quinta-feira, 20 de novembro de 2014

RESENHA: Quartos Fechados

“A posteridade alonga as sombras e apaga os perfis. De outro modo, talvez as gerações futuras não encontrassem nada para admirar.” (SANTOS, p.148, 2014)

De vez em quando arrisco ler livros que me parecem ter quase tanto potencial para serem enfadonhos quanto para serem interessantes. “Quartos Fechados” foi um desses e, após a leitura, a minha constatação é que ele é um pouco de cada.

Amadeo Lax foi um famoso pintor espanhol do início do século XX. Uma de suas obras mais significativas, Teresa Ausente, é um afresco pintado na parede da casa de sua família – uma das mais importantes de Barcelona na época. A obra foi pintada em um momento de perturbação, logo após a esposa de Amadeo abandoná-lo e fugir com outro homem. Já no século XXI, a neta e estudiosa da obra de Amadeo, Violeta Lax, volta a Barcelona para ver o afresco antes que a casa seja destruída com o início das obras que em breve a transformarão em ponto cultural da cidade. É nessa ocasião que um corpo é descoberto em um quarto secreto e também que Violeta desvendará os muitos segredos de sua família.

A proposta de Care Santos é um tanto ambiciosa: contar a história da família Lax, desde a geração dos pais de Amadeo até a de sua neta Violeta, ao mesmo tempo em que faz um retrato de Barcelona em uma época de modernizações, dando ares de romance e mistério a uma trama que assume o formato de quebra-cabeça, já que cortes temporais são frequentes e ainda intercalados com descrições das obras de Amadeo. Funciona muito bem, até certo ponto. Os problemas começam quando a autora começa a dar voltas e mais voltas, avançando lentamente e parecendo não chegar a lugar nenhum. Algumas vezes a minha sensação era a de já haver lido uma mesma coisa duas ou três vezes e estar me deparando com ela novamente.

Querendo dar a mesma atenção a todos os membros e criados da família Lax, a autora perde de aproveitar personagens interessantes (como Teresa, Amadeo, Maria del Roser – matriarca da família – e as criadas Concha e Laia) ofuscando-os para que eles não ofusquem os outros, de forma que nada é aproveitado como poderia. É como se, ciente de que o mistério a cerca do que aconteceu com Teresa e de alguns poucos relacionamentos fossem impedi-la de contar a trama ampla a que se propôs, a autora tivesse apagado seus próprios personagens (como se fosse preferível deixá-los na penumbra com os outros a vê-los lançar sua própria luz).

É uma pena porque “Quartos Fechados” tem sim uma boa história e não me refiro apenas ao mistério. Alguns relacionamentos – como os que existem entre os personagens citados acima - são intrigantes e despertam o interesse do leitor, mas outros - como o de Violeta e sua mãe, apresentados no livro por uma serie de emails que não convencem como correspondência trocada entre duas pessoas que se conhecem de longa data e que, muitas vezes, falam sobre pessoas que ambas conhecem – não acrescentam em absolutamente nada.

A brincadeira constante de “nem tudo é o que parece” também se prejudica com essa montanha-russa de personagens e tempo. A curiosidade acaba se dissipando e quando nos deparamos com as respostas, tantas coisas já apareceram no caminho que elas perderam a importância.

Mas talvez o erro mais fatal cometido pela autora, seja fazer mistério com algo que fica tão claro desde o início que é difícil acreditar que qualquer um não elabore inúmeras teorias alternativas durante a leitura que seriam muito mais satisfatórias do que a solução que Santos propõe nas últimas páginas com “a última peça do quebra-cabeça”, como o narrador gosta de dizer. Incomoda, especialmente, por deixar claro que tantos cortes e personagens secundários não eram necessários para essa revelação e estavam ali apenas porque a autora decidiu contar a história assim.

“Quartos Fechados” é um livro que parece almejar mais do que tinha fôlego para alcançar. Acerta nos personagens, no tom da narrativa e na trama, mas se perde em meio a tantas voltas. Se a autora tivesse se atido a contar uma história, poderia ter sido excelente, mas infelizmente Santos preferiu contar quatro, cinco histórias ao mesmo tempo. Ainda assim, acredito que possa agradar alguns leitores, mas também acredito que possa entediar outros. Comigo, fez dos dois alternadamente.

Título: Quartos Fechados (exemplar cedido pela editora)
Autora: Care Santos
Nº de páginas: 462
Editoras: Record

15 comentários:

Amiga da Leitora Thais disse...

Não parece fazer meu tipo de leitura, mas adorei sua resenha, parabéns pela forma como expôs sua opinião.

xoxo
http://www.amigadaleitora.com/

Gabriela Cerutti Zimmermann disse...

