terça-feira, 19 de março de 2013

RESENHA: Uma Questão de Confiança

“Porém, no silêncio da noite, sei que não está certo. Nossa amizade não é uma escolha, mas uma carência. A estrangeira americana em Londres e a mãe solitária: empatadas. Está errado apoiar-se tanto nela sem ser sincera sobre quem sou de fato, deixando que a verdade fique escondida em algum canto escuro, como um espírito maligno, à espera.” (MILLAR, p. 79, 2013)

Em um subúrbio de Londres, Callie é uma mãe solitária. As mulheres da vizinhança nem a cumprimentam ao passar por ela na rua. Sua filha, Rae, tem poucos amigos e nunca é convidada para brincar na casa dos colegas porque as mães da escola parecem desprezar Callie. Mas Callie tem Suzy. A rica e linda Suzy, mãe de três filhos, que está sempre disponível para ajudá-la com Rae e programar dias relaxantes no SPA. Mas a amizade entre as duas tem estado tensa e Callie não tem outra pessoa em quem confiar agora que teve a oportunidade de retomar seu antigo emprego. Para complicar ainda mais a vida de Callie, um casal se muda para a casa da frente e a nova vizinha parece ser uma mulher com quem se deve ter cuidado. Ainda mais porque ela não é só a vizinha da frente, mas também professora na escola de Rae.

Narrado a partir de três pontos de vista - o de Callie, o de Suzy e o de Debs (a nova vizinha) - “Uma Questão de Confiança” mostra os medos e anseios de cada uma dessas mulheres e deixa o leitor desconfiado de cada uma delas desde o início, como se mesmo as conhecendo não as conhecêssemos. Uma escolha perfeita para uma história que aborda justamente esse tema: Você conhece realmente as pessoas com quem convive? Você pode confiar nelas?

A narrativa da autora tem pontos fortes e fracos. Embora seja ágil e você leia quase sem perceber, é recheada de coisas sem importância e soa um tanto mecânica. Enquanto as perspectivas de Suzy e Debs são narradas em terceira pessoa, a de Callie é narrada em primeira e é aí que a autora comete seu grande deslize, pois não consegue transitar bem entre uma e outra, fazendo com que as vozes das personagens soem absolutamente iguais. Correndo o risco de ser chamada de chata, eu acredito que boas narrações em primeira pessoa precisam ser únicas e devem deixar transparecer o personagem narrador em cada linha, cada comentário, cada observação, porque caso o contrário não há necessidade de ser em primeira pessoa. Basta ser sob a perspectiva desse personagem. Ter os verbos conjugados na primeira pessoa do singular é apenas um dos requisitos para a narrativa em primeira pessoa, mas para que ela transmita veracidade é preciso muito mais. Acho que a autora fez uma boa escolha ao contar a história sob três pontos de vista diferentes, mas infelizmente não conseguiu fazer o recurso render tanto quanto poderia.

Apesar dos pesares, Louise Millar cria um bom suspense. A história das três mulheres é envolvente tanto pelo que está acontecendo no presente, como pelos segredos que elas guardam sobre acontecimentos passados. Sabemos que Debs tem algum problema, que existem coisas mal explicadas na vida – e no casamento - de Suzy, e sabemos também que um relacionamento baseado em tamanha carência como o de Suzy e Callie eventualmente terá algum tipo de consequência negativa. Com todos esses elementos em jogo, a autora manipula o leitor muito bem, criando um suspense lento que reserva boas surpresas para as páginas finais.

“Uma Questão de Confiança” é um suspense psicológico cuja tensão é crescente a cada página, mas ainda assim de forma leve. Embora não tenha me convencido em alguns aspectos, não posso dizer que não me agradou. A história conseguiu me surpreender e rendeu uma leitura rápida e prazerosa.


Título: Uma Questão de Confiança
Autora: Louise Millar
Nº de páginas: 382
Editora: Novo Conceito

12 comentários:

Eduarda Menezes disse...

