segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

RESENHA: A Sorte do Agora

“Você é meu confidente, Richard Gere. Não pretendo compartilhar meu fingimento com ninguém, porque o fingimento frequentemente acaba quando você permite que não fingidores tenham acesso aos mundos melhores e mais seguros que você cria para si mesmo.” (QUICK, p.88, 2015)

Quando li “Perdão, Leonard Peacock” tive certeza de que leria qualquer coisa escrita por Matthew Quick e que dificilmente o autor me decepcionaria. Foi com esse espírito que li “A Sorte do Agora” cuja premissa não teria me interessado se não fosse a minha confiança no autor.

Bartholomew Neil tem quase 40 anos e morou com a mãe a vida inteira. Na verdade, essa foi a única coisa que ele fez durante todo esse tempo: viveu com ela e cuidou dela. Mas agora que a mãe faleceu de câncer, Bartholomew não tem a menor ideia do que fazer ou como viver por conta própria. O que ele sabe é que precisará substituir a tarefa “ser filho” por alguma outra e é ao encontrar uma carta de “Liberte o Tibete” escrita por Richard Gere na gaveta de calcinhas da mãe que ele pensa ter descoberto um caminho: escrever cartas para Richard Gere nas quais poderá revelar tudo o que está pensando e sentindo e, assim, ganhar conselhos. Fazem parte da vida de Bartholomew um padre bipolar; uma “meninatecaria” que sofre quando deve descartar um livro velho; uma conselheira de luto que precisa seriamente de conselhos; um rapaz que acredita em aliens, telepatia com gatos e não sabe falar sem muitos palavrões e, claro, um sábio, compreensivo, eloquente (e imaginário) Richard Gere.

Uma coisa é certa: Matthew Quick consegue escrever com leveza sobre assuntos sérios. Em “A Sorte do Agora” o que temos é um grupo de personagens infelizes, cada um com seu drama pessoal, mas em nenhum momento o livro soa dramático e as páginas passam sem que se sinta.

Bartholomew tem uma inocência incompatível com a sua idade e não sabe lidar com certas coisas. Aos poucos é possível perceber que isso vai além de sua falta de traquejo social e é mais do que a consequência de ele, de certa forma, nunca ter crescido. Aos poucos, nasce a desconfiança de que o personagem possa sofrer de algum distúrbio mental, mas em nenhum momento é possível ter certeza disso, ou descobrir qual seria esse distúrbio, já que a narrativa se dá na forma de cartas e portanto só sabemos o que o personagem decide escrever para Richard Gere. Caso sofra mesmo de alguma doença mental, é compreensível que ele prefira não falar sobre isso ou até mesmo que não tenha consciência do fato. Ele viveu a vida daquela forma e não sabe que há algo errado com isso. Mas não afirmo que Bartholomew seja mesmo doente. Isso não ficou claro para mim e, finalizada a leitura, não encontrei em nenhum lugar algo que comprove ou refute a minha teoria. O que me intriga é que em alguns momentos eu tinha plena certeza de que esse era o caso, mas em outros Bartholomew me surpreendia e se revela mais perspicaz e eloquente do que eu poderia esperar, e mesmo que no final o personagem confesse para seu correspondente imaginário que enfeitou algumas coisas, ainda fiquei com as minhas dúvidas sobre o que de fato acerca esse personagem.

Acredito que também se deva à narrativa epistolar uma certa dispersão da trama. Quando se escreve uma carta, é natural que o assunto seja o que está na cabeça do autor naquele momento. É por isso que uma personagem como Wendy (a conselheira de Bartholomew) e seu drama só aparecem até certo ponto do livro e depois somem. É por isso também que Max (que o protagonista só vai conhecer na terapia em grupo) aparece apenas mais adiante e só então outro lado da história tem início. Isso não é exatamente um defeito, mas torna mais difícil se importar com os acontecimentos, pois estes parecem transitórios, estando ali apenas para ajudar Bartholomew a encontrar o seu caminho ou abrir os olhos para alguma coisa.

Não gosto de comparações, mas como disse no início desta resenha, eu não teria lido “A Sorte do Agora” se não tivesse gostado tanto de “Perdão, Leonard Peacock”, então me permito dizer que a história de Bartholomew está muito longe de ter a profundidade e a carga dramática da história do adolescente suicida, com a qual era possível sentir que o personagem era um amigo de longa data, torcer para que ele tivesse um final feliz e acompanhar sua jornada com a ansiedade de saber qual seria o próximo passo. Com “A Sorte do Agora”, não senti nada disso. Apenas que era um livro de leitura agradável. Até mesmo a surpresa que Quick guardou para o final da jornada me havia sido previsível.

