“E assaltado por remorsos e inquietude começou a subir por todas as paredes, todos os móveis e pelo teto, e finalmente, quando já a sala começava a dar voltas ao seu redor, deixou-se cair em desespero sobre a mesa.” (KAFKA, 2014 p.35)
E eis que tive meu primeiro contato com a obra de Franz Kafka e já não era se em tempo. Essa edição que reúne três textos do autor foi uma ótima maneira de começar.
“A Metamorfose”, a mais célebre obra de Kafka, é o conto que abre essa edição. A história de Gregor Samsa que em uma manhã como qualquer outra, após uma noite de sono inquieto, acorda transformado em um monstruoso inseto.
“A Metamorfose” é um daqueles textos que dá vontade de ler inúmeras vezes com a certeza de que cada leitura permitirá uma nova interpretação. Kafka inverte todas as convenções e faz com que o absurdo pareça normal e o normal pareça absurdo. De alguma forma o autor faz com que seja muito fácil para o leitor aceitar que Gregor acordou transformado em um inseto. O personagem fica chocado ao se deparar com sua nova situação, mas a aceita imediatamente, sem questionamentos, e o mesmo faz o leitor. O que espanta é a reação da família diante da sua nova condição. O inseto gigante e suas inúmeras patas descontroladas não são estranhos. Estranhos são os outros.
Nesse contexto, o porquê da metamorfose física não importa. O que importa é a metamorfose psíquica pela qual os personagens passam a partir da metamorfose física e as mudanças que suas vidas sofrem, já que fica claro que Gregor não era apreciado por ser filho ou irmão e sim por ser fonte de renda.
“Um Artista da Fome” é ainda mais breve que “A Metamorfose” (conta com meras 10 páginas) e é mais um exemplo do desespero e absurdo amplamente conhecidos como características do universo kafkaniano. A história de um artista que tem como talento jejuar e em seus jejuns de 40 dias encontra a glória, já que as pessoas cercam sua jaula para assistir o espetáculo, ou seja, garantir que não coma nada. Sua arte é tudo o que ele tem, mas perde o apelo para o público que, antes obcecado, perde o interesse com o passar do tempo. Ele sente que seu tempo ainda não acabou (porque jejuar apenas por 40 dias se pode continuar muito mais?), mas o público quer outra atração em seu lugar. Não é difícil fazer paralelos com a cultura de celebridades ou mesmo com o uso das habilidades de alguém para proveito próprio apenas enquanto isso é útil.
Por fim, ‘Carta ao pai” é um texto autobiográfico que relata a relação conturbada do autor com seu pai, um homem severo e crítico que moldou muitas de suas escolhas. Nele, o autor conta ao pai como se sentiu diante de diversas situações, as coisas que quis dizer e nunca disse e a maneira como enxerga o relacionamento que construíram. Das três obras foi a que menos gostei, mas é a mais carregada de sentimentos.
“Carta ao pai” conta com um prefácio escrito pelo tradutor desta edição, Torrieri Guimarães, que comenta sobre o quanto é possível entender de Kafka, sua personalidade e obra, a partir da leitura deste texto.
Eu tinha a equívoca impressão que Kafka devia ser um autor complicado e foi uma surpresa constatar o quão simples e fluido é seu texto. As três obras apresentadas nessa edição abordam temas contundentes e levam à reflexão, mas todas têm textos simples. A complexidade fica a cargo das idéias. Uma ótima introdução ao universo kafkaniano.
Título: A Metamorfose / Um Artista da Fome / Carta ao Pai (exemplar cedido pela editora)
Autor: Franz Kafka
Nº de páginas: 112
Editora: Martin Claret