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quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Conexões Além da Contracapa #21

Em “Incidente em Antares” os mortos não podem ser enterrados, pois os coveiros da cidade de Antares estão em greve. Se recusando a aceitar que seus corpos continuem a apodrecer, os mortos reivindicam seu direito a um enterro digno, protestando pelas ruas e ameaçando expor os segredos de outros membros da sociedade (algo que podem fazer tranquilamente, afinal, já estão mortos e nada mais os atinge). Extremamente divertido, o livro foi o último romance concluído por Erico Verissimo e é um ótimo exemplar do talento deste autor mais conhecido por ter escrito…

...“O Tempo e o Vento, uma inesquecível história de amores e guerra que retrata a saga da família Terra Cambará ao longo de 200 anos, mesclando a história de seus personagens com a história do Rio Grande do Sul. Outra saga familiar que também faz um retrato histórico é...


“Cem Anos de Solidão”. Nela, a família Buendía é acompanhada ao longo de sete gerações que testemunham a ascensão e queda do vilarejo de Macondo. Considerada uma das obras mais importantes da literatura latino-americana é da autoria do vencedor do prêmio Nobel Gabriel Garcia Marquez que revelou ter como uma de suas principais influências…


...Franz Kafka. Em uma entrevista, o autor colombiano revelou “quase ter caído da cama” ao ler uma história do autor tcheco, pois até aquele momento nunca havia imaginado que se podia escrever coisas como "um homem acorda transformado em um inseto gigante". Esta premissa absurda é o que dá início a A Metamorfose, um dos livros mais famosos de Kafka e um dos principais exemplares do “Realismo Fantástico”, gênero no qual o absurdo é tratado como cotidiano e no qual também se enquadra “Incidente em Antares”.

domingo, 15 de março de 2015

RESENHA: O Processo

“Minha inocência não simplifica a questão (...) Há muitas sutilezas em que a justiça se perde! Sempre termina por descobrir um grande delito onde de modo algum o havia.” (KAFKA, p.177, 2000)

Há pouco tempo tive meu primeiro contato com a obra de Franz Kafka e terminei ansiando pelo segundo. Porém, a experiência não se repetiu tão satisfatoriamente.

Na manhã do seu aniversário de 30 anos, Josef K. acorda com dois homens em seu quarto a fim de detê-lo por um crime que nenhum deles sabe qual é. Tendo início o processo que irá defini-lo culpado ou inocente, ele pode continuar levando sua vida normalmente – morando na mesma pensão, trabalhando no mesmo cargo no banco – mas olhos recriminadores o acompanham por onde quer que vá enquanto ele tenta encontrar alguém que possa ajudá-lo a resolver essa situação.

“Alguém devia ter caluniado a Josef K., pois sem que ele tivesse feito qualquer mal foi detido certa manhã.” É com essa abertura brilhante que “O Processo” tem início. Kafka entrega toda a essência da história com essas poucas palavras: Josef K. é um homem íntegro que nunca fez nada de errado e portanto uma acusação, qualquer que seja, contra ele só pode ser uma calúnia.

O absurdo é o cerne da obra de Kafka e em “O Processo” podemos acompanhar um absurdo que nada tem de fantástico (diferente de “A Metamorfose”), pelo contrário, trata de um sistema judiciário falho. O tema é muito interessante: como pode um homem defender-se de um crime que ele mesmo não sabe qual é ou mesmo quem o acusa? Como pode ser acusado se ninguém sabe que crime é esse? E, de qualquer forma, qual poderia ser a defesa ou atitude adequada a se ter diante de uma situação que pode se transformar a qualquer momento já que ainda não foi delineada?

Apesar de gostar muito da premissa da obra, não me envolvi com a leitura. Lembro que quando li “A Metamorfose” uma das coisas que apreciei no conto foi a habilidade de Kafka em nos fazer aceitar imediatamente uma coisa completamente absurda e aos poucos fazer com que nos envolvêssemos com a situação e o drama daquele personagem. A situação é sim absurda, mas o sentimento de Gregor Samsa – homem que acorda transformado em um inseto gigante - é real. Em “O Processo”, apesar da evidente angústia do personagem em tentar encontrar alguém que possa ajudar o seu caso e da confusão que sente o tempo todo por se ver preso nesse caso estapafúrdio, não senti a mesma conexão com Josef K., de forma que o absurdo ficou sendo apenas absurdo.

Certa vez, li em algum lugar que os personagens de Kafka são vítimas da própria vida e para a vida nem sempre há explicações. Isso certamente fica claro em “O Processo”, um livro de temática interessante, mas nem por isso uma leitura agradável.