Embora o livro tenha decepcionado um pouco, a única coisa que de fato me incomodou foi Max e seus inúmeros palavrões. Não tenho problemas com o uso desse tipo de linguagem em uma narrativa, pois acredito que o texto deva expressar a personalidade do personagem e se isso inclui um discurso mais agressivo, que seja. Mas em Max isso parece desnecessário além de ser excessivo (a cada três ou quatro palavras, uma é “porra”, “merda” ou afins) e, como todo excesso, incomoda e acaba tornando-se irritante.

“A Sorte do Agora” está longe de ser um livro ruim, mas eu estaria mentindo se dissesse que cumpriu com o que eu esperava.

Título: A Sorte do Agora (exemplar cedido pela editora)
Autor: Matthew Quick
N° de páginas: 224
Editora: Intrínseca

32 comentários:

Vida de Leitor disse...

Poxa, comprei esse livro na Black Friday e estava ansiosa pra ler, mas sua resenha me desanimou um pouco... Tenho todos os livros do Quick e acho que ele avacalhou também no "quase uma rockstar", não recomendo este. Eu me arrependi de ter lido.

Beijos,
Natália.
https://doprefacioaoepilogo.blogspot.com.br/

Desbravadores de Livros disse...

Olá, Mari.
Gosto de narrativas com base no elemento epistolar, mas esse livro não enche muito meus olhos. De verdade, desde a premissa, não consigo me sentir atraído. O rapaz que viveu a vida toda com a mãe e depois não sabe como seguir só não me desperta nenhum sentimento que me faça querer conferir a obra. Somando-se a isso, o uso exagerado de palavrões também me incomodaria. Não me importo com palavras de baixo calão na literatura, mas quando são usadas sem propósito, me irrita.

Desbrava(dores) de livros - Participe do top comentarista de dezembro. Serão dois vencedores!

Willma Dantas disse...

Olá, tudo bem?
Eu adoro o Matthew, dele eu só li o "Perdão, Leonard Peacock" e o livro me ganhou completamente, estou com vontade de ler esse também!
Ótima a sua resenha :)
Beijos.
http://cineleva.blogspot.com.br/ :)

Ycaro Brito disse...

Eu não conclui nenhuma leitura do Matthew Quick, nem mesmo O Lado Bom da Vida, mas não possuo nenhuma obra do autor, portanto desejo lodo adquiri-los. A Sorte do Agora não conseguiu me envolver. O drama imposto por Quick em A Sorte do Agora poderia ser tratado de uma forma diferente em minha opinião, tanto que Bartholomew se tornou um personagem extremamente chato para mim, mais um motivos para a não-leitura. Outro ponto crucial do livro são os palavrões, odeio este tipo de linguagem em narrativas. Por fim, você decepcionou-se com o livro, o que exterminou a minha pouca intenção de leitura.
Blog: Consumidor de Sonhos | consumidordesonhos.blogspot.com.br

Luiza Helena Vieira disse...

Oi, Mari!
Já falei que amo suas resenhas?
Eu nunca li nada do Matthew, mas tenho O Lado Bom da Vida e quero muito ler Quase Uma Rockstar e Perdão, Leonard Peacock
Porem, A Sorte do Agora não é um livro que me chama atenção e acho que nem o leria, mesmo tendo amado algum livro do Matthew
Beijos
Balaio de Babados | Participe da promoção Natal do Babado

Ju Goulart disse...

Oi Mari, eu já li dois livos do Matthew e tenho a impressão de que ele tem seguido certa fórmula em suas histórias. Os que eu li não foram os mesmos que os seus, mas O Lado bom da Vida e Quase uma Rockstar, e sempre há essa infantilidade em seus personagens, bem como certa paranoia. Eu gostei dos dois, na verdade, mas sinto que esse "roteiro" pré determinado tende a me decepcionar em algum momento também.

Beijos

Leitora Cretina disse...

Olá, Mari!
Realmente, não é um livro que só de ler a resenha desperta um entusiasmo. Já li O Lado Bom da Vida e fico num amor e ódio com esse livro, concordo com o comentário da Ju Goulart em relação a infantilidade dos personagens.
Parabéns pela resenha. Você sabe que eu amo seu blog, né?

Beijão
Leitora Cretina

Florescer Literário disse...

Já ouvi falar desse livro! Não tinha me chamado muita atenção e acho que sua resenha me desanimou mais ainda, rsrs não tinha intenção de lê-lo, agora então... Mas quem sabe né? Bjs :)
http://florescerliterario.blogspot.com.br/

Juh Bernardo disse...

