sexta-feira, 17 de junho de 2016

RESENHA: Na Estrada Jellicoe

“Se algo acontecesse comigo, que rosto apareceria na primeira página do jornal, implorando por mim? Será que uma pessoa vale mais porque existe alguém sofrendo por ela?” (MARCHETTA, p. 46, 2016).

Na pequena cidade de Jellicoe, três grupos de jovens travam uma guerra territorial há anos. De um lado estão os alunos do internato, liderados por Taylor, do outro os alunos do colégio militar – conhecidos como cadetes –, e por fim, os jovens da cidade – os citadinos. Em meio às negociações, Taylor precisa lidar com o sumiço de Hannah, a mulher que a resgatou quando sua mãe a abandonou ainda criança na estrada Jellicoe. Com Hannah longe, Taylor se volta a um manuscrito que conta a história de cinco crianças que viveram em Jellicoe vinte anos atrás, na esperança de que ele forneça respostas sobre o seu passado.

“Na Estrada Jellicoe” é um livro confuso a princípio. Somos jogados em meio ao início das guerras territoriais sem saber como elas começaram ou o que significam as regras sob as quais que os jovens vivem. Também não estamos familiarizados com a divisão de casas que há na escola ou com os costumes dos cadetes e dos citadinos. São milhares de informações com as quais Taylor – que narra a história em primeira pessoa – está habituada e por isso não perde tempo explicando-as para o leitor. Mas basta ler com atenção para que logo as coisas comecem a fazer sentido.

Em paralelo à narrativa de Taylor, acompanhamos o manuscrito deixado por Hannah. Assim como a protagonista, lemos os capítulos fora de ordem e não sabemos como aquilo se conecta com a sua vida, tendo apenas a certeza de que aquelas crianças de fato existiram e que a história não se trata de ficção. As peças todas só se encaixam conforme nos aproximamos do final.

Acho interessante que a autora tenha optado por deixar o leitor um tanto perdido nas primeiras dezenas de páginas porque essa é uma história de personagens que se sentem perdidos em suas próprias vidas por também não terem respostas. Taylor não sabe sobre seu pai, sobre os motivos que levaram sua mãe a abandoná-la, os motivos de Hannah para resgatá-la e a razão de terem um relacionamento tão delicado. A personagem vive de acordo com as regras, mas parece que sempre lhe falta uma razão porque ela tem um vazio dentro dela.

E Taylor não é a única a se sentir assim. Hannah claramente carrega seus segredos, assim como Jonah Griggs – o cadete com quem Taylor fugiu há alguns anos e de quem guarda uma mágoa. São todos personagens que, no geral, fazem o que tem que ser feito, mas parecem incapazes de serem felizes pois têm uma bagagem que eles mesmos não compreendem. Analisando assim, pode parecer que “Na Estrada Jellicoe” é um livro triste, mas eu diria que está mais para melancólico.

Gosto quando me deparo com histórias em que as camadas dos personagens se revelam aos poucos, mas, apesar de conter isso, “Na Estrada Jellicoe” me decepcionou. Conforme as peças foram se encaixando, fui ficando com a sensação de que a trama do livro foi criada justamente para ser isso: a trama de um livro. Me pareceu que os segredos existiam para os personagens apenas para que existissem também para o leitor e não porque aquelas coisas precisavam ser mantidas em segredo. A meu ver, as decisões dos personagens não se justificaram por eles mesmos e sim como pretextos para moldar o livro. Foi por isso que, após preencher todas as lacunas, não fiquei com a sensação de “agora tudo faz sentido!”, mas sim com a de que a trama só ganhou forma para provocar determinados efeitos.

É uma pena porque os personagens carregam uma bagagem interessante, mas para mim parece que a intenção de Marchetta era emocionar e para fazer isso a autora cercou sua história de uma áurea de fábula que fez com que ela perdesse a verossimilhança e, consequentemente, o impacto que poderia ter sobre o leitor. Sim, “Na Estrada Jellicoe” fala sobre amizade, família, amor e os laços que unem as pessoas e poderia ter funcionado muito bem se não fossem algumas das artimanhas da autora. Esse foi o pecado de Marchetta: deixar que, depois de atadas as pontas, seu leitor pudesse perceber que elas só estavam soltas porque eram artimanhas desde o início.

Título: Na Estrada Jellicoe (exemplar cedido pela editora)
Autora: Melina Marchetta
N° de páginas: 293
Editora: Seguinte

15 comentários:

Luiza Helena Vieira disse...

Oi, Mari!
Esse livro me pareceu confuso desde que li a sinopse... Por agora, não sei se leria...
Beijos
Balaio de Babados

monique larentis disse...