Essa edição da Martin Claret conta com um prefácio do tradutor, Torrieri Guimarães, que expõe brevemente a vida e alguns dos conflitos de Franz Kafka a fim de ajudar o leitor a compreender as nuances de sua obra. A respeito de “O Processo” é interessante destacar que o livro nunca chegou a ser finalizado por Kafka e só veio a público graças a Max Brod, amigo do autor, que, ciente das intenções originais, organizou o manuscrito após a morte de Kafka.

Em 1962, o lendário Orson Welles dirigiu uma adaptação de “O Processo”, com Anthony Perkins no papel de Josef K. Infelizmente, o filme é de difícil localização. Em 1993, Kyle McLachlan deu vida ao protagonista em um filme de David Hugh Jones que contou ainda com as participações de Anthony Hopkins e Alfred Molina.

Título: O Processo (exemplar cedido pela editora)
Autor: Franz Kafka
Nº de páginas: 252
Editora: Martin Claret

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

RESENHA: A Metamorfose/Um Artista da Fome/ Carta ao Pai

“E assaltado por remorsos e inquietude começou a subir por todas as paredes, todos os móveis e pelo teto, e finalmente, quando já a sala começava a dar voltas ao seu redor, deixou-se cair em desespero sobre a mesa.” (KAFKA, 2014 p.35)

E eis que tive meu primeiro contato com a obra de Franz Kafka e já não era se em tempo. Essa edição que reúne três textos do autor foi uma ótima maneira de começar.

“A Metamorfose”, a mais célebre obra de Kafka, é o conto que abre essa edição. A história de Gregor Samsa que em uma manhã como qualquer outra, após uma noite de sono inquieto, acorda transformado em um monstruoso inseto.

“A Metamorfose” é um daqueles textos que dá vontade de ler inúmeras vezes com a certeza de que cada leitura permitirá uma nova interpretação. Kafka inverte todas as convenções e faz com que o absurdo pareça normal e o normal pareça absurdo. De alguma forma o autor faz com que seja muito fácil para o leitor aceitar que Gregor acordou transformado em um inseto. O personagem fica chocado ao se deparar com sua nova situação, mas a aceita imediatamente, sem questionamentos, e o mesmo faz o leitor. O que espanta é a reação da família diante da sua nova condição. O inseto gigante e suas inúmeras patas descontroladas não são estranhos. Estranhos são os outros.

Nesse contexto, o porquê da metamorfose física não importa. O que importa é a metamorfose psíquica pela qual os personagens passam a partir da metamorfose física e as mudanças que suas vidas sofrem, já que fica claro que Gregor não era apreciado por ser filho ou irmão e sim por ser fonte de renda.

“Um Artista da Fome” é ainda mais breve que “A Metamorfose” (conta com meras 10 páginas) e é mais um exemplo do desespero e absurdo amplamente conhecidos como características do universo kafkaniano. A história de um artista que tem como talento jejuar e em seus jejuns de 40 dias encontra a glória, já que as pessoas cercam sua jaula para assistir o espetáculo, ou seja, garantir que não coma nada. Sua arte é tudo o que ele tem, mas perde o apelo para o público que, antes obcecado, perde o interesse com o passar do tempo. Ele sente que seu tempo ainda não acabou (porque jejuar apenas por 40 dias se pode continuar muito mais?), mas o público quer outra atração em seu lugar. Não é difícil fazer paralelos com a cultura de celebridades ou mesmo com o uso das habilidades de alguém para proveito próprio apenas enquanto isso é útil.

Por fim, ‘Carta ao pai” é um texto autobiográfico que relata a relação conturbada do autor com seu pai, um homem severo e crítico que moldou muitas de suas escolhas. Nele, o autor conta ao pai como se sentiu diante de diversas situações, as coisas que quis dizer e nunca disse e a maneira como enxerga o relacionamento que construíram. Das três obras foi a que menos gostei, mas é a mais carregada de sentimentos.

“Carta ao pai” conta com um prefácio escrito pelo tradutor desta edição, Torrieri Guimarães, que comenta sobre o quanto é possível entender de Kafka, sua personalidade e obra, a partir da leitura deste texto.

Eu tinha a equívoca impressão que Kafka devia ser um autor complicado e foi uma surpresa constatar o quão simples e fluido é seu texto. As três obras apresentadas nessa edição abordam temas contundentes e levam à reflexão, mas todas têm textos simples. A complexidade fica a cargo das idéias. Uma ótima introdução ao universo kafkaniano.

Título: A Metamorfose / Um Artista da Fome / Carta ao Pai (exemplar cedido pela editora)
Autor: Franz Kafka
Nº de páginas: 112
Editora: Martin Claret
 

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