Oi,
Como é frustrante quando um livro não supre nossas expectativas né??
Eu ainda não li ele, só vi algumas resenhas, até tenho vontade de ler, mas to com medo.. hahaha é melhor não ir com muita sede ao pote!

Beijos,
Juh
http://umminutoumlivro.blogspot.com/

Laís Lubrani disse...

Oi Mari, tudo bem?
Eu amo seu blog, (por isso até já sigo ele) e além de vir aqui pra falar que amei essa sua postagem nova, porque adoro descobrir livros novos, tô aqui pra avisar que te indiquei em uma tag. Corre lá pra ver! :)
Beijo, beijo.

http://www.chadefirulas.com.br/2015/12/descobrindo-novos-blogs.html

Gus disse...

Nunca li nada do Quick, mas estou louco por O Lado Bom da Vida e Perdão, Leonard Peacock. Eu tinha interesse em A Sorte do Agora, mas acho que agora não tenho mais.

www.cidadedosleitores.blogspot.com

Gabriela CZ disse...

Estou devendo muito ao Quick, Mari. Li O Lado Bom da Vida e adorei, e estou com Perdão Leonard Peacock na estante há bastante tempo e ainda não consegui ler. Preciso mudar isso. Agora, esse livro parece que apesar dos pontos negativos tem seu valor. Vou ler, até porque quero ler tudo do autor. Ótima resenha.

Abraços!
http://constantesevariaveis.blogspot.com.br/

Carina Pontes disse...

Para ser sincera, não gostei muito de "Perdão Leonard Peacock" mas sou apaixonada pelo livro "O lado bom da vida" e por isso ainda quero ler a "Sorte do agora", pois achei que a história tem tudo para ser boa como "O lado bom da vida".
Gostei de como você descreveu a história e agora estou com mais vontade de ler!
:D

Alessandra Fernandes disse...

Mari, eu conhecia esse livro somente pela capa, mas não sabia do que ele se tratava. Achei bem interessante a estória possuir em seu enredo cartas e correspondências, mas quando pude conhecer melhor e saber sua opinião -o que é extremamente importante para mim- não tive nenhuma curiosidade em lê-lo ;/

Vanessa Vieira disse...

Gostei da resenha Mari. Nunca li nada do autor, mas a premissa deste livro me pareceu ser divertidíssima. Uma pena que ele tenha pecado pelo excesso de palavrões. Beijo!

www.newsnessa.com

Estante Diagonal disse...

Oi Mari, eu adoro o autor, e quero muito conferir este lançamento, pelo que li em sua resenha com certeza vou adorar, espero que seja mais que Rockstar que achei mais ou menos haha

Beijos,
Joi Cardoso
Estante Diagonal

Elder Ferreira disse...

Só o fato de o Matthew Quick ter escrito um livro de humor onde ele aborda problemas psicológicos como ansiedade e bipolaridade como ele fez em "The Silver Linings Playbook" já me faz olhar pra qualquer livro e resenha sobre livros dele de forma diferente.

NO ENTANTO, talvez esse tenha sido o livro maior dele, visto que você não tá curtindo essa outra obra que ele publicou. Talvez seja que nem o John Green, curti bastante A Culpa é das Estrelas, daí fui ler O Teorema Katherine e fiquei tipo ".. foi o mesmo cara que escreveu isso?"

abraço,
http://www.oepitafio.com/

Maya disse...

Nunca ouvi falar desse livro, mas amei a resenha e quero ler agora! Beijos,
http://o-hyeah.blogspot.com.br/

Aline Al disse...

Eu gosto bastante da escrita do autor e dos temas que ele aborda geralmente, um pena que o livro não foi tudo que você esperava.
Beijos,

Borboletas de papel Ƹ̴Ӂ̴Ʒ

Vanessa Sueroz disse...

Oie,
não conhecia o livro, mas não parece mesmo meu estilo de leitura.
Acho que a história deve ser bonita, então quem sabe no futuro não coloque na lista.

bjos
http://blog.vanessasueroz.com.br

Diane disse...

Oi ...
Também tenho muita confiança no Matthew ! Ele é o único autor que compro livros sem ler a sinopse .
Ainda não li esse , mas , quero fazer a leitura o mais rápido possível.
Também não curto excesso de palavrões .
Beijos

http://coisasdediane.blogspot.com.br/

Resenha Atual disse...