Fiquei super chateada ao saber das enrolações da autora, Mari. O enredo teria tudo para me agradar, mas como vi algumas críticas a respeito disso acabei descartando. Minha lista já anda enorme, preciso cuidar com o que acrescento nela. Ótima resenha.

Abraço!
http://constantesevariaveis.blogspot.com.br/

Thales Soares disse...

Gostei muito do livro só pela capa, e com essa resenha, quero mais ainda. Mias um na lista.

http://criativare-leitura.blogspot.com.br/

Renata Varela disse...

Poxa, é horrível quando um livro ou até mesmo filme, conta sobre várias histórias e acaba se perdendo. Aliás, é difícil o autor não se perder quando faz isso. É um risco. Acho que só os MUITO bons conseguem ;)
whoosthatgirrl.blogspot.com

­­Silviane Casemiro disse...

Oi, Mari!
Bom, a impressão que eu tive com a resenha é que esse livro parece uma... loucura. Misturando personagens e épocas e não de uma forma tão bacana, já que foi um ponto negativo. É uma pena, pois gostei da capa e a sinopse me chamou a atenção, mas vou pular essa.

Beijos.
Blog Cantar Em Verso

Milena Soares disse...

Esse tipo de história não me atrai, por isso não fiquei interessada em ler esse livro, a resenha ficou ótima, bem esclarecedora.

Girlene Viey disse...

Eu sinceramente eu curti a historia! Gosto de muito de historia desta coisa de lanço familiar! ''nem tudo é o que parece'' deixa a historia ainda mais perfeito pois acaba confundido a gente eu criado um certa curiosidade !

RUDYNALVA disse...

Mari!
Acho até interessante conhecer um pouco sobre Barcelona e sobre a família Lax, entretanto, não sei esse seria o momento de ler um livro tão repetitivo em determinadas horas, mesmo com o mistério de um corpo sendo encontrado na casa...
Meu momento é leitura mais dinâmica e com ação.
Cheirinhos
Rudy
http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/

Nardonio disse...

A premissa é, realmente, bem interessante. Acho que a autora tinha tudo nas mãos para criar uma trama extraordinária, mas é uma pena que ela se perdeu nas voltas que ela criou desnecessariamente. Essa sensação de ler algo que não sai do lugar é muito ruim. Enfim, não sei bem se o leria.

Seguidor: DomDom Almeida
@_Dom_Dom

Ingrid Moitinho disse...

Não me interessei muito por esse livro, não gosto quando contam mais de uma historia e muito menos quando fica entediante, no momento não leria esse livro.

Lais Cavalcante disse...

Sabe quando a capa do livro não atrai e tudo conspira para que seja ruim? Foi o que aconteceu com esse livro hehe Além da capa ser muito estranha, achei toda a história meio clichê, pelo fato de achar um corpo em um lugar secreto e bláblá. Acho que já li tantos livros com essa mesma temática, que já estou enjoada hahah Essa leitura eu passo :/

Adriana disse...

Acho que não conseguiria chegar ao final dessa leitura...quando começa a dar voltas, eu já perco o interesse e aí não tem jeito, eu deixo o livro de lado! Foi bom ler sua resenha, vou passar longe desse livro!

Vitória Pantielly disse...

Oii Mari

Olha, quando comecei a ler a resenha eu me empolguei bastante pela leitura por causa de todo os mistério que aprece rondar o livro, mas depois que vi que a autora começa realmente a enrolar e focar em personagens que nem interessantes são eu desisti. Com é um livro em que a leitura já não é fácil por causa da época, acho que a história tem que te prender, e infelizmente não foi o que aconteceu comigo!
Beijos :*

Loly Fonseca disse...

A história parece que tinha mesmo um grande potencial para ser boa, caso a autora tivesse explorado de uma forma diferente os acontecimentos do livro... Esses livros de mistérios tem que trazer tudo muito bem amarrado, sem excessos, para que não fiquem enfadonhos, mas parece que a autora realmente quis colocar mais do que deveria... Uma pena que não tenha saído tão bom assim... No início fiquei bem curiosa com o livro, mas agora já não sinto a mesma coisa... Quem sabe eu leia mais pra frente, pois agora não me interessa...
Kisses =*

Desbravadores de Livros disse...

Oi, Mari. Adorei a resenha e fiquei curiosa para saber o mistério da obra ter sido agradável e entediosa, alternadamente. Não li esse livro e até desconhecia a existência, mas fiquei desejando ler para saber tais aspectos.
Achei um pouco exagerado em colocar tantas histórias assim, fica aquela coisa mal feita, sem esclarecer e detalhar de maneira precisa.

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