segunda-feira, 8 de setembro de 2014

RESENHA: A Família Corleone

“ - Então vocês estão no ramo errado – devolveu Luca - Muita gente morre nesse ramo (...) Você não deve se preocupar em morrer, Hooks. Os outros é que têm que se preocupar. Entendeu?” (FALCO, 2014, pag. 126)

Sou muito desconfiada de livros que ressuscitam personagens criados por outros autores. Isso porque acredito que não basta o personagem protagonizar a história para que seja uma história dele. É preciso a ambientação, a narrativa e uma série de outros fatores que custo a acreditar podem ser colocados juntos de maneira familiar o suficiente sem soar como cópia ou original de forma que não se perca o universo já conhecido. Prova disso, é que não me empolgo em ler nem a nova aventura de Philip Marlowe, ressuscitado por Benjamin Black, já que não confio em ninguém que não Raymond Chandler para conduzir esse que é um dos meus personagens favoritos.

Dito isso, ler “A Família Corleone”, livro que serve como preaquel para a trilogia “O Poderoso Chefão”, escrito não por Mario Puzo, mas sim por Ed Falco (baseado em roteiro de Puzo) iria contra todos os meus instintos se não fosse por dois fatores: o primeiro, e principal, deles ter lido um único livro de Puzo e me decepcionado tanto a ponto de perder a vontade de ler a trilogia Chefão com medo de não gostar do que estaria vivenciado com os personagens que conhecia dos filmes. O segundo, minha curiosidade conseguiu ser maior que minha desconfiança (provavelmente porque, como sabemos, as propostas dos Corleone tendem a ser irrecusáveis).

Com a aproximação do fim da Lei Seca, as famílias ligadas à Máfia dão início a uma guerra pelas ruas de Nova York. É o momento para Vito Corleone pensar no futuro de sua família, evitar derramamento desnecessário de sangue e tentar se distanciar das atividades criminosas. Porém, muitos fatores estão fora do seu controle, entre eles seu impulsivo filho mais velho Sonny que faz questão de seguir os passos do pai.

Ler “A Família Corleone” é como assistir cenas excluídas da trilogia de Francis Ford Coppola. E quando digo assistir quero dizer enxergar mesmo, já que a narrativa ganha vida e é possível visualizar as cenas se desenrolando. Em alguns momentos, eu era capaz de ouvir Don Vito falando pela voz de Marlon Brando e até reconhecer os trejeitos de Sonny por breves descrições.

Os eventos retratados são uma ponte entre os flashbacks de “O Poderoso Chefão II” (juventude de Vito Corleone) e o início de “O Poderoso Chefão I” e nos permitem ver outras fases das vidas de personagens que conhecemos. Os destaquem ficam para Sonny Corleone, que aos 17 anos já mostrava todo o seu temperamento explosivo, e Luca Brasi, deixando claro o porquê de sua reputação. Embora não desempenhem papel fundamental nos eventos de “A Família Corleone” por serem apenas crianças, Michael e Fredo também merecem destaque já que as personalidades que veremos neles como homens estão perfeitamente delineadas no livro mesmo na infância. Vito Corleone, é claro, brilha como Don, como pai, como marido. Como estrategista e como criminoso. Como homem de bem em meio ao mal.

Mesmo composto por capítulos longos (o que para mim tende a ser cansativo) o livro é envolvente e a leitura empolgante. O suspense se faz presente em cada página e, de quando em quando culmina em excelentes cenas de ação. A luta pelo poder, a lealdade e a traição são o cerne dessa história em que atos de violência são tão normais como respirar.

Como disse no início, acredito que não basta os Corleone estarem na história para que essa seja uma história dos Corleone. De mesma forma, de nada valeriam as cenas previstas no roteiro de Puzo se Falco não fosse hábil em recriar o universo da família, coisa que faz muito bem. É por ser a união dos eventos, com a ambientação que nos remete às outras situações em já vimos os personagens, suas personalidades bem delineadas e ter uma deliciosa atenção a detalhes, que o livro funciona. As laranjas, os cannoli de Clemenza (“Leave the body, take the cannoli”), o gato de Don Vito são alguns dos detalhes a que me refiro. Nada essencial para a história, mas muito para a leitura.

Embora ressalte o quanto o livro remete ao filme, acredito que a leitura tenha todos os motivos para agradar mesmo aqueles que não assistiram a versão cinematográfica da saga, pois a história se sustenta muito bem por conta própria.

Ler “A Família Corleone” é como reencontrar velhos amigos. É preencher as lacunas da vida de personagens cujo destino já conhecemos, sabendo das consequências de seus atos antes mesmo que eles saibam. É a rara oportunidade de fazer uma leitura pela primeira vez, ver cenas inéditas e diálogos nunca antes proferidos, mas sem a urgência de saber o que vai acontecer. De certa forma, já sabemos. Sabemos bem adiante. Por isso lemos cada página com a sensação que chegar ao fim do livro não é chegar ao fim da história. É só o fim do começo.

Título: A Família Corleone (exemplar cedido pela editora)
Autor: Ed Falco (baseado em roteiro de Mario Puzo)
Nº de páginas: 419
Editora: Record

16 comentários:

nathalia muller disse...

não é o genero de leitura que gosto...
mas sua resenha me deixou curiosa...
quem sabe no futuro eu leia esse livro...