Que pena que a história te decepcionou, a capa é linda e com certeza a ideia do livro também muito legal, mas não conseguiram construir direito a história :/

www.vivendosentimentos.com.br

Larissa Maciel disse...

Ola! Achei estranho e confuso, a sinopse fala um coisa e chega na sua resenha, as coisas pelo menos para mim, não se conectaram com o que se fala na sinopse. Esta parte de ser narrado pelo garoto e pela carta da garota foi algo que me agradou, mas não pretendo ler este livro, por causa da premissa. Resenha ficou ótima e obrigada pela sinceridade.

Beijão da Lari!
Brilliant Diamond | Fan Page

Devaneios de uma Cindy disse...

Oii Mari,

Acho a capa desse livro linda! Sua resenha me deixou curiosa, ficarei atenta hás alguns pontos que você destacou. Fiquei com medo dessas pontas soltas e vou bem preparada quando realizar a leitura.

Beijos!

Cintia
http://devaneiosdeumacindy.blogspot.com.br/

Jessica Andrade disse...

Oi Mari,
Desde que esse livro saiu fiquei curiosa em relação a história, mas confesso que no momento eu não pegaria ele para uma leitura. Mas não descarto o livro.
Bjs e uma ótima noite!
Diário dos Livros
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Ariane Reis. disse...

Oie Mari =)

Desde que soube o lançamento desse livro fiquei super curiosa para conhecer a sua história. Mas conforme as primeiras resenhas foram saindo, minha curiosidade foi ficando menor. Assim como você gosto quando o autor desenvolve a narrativa em camadas nos fazendo mergulhar na história dos personagens.

Porém a sensação que tenho a cada resenha que leio é que aqui você nada, nada e não chega a lugar nenhum. O que é realmente uma pena. Ainda pretendo dar uma chance ao livro para tirar minha próprias conclusões, mas vou começar a leitura sem tantas expectativas.

Beijos;***

Ane Reis.
mydearlibrary | Livros, divagações e outras histórias...
@mydearlibrary

Gabriela CZ disse...

Tinha visto a capa desse livro e apesar de ter achado bonita não conferi a sinopse. Analisado agora, Mari, a premissa é interessante mas seus comentários me deixaram dividida. Entendo o que te decepcionou e creio que me frustraria também. Mas ainda fico curiosa. Talvez lesse, não sei. Enfim, ótima resenha.

Beijos!

Fabulônica disse...

Sua resenha me deixou super curiosa, mesmo :)
A capa é bem criativa e a sinopse é bem confusa. Já havia me deparado com ele e ficado com vontade de ler, mas agora estou mais.
Abraços,
Juliana.
http://www.fabulonica.com/

Michele Lima disse...

Oi Mari!!

Não li o livro, mas lendo a sua resenha parece ser um história muito bem construída, bem interessante e inteligente!

Bjs, Mi

O que tem na nossa estante

Paloma Viricio disse...

Eu adorei a capa...quando fui lendo estava me interessando. Até você falar que se decepcionou. É ruim quando tudo cai no óbvio , né?
Uma pena...
Beijos,
Monólogo de Julieta

Desbravador de Mundos disse...

Olá, tudo bem?
Apesar da capa ter me chamado a atenção, acredito que não leria a obra. O motivo é simples: a aparente falta de verossimilhança. Detesto quando os segredos dos personagens parecem ser moldados simplesmente para fazerem sentido dentro de um texto. Isso faz com que o livro perca a chance de parecer verdadeiro.
Como sempre, boa resenha.

Desbravador de Mundos - Participe do top comentarista de junho. Serão quatro livros e dois vencedores!

Cabine de Leitura disse...

Olá Mari;
Me senti frustrada com o final da resenha, é chato quando lemos e temos a impressão de que o autor subestimou nossa inteligência rsrs
Agora tenho que parabenizar a editora pela arte de capa, ficou linda.


Beijos da Camila.
http://cabinedeleitura1.blogspot.com.br/

Carolina Garcia disse...

Oi, Mari!!

Que pena que foi uma decepção para você! Odeio quando isso acontece. =/
Mas a história até me pareceu muito boa também.

Sempre temos alguns livros que nos tocam mais que outros. Faz parte!
Espero que o próximo seja melhor. :)

Bjs

http://livrosontemhojeesempre.blogspot.com.br

Ana I. J. Mercury disse...

Não curti muito a premissa do livro, achei meio enrolado, e não é bem sobre temas que gosto.
Mas que bom que você gostou, eu sempre me perco em livros que os personagens têm várias facetas e tal kkkkk
bjs

suzana cariri disse...

Oi!
Não sabia muito o que esperar da historia desse livro mas ele me surpreendeu, achei a historia interessante parece que no começo do livro fica muitos duvidas para o leitor, mas uma pega que o livro não tenha alcançado as expectativas !!

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