segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

RESENHA: Macbeth

Macbeth - Jo Nesbø
Sempre tive um pé atrás com releituras, independente de eu ter alguma relação com a obra original ou não. Acho extremamente complicado um autor dar a sua visão para uma história e para personagens que não foram concebidos por ele. Mas no caso de Shakespeare, o contexto das tramas já está tão datado e tão distante da nossa realidade que a releitura é válida sim. Afinal, a essência das tramas são eternas, porque sentimentos como ciúme, amor, cobiça e ganância são eternos. Por isso, quando soube que um autor que eu adoro havia feito uma releitura de “Macbeth”, uma das peças mais sombrias de Shakespeare, não perdi a chance de conferir.

Macbeth é um dos bons policiais da corporação. Um dos que Duncan, o novo comissário-chefe, pode contar para colocar ordem e fazer a limpa em uma cidade contaminada pela corrupção e pelo mercado de drogas. Mas Macbeth também é um homem ambicioso com um complicado passado de vício e altamente influenciável por sua companheira, Lady, e quando eles começam a sentir o cheiro do poder, eles só querem mais.

Li a obra original de Macbeth há vários anos (resenha aqui), de forma que sabia basicamente qual seria o caminho que Macbeth e Lady iriam trilhar, mas não a ponto de lembrar dos acontecimentos em detalhes. Isso foi ótimo porque eu sabia em que terreno estava pisando, mas não previa todos os desdobramentos.

Macbeth é um personagem complexo, bem desenvolvido por Nesbø. Sua infância no orfanato, seus problemas de confiança e sua devoção à Lady são contextualizados de forma satisfatória. O mesmo não se pode dizer de Lady. Uma das personagens mais fascinantes de Shakespeare ganha uma adaptação superficial que a reduz a uma mulher gelada e cega por poder. Existem algumas tentativas de pincelar um pouco sobre o seu passado e os traumas que teve que enfrentar, mas isso ainda é muito pouco para uma personagem da magnitude da Lady Macbeth.

Como eu sempre digo, contexto é tudo. As obras de Shakespeare foram idealizadas no século XVI. Por isso, há coisas que, ao lermos o original, aceitamos. Um exemplo simples: ninguém aceitaria que em um livro contemporâneo dois adolescentes se conheçam em uma festa, casem poucos dias depois e se matem por não poderem ficar juntos porque suas famílias se odeiam. Mas essa é a história de Romeu e Julieta. Aceitamos porque é Shakespeare e foi escrito por volta de 1590. O mesmo acontece com Macbeth e outras obras.

Tendo dito isso, na obra original, Macbeth é um general do rei que recebe a aparição de três feiticeiras que anunciam que em breve ele será rei. Ao chegar em casa e compartilhar o estranho acontecimento com sua esposa, Lady Macbeth, ela o convence a matar o rei para tomar o seu lugar, o que dá início a uma sequência de mortes. Jo Nesbø é um autor policial. Por isso, sua opção foi levar a ascensão e queda de Macbeth para os corredores da polícia. Na releitura, o policial esbarra em três irmãs que são conhecidas por trabalharem para um grande traficante e elas anunciam que ele será comissário de policia. Ao chegar na delegacia, ele é promovido a chefe de uma unidade e isso basta para acender o desejo dele e de Lady por mais poder.

“Mas será que na verdade não aproveitamos algumas oportunidades porque elas nos condenariam à infelicidade de qualquer modo, porque nos arrependeríamos pelo resto da vida, quer as agarremos ou não?” (NESBØ, 2019, p.109)