Tamires Fernanda disse...

Oi Mari, eu não sabia que esse livro tinha ligação com o Poderoso Chefão, me recomendaram ele mas eu não sabia o que exatamente ele se tratava, mas agora eu sei...

Abçs :)

Tauane Fonseca disse...

Parabéns pela resenha, nunca tinha escutado falar desse livro, e parabéns pelo blog também!!
Estou apaixonadíssima!
Seguindo. Grande beijo!

Gabriela Cerutti Zimmermann disse...

Estava com bastante dúvida sobre esse livro, Mari. Pois assim como você desconfio de seguimentos e prequels escritos por outros autores. Não fui feliz com Eoin Colfer encerrando a série O Guia do Mochileiro das Galáxias nem com Mark Winegardner por trás de dois livros do Poderoso Chefão. Mas por esse ser baseado em um roteiro de Puzo foi impossível não ficar com uma pontinha de curiosidade. Então fico super ansiosa com seus comentários de que Falco soube respeitar as características originais. Ótima resenha.

E pode ler O Poderoso Chefão sem medo, Mari. O original de Puzo, não as sequências de Winegardner. É tão bom quanto o filme. :)

Abraço!
http://constantesevariaveis.blogspot.com.br/

Gladys Sena disse...

Também desconfio de continuações ou releituras. Normalmente faço comparações com o original e acabo me decepcionando.
Nunca assisti a todos os filmes do poderoso chefão, mas até que fiquei curiosa agora para assisti-los e conferir, também, está obra.

Vitória Pantielly disse...

Oii Mari! Tudo bem ?
Ah, nunca li O poderoso chefão, e fico na dúvida se iria gostar !
Não gostei de absolutamente nada em A família Corleone, nem da capa,
nem dos personagens, e nem do enredo ! E olha que adoro uma máfia eim, rsrs !
Gosto de suspenses também, mas daqueles que se desenrolam facilmente, não
histórias que tendem a ser longas ! Enfim, o livro não me agradou !
Mas a resenha ficou muito boa, acho que dá pra ter uma idéia bem legal
do que se trata a história..
Beijoos :*

Milena Soares disse...

Gostei muito dos filmes "O Poderoso Chefão", esse livro parece ser ótimo, fiquei bastante interessada em conferi A Família Corleone.

RUDYNALVA disse...

Mari!
Para quem tinha receio de ler Puzzo você tornou sua resenha uma ode ao Poderoso Chefão...achei o máximo.
Na verdade aprecio muito a história por dois motivos: acho Don um mafioso decente (se é ue podemos qualificá-lo assim...) e porque minha descendência é Siciliana e a curiosidade pelos fatos ocorridos por lá sempre me atraem.
Mesmo remetendo ao filme, a leitura é sempre mais criativa, assim acho.
Semaninha de luz e paz!
Cheirinhos
Rudy

Iêda Cavalcante disse...

Oiee.
Humm não gostei não, acho que ficaria entediada se fosse ler esse livro, ele foge totalmente dos tipos de livros que costumo ler e não estou a fim (ao menos por enquanto) de sair da minha zona de conforto. Então não o lerei, mas amei a capa *-*

Maria Trindade disse...

eu "peguei emprestado" esse livro do meu irmão pra ler so que nunca devolvi eu comecei a ler e abandonei não faz me gênero de leitura.

Natasha disse...

Eu acho que O poderoso chefão é um clássico e como vc msm disse fico meio desconfiada quando resolvem tentar usar os mesmos personagens, mas acredito que pela sua opinião parece ser um livro que vale a pena dar uma chance. Eu particularmente gosto dos livros e dos filmes ( claro que tem aquela emoção maior no filme) mas acredito que irei ler esse livro também!

Nardonio disse...

Ainda bem que você deixou essas desconfianças de lado e se jogou nessa leitura. Apesar de gostar de releituras e/ou adaptações, fico com um pé atrás, pois, assim como você, acho que ninguém, mais do que o próprio autor, está apto a escrever algo das suas "crias". Que bom que nesse caso o tiro foi bem certeiro. Apesar de ser um clássico, nunca li, nem assisti "O Poderoso Chefão", mas pretendo em breve.

Seguidor: DomDom Almeida
@_Dom_Dom

Fabi disse...

Nunca li nada a respeito da Familia Corleone e nem do Poderosa Chefao.Acho interessante historias que envolvem a mafia,intrigas familiares e lutas pelo poder.Me interessei pelo livro e pretendo le-lo assim que tiver tempo.

camila rosa disse...

Oi, tudo bem?
Eu ainda não conhecia esse livro, ele parece ser legal, ainda não tinha ouvido falar da família Corleone, achei o livro bem interessante, e pretendo pesquisar um pouco mais sobre ele, para poder ler.
Beijos *-*

Loly Fonseca disse...

Ainda não li nem assisti algo relacionado ao Poderoso Chefão... Em partes por nunca ter me intrigado, e em outras por falta de tempo mesmo, mas depois que li a resenha posso dizer que fiquei curiosa pra ler esse livro e para assistir aos filmes... Muito boa resenha!

Ana Paula disse...

quero ler com certeza! adoro esse genero de leitura, me interessei bastante pela resenha <3

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