sábado, 29 de agosto de 2015

RESENHA: Homem no Escuro

“Não existe uma única realidade, cabo. Existem muitas realidades. Não existe um único mundo. Existem muitos mundos, e todos seguem paralelos uns aos outros, mundos e antimundos, mundos e mundos-sombra, e cada mundo é sonhado ou imaginado ou escrito por alguém num outro mundo. Cada mundo é a criação de uma mente.” (AUSTER, p.66, 2008)

Alguns livros geram altas expectativas e criam tamanho burburinho na internet que parece que você só ouve falar neles. Outros você descobre por acaso e mesmo que não tenham uma capa atraente e você nunca tenha ouvido falar no autor, sabe imediatamente que precisa ler. Foi o caso de “Homem no Escuro”.

August Brill está com 72 anos e se recupera de um acidente de carro na casa de Miriam, sua única filha, que há cinco anos foi abandonada pelo marido e desde então vive sozinha. Na casa também está Katya, filha de Miriam, que recentemente teve o namorado assassinado na guerra do Iraque e que compartilha com o avô sessões de cinema. Mas nessa noite, assim como em muitas outras, August não consegue dormir. Entre pensamentos que viajam trazendo lembranças sobre a esposa falecida, a ex-amante, além de detalhes da vida da filha e da neta, surge na mente de August uma história sobre um jovem americano que acorda em uma guerra civil que ele não entende e onde lhe pedem que mate um homem.  

A história se desenrola toda no período de uma noite e tudo o que vemos acontecer, acontece na cabeça de August. Por estar com a perna ferida e por não querer fazer barulho e acordar a família, o personagem permanece na cama o tempo inteiro, de forma que o livro todo se faz de pensamentos e não de ações. Mas isso não quer dizer que seja monótono, porque o que August pensa é repleto de movimento (principalmente quando se trata da história que ele inventa) e carregado de sentimento (nas suas memórias e reflexões).

O livro não é dividido em capítulos, sendo apenas separado em alguns trechos, mas mesmo essa segmentação não segue regras rígidas. Em alguns momentos, August está pensando na vida e de repente volta a “escrever” a sua história. Nesses momentos, a narrativa muda de primeira para terceira pessoa, sem avisos, mas ao contrário do que possa parecer, isso não deixa o livro confuso porque é muito claro o que o personagem está fazendo. Da mesma forma, os diálogos também são muito claros, mesmo sem contar com nenhum tipo de marcação.

É por coisas assim que acredito que “Homem no Escuro” possa desagradar muitos leitores. Mas não desagradou a mim. Pelo contrário. Sou fascinada por esses textos que brincam com as regras e ainda assim deixam clara a sua história.

Na pequena trama criada por Brill, o protagonista é Owen Brick, um homem que acorda em um buraco, sem saber como foi parar ali, e se vê no ano 2007 em meio a uma guerra civil em território americano. O 11 de setembro nunca aconteceu, a guerra com o Iraque nunca teve início, mas os estados norte-americanos estão tentando se separar um dos outros. Nesse cenário distópico, Brick enfrenta anseios que se misturam com os de seu criador, como a infidelidade e a arbitrariedade das baixas de guerra. Até o encerramento abrupto desse mis-en-abib (história dentro da história) reforça que na guerra as mortes acontecem exatamente assim, de uma hora para outra, e que no contexto acabam reduzidas a isso: o fim de uma história dentro de uma história. O fim de uma vida, mas não do conflito.

Tendo sido crítico literário e devotado sua vida aos livros, é compreensível que August mergulhe em histórias como meio de distração. No mais, o personagem é um homem comum, que sente saudades da esposa, tem alguns arrependimentos e alegrias, se preocupa com a filha e com a neta e procura válvulas de escape para coisas que prefere não pensar.

Quanto a Katya e Miriam, só vamos conhecer de fato as personagens próximo ao final do livro, quando ambas acordam. Mas quando elas entram em cena é como se já as conhecêssemos.

“Homem no Escuro” não tem uma história bem definida. É ora sobre isso, ora sobre aquilo. É sobre o que marca esse homem a ponto de continuar em seus pensamentos mesmo quando tudo que ele quer fazer é mergulhar na inconsciência do sono. É um livro que alguns podem dizer que não tem nada de mais e talvez não tenha mesmo. Mas eu gostei. Me envolvi com a noite inquieta de Brill e me perdi em seus pensamentos melancólicos com ele. Meu primeiro contato com Paul Auster foi positivo.

Título: Homem no Escuro (exemplar cedido pela editora)
Autor: Paul Auster
N° de páginas: 165
Editora: Companhia das Letras

22 comentários:

Gabriel Dias disse...

Nunca li esse xD

www.saibando.com

Ycaro Brito disse...

Oi, Mari! Confesso que não me empolguei quando vi a capa do livro do Paul Auster. Então, fui sem expectativas nenhuma para ler a resenha. E, por fim, minhas expectativas continuaram lá embaixo. Achei que, até para você, a leitura foi confusa e não deu explicações completas em seu final. Passo para o próximo!

Luis Carlos disse...

Apesar do livro ter lhe agradado, por você gostar de textos como os que contém no livro, o livro não me agradou. Além da capa não ter me chamado atenção, por ser bem simples, vi que eu não irei gostar do conteúdo do livro!

suzana cariri disse...

Oi!
Achei o livro bem diferente e também interessante essa ideia de uma historia que acontece na cabeça de uma pessoa, não sei se por todos essas divagações iria gostar do livro mas achei bem legal o modo que o autor construiu a historia !!!

Markus Andrez disse...

Oii! É um livro bem diferente do que to acostumado.
Não sei se leria por agora!!

Abraço
mundoemcartas.blogspot.com.br

RUDYNALVA disse...