A opção era bastante promissora. Ao levar a história de Macbeth para o ambiente policial, Nesbø pisa em um terreno que lhe é familiar e que tem tudo para permitir o desenvolvimento de uma história complexa, cheia de traições e jogos de poder, como a obra original pede. O problema foi que nos momentos mais pontuais da história as decisões dos personagens eram tomadas em um estalar de dedos. A minha sensação era que, como essas decisões já haviam sido tomadas por Shakespeare, Nesbø parecia simplesmente riscar itens de lista de tarefas. As atitudes de Macbeth e Lady são infundadas e impulsivas. Nenhum deles pensava no cargo de comissário para ele. De repente é “vamos matar o comissário atual para ficar com o cargo” e pronto. Esta feito! Ninguém decide matar tão rápido assim. E como é de se esperar, para encobrir o crime, outros crimes são necessários. Em um estalar de dedos, Macbeth decide matar um punhado de pessoas, entre eles seu mentor e também seu melhor amigo que o acompanhou desde os momentos difíceis na infância no orfanato. Bem difícil de engolir.

Outro aspecto que me decepcionou foi Nesbø recorrer ao vício em drogas para desenvolver a espiral de loucura e culpa em que os dois protagonistas se envolvem. O aspecto mais interessante da obra original é justamente esse: por ambição eles decidem matar. Isso dá início a uma dose de paranoia que irá levar a outros crimes e, aos poucos, os leva a enlouquecer pela culpa. É uma saída muito fácil e, arrisco dizer, pobre associar esses sentimentos complexos ao vício ao invés de explorar os efeitos dessas decisões na mente.

Não é a primeira vez que Jo Nesbø me decepciona. Li quase todos os livros do autor e sempre digo que sua série Harry Hole é uma das melhores séries policiais da atualidade. Mas algo estranho acontece quando o autor não anda de mãos dadas com seu principal personagem. Seus livros avulsos simplesmente não tem a mesma força. No caso de “Macbeth”, a intenção foi boa. A falha foi a execução.

“Macbeth”, de Jo Nesbø, faz parte de um projeto da Hogarth Press no qual obras de Shakespeare ganharão uma releitura por grandes nomes da literatura contemporânea, entre eles Gillian Flynn e Margareth Atwood.

Título: Macbeth
Autor: Jo Nesbø
N° de páginas: 515
Editora: Record
Exemplar cedido pela editora

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13 comentários:

Nessa disse...

Oie
Não tinha conhecimento destas releituras, fiquei bem interessada. Achei genial a ideia do autor levar para o lado policial. Li somente um livro do autor e gostei. Fiquei interessada neste e curiosa pelos próximos do projeto.

Beijinhos
https://diariodeincentivoaleitura.blogspot.com/

Ludyanne Carvalho disse...

Já eu amo releituras!
Fico fascinada na capacidade dos autores em criar uma nova história em cima de textos já consagrados.
Gostaria de ler mais releituras da obra de Shakespeare, mas essa eu passo.
Romance policial não é o meu gênero.
Uma pena que tenha se decepcionado.
E gostei de saber do projeto da Hogarth Press.

Beijos

RUDYNALVA disse...

Mari!
Gosto de releituras justamente pelo fato de o autor dar uma conotação diferente, baseando-se no original. Mas, aqui, me pareceu que Nesbo exagerou em trazer um persosagem assassino e paranóico apenas por ambieção e o pior, relegar Lady Macabeth, personagem tão principal no original de Shakespeare.
cheirinhos
Rudy

Rubro Rosa disse...

Eu amo as letras de Nesbo, mas este livro em especial, não foi muito bem aceito por muitos leitores. Andei lendo algumas resenhas bem negativas e claro que isso não é normal né?
Eu amo o gênero policial,mas sei lá, apesar de amar releituras, acredito que seja mais ou menos o que você escreveu acima, Shakespeare escreveu e pronto. A gente que já leu alguma obra dele, aprende a respeitar e até a gostar demais de tudo, pois é dele.
Por isso, partir para uma releitura de algo tão precioso e "mudar" tudo para outro gênero, talvez não tenha sido uma boa ideia!
Mesmo assim, se puder, claro que quero conferir!
Beijo

Angela Cunha Gabriel/Rubro Rosa/O Vazio na Flor

Gabriela CZ disse...

