quinta-feira, 4 de abril de 2013

RESENHA: O Enigma da Borboleta

“Sou a garota que não consegue entrar ou sair do ônibus, na escola, nem na sala de aula sem fazer o tap tap tap, banana; a garota que não levanta a mão quando sabe a resposta, porque, se o fizer, ela terá que recolocá-la em cima da mesa, levantar outra vez e repetir três vezes, ou seis, ou nove, dependendo de uma porção de outros fatores que ela não pode controlar – quantas palavras há na pergunta, quantas outras pessoas levantaram a mão, quantas vezes a pessoa à minha frente coçou a cabeça. Sou a garota que não pode tomar banho depois da aula de Educação Física, porque ela também terá que fazer isso pelo menos três vezes e, até que termine, o dia de aula já terá terminado.” (ELLISON, p. 55, 2013)

Penélope é uma adolescente que desenvolveu o hábito de colecionar objetos que chamam sua atenção. Mas o que para a maioria das pessoas seria uma escolha, para ela é uma necessidade. Ela tem transtorno obsessivo-compulsivo e isso faz com que muitas vezes precise pegar um objeto com que se depara, da mesma forma como precisa levá-lo para casa e encontrar para ele um lugar em seu quarto em meio as dezenas de outros objetos que possui. Possuir e organizar esses objetos lhe dá uma sensação de segurança, por isso ela está sempre em busca de mais, e um de seus lugares favoritos é o mercado de pulgas que visita todos os sábados (sábado, um dia perfeito, com três sílabas. Três é um bom número). Em uma dessas visitas, Penélope se depara com um colar que já vira antes na notícia de um assassinato. Mas não qualquer assassinato. O assassinato de uma moça poucos anos mais velha que ela e que ela mesma quase presenciou. A partir disso, Penélope fica obcecada em descobrir quem a matou e acaba arriscando sua própria vida.

“O Enigma da Borboleta” é narrado em primeira pessoa e já nas páginas iniciais entramos na cabeça da personagem, entendendo sua vida e o que a cerca. Uma escolha acertada da autora, pois o ponto alto do livro é Penélope e a maneira como ela vê o mundo – sua obsessão por números, por exemplo – é o que faz a história ganhar vida. Em alguns momentos chega a ser angustiante ver o quanto ela precisa cumprir seus pequenos rituais e o quanto são eles que comandam seu dia a dia. Dessa forma, ela se mantém tão absorta em sua própria mente e tão preocupada com a sua esquisitice que é incapaz de enxergar o que está ao seu redor, não conseguindo perceber – por exemplo – como parece interessante aos olhos dos outros, ou mesmo o quanto é bonita.

É através de lembranças que surgem de maneira muito natural em meio ao cotidiano de Penélope que a autora nos conta não apenas a história da protagonista, mas também da sua família. Seu irmão mais velho, Oren, morreu no ano anterior e desde então sua família nunca mais foi a mesma. Sua mãe vem desmoronando aos poucos e passa os dias à base de comprimidos como um zumbi em frente à televisão, enquanto seu pai tem se refugiado no trabalho.

Apesar de girar em torno de uma investigação de assassinato e também da agonia que as manias da protagonista podem causar, “O Enigma da Borboleta” é um suspense leve. O caso da morte de Sapphire não é um quebra-cabeça insolúvel, pelo contrário (eu descobri quem havia matado a moça no instante em que o personagem apareceu no livro), mas isso não tira o mérito da trama, pois mesmo que a resolução do caso não seja surpreendente, a história de Sapphire guarda outras surpresas para Penélope que rendem para o leitor aqueles momentos “por essa eu não esperava” que sempre caem tão bem.

Além de envolver uma trama familiar, “O Enigma da Borboleta” também tem espaço para romance. Em sua investigação, Penélope se depara com Flynt - um artista de rua - por quem se apaixona. Para mim, esse foi um aspecto negativo do livro. A existência de Flynt e relação entre os dois é necessária para o andamento da investigação, mas poderia ter sido apenas uma bela amizade, sem ter se encaminhado para o lado amoroso. Para mim soou forçado e desnecessário, embora não tenha sido um erro fatal.

Acredito que a intenção da autora tenha sido equilibrar o peso de uma personalidade como a de Penélope com coisas mais leves como uma história de amor, uma investigação digna de um detetive amador (o que a personagem de fato é) e uma trama familiar. Porém, não consigo evitar imaginar como o livro poderia ter sido se a autora tivesse direcionado o foco de maneira um pouco diferente e a conclusão que chego é que poderia ter sido um suspense bastante intenso. Uma personalidade complexa como a da protagonista merecia um caso igualmente complexo, mais pesado até. Acredito que o livro poderia ter atingido outro patamar se tivesse explorado mais o caso de assassinato, sem se desviar tanto, mas não posso dizer que o livro não funcionou ou que não me agradou da maneira como foi executado.

“O Enigma da Borboleta” é um livro cuja narrativa flui rapidamente rapidamente. Não comete erros graves, mas não chega a atingir todo o potencial que poderia ter.

Título: O Enigma da Borboleta (exemplar cedido pela Editora Leya)
Autora: Kate Ellison
Nº de páginas: 310
Editora: Leya

17 comentários:

Elis Paulina disse...

