sexta-feira, 13 de março de 2015

RESENHA: A Menina Que Tinha Dons

“Se a estrada para o conhecimento fosse pavimentada de crianças mortas — e foi de fato em algumas épocas e em certos lugares — ela ainda a percorreria e depois disso se absolveria. Que outra opção teria? Tudo o que valoriza está no fim dessa estrada.” (CAREY, 2014, p. 339).

***

Há vinte anos, o fungo Ophiocordyceps se espalhou pelo mundo. Os humanos contaminados, apelidados de famintos, perdem o controle sobre o sistema nervoso, ou seja, o cérebro do hospedeiro é “sequestrado” pelo fungo, que tem apenas um objetivo: se reproduzir. Por isso, os famintos atacam pessoas, visto que o fungo é transmitido pela saliva e pelo sangue. Em um complexo militar, pesquisas são feitas com um grupo de crianças que, mesmo infectadas, ainda mantém o controle cerebral e são capazes de apreender e de desenvolver vínculos emocionais.

O núcleo central do livro é composto pela Dra. Caldwell, médica responsável por conduzir as pesquisas; Sargentos Parks, responsável pela segurança do complexo militar; Helen Justineau, psicóloga que avalia as habilidades de aprendizado das crianças; e Melanie, uma das crianças infectadas. A narrativa se divide entre os pontos de vista destes personagens, o que foi uma decisão acertada, afinal, as prioridades de cada um deles divergem em aspectos cruciais. Mas, o ponto de vista de Melanie de longe é o mais interessante, visto que a criança não entende seus impulsos e tem dificuldade em aceitar a verdade. 

Helen Justineau, por sua vez, é a personagem mais intragável do livro. Helen desenvolve um forte vínculo com Melanie, e sua insistência em tratá-la como uma criança qualquer é absurdamente irritante. Mesmo que o fungo não tenha se manifestado completamente nas crianças, elas ainda estão infectadas, e se não forem contidas, elas apenas seguem o instinto que o fungo lhes deu: atacar e contaminar mais pessoas. Entre todas as pesquisas realizadas, a liderada pela Dra. Caldwell é a mais promissora e que pode representar a chance de cura. Mas Helen se mostra incapaz de compreender isso, sendo no mínimo estranho ver um psicóloga em tamanha negação.

Como se vê, os conflitos entre os personagens são interessantes e a ideia central do livro é promissora, mas Carey falhou na execução. O problema é quando a jornada dos personagens é longa e conta com poucos acontecimentos, o leitor fica na expectativa de que o desfecho será grandioso. Infelizmente, o autor optou por um final simplista e que — embora responda a todas as indagações que o leitor se fez no decorrer do livro e seja plausível — não empolga. 

Que a obra tem bons personagens em um cenário interessante, não há dúvidas. Mas não é só disso que se faz um bom livro. Assim, somando o final simplista com uma narrativa que não consegue imergir o leitor neste mundo, e ainda com uma trama linear e com poucas reviravoltas, A Menina Que Tinha Dons se tornou um livro monótono e insosso. 

Na Festa Literária Internacional de Paraty, Eleanor Catton, autora do colossal Os Luminares, afirmou que “quanto maior o livro, maior a promessa”. A meu ver, todo livro é uma promessa do autor. É como se fosse uma garantia de entretenimento ou de reflexão. E quanto maior o livro, de fato me parece que esta promessa também é maior. A verdade é que A Menina Que Tinha Dons não é nem de perto o maior livro que já li, mas suas 380 páginas se mostraram uma promessa audaciosa e que M. R. Carey não conseguiu cumprir. 

Título: A Menina Que Tinha Dons (exemplar cedido pela editora)
Autor: M. R. Carey
Tradutor: Ryta Vinagre
N.º de páginas: 380
Editora: Fabrica 231

16 comentários:

Kétrin Galvagni disse...

Oi Alê, esse é um livro com uma proposta bem diferente dos que estou acostumada a ler, mas gostei demais da premissa. Espero um dia ter a oportunidade de ler o livro e ver se realmente é bom para mim :D

Beijos

http://www.oteoremadaleitura.com

Gleydson disse...

Gostei muito da proposta do livro e, quando comecei a ler a resenha, tinha a certeza de que você iria elogiá-lo bastante, mas como você disse, não é só de um cenário interessante que se faz um bom livro. Vou reconsiderar a ideia de lê-lo.

Abraços.
www.acampamentodaleitura.com/2015/03/resenha-origem-do-lobo-curtis-jobling.html

Jeh JeitodLer disse...

