quarta-feira, 16 de abril de 2014

RESENHA: Corvo Negro

“A morte de uma pessoa afetou a todos e fez com que passassem a ver o mundo de forma diferente. E talvez isso não fosse de todo ruim. Por que deveriam ser protegidos? O que é que os tornava especiais?” (CLEEVES, 2013, p. 154)

Quando o corpo da jovem Catherine Ross é encontrado na neve mutilado por inúmeras bicadas de corvos, a calma localidade de Shetland tem um antigo pesadelo despertado. Há oito anos a pequena Catriona Bruce desapareceu e desde então se suspeita que Magnus Tait, um ancião que vive isolado, tenha sido o responsável por sua morte, embora não tenha sido possível provar sua culpa. Em um lugar onde todos se conhecem, não é difícil saber os movimentos dos outros e Magnus foi visto na companhia de Catherine na véspera de sua morte. Quando policiais de fora Shetland chegam para assumir a investigação, fica claro que não é porque todos se conhecem que ninguém tem segredos a esconder. A começar pela própria Catherine, cuja personalidade forte e determinada pode ter-lhe arranjado inimigos ao produzir um documentário sobre a vida em Shetland.

À primeira vista “Corvo Negro” pode parecer um suspense policial como outros, mas o que o destaca é a maneira como a autora revela sua trama e seus personagens como se eliminasse uma a uma as camadas de neve que os mantém escondidos. Mesmo que fique claro desde as primeiras páginas que se trata da investigação de um assassinato, se sabe tão pouco sobre o quê – e quem – o cerca que paira a sensação de que as surpresas podem vir de qualquer lugar a qualquer momento. É o tipo de trama que já é interessante na superfície, mas quanto mais revela, mais interessante fica.

Narrada em terceira pessoa e alternando os pontos de vista entre Magnus, o principal suspeito; detetive Perez, responsável pela investigação; Fran Hunter, quem encontrou o corpo de Catherine; e Sally Henry, a melhor amiga da morta, essa é uma história em que o protagonista seja, talvez, o próprio caso sendo investigado.

Mais que o caso em si, quem realmente brilha em “Corvo Negro” são os personagens enigmáticos que o cercam. A autora nos insere em suas vidas de maneira tão natural que questões cotidianas se tornam perguntas e mascara suas intenções de forma que é difícil saber o que é essencial para a investigação, o que não é, e como tudo irá se encaixar. Aos poucos, e com sutileza, os personagens revelam suas verdadeiras naturezas e como se sentem em relação às pessoas que os cercam. Assim, relações vão se revelando a todo o momento e com elas surgem novos enigmas.

É dessa forma que Ann Cleeves cria uma trama em que ninguém parece ter motivo para ter cometido o crime, mas todos parecem agir de maneira suspeita, por uma razão ou outra. Assim, não só é difícil prever o final da história como qualquer desfecho poderia ser crível (e de fato o escolhido o é) e poderia ter ocorrido ao leitor em algum momento da leitura (como ocorreu a mim), mas depois deixado de lado porque os elementos são abundantes e escassos ao mesmo tempo.

Longe de ser um suspense eletrizante, que compele o leitor a varar madrugadas até ter todas as respostas, “Corvo Negro” é um livro lento, mas bem executado, e que foca nas relações, se valendo da premissa de que mais assustador que um crime é o impacto que pessoas têm uma sobre as outras e o quão perigoso isso pode ser.

“Corvo Negro” é o primeiro livro da série “Shetland” protagonizada pelo detetive Jimmy Perez e rendeu a autora o prêmio Duncan Lawrie Dagger em 2006. Tendo sido adaptado para a televisão pela BBC, o livro corresponde aos dois primeiros episódios da segunda temporada da série “Shetland”. Embora guarde diferenças com relação à trama original, a essência do caso e a atmosfera da história foram preservadas na adaptação. Algumas das alterações - como nomes, profissões e relacionamentos dos personagens - me pareceram desnecessárias, porém outras - como a inclusão de novos personagens - provavelmente, têm em vista a longevidade da série (sendo possível até que tenham base nos livros escritos posteriormente por Ann Cleeves). De modo geral me pareceu uma adaptação satisfatória e igualmente interessante quando analisada isoladamente.