Oi Mari, gostei muito da resenha e acabei gostando do livro também, por mais que não sou muito fã de suspense, mesmo leve. A maneira que escreveu sobre o livro me cativou. Mesmo você comentando que o livro poderia ir além e ser mais intenso. Ainda, achei a capa bastante chamativa para a leitura...:)
bjos, Elis Elger

Lucas Kammer Orsi disse...

Fiquei bem curioso pela leitura. Já vi o livro, já li resenhas positivas dele, mas mesmo assim, fiquei ainda com mais vontade de lê-lo. A capa atrai, a sinopse é muuuuito interessante, pelo que eu vi, o jeito que a autora conduz Penélope, tudo isso, já me deixa com vontade de ler o livro..

Beijos
Lucas
ondeviveafantasia.blogspot.com.br

Naty disse...

Não conhecia o livro, mas gostei da temática, nunca li um livro com uma protagonista com TOC. Gostei também dele ser um livro de suspense, mesmo o assassino sendo óbvio, acho que vale a pena a leitura.

Aione Simões disse...

Oi Mari!
Tivemos uma visão semelhante da história em alguns pontos. Eu também não achei que o suspense tenha sido algo muito elaborado nem que tenha sido o foco da história. O centro e a parte mais interessante realmente é a Penélope e achei a história de Oren muito mais interessante que a descoberta do assassino em si.
Porém, eu gostei do romance, não achei que ficou forçado, e eu gostei desse balanço que a autora fez, diminuindo o peso do suspense. Se fosse algo mais elaborado, acho que poderia soar forçado, apesar da complexidade da Penelope.
Enfim, ótima resenha, como sempre!
Beijão!

Aione Simões disse...

Como dito, faltou meu nome de seguidora :)
Aione Simões

Ana Paula Barreto disse...

É uma pena quando a história tem potencial, mas o autor não consegue chegar lá, seja por medo de ficar "demais" ou por qualquer outro motivo.
Pelo que li na resenha, concordo que mais suspense, mais tensão e até mais densidade teria dado um ar bem diferente ao livro, tornando-o melhor.
De qualquer maneira, fiquei interessada.
bjs
GFC: Ana Paula Barreto

cath´s m. disse...

Eu quero ler o livro.
Me encontrei um pouco na descrição da Penelope, acho que ninguém repara, mas eu tenho umas manias bizarras, coloca 2x o carregador de celular para enfim deixa ele carregando, fecha e abri para fecha novamente a porta da geladeira.
Por isso o livro me chamou atenção certo!

cath´s_m

Manuela Cerqueira disse...

Não conhecia esse livro. primeira vez que li sobre eles.
Achei super legal e diferente abordar o TOC, e de quebra ainda tem suspense, romance...
GFC: Manuela Cerqueira

cristiane disse...

Querendo muito ler esse livro, muito boa essa história! Parece ser bem gostoso de ler, das resenhas que já tinha visto só tirei coisas boas dele. Desejado!

cristiane dornelas

MsBrown disse...

Olá, Mari! Ótima resenha, fui capturada pelo que você escreveu aqui e quero muito ler este livro.

Gladys Sena disse...

Quando comecei a ler, pensei que a protagonista fosse cleptomaníaca...
Gosto de tramas com suspense e mistérios a serem revelados.
Já li outras resenhas e foram positivas.
Pena que a trama não atingiu o ápice, é tão chato quando isso acontece...uma boa trama, mal desenvolvida.

GFC: Gladys.

Thielen Costa disse...

Quando li outras resenhas sobre esse livro, até tive vontade de lê-lo, pois achava que ele seria uma maravilha em tudo.
Essa parece ser mais sincera, já que tu disse que nem foi tão bom assim. Até quero ler, mas não de imediato. A capa não me agradou, sabe? E eu julgo muito, não adianta. hehe

Thielen Costa

Nardonio disse...

Fiquei agoniado só em ler o trecho da trama que você postou. Deve ser angustiante ter que conviver com um Transtorno Compulsivo Obsessivo. Fora isso, achei a trama bem legal, pena que a autora se perdeu um pouco desenvolvendo um romance sem necessidade. Pelo menos isso não prejudicou no resultado final.

Seguidor: DomDom Almeida
@_Dom_Dom

Rossana Batista disse...

Primeiramente, ao ler o título do livro pensei em ser um livro apenas de investigação mesmo sabe... mas quando comecei a ler a resenha vi que a coisa era diferente, e não era só aquela coisa de cena de assassinato, e tem uma história a mais ai. Parece ser um bom livro, um enigma, a história de alguém com transtornos e ainda um romance. :D

Seguidora: Rossana Batista
@rooohbatista

Roberta Moraes disse...

O que é isso ?! Sabe quando lemos uma resenha e não aguenta de tanta ansiedade pra querer ler o livro e no mesmo dia vai em um sites de compra pra procurá-lo ? Foi o que fiz agora! Esse livro deve ser perfeito!

GFC: Roberta Moraes

franfernands disse...

Adorei! A Leya tem a característica de ter uns livros meio obsessivos né? hahaha Este título me lembra o filme do Efeito borboleta, que sou apaixonada, então já gostei antes mesmo de ler a resenha, que por sinal está ótima também!

Clara Beatriz disse...

Eu já vi este livro em promoção, mas não sabia se comprava ou não. Gostei bastante da resenha e a próxima vez que encontrar o livro, com certeza o comprarei. Só não gostei muito da capa.

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