Olá Mari
Tudo bem?
Nunca li nenhuma obra do autor,mas sempre tive enorme curiosidade em ler o lado bom da vida, apesar de ter lido criticas negativas em relação ao livro, o sorte no Agora me chamou bastante atenção pela quando lançou, mas quando li a sinopse não me conquistou nem um pouquinho, e depois de ler sua resenha realmente descarto a ideia de oferecer qualquer chance ao livro, mas gostei da resenha e dos pontos que você citou.
Beijinhos
http://resenhaatual.blogspot.com.br/

RUDYNALVA disse...

Sabe Mari, o que mais me interessou mesmo foi o fato de ele ter a ideia de escrever as cartas para Richard Gere...kkkkkk Bem inusitado em um livro.
Acredito que a começar por aí, já se pode questionar a sanidade do protagonista; não que escrever carta para um ídolo seja sinônimo de algum distúrbio, mas escrever com o intuito de torná-lo seu confidente, aí sim...
“Sonhar é acordar-se para dentro.” (Mario Quintana)
cheirinhos
Rudy
http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
Participem do nosso Top Comentarista de Dezembro, serão 6 livros e 3 ganhadores!

Milena Schabat disse...

Também tenho um probleminha com excessos em livros, principalmente se for de palavrões, acho meio "apelativo", sabe? Mas adorei a resenha e me interessei pelo livro. Nunca li nada do autor mas já sinto que preciso fazer isso o quanto antes porque, nossa, tem tanta gente falando bem hahaha

Abraço,
literarizei.blogspot.com

Carla A. disse...

Do autor eu só li "O lado bom da vida", mas há tempos quero ler "Perdão, Leonard Peacock". Ainda não tinha parado para ler uma resenha de "A sorte do agora", mas gostei da premissa. Curto histórias contadas através de cartas e adoro um drama, então o fato de falar sobre o luto do personagem me interessou bastante.

Beijos, Entre Aspas

Mandy disse...

Ooi, tudo bom??
Eu sempre faço isso, leio um livro maravilhosoo e vou procurar outros do autor e as vezes não são tão bons quanto o primeiro :/ Gostei de saber que esse livro é escrito em cartas, amo epistolares <3
Beijoos,
Sétima Onda Literária

Carolina Garcia disse...

Oi, Mari!
Tudo bem?

Ainda não li Perdão, Leonard Peacock até porque estava namorando o Quase uma RockStar - que não li ainda por sinal!
Mas não conhecia A Sorte de Agora e para ser sincera não me chamou muito a atenção.
Tenho certeza que o livro deve ser lindo porque o cara escreve muito bem, mas vou deixar passar esse. Quem sabe no futuro, né?

Bjs

livrosontemhojeesempre.blogspot.com.br

Sil disse...

Olá, Mari.
Eu li O lado bom da vida do autor e amei a forma como ele escreve. Mas só li esse até agora. Eu até que estava interessada nesse também, mas quando cheguei na resenha na parte que você fala sobre os palavrões, eu mudei de ideia. Definitivamente eu não gosto. mas concordo com você que o autor sabe escrever com leveza sobre assuntos mais sérios.

Blog Prefácio

Patrini Viero disse...

Começo dizendo que a capa desse livro me encantou completamente, pela visão um tanto quanto minimalista e ao mesmo tempo carregada de detalhes. A história em si me parece bem interessante, principalmente pelo detalhe das cartas, que eu acredito que talvez acabem aproximando o leitor do protagonista, à medida que conhecemos suas dúvidas, medos e inseguranças. Claro que concordo com os elementos transitórios e com as consequências disso, mas acho que o formato tem, sim, suas vantagens. É complicado criar enormes expectativas acerca de um autor ou livro, porque inevitavelmente acabaremos fazendo comparações e a leitura será de alguma forma influenciada por isso.

suzana cariri disse...

Oi!
li um livro do Matthew Quick é gostei muito da sua escrita e de como ele consegue se aprofundar em temas diferentes e difícil mas o gênero do livro dele não e o que gosto de ler por isso não me interessei muito por esse livro dele !!

Samira Hammoud disse...

Não conhecia esse livro, eu nunca me interessei por livros desse autor depois que li O lado bom da vida... Li a sinopse de Perdão, Leonardo Peacock, mas não me interessou, mas agora vi que você gostou muito, já estou adicionando os dois a minha lista de futuras leituras!!

Amanda Ferreira disse...

Conheci o Matthew através do livro 'O Lado Bom da Vida', amo esse livro <3
O livro 'As Vantagens de Ser Invisível' também envolve cartas e eu sou apaixonada por aquele livro. Achei a sinopse e a resenha interessantes e talvez eu coloque ele como mais uma meta de leitura (devido as dezenas de livros que estão como minha meta de leitura, tenho que selecioná-los com cuidado -_-)

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