domingo, 11 de novembro de 2018

RESENHA: Uma história de solidão

Quem acompanha o blog sabe que sou fã incondicional de John Boyne, a ponto de confiar tanto no talento e nas habilidades do autor que dispenso até mesmo ler a sinopse. Para mim, basta ver seu nome na capa e sei que terei uma boa experiência de leitura. 

Em Uma história de solidão conhecemos Odran Yates que, quando jovem, acabou indo para o seminário por insistência de sua mãe, mas que descobriu que a vida eclesiástica combinava com sua personalidade. Assim, desvendamos não apenas suas origens e seus passos como padre, mas também descobrimos os segredos mais nefastos da Igreja Católica. 

Narrado em primeira pessoa pelo protagonista, Boyne mais uma vez consegue o feito de emergir o leitor na estória em poucas páginas e sempre deixa-lo curioso para saber o curso da estória. Me impressionou o fato que o autor, logo no início do livro, conseguiu escrever uma cena extremamente emotiva, que me deixou com um nó na garganta, mesmo sem ter conhecido ou me apegado aos personagens. 

Apesar de Odran ser um padre, a estória é sobre toda sua trajetória de vida. Ou seja, ele não se limita a um sacerdote, mas o vemos em muitos outros papeis, como filho, irmão, tio, amigo e homem. Vemos momentos de infância, que foram decisivos para os rumos de sua vida; entendemos os problemas que sua família enfrentou; acompanhamos seus anos de seminário e seu intercâmbio em Roma; vemos sua ordenação e seus anos de serviço à Igreja; e também acompanhamos os escândalos de abuso sexual. 

Acho incrível como Boyne discute assuntos pesados e complexos, mas sem tentar dar lição de moral. A questão da pedofilia dentro da igreja é um dos assuntos abordados, e é preciso admirar como o autor reflete sobre o tema por diversos ângulos: é claro que a igreja errou de muitas formas — fosse pela omissão ou pelo acobertamento —, porém, o autor também mostra o lado daqueles sacerdotes que nada fizeram de errado, mas que sofreram as consequências pelos erros dos outros. 

Um tema recorrente nos livros do autor é a crítica a religiosidade na Irlanda. O país tem um histórico de catolicismo fervoroso, mas que, muitas vezes se torna uma fachada para o preconceito. A Bíblia era lida para acusar, o altar se tornou um tribunal, e a Igreja se colocou no papel de guardiã absoluta da moral e dos bons costumes. Assim, foi através desse discurso supostamente religioso que atitudes machistas e misóginas se perpetuaram. 

“Pensando em retrospecto, vejo que, naqueles dias, pouquíssima compaixão podia ser encontrada no coração das pessoas, em especial no que dizia respeito à vida e às escolhas das mulheres — em relação a isso, se não a tudo, a Irlanda não mudou quase nada em quarenta anos.” (BOYNE, 2016, p. 103)

Outro grande acerto do autor é a composição de personagens extremamente reais: são pessoas normais, com suas qualidades e defeitos, ambíguas como todos nós. Odran é um protagonista extremamente complexo e multifacetado, que vai revelando traços de sua personalidade do início ao fim, e que me deixou com a sensação de que o conhecia profundamente quando terminei a leitura.  

O livro não segue uma ordem linear. Os capítulos se alternam entre eventos significativos de diversos anos: um capítulo pode ser de 2001, o seguinte retornar para 1973 e o próximo saltar para 2008. Assim, vamos formando um grande quebra-cabeça, juntando as peças, entendendo cada vez mais o protagonista e sua jornada de vida, bem como suas atitudes. No entanto, ressalto que em alguns momentos fiquei um pouco perdido, sem saber exatamente o momento que determinado fato havia ocorrido. 

Como o próprio título já diz, espere por uma estória triste, de dor e sofrimento. Vemos as diversas feridas emocionais, não apenas as que o próprio Odran sofreu e ainda carrega, mas também daquelas que ele testemunhou. De certa forma, podemos dizer que Uma história de solidão é um acerto de contas com o passado. 

Apesar de todas as qualidades do livro e de encerrar a leitura com a cabeça quase explodindo com tantos pensamentos, tentando interpretar todos os personagens e me indagando sobre qual seria o futuro deles, preciso admitir que não me conectei com o protagonista. Mesmo estando completamente imerso na estória, senti que faltou um que a mais para que o protagonista me cativasse por completo

Ainda assim, Uma história de solidão foi uma excelente leitura e provou mais uma vez que minha confiança cega no autor é mais do que justificada. 

Título: Uma história de solidão
Autor: John Boyne
Nº de páginas: 412
Editora: Companhia das Letras
Exemplar cedido pela editora

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12 comentários:

Vitória Pantielly disse...

