se me daria bem com a narrativa. Teria que fazer um teste, mas não no momento. To com uma lista interminável aqui.

Abraços
David Andrade
http://www.olimpicoliterario.com/

RUDYNALVA disse...

Mari!
Gosto quando o escritor mostra o cenário de forma detalhista, gosto dos detalhes e acham que são importantes para todo enredo.
Em sendo ficção já atrai minha atenção, embora tenha achado um tanto dúbia sua opinião.
“Felicidade é a certeza de que a nossa vida não está se passando inutilmente.”(Érico Veríssimo)
cheirinhos
Rudy
http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
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Mariele Antonello disse...

Sua resenha está muito boa, mas esse livro não faz muito meu estilo de leitura, não curto muito livros assim, mas quem sabe futuramente eu muda de ideia e resolva ler.

Gabriela CZ disse...

Confesso que só descobri esse livro recentemente mas ele entrou pra minha lista automaticamente, Mari. Seus comentários aumentaram minha curiosidade, e já passei por isso de gostar mais de um livro após concluir a leitura e refletir do que durante. E ao que parece, essa reflexão vale muito a pena. Vou ler.
Ótima resenha.

Abraços!
http://constantesevariaveis.blogspot.com.br/

Lays Marques disse...

CAramba, adoro livros que contam uma história real.

Apesar de ser complexo, deve ser muitoooo bom e nos agrega muito


Beijinhos

http://coruujando.blogspot.com.br ♥

Carolina Garcia disse...

Oi, Mari!

Entendo perfeitamente o que quer dizer sobre pegar um livro e não ser o momento certo para a leitura. Aconteceu isso comigo quando lia Emma, de Jane Austen, e acho que demorei muito tempo para finalizá-lo.

Sua resenha está ótima e fiquei curiosa sobre o livro, mas não estou no clima para mais indagações. Quero uma história fofa com final previsível para dar uma relaxada na mente. xD

Bjs!!

livrosontemhojeesempre.blogspot.com.br

Eloísa Pompermayer disse...

Oláá Mari
Me encantei já com a sinopse, mas sua resenha me despertou ainda mais interesse e curiosidade, amo livros assim que mesmo ao terminar faz com que a leitura permaneça presente e nos 'cutucando', com toda certeza o livro foi para minha WishList interminável haushaus
Bjoos

Jovem Literário

Alice Twins disse...

Olá Mari,

Confesso que sou assim também com os meus livros.. as vezes começo a leitura e vejo que não é o momento certo para abraçar ele novamente e vou deixando até que surge um dia e releio novamente. Em outras palavras digamos assim "não estou inspirada para determinado livro.."

Gostei muito da resenha e do blog, estou te seguindo. :)

Um beijo,

www.alicetwins.blogspot.com.br

Maurilei Teodoro disse...

Achei a história magnífica, mas ficou uma impressão que o tema proposto poderia ter sido bem melhor explorado, ou explorado de outra forma.

bomlivro1811.blogspot.com.br

Camila Monteiro disse...

Mari, eu tentei gostar de ficção científica, mas não consegui. Li o das ovelhas desse autor e não gostei, gostei menos ainda do filme hahahahaha
Sua resenha ficou espetacular, mas esse vou passar!

Beijos
www.vidacomplicada.com

Caah Locatelli disse...

Queria saber para uma leitura, por mais que eu odeie o livro, eu tenho que continuar lendo, senão, eu olho para minha estante e fico pensando somente naquele livro que não terminei a leitura! No momento to lendo um livro, que para mim não está funcionando, e tipo eu leio 5 páginas e já canso...

bjus
http://acidadeliteraria.blogspot.com.br/

Vanessa Sueroz disse...

Oie,
não conhecia o livro, mas confesso que passaria longe por tudo nele rsrsrs
A história não me atraiu no momento.

bjos
http://blog.vanessasueroz.com.br

Ariane Reis. disse...