Um Mari,
Estava com saudades de passar por aqui, adoro as resenhas de vocês!
Quero muito ler Uma questão de confiança, thrillers psicológicos muito me agradam.
Concordo com você em relação ao cuidado que um autor deve ter em transitar sob pontos de vistas, é uma pena que ela não tenha se saído muito bem nesse aspecto. De qualquer forma pretendo ler o livro sim, assim que possível, na verdade. Imagino que será um dos próximos, estou bem curiosa.
Beijão!

Aione Simões disse...

Oi Mari!
Uma pena que a narrativa em primeira pessoa da autora não tenha funcionado muito bem pra você, eu gostei bastante do livro como um todo, ainda que eu tenha me perguntado, em muitos momentos, o porquê de alguns assuntos serem abordados. Depois, eles fizeram sentido pra mim, então talvez tenha sido por isso que mesmo a narrativa em primeira pessoa tenha me agradado.
Mas concordo com você: o suspense é leve, mas presente, e o que me surpreendeu foi a habilidade da autora em manipular o leitor.
Beijão!

Ana Paula Barreto disse...

Como você bem disse, "apesar dos pesares", parece que vale a pena, mesmo com os problemas técnicos. Acho que a história é bastante interessante e é bem no estilo que gosto de ler.
Pretendo dar uma chance ao livro.
bjs
GFC: Ana Paula Barreto

Manu Hitz disse...

Adoro suspenses, especialmente se me pegarem por um drama familiar e me deixar tensa, engolindo a leitura, rsrs... Adorei esta sinopse de cara e já estou desejando o livro. Mas agora começo a pesar se realmente vai me encantar, pelos 'pecados' cometidos pela autora e que vc citou muito bem e com verdade.
Que mistério será esse?

GFC: Manu Hitz

Manuela Cerqueira disse...

Antes eu não gostava de narrativas na primeira pessoa, mas agora depende da história para eu gostar ou não...srsrs
Fiquei só com um tiquinho de vontade de ler o livro porque gosto de livros com suspense e acho que ficaria curiosa para saber o que teve no passado das três personagens.
GFC: Manuela Cerqueira

cristiane disse...

Gostei desse livro pelo jeito dele, o gênero e esse suspense leve, é gosto ler livros assim. Pelo menos eu acho. A história desse tem tudo pra ser boa pra mim.

cristiane dornelas

Gladys Sena disse...

Já li outras resenhas desse livro, algumas positivas outras nem tanto, mas continuo com interesse em lê-lo.

Gosto de tramas familiares, ;)

GFC: Gladys.

Gislaine Alves disse...

Oi, Mari.
Eu não tinha lido nem resenhas nem a sinopse desse livro, então imaginava que era algum chick lit (mesmo com essa capa. Entenda meu ponto de vista: a NC SEMPRE erra nas capas u_u)
Como gosto de tramas familiares, fiquei bem interessada por esse livro xD

Gislaine,
http://jeito-inedito.blogspot.com

cath´s m. disse...

Eu fiquei querendo saber o final Mari, mas me desanimou você falar do primeira pessoa, que não foi bem estruturado e tals, me deixo com a impressão de ser chato por isso. Não quer me contar o final não? rsrs...

cath´s_m

Clara Beatriz disse...

Quero muito ler este livro. Estou bem curiosa para saber mais sobre está história. Espero ter a oportunidade de ler o livro, tenho certeza que vou gostar deste livro.

Andreza Galvão disse...

Todas as resenhas que já li dizem meio que a mesma coisa: que o suspense é bem estruturado, apesar de algumas falhinhas. Este é um livro que também desejo ler!

GFC: Andreza Galvão

Nardonio disse...

Jamais imaginei que esse livro era um suspense psicológico. Imaginei um daqueles dramas bem chatinhos. Fiquei bem surpreso agora. Uma coisa que achei interessante foi essa criação das personagens mostrando que ninguém é 100% bom, nem 100% ruim.

Seguidor: DomDom Almeida
@_Dom_Dom

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