Título: Corvo Negro (exemplar cedido pela Editora)
Autora: Ann Cleeves
Nº de páginas: 351
Editora: Record

12 comentários:

Priscilla disse...

Oi, Mariana!
Adorei a sua resenha, ela foi bem detalhada e me deixou muito curiosa.
Eu sou fã de suspenses policiais, então o gênero em si já me atrai. Saber que uma história nesse estilo é bem desenvolvida e vai se revelando ao poucos de maneira não óbvia me fez anotar o nome do livro pra uma futura leitura. =)
Beijos,

Priscilla
http://infinitasvidas.wordpress.com

Rafa Hübner disse...

Oi, td bom?

Não conhecia esse livro. Acho muito legal quando livros de investigação se passam em lugares frios, de alguma forma acho que acrescenta um quê a mais hehe

Beijos!
Arrastando as Alpargatas

Lucas disse...

Sou fã de livros desse estilo, ainda não conhecia este. Mas gostei muito do que li na resenha! (; Você acabou de aumentar minha lista de livros desejados, rsrsrs

Lucas - Carpe Liber
http://livrosecontos.blogspot.com.br/

Kel Araujo disse...

Oi Mari, tudo bem?

Adoro livros policiais ainda mais se os personagens forem bem construídos. Sou capaz de ficar a madrugada inteira lendo. Dica mais que anotada. Tô morrendo de saudade de ler um bom suspense policial.

beijos
Kel
www.porumaboaleitura.com.br

Lais Cavalcante disse...

Por mais que eu curta de verdade esse gênero, achei o livro um pouco confuso. Espero ler esse livro para mudar esse meu conceito hehe

Joyce Gadiolli disse...

Oi,
Eu amo esse gênero, então me interessei pelo livro.
Gosto de personagens enigmáticos.
bjs

http://entrepaginasesonhos.blogspot.com.br/

Karine Marinho disse...

Não conhecia o livro e confesso que passaria reto por ele se não fosse sua resenha! Foi impossível não sentir curiosidade pela história mesmo não sendo tãaao chegada ao gênero.
Beijos,K.
Girl Spoiled
http://girlspoiled.blogspot.com.br/

Nardonio disse...

Gosto de suspenses policiais, mas confesso que prefiro os que são mais acelerado. No entanto, você disse que esse é mais lento, mas muito bem executado. Então já começo a vê-lo com outros olhos. Às vezes esse ritmo mais lento é o ideal para a história que se quer contar. Fiquei bem curioso pra ler.

Seguidor: DomDom Almeida
@_Dom_Dom

Inês Gabriela A. disse...

O livro não faz muito meu estilo de leitura, entretanto parece ser muito bacana e interessante. Só lendo a descrição da trama que você fez eu fiquei curiosa, principalmente pelas bicadas de corvos.

memorias-de-leitura.blogspot.com

Laura Zardo disse...

Só de olhar para o livro já fiquei com aquela vontadezinha de lê-lo, essa capa é linda. E lendo a sinopse então, fiquei louca para lê-lo. E lendo as sua resenha fiquei extasiada e dizendo "preciso deste livro". Eu gosto muito do gênero, mas confesso que não à primeira vista não achei que ele seria como outros suspenses policiais, talvez porque eu ainda não seja "perita" no gênero, mas achei tão original, haha. Eu gosto de leituras lentas, mas que acrescentam, que envolvem, acho que quando a gente entra na história não é preciso ter pressa. Adorei! Já adicionei a minha listinha. =D

Gabriela Cerutti Zimmermann disse...

Já queria ler esse livro e agora fiquei mais curiosa ainda. Curiosa também pela adaptação da BBC. Ótima resenha.

Abraço!
http://constantesevariaveis.blogspot.com.br/

Livy disse...

Já tinha visto este livro e ficado curiosa. Agora lendo sua resenha fiquei ainda mais. Eu adoro livros do gênero e tenho certeza que vou gostar deste.

Beijos,
Livy,
No Mundo dos Livros

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