Oie Mari =)

Por isso que as vezes gosto de ler mais de um livro ao mesmo tempo. Se percebe que a leitura de um não está sendo tão fluida como eu desejo, vou lendo o outro. As vezes a nossa percepção da história muda dependendo do nosso humor mesmo. Por isso que digo que não existe livro "ruim", e sim épocas não tão boas.
Não conhecia o livro e esse tipo de ficção funciona melhor comigo em filmes ou séries. A premissa parece ser bem interessante, porém no meu momento atual rs... acho que seria o tipo de leitura que acharia maçante.

Ótima resenha!

Beijos;***

Ane Reis.
mydearlibrary | Livros, divagações e outras histórias...
@mydearlibrary

Tony Lucas disse...

Oi, Mari! Tudo bem? Nossa, estou fascinado por essa capa super psicodélica do livro! *--* A premissa da obra também é ótima e seus comentários só fizeram com que eu ficasse bem interessado em ler "O Homem do Castelo Alto"! :)

Abraço

http://tonylucasblog.blogspot.com.br/2015/10/resenha-premiada-muito-mais-que-5inco.html <- Tá rolando promoção do livro "Muito Mais Que 5inco Minutos" lá no blog! ;)

Diane disse...

Oi ...
Adorei a sua resenha ! Mas , não sei se é o livro certo pra mim , porque fiquei desanimada com alguns de seus comentários ...

http://coisasdediane.blogspot.com.br/

Camila Faria disse...

Fiquei super impressionada com o Philip K. Dick depois que li Valis (http://naomemandeflores.com/os-tres-ultimos-livros-7/) ~ que tem esse mesmo denso, pelo que você descreveu. Estou procurando outro título dele para ler, acho que O Homem do Castelo Alto pode ser uma boa opção!

Beijos :*

http://naomemandeflores.com

Gabbi Levesque disse...

Nunca li, mas até que curti a premissa da história, fiquei bem interessada!
Beijos,
Gabbi

https://dearlysandra.blogspot.com.br

Guilherme Dias disse...

Heey!
Nunca li nada desse autor, mas não foi por falta de curiosidade haha
Sempre ouço falar bem dos livros dele e, pelo visto, esse não fica para trás ^^
Adorei a resenha, com certeza esse livro vai entrar para a minha wishlist =D
Abraços!!
Blog - Desbravando o Infinito

Brenna Damaceno disse...

Não havia ouvido falar deste livro ainda, mas ele parece ser muito bom <3
Beijos

https://mysecretworldbells.blogspot.com.br/

Em comum disse...

Não sou fã de livros de ficção, nem mesmo científica! Devo admitir que sua resenha me deixou bem curiosa com tantos questionamentos, você soube atiçar minha curiosidade, vou pensar sobre esse livro!

Beijos
Dani Cruz
blog-emcomum.blogspot.com.br
Twitter - @blogemcomum / Insta - @blogemcomum / Fanpage Em Comum

Silviane Casemiro disse...

Oi, Mari. Tudo bem?
Olha, acho que se pegasse esse livro para ler faria como você: abandonaria em um primeiro momento. Livros assim eu demoro para finalmente "pegar no tranco" e acho que é por nã estar tão habituada assim a essas narrativas. Que bom que ao retomar a leitura você tenha gostado mais. A premissa é interessante.


Beijos
SIL | Estilhaçando Livros

Rose Gs disse...

Olá!!
Esse livro não me chamou atenção nem pela capa nem pela sinopse a gora lendo suam resenha, sei que não não vou ler mesmo, que pra mim num vai existir o momento certo pra ler, que em qualquer fase não vou.
Bjocas

Ana I. J. Mercury disse...

Confesso que esse não me chamou atenção, não é o tipo de livro que gosto de ler, mas acho que se tiver a oportunidade, posso tentar o início para ver como é. Sempre bom mudar de ares, certo?
bjos

Ju M disse...

Acho que nunca li um livro de ficção cientifica e esse não me chamou muito a atenção. Realmente, o livro deve ser bem denso, a resenha já foi bem densa!

Acho que esse não seria meu momento para ler esse livro. Aliás, apesar de saber que as vezes não estamos no momento para ler aquele livro, na maioria das vezes não consigo abandonar, preciso terminar o livro, mesmo que se arrastando, o que me deixa triste, pois em outro momento iria tirar mais proveito da leitura.

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