Até gosto de releituras, Mari. Mas nesse conceito de histórias muito antigas repensadas em outra realidade e tempo. Em especial dos contos de fadas. Bem, ainda não tive a oportunidade de ler o Macbeth original mas quero muito. Só não me interessei muito por essa releitura. Porém, gostei do projeto. Ótima resenha.

Beijos!

Elizete Silva disse...

Olá! Essa é uma história de Shakespeare que eu não estou familiarizada, por isso para mim seria uma leitura totalmente nova, essa versão de Nesbo (que eu também ainda não li) parece ser bem sombria, o que não é lá muito a minha cara, mas achei a proposta do projeto, em fazer releituras das obras de um autor tão consagrado quanto Shakespeare, e ainda mais, usando autores tão bons muito bacana.

Alison Teixeira disse...

Olá Mari!
Nesbo já é um nome conhecido e cultuado dentro do gênero policial, e esta releitura, algo inédito desenvolvido pelo autor, deixou os leitores curiosos para com o resultado. É uma pena, contudo, que não haja uma verdadeira dimensão aprofundada da nova versão criada, sendo que artifícios triviais são utilizados de forma superficial apenas para dotar a história de começo, meio e fim.
Por outro lado, é claro que Macbeth tem seus pontos positivos, como o núcleo investigativo que permeia a trama, que pelo menos consegue manter a atenção de quem está lendo.
Beijos.

Giovanna Talamini disse...

Oi!
Fico feliz em saber que estão adaptando os clássicos. Tenho muito medo de ler os livros antigos e acabar não entendendo nada da escrita (já me aconteceu).
Comprei o Romeu e Julieta e estou ansiosa para ler. Macbeth é um nome memorável, mas não sabia sobre o que se tratava.

Rayane B. de Sá disse...

Oiii ❤ É uma pena que esse livro não seja tão bom quanto pareça, já que a história parece ter alguns problemas de desenvolvimento.
Também acho algo um tanto complicado fazer uma releitura, mas geralmente gosto de ler livros assim.
Bom saber que Macbeth foi um personagem bem construído, mas é uma pena que com Lady não tenha sido assim.
Deve ser bem chato mesmo ver as decisões dos personagens serem tomadas tão rapidamente, não gosto quando isso acontece.
Beijos ❤

Fabiolla Devenz disse...

Até hoje li apenas uma releitura, e foi justamente de Romeo e Julieta, que gostei bastante.
Não conhecia essa obra de Shakespeare, mas essa livro não me chamou muito a atenção, no meu ver a obra não se desenvolveu direito e deixou muito a desejar.

Carolina Santos disse...

Nunca li Macbeth mas gosto dos livros do Jo Nesbo. O livro não me chamou muito a atenção, não sei se pelo livro em questão ou se pelos tracos do livro macbeth. Uma pena que voce não tenha gostado da leitura mas com essa sinopse acho que nem eu me atrai

Rayssa Bonai disse...

Olá! Nunca li nada do autor, mas tenho muita vontade de conhecer sua escrita.
Eu adoro releituras, mas confesso que não sinto vontade de ler esta, a premissa não me animou muito.
Me incomoda muito o fato de os personagens serem impulsivos demais e começarem a matar do "nada".
Beijos!

Luana Martins disse...

Oi, Mari
Não li nada de Shakespeare, já li várias resenhas dessa releitura. Agora com a sua resenha que pude entender porque muitos não gostaram do livro.
A ideia de Nesbo colocar Macbeth como policial eu gostei porque é um gênero que o autor domina, mas muitas coisas na trama são difíceis de aceitar.
Mas sem sombra de dúvidas que ainda quero conhecer a escrita do autor. Tenho um livro dele que ganhei aqui mesmo no blog ano passado só que faz parte da série dele, vou comprar aos poucos e começar a ler.
Beijos

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