Puxa que chato não ter gostado do livro, não conhecia ele, mas também não fiquei com vontade de ler!!! Acho super válido quando você diz que números de páginas não representam nada!
Beijokas
Jeh
www.jeitodler.com

Rafaela. disse...

Oi, Alê!

Eu havia adorado a proposta do livro e estava animada para lê-lo. Agora, o entusiasmo murchou... Saber que a autora não cumpriu com as expectativas e nem chegou perto da promessa audaciosa que propôs, me desanimou. Uma pena, pois o livro tinha tudo para dar certo. Todavia, pelo menos os personagens foram bons, excetuando a Helen, rs.

Beijocas.
http://artesaliteraria.blogspot.com.br

Mandy disse...

Poxa que pena, a premissa do livro parece ótimaaa, mas é horrível quando o autor não sabe desenvolver a história e o final não surpreende
Beijoos,
Sétima Onda Literária

Tabatha Cuzziol disse...

Olá!
Eu morro de vontade de ler esse livro, sempre ouvi falar bem dele, mas ainda bem que li sua resenha, sério, é bom ler resenhas que não falam totalmente bem dos livros, me deu uma idéia mais real do que esperar quando eu comprar.
Beijos, Tabatha
http://aproveiteolivro.blogspot.com.br/

Jonatan Pereira disse...

Queria muito ler, mas vou repensar a leitura dele, geralmente compro os livros que vou ler então não seria muito justo com os demais da lista :v
http://coisasdeumleitor.blogspot.com.br/

Markus Andrez disse...

Oii! Já li uma resenha desse livro e já fiquei bem interessado.
Quero muito ler e parece ter uma história muito legal.
Abraço

mundoemcartas.blogspot.com.br

Rayra Mirelem disse...

Olá,
Que pena o autor não ter conseguido desenvolver tão bem assim a história, pois a premissa parece ser ótima!

Beijos, Paradoxo Perfeito

David Andrade disse...

Oi Ale!
Eu ganhei o livro no final do ano passado, mas confesso que as resenhas que vi me desanimaram. Primeiro pq tem um lance meio zumbi na historia. Eu odeio zumbi. Acho a criatura sobrenatural mais nojenta que ja criaram. É muito gosmento. Sei la. Não consigo ler ou ver algo desse tipo. Mas ai tem tambem esse lance da narrativa meia morgada. Ai gente, deixando ele no final da pilha de leitura, por hora.

Abraços
David Andrade
http://www.olimpicoliterario.com/

Gabriela CZ disse...

Tenho bastante curiosidade e interesse por esse livro, Alê. E apesar dos seus comentário o final, outras coisas que disse mantiveram minha vontade. Vou ler, mas já não vou com tanta expectativa. Ótima resenha.

Abraço!
http://constantesevariaveis.blogspot.com.br/

Helana Ohara disse...

Oi, fiquei interessante pelo livro. Talvez a trama não me cative como penso, mas quero ler.

Beijinhos, Helana ♥
In The Sky, Blog / Facebook In The Sky

Alessandra Tapias disse...

Mais uma vez fiquei chocada, rs.
E me deram esse livro com a promessa de que seria minha cara, pois alguns acontecimentos nele eu irei gostar.
Bem, vou ler preparada... vamos ver o que vou achar

Bjks

Lelê - http://topensandoemler.blogspot.com.br/

Anelise santana disse...

Poxa, eu tinha lido outra resenha tão positiva que me deixou animada para ler, mas agora desanimei rçrç Não sou muito fã de "zumbis" e não curti muito os desse livro, foi o que menos me agradou, e realmente achei que fosse um estória boa. Não sei, agora fiquei com uma dúvida cruel =P

RUDYNALVA disse...

Eita Alê!
que pena! Achei que esse livro seria um dos meus favoritos, porém pelo visto não será nem de perto uma leitura que queira fazer agora, quem sabe no futuro.
Triste um livro com temática tão boa se tornar insosso, sem gosto algum...
Decepção para mim.
Cheirinhos
Rudy
http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/

Maurilei Teodoro disse...

Terminei de ler A Menina que Tinha Dons faz poucos dias, e achei a história bem criativa e inovadora, mas achei que a autora não soube desenvolver muito bem a trama e os personagens no geral eu não gostei, os achei chatos e irritantes, com exceção do sargento Parks que achei um personagem forte e determinado.

bomlivro1811.blogspot.com.br

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