domingo, 15 de março de 2015

RESENHA: O Processo

“Minha inocência não simplifica a questão (...) Há muitas sutilezas em que a justiça se perde! Sempre termina por descobrir um grande delito onde de modo algum o havia.” (KAFKA, p.177, 2000)

Há pouco tempo tive meu primeiro contato com a obra de Franz Kafka e terminei ansiando pelo segundo. Porém, a experiência não se repetiu tão satisfatoriamente.

Na manhã do seu aniversário de 30 anos, Josef K. acorda com dois homens em seu quarto a fim de detê-lo por um crime que nenhum deles sabe qual é. Tendo início o processo que irá defini-lo culpado ou inocente, ele pode continuar levando sua vida normalmente – morando na mesma pensão, trabalhando no mesmo cargo no banco – mas olhos recriminadores o acompanham por onde quer que vá enquanto ele tenta encontrar alguém que possa ajudá-lo a resolver essa situação.

“Alguém devia ter caluniado a Josef K., pois sem que ele tivesse feito qualquer mal foi detido certa manhã.” É com essa abertura brilhante que “O Processo” tem início. Kafka entrega toda a essência da história com essas poucas palavras: Josef K. é um homem íntegro que nunca fez nada de errado e portanto uma acusação, qualquer que seja, contra ele só pode ser uma calúnia.

O absurdo é o cerne da obra de Kafka e em “O Processo” podemos acompanhar um absurdo que nada tem de fantástico (diferente de “A Metamorfose”), pelo contrário, trata de um sistema judiciário falho. O tema é muito interessante: como pode um homem defender-se de um crime que ele mesmo não sabe qual é ou mesmo quem o acusa? Como pode ser acusado se ninguém sabe que crime é esse? E, de qualquer forma, qual poderia ser a defesa ou atitude adequada a se ter diante de uma situação que pode se transformar a qualquer momento já que ainda não foi delineada?

Apesar de gostar muito da premissa da obra, não me envolvi com a leitura. Lembro que quando li “A Metamorfose” uma das coisas que apreciei no conto foi a habilidade de Kafka em nos fazer aceitar imediatamente uma coisa completamente absurda e aos poucos fazer com que nos envolvêssemos com a situação e o drama daquele personagem. A situação é sim absurda, mas o sentimento de Gregor Samsa – homem que acorda transformado em um inseto gigante - é real. Em “O Processo”, apesar da evidente angústia do personagem em tentar encontrar alguém que possa ajudar o seu caso e da confusão que sente o tempo todo por se ver preso nesse caso estapafúrdio, não senti a mesma conexão com Josef K., de forma que o absurdo ficou sendo apenas absurdo.

Certa vez, li em algum lugar que os personagens de Kafka são vítimas da própria vida e para a vida nem sempre há explicações. Isso certamente fica claro em “O Processo”, um livro de temática interessante, mas nem por isso uma leitura agradável.

Essa edição da Martin Claret conta com um prefácio do tradutor, Torrieri Guimarães, que expõe brevemente a vida e alguns dos conflitos de Franz Kafka a fim de ajudar o leitor a compreender as nuances de sua obra. A respeito de “O Processo” é interessante destacar que o livro nunca chegou a ser finalizado por Kafka e só veio a público graças a Max Brod, amigo do autor, que, ciente das intenções originais, organizou o manuscrito após a morte de Kafka.

Em 1962, o lendário Orson Welles dirigiu uma adaptação de “O Processo”, com Anthony Perkins no papel de Josef K. Infelizmente, o filme é de difícil localização. Em 1993, Kyle McLachlan deu vida ao protagonista em um filme de David Hugh Jones que contou ainda com as participações de Anthony Hopkins e Alfred Molina.

Título: O Processo (exemplar cedido pela editora)
Autor: Franz Kafka
Nº de páginas: 252
Editora: Martin Claret

13 comentários:

Dαyαnє disse...

Oi Mari, :)

Embora já tenha ouvido falar desse autor, nunca me interessei por suas obras... acho que simplesmente não é meu "tipo" de leitura, sabe? :)

Não fiquei com vontade de lê-lo, mas acho que tem bem mais a ver com os meus generos favoritos, nos quais esse livro não se encaixa, do que com o próprio livro! haha'

Beijos! ;*
||Letras Eternas||

Ana Lima disse...

Oláa Mari,
Esse não é o meu gênero preferido. No momento estou mais para romance, sabe? Mas quem sabe eu possa dar uma chance a ele no futuro. A premissa é realmente muito bom, como você destacou, foi uma pena que não tenha se envolvido com a leitura. É muito ruim quando isso acontece ;/
Beijos,

http://our-constellations.blogspot.com.br/

Ccafs Cafaro disse...

Faz tempo q li, portanto, nao o tenho claro em minha mente. No entanto lembro q o li sem poder largar. Depois li + outras. Pq leio tb pela forma escrita bjs

Markus Andrez disse...

Oi, Mari! Tudo bem?
Já ouvi falar muito desse autor, mas nunca prestei muita atenção. Como você disse que a leitura desse não é muito agradável, não me interessei no livro, mas sei que eles têm uma potência muito grande e passam histórias bem fortes!
Beijos.
mundoemcartas.blogspot.com.br

Cida disse...

Oi Mari! Eu nunca li nada do autor, não é muito o tipo de livro que eu costumo ler, mas se for levar em consideração tudo que você cita na resenha e eu fosse conhecer sua obra, leria A metamorfose.
Bjos!! Cida
Moonlight Books

Bianca disse...

Eu sempre tive vontade de ler livros do Kafka, mas acabo sempre deixando pra depois, minha lista de livros pra ler está enorme hehe.
Beijos

Bluebell Bee

Gabriela CZ disse...

Acho que entendo o que você quis dizer, Mari. Talvez o envolvimento com a história seja difícil justamente por não se saber sobre o que é a acusação. Mas ainda assim fiquei com vontade de ler. Ótima resenha.

Abraço!
http://constantesevariaveis.blogspot.com.br/

Luan Jonathan disse...

Achei muito interessante a resenha, pena que não conseguiu se envolver com a história, provavelmente não iria também me adaptar a ela, mas gostei da resenhe, foi muito bem explicada! Beijos e até!!

http://lendoferozmente.blogspot.com.br/

Hangover at 16 (contato) disse...

Raaa, uma digital! Adorei essa capa <3 e bom, a premissa parece boa, o tema em si, não faço a menor ideia de como ele conseguiu escapar dessa cilada, sendo que nem sabia direito como foi parar no meio daquele caso. Mas que pena que o autor não soube aproveitar bem do potencial da obra :(

xx Carol
http://caverna-literaria.blogspot.com.br
Tem resenha nova no blog de "Seis anos depois", vem conferir!

Camilla Lobianco disse...

Olá!
Seu "processo" foi o contrário do meu, rs. Primeiro li O Processo (sou formada em Direito e esta foi uma das leituras obrigatórias). Gostei, em comparação com a maioria das outras leituras obrigatórias do curso, porém é como se fosse uma ilustração para algo técnico (o devido processo legal, dentre outras coisas...) e, por isso, não é a típica historinha que tanto apreciamos. Tanto que nem lembro do final... enfim... Fala-se tanto em Kafka na faculdade, que acabei me interessando por A Metamorfose, embora só tenha lido no ano passado, anos após me formar, rs. Nem preciso expressar o sentimento com o final deste, né? Você com certeza me entende, rs. :)

ssentrelivros.blogspot.com.br

Teca Machado disse...

Mari, nunca li nada do Kafka.
Achei interessante a premissa de ser acusado e se defender, mas sem saber do que e de quem, mas não sei se eu leria, não.
Parece bem denso e pesado, né?
Talvez o A Metamorfose, que você falou também, tenha uma chance comigo.

Beijoooos

www.casosacasoselivros.com

Anelise santana disse...

Bom, os livros desse autor realmente não me interessam. Tenho uma dificuldade tremenda em aceitar o absurdo, e vendo que é isso que o autor "tenta", eu provavelmente não ficaria satisfeita com a leitura, então prefiro passar.

RUDYNALVA disse...

Mari!
Os livros de Kafka, na minha opinião, são livros voltados mais para os questionamentos existencialista de cada indivíduo. Nos coloca a refletir sobre as diversas e esdrúxulas situações impostas de maneira abrupta no cotidiano, mesmo que absurdas.
Queria era saber como a personagem se livrou (ou não) da acusação...
Cheirinhos
Rudy
http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/

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