Mari!
Mesmo que o livro não tenha um objetivo definido, é bem interessante diversificar a leitura e conhecer novos autores, saindo um pouco do comum e os livros divulgados por todas as redes sociais.
Sempre é válida a leitura e se gostou, ainda mais.
“A nossa maior glória não reside no fato de nunca cairmos, mas sim em levantarmo-nos sempre depois de cada queda.”(Oliver Goldsmith)
cheirinhos
Rudy
http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
Participem do nosso Top Comentarista!

Kel Araujo disse...

Oi Mari, tudo bem?

Acho que eu não ia me adaptar com o livro, principalmente com a não divisão de capítulos. Eu preciso daquela pausa, sabe? O livro me pareceu confuso. Acho que lendo a obra quem ia ficar no escuro quanto ao entendimento da história, seria eu

beijos
Kel
www.porumaboaleitura.com.br

Tony Lucas disse...

Oi, Mari! Tudo bem? Achei a proposta do livro extremamente interessante. Eu também gosto de livros que brinquem com as regras. E sem falar que "Homem no Escuro" é bem curtinho, né? Então dá para ler super rápido! Adorei a resenha e fiquei com vontade de ler o livro! :)

Abraço

http://tonylucasblog.blogspot.com.br/2015/08/resenha-premiada-johnny-bleas-um-novo.html <- Tá rolando promoção do livro "Johnny Bleas - Um Novo Mundo" lá no blog! ;)

Gabriela CZ disse...

Que livro interessante, Mari! O quote que você escolheu pra abertura já me deixou curiosa, e seus comentários me intrigaram. Não sei se eu não ficaria confusa com a narrativa, mas gostaria de arriscar. Ótima resenha.

Abraços!
http://constantesevariaveis.blogspot.com.br/

Letícia Souza disse...

oie
Eu nunca tinha ouvido falar desse livro e por ser uma leitura diferente eu acabei achando interessante.Essa história dentro da história me atraiu e quero acompanhar o que a mente do August consegue criar.Pra mim com certeza a leitura será um pouco confusa já que me baseio em capítulos e separacoes mas dou um jeito de entender.

Renato Almeida disse...

Olá, Marina.
Não conhecia a história, mas ao ler sua resenha fiquei interessado em conhecer.
Gosto de livros com histórias indefinidas, pois acho bacana ler algo que foge totalmente da previsibilidade.
Até mais. http://realidadecaotica.blogspot.com.br/

Mariele Antonello disse...

Bom não conhecia esse livro, sua resenha está muito boa, mas por ele não ter uma história definida, acho que não seria um livro que me agradaria.

Inês Gabriela A. disse...

Olá,
Eu sei bem como são esses livros que mais parecem divagações, às vezes me agradam, às vezes não, tudo depende muito da maneira que é abordado e dos temas propostos.
Beijos.
Memórias de Leitura - memorias-de-leitura.blogspot.com

Ana I. J. Mercury disse...

Não curti, não gostei muito achei meio tristonho kkkkk
gosto mais é de romance doce mesmo!!
bjos

Larissa Santos disse...

Oi Mari,
Não curti muito pelo fato de não haver capítulos =(, eu geralmente acabo um capítulo antes de fechar o livro, então ia ficar difícil haha.
Beijocas ^^

Desbravadores de Livros disse...

Olá, Mari.
Assim como você, gosto de livros que fogem do comum. Então a premissa da obra me agradou, se é que ele tem uma premissa realmente definida. Quero conferir como os pensamentos do protagonista são colocados no papel e como ele faz essa mudança de assuntos constantemente.
Excelente dica.

Desbrava(dores) de livros - Participe do nosso top comentarista de agosto. Serão dois vencedores.

Diane disse...

Olá ...
Esse é um livro bem diferente do que estou acostumada a ler , mas é uma boa pedida para sair da zona literária de conforto .
Valeu a dica ...

http://coisasdediane.blogspot.com.br/

Ariane Reis. disse...

Oie Mari =)

Não conhecia o livro, mas pelo o que você comentou na sua resenha ele tem um tipo de escrita bem diferente. Não sei se seria um livro que prenderia minha atenção, mas acredito que as vezes precisamos sair das nossas zonas de conforto e tentar algo novo.

Beijos;***

Ane Reis.
mydearlibrary | Livros, divagações e outras histórias...
@mydearlibrary

Aguida Sampaio disse...

a capa não chamou minha atenção
realmente, o livro não seguiu algumas regras. que bom que você não se sentiu prejudicada com isso.
acho que eu ficaria muito confusa nesse livro. mas se eu tiver oportunidade de ler, tentarei dar uma chance. porém, não me senti atraída por ele.

bjs

Becca Martins disse...

Oi Mari!
É como você disse, uns vão gostar e outros nem tanto.. acho que faço parte dos que não se interessam, pois, minha nossa, já sofri muita raiva com livro que não avisava quando estava mudando de narração/capítulos.
E a história não é uma que tenha me chamado atenção, mas fico feliz por você ter gostado.
Beijos!!
umlugarparaleresonhar.blogspot.com

Patrini Viero disse...

Não conhecia esse livro, mas confesso que ele me deixou bastante curiosa, principalmente pelo seu processo de criação tão diferenciado, e pelas reflexões que coloca. Acredito que algumas das características que tu citou possam me deixar confusa num primeiro momento, mas é tudo uma questão de acostumar-se com a forma de organização e com a escrita do autor.

Sil disse...

Olá, Mari.
Realmente nunca vi esse livro e a capa não chama a atenção. Num primeiro momento não me interessei pelo livro. Por ser bem diferente acho que não iria gostar dele. E mesmo você falando que não é monótono, eu ainda assim achei que deve ser meio parado hehe.

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