Olá Alê,
Ah, tantas características que marcam na escrita do autor... Acredito que a primeira seja escrever personagens reais, com histórias ainda mais reais, é fácil comparar os seus personagens com alguém que conhecemos ou com alguma história verídica que já conhecemos.
Acho bacana como ele deixa o leitor fazer o próprio julgamento sobre os acontecimentos, e mais ainda, como ele cativa com o enredo que monta.
Confesso que, por envolver religião, algo sempre presente em seus livros, eu sempre tendo a ver várias críticas, e acho isso ótimo, nos faz enxergar muita coisa.
É uma pena o personagem não ser tão galante, a ponto de cativar o leitor, ainda assim, a história é muito boa.
Beijos

O Vazio na Flor disse...

Também aprecio demais o trabalho do autor e quando este trabalho foi lançado, fiquei doida para ler(mas ainda não consegui ;/)
Como católica praticante, estes assuntos de religião sempre mexeram comigo, ainda mais quando trazem uma pitadinha dos bastidores e de como estes meninos chegam nos seminários e tem que se construir a cada dia, enfrentando não só a si mesmos, mas também tantos outros fatores.
Irlanda sempre foi palco de uma fé perigosa, eu diria e foi bom ler que isso também é retratado no enredo.
Ruim só a parte da não conexão com o personagem central,mas...mesmo assim, quero muito poder conferir a obra sim!!!
Beijo

Ludyanne Carvalho disse...

Depois dessa resenha é certo que preciso ler algo do Boyne com urgência.
Gostei do tema abordado, é algo pouco falado na literatura e é bem interessante acompanhar toda essa trajetória.
E o que mais me chama atenção é esse lado emocionante do autor.

Beijos

Gabriela CZ disse...

Estou me devendo leituras do John Boyne, Alê. Esse livro parece bastante reflexivo, e quando você falou da religiosidade como disfarce me lembrou muito o momento atual do nosso país. Ótima resenha.

Beijos!

Andressa Palma Santos disse...

Não sou muito religiosa, mas pelo pouco que eu conheço, há muitos escândalos relacionado a essa religião, fui batizada na própria inclusive, mas enfim.
O mais legal é que a visão do livro não é nem do pedófilo e nem da vitima... Bem legal. É triste a historia né, mas... Achei esse ponto interessante.
E adoro John Boyne, me emocionei muito com O Menino do Pijama Listrado, espero que esse nos traga uma boa mensagem também.

Adorei a resenha, bjs

RUDYNALVA disse...

Alê!
Abordar um tema tão forte quanto o abuso sexual de menores ainda mais em um lugar que deveria ensinar a palavra de Deus, deve mesmo tornar o livro repugnante e doloroso, embora retrate a realidade...
E bom saber que ele aborda a manipulação psicológica da personagem.
Gostaria de ler.
Desejo uma ótima semana!
“A ambição é louvável quando acompanhada pelo desejo e pela capacidade de fazer felizes os outros.” (Paul Holbach)
cheirinhos
Rudy
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Atraentemente Evandro disse...

O enredo tem elementos fortes e que, pela resenha, foram utilizados de forma muito sensível pelo autor. Assuntos de pedofilia e outros relevantes dentro da igreja católica são sempre importante de serem lembrados e discutidos. A forma imparcial como o autor conduziu a trama também é enriquecedora. Quero ler com certeza.

Ana Lima disse...

Me sinto assim em relação a um autor chamado "Machado de Assis", simplesmente amo suas histórias e ainda não li nem a metade das grandes obras deles. Então não conhecia o autor, mas acredito que suas demais obras sejam boas, mas essa no entanto não consegui me apegar, não me interessei muito no geral.

Carolina Santos disse...

Eu acho que essa é a primeira vez que o John boyne escreve um livro abordando acerca da religião eu não falei nada disso e não sei se esse realmente o primeiro livro dele abordando essa questão mas se o autor tiver a capacidade de abordar a questão da religião nos livros dele da mesma forma que ele abordou a questão da segunda guerra mundial com vários outros trabalhos que Ele publicou eu tenho certeza que esse vai ser um dos novos trabalhos revelações dele porque a proposta desse livro abordar a questão da igreja católica e da criação do garoto no seminário é realmente algo muito interessante

Luana Martins disse...

Oi, Alê
Não li nada do autor, mas quero muito conhecer seus livros.
O autor abordou tema difícil de ver em livro como abuso sexual, coisas que a Igreja Católica esconde.
Beijos

Ana Paula Santos Moreira disse...

Nunca li histórias relacionadas a religião, somente quando se trata de artigos ou coisas assim. Eu gostei por tratar de vários assuntos e situações relacionados a igreja católica, que mesmo gostando muito dela, não é perfeita e existem muitos casos isolados.

Ana I. J. Mercury disse...

Gostei muito da sua resenha, ela esclareceu muito. Eu tinha lido uma que falava bem mal e com isso eu estava com medo de ler, mas agora entendi bem a trama.
Eu achei bacana o autor falar sobre a vida dos padres, seus sofrimentos, erros, etc.
Acho que nos faz olhar para eles e para o que a sociedade impõe de uma nova forma.
Lerei em breve